sábado, 7 de março de 2009

Quem quer ser um otário?

Um jovem indiano chamado Jamal foi selecionado para a versão do Show do Milhão de seu país e está prestes a ganhar o prêmio máximo da atração. Por ser um pobre servidor de chá em uma empresa de telemarketing, a suspeita de fraude é muito consistente. Para provar que não é seu caso, o garoto começa a explicar o motivo de saber todas as respostas e a edição traça um paralelo entre o jogo e sua vida. Em meio a isso tudo, claro, uma história de amor. Assim eu resumiria “Quem Quer Ser Um Milionário?”, filme de Danny Boyle que ganhou o grande prêmio do último Oscar.

Praticamente toda a produção do longa-metragem é originária de bollywood, a indústria cinematográfica da Índia, que produz mais filme que qualquer outra no mundo. Naturalmente, muito da cultura do lugar é passado para as telas. Todo o terceiromundismo referente a favelas, lixo, pobreza, prostituição e exploração de menores estão lá. Claro que tudo ficaria bem mais chocante se não vivêssemos no Brasil, onde metade do país não tem saneamento básico, mas essa é outra história. Aliás, Boyle flertou bastante com Fernando Meirelles nessas cenas – inclusive, se você achava que ninguém bateria o recorde de takes de favelados sendo seguidos pela polícia depois de “Cidade de Deus”, não perde por esperar. Existem tantos aqui que eu perdi não só a conta, mas também a excitação deles.

A história é boa. Existe um desejo comum em grande parte da humanidade, que é o sonho de uma vida melhor ao lado de um amor. Aqui, Jamal busca um e encontra o outro e as pessoas ao meu redor torciam pelo herói e choravam nas cenas finais. Não me tocou, mas eu compreendo o efeito que o filme tem. Muitos vão discordar, mas o Oscar ter ido para “Quem Quer Ser um Milionário?” foi apenas político. Os filmes de bollywood são os líderes de bilheteria absolutos na Índia e, como eu disse, por lá se fazem filmes demais. Não dava para ignorar aquele mercado para sempre.

Trata-se, portanto, de mais um daqueles prêmios de consolo do Oscar, para mostrar que a Academia não é mais tão conservadora e evitar que a premiação seja apontada como equivocada no futuro - como aconteceu, para ter um exemplo recente, em 2003, quando Halle Barry se tornou a primeira negra a levar a estatueta com "A Última Ceia", mais que merecido. Mas aí rolou a gracinha de premiar dois negros e escolheu-se Denzel Washington por "Dia de Treinamento" e não Russel Crowe por "Uma Mente Brilhante". One step too far...

Entretanto, há um acerto real no Oscar de canção original. A batucada indiana que rola nas cenas mais tensas realmente é boa e dá um clima interessantíssimo ao que vemos.

“Quem Quer Ser Um Milionário?” tem todos os elementos que um filme bom precisa ter, mas ele não é tão bom assim. Não há absolutamente nada inédito no enredo cru, na base da história, exceto o fato de que ela se passa na Índia. Cheio de erros de continuidade, eu aposto que, como aconteceu com “Titanic”, daqui três anos todo mundo vai falar que detesta o longa.

Os créditos aparecem, dou um suspiro e me pergunto se eu gostei do que assisti. Gostei. Mas é que eu já vi esse filme antes. Toda a teoria culturológica está lá. Projeção, identificação, acontecimentos romanescos e, claro, o happy ending. Bocejos...

terça-feira, 3 de março de 2009

Os 11 anos de Ray of Light

O álbum “Ray of Light” comemora mais um ano de vida hoje e já é mocinha, soprando 11 velinhas. E não acho que é necessário dizer como eu gosto dele, afinal, um elemento da capa está tatuado no meu ombro. Mas acontece que este ainda é meu CD favorito de Madonna.

Lançado em 1998, Madonna, logo ela, vai na contramão do pop chiclete de boybands e cantoras teens da época e aposta em uma sonoridade completamente diferente e canções com temas delicados. A pegada eletrônica transformava qualquer barulinho em ritmo e formava camadas que cobriam bases acústicas formando boas músicas que iam do mid-tempo ao dance.

Com a voz trabalhada depois do musical “Evita”, a cantora alcança notas mais altas e se mostra muita mais versátil, entoando mantras e apresentando músicas que tinham tanto gritos quanto cochichos. Madonna tinha dado à luz sua primeira filha e para recuperar a forma começou a fazer yoga. Cheia de perguntas sobre o universo – afinal, ter um filho é explicar para ele o sentido da vida e isso não é algo fácil de fazer se nem você o entende – ela começou seus estudos de Cabala. E está tudo lá, nas letras dessas músicas que para mim, em resumo, conceituavam o que era maturidade.

Madonna se revela solitária na faixa de abertura, “Drowned World”, e medrosa em “Mer Girl”, última canção do disco que é, na verdade, um poema sobre a morte de sua mãe, simplesmente recitado. Fala sobre orgasmos em “Candy Perfume Girl”. Reflete sobre violência e otimismo em faixas como “Swim” e “Sky Fits Heaven”. Já em canções como "Skin", "To Have and Not to Hold" e "The Power of Good Bye" fala sobre relacionamentos e perdas - e as duas últimas apresentam melodias que lembram Astrud Gilberto. Fala da maternidade em “Little Star”, claro, e ainda canta na língua sagrada da Índia, o sânscrito, na faixa “Shanti/Ashtangi”.

Ela teve a manha de escolher William Orbit e Patrick Leonard como produtores. Dois caras incrivelmente criativos e com propriedade para o que ela queria. O primeiro na experimentação eletrônica e o segundo nas letras (ele também escreveu “Like a Prayer”, por exemplo).

Na época que o álbum alcançou minhas mãos (ou seria o contrário?) eu estava em uma fase muito peculiar. Eu já tinha começado a ler sobre Cabala, mas era um CD muito cheio de poesias e extremamente tocante – especialmente se ouvido com fones – e vi como era necessário ir mais fundo. Comecei a fazer yoga e análise e, tendo “Ray of Light” como marco inicial, minha vida mudou completamente. Ninguém pode medir isso.

Com a incrível marca das 15 milhões de cópias vendidas e 4 Grammys, o álbum teve bons clipes, com destaque para o melancólico "Frozen", o agitado “Ray of Light” e o artístico “Nothing Really Matters”, com uma releitura das duas personagens principais do livro “Memórias de uma Gueixa”, de Arthur Golden.

E é por isso tudo que ele continua sendo meu favorito.

Ah, o desenho da capa é o símbolo de uma árvore. Trata-se de um ícone de equilíbrio entre o mundo espiritual (galhos) e o material (raízes).

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

O feito de "Milk"

Sempre que saio do cinema depois de ver um filme bom, tenho uma sensação de que minha vida é outra. Me sinto mais leve e tenho a impressão de que ela vai mudar. Não foi diferente com “Milk – A Voz da Igualdade”, que assisti ontem.

Para quem não sabe, o filme traz Sean Penn no papel que lhe deu o Oscar deste ano. Ele interpreta o político Harvey Milk, um pioneiro dos direitos homossexuais nos Estados Unidos. Contando um pouco de sua vida pessoal, o filme aborda, principalmente, sua contribuição contra a aprovação de uma proposta que pretendia impedir o trabalho de professores gays. Ele foi membro do Conselho de Supervisores da cidade de São Francisco. Na Flórida, a cantora cristã Anita Bryant liderou com sucesso uma campanha para derrubar uma lei que proibia a discriminação contra os homossexuais e o filme fala sobre isso também.

O longa é de Gus Van Sant, abertamente gay, notável diretor de “Gênio Indomável”, “Paranoid Park” e “Elefante”. Ao contrário de muitos filmes com personagens reais, o trabalho não virou uma cinebiografia enfadonha. A atuação de Sean Penn é excelente e, ao misturar cenas do longa com cenas reais da época, o trabalho tem um ar bem realístico e a gente tem a sensação de estar vendo um documentário. Mas, claro, muitos críticos torceram o nariz dizendo que o filme tinha virado mais uma homenagem a Milk – como se isso fosse menos nobre.

Que seja, então. Ela acontece em um momento delicado para a comunidade homossexual da Califórnia, particularmente de São Francisco, cidade de Milk. Ela está abalada com a aprovação popular da proposta 8, que inclui uma emenda na Constituição Estadual que proíbe o casamento entre pessoas do mesmo sexo – o que havia sido autorizado pela Suprema Corte local em maio de 2008. Foi a primeira vez que a Constituição dos Estados Unidos fez uma interferência para retirar um direito civil.

É interessante ver também como política e homossexualismo mantém uma relação – mesmo que dentro do armário e mesmo que muitos neguem. Nos anos 50, no discurso do senador McCarthy a caça às bruxas comunistas, por exemplo. Uma carta do secretário nacional do Partido Republicano dizia: “Talvez tão perigosos quanto os comunistas propriamente ditos, são os pervertidos escusos que infiltraram nosso governo nos últimos anos”. Absurdo? Nada. O braço direito de McCarthy, Roy Cohn, odiou gays a vida inteira (e morreu de Aids escondendo sua homossexualidade). Na época, a revista “Time” defendeu o projeto de despedir os gays que trabalhassem para o governo federal. A mesma revista que selecionou Milk como uma das cem pessoas mais influentes do século XX depois.

Mas o que mais me assustou no filme foi perceber que aquilo tudo se passou nos anos 70 e o mundo ainda está assim. É certo que houve progresso, mas há tantas Anitas Bryants por aí ainda. Todo casal que está junto e se gosta troca beijos na boca, certo? O que acontece é que gays podem ter direito de benefícios de seguro de vida, casar, ter filhos e o escambau, mas enquanto dar um beijo no seu namorado em público for um ato político, existe algo errado com o redor.

Não quero cair num concurso de vitimização, mas é imensa e ironicamente estúpido termos que ter um gay no poder para assegurar os direitos homossexuais, não? É como diz a famosa frase de Martin Niemöller: "Quando os nazistas levaram os comunistas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era comunista. Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque, afinal, eu não era judeu. Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse".

Tudo bem, grupos particulares (constituídos por raça, etnia, orientação sexual, etc) devem militar pelos seus direitos. Mas o local é o global e defender os interesses de pessoas diferentes de você deveria ser algo corriqueiro. É muito incômodo ver que as pessoas seguem suas vidas olhando para seus umbigos, sem perceber que só é possível proteger a liberdade da gente se entendermos que, para isso, é necessário defender a liberdade de nosso vizinho como se fosse a nossa.

Se não há nenhuma lei sendo quebrada, a condição de liberdade de um é a de todos. Quanto tempo vão demorar para perceber isso? Sempre que saio do cinema depois de ver um filme bom, tenho uma sensação de que minha vida é outra. Saí de “Milk" de mãos dadas com meu namorado. O filme não respondeu a tal questão, mas me deu esperança. E, olha, como existe o risco real de sermos xingados ou apanharmos por estarmos andando na rua de mãos dadas, isso foi um feito.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Corrida do Oscar

Pois hoje é quarta, a entrega dos troféus da Academia é domingo e eu vi bem poucos filmes dos que foram indicados. Na verdade, antes da ficha cair, só tinha visto Wall-E e Batman. Vergonhoso, eu sei.

Mentira, não é vergonhoso. Tem edição do Oscar que os indicados são patéticos e sabemos como a premiação já cometeu injustiças absurdas no passado. Mas esta tem tudo para ser boa e eu não quero boiar muito.

Então o que eu fiz? Aproveitei que minha faculdade está em greve e decidi ir ao cinema todo dia. Quero chegar domingo tendo visto os grandes indicados. Bom, todos que eu conseguir, já que eu sou um garoto de 21 anos que ainda vê filmes da maneira tradicional e não tem HDs externos recheados de filmes e séries que baixou pelo torrent.

Até agora? “Wall-E” (animação, canção original, roteiro, edição de som, mixagem), “Batman" (ator coadjuvante para Heath Ledger, direção de arte, maquiagem, edição de som, mixagem), “O Curioso Caso de Benjamin Button” (filme, ator para Brad Pitt, atriz coadjuvante para Taraji P. Henson, diretor, roteiro adaptado, direção de arte, maquiagem, figurino, mixagem), “A Troca” (melhor atriz para Angelina Jolie, direção de arte), “Vicky Cristina Barcelona” (atriz coadjuvante para Penélope Cruz) e “O Leitor” (filme, melhor atriz para Kate Winslet, diretor, roteiro adaptado).

Amanha eu vejo “Foi Apenas Um Sonho” e sábado eu vejo “Milk” e “O Lutador”. E ta de bom tamanho, não?

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Os jornalistas não querem dominar o mundo

Não sei porque as pessoas adoram falar mal de jornalismo. E a moda pega! Qualquer dia vai virar modalidade esportiva. Lá vem os acadêmicos com todos aqueles paradigmas velhos para falar que o jornalista mau (esfrega as mãos e aperta os olhinhos) vai colocar uma informação na sua cabeça e ela vai ficar ali porque você, espectador, é uma massa amorfa e passiva que engole e só. Sim, ainda tem gente que acredita nisso. Será que o jornalista dá risada maligna depois disso também?

Ainda bem que existe, muito além dos jornalistas, o controle remoto, que permite que você mude o canal da tevê ou desligue o rádio, o computador ou o escambau. “Mas aí vc corta a comunicação”, diriam os acadêmicos. E eu digo “pelo menos você filtra o que você vai ou não receber”. E mesmo que você esteja amarrado na cadeira e não possa evitar a exposição ao que você não quer, respire aliviado, você tem personalidade, capacidade de interpretação e memória seletiva. A informação nunca chegaria a você como o malévolo profissional programou.

Parênteses: Alguém sabe quanto ganha um jornalista? Desde quando alguém com esse piso merreca é ameaça séria a alguém?

Poder é um conceito que não passa perto da maioria dessa turma. Poder é o garoto que vi passeando na rua com o cachorro, em dia útil e horário comercial, no Lourdes. Quando passei do lado dele senti aquele perfume que a gente sabe que foi fabricado e comprado em terras muito longe das nossas. Cheirinho de Europa. Moletom caríssimo, olhos verdes e tempo para ter qualidade de vida. Talvez ele domine o mundo. Nós, não.

* Manoella Oliveira.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Eu vi Alanis Morissette



Tudo bem, eu sei que Belo Horizonte não entrou para o eixo dos grandes shows e que a vinda de Alanis Morissette ao Brasil – especialmente à Belo Horizonte – tem mais a ver com lucrar o que o CD não conseguiu e, por consequência, estimular a venda de CDs. Afinal, depois da explosão do álbum “Jagged Little Pill” (1995), que superou as 30 milhões de cópias, a saída dos discos tem diminuído. Tudo absolutamente normal, a venda de todo mundo no mundo da música caiu com a internet e downloads e pirataria e tudo. Mas ela nunca parou de produzir e, apesar da crítica torcer o nariz para algumas coisas, ela nunca deixou de lado a melhor coisa de sua música. Aquele elemento sem nome que mistura particular e universal. E por isso eu nunca deixei de acompanhar Alanis, que está até tatuada no meu braço.

No show, pude ver que aquela suposta raiva do começo da carreira não existe mais. Depois de um momento tenso para colocar minha irmã para dentro do Chevrolet Hall (ela tem 14 anos e a censura era de 16), notei que ela era a pessoa mais nova ali. Afinal, Alanis deixou de ser a porta-voz de meninas em crise existencial pré-adolescente.

Como nas outras apresentações da turnê, a banda entra primeiro tocando a primeria parte de "The Couch", que é uma música complexa, cheia de palavras complicadas e sem refrão. Alanis canta, mas ainda não está no palco. Quando ela aparece começa “Uninvited”, uma bela canção que foi trilha do filme “Cidade dos Anjos”. Ela está vestida de preto e a platéia grita de uma forma ensurdecedora. Com razão! Os músicos são ótimos e, no instrumental final da música, Alanis balança a cabeça e roda pelo palco, praticamente em transe. Enquanto eu estava praticamente em estado de choque.

Depois começa “Versions Of violence” uma música sinistra do mais recente álbum de inéditas, chamado “Flavors Of Entanglement”. É uma música que ficou ainda mais pesada sem a camada eletrônica apresentada no disco e, assim, a platéia se sentiu ainda mais convidada a gritar bem alto.

Daqui, Alanis volta no tempo e vai direto para a faixa 1 do CD que lhe revelou. Ela toca gaita em “All I Really Want”, que ainda é uma das minhas favoritas. Eu pulo de mãos dadas com minha irmã e não lembro de ter gritado tão alto em nenhum outro show. Estamos num lugar ótimo. Deus abençoe Bruno, meu amigo que chegou mais cedo e pegou lugar na fila. Estamos um pouco mais à direita do palco, calculo que há uns cinco ou seis metros dele.

Chega a segunda parte de “The Couch” e é admirável a quantidade de gente que sabe a letra. Ela é tão complicada e antiga, que acho que a própria cantora se surpreendeu. A banda começa a contorcer o fundo e uma nova música aparece. Dá pra ver a interrogação no olhar das pessoas ao redor, até que “Not The Doctor” se revela. Eu sabia que ela estava na lista, mas é inegável que foi um bom presente. Ela foi cantanda poucas vezes em turnês e me senti feliz por ter ouvido ao vivo uma música tão importante para mim.

Aí começa “Not As We”, uma das músicas novas, também muito carregada emocionalmente. É uma balada tão triste, que dói. Nessa hora a baranga do meu lado subiu no ombro de um amigo para levantar uma faixa que dizia algo como “Alanis, posso te dar meu livro de poesia de presente?”. Não me importei com a grosseria do ato pois ele me permitiu chegar um pouco mais pra frente. Trata-se de uma música intíma e Alanis fez questão de não ver o cartaz. Bem feito.

Depois de tanta melancolia, que tal dançarmos um pouco? Começa a gostosa “Head Over Feet”, que tem uma letra das mais doces e simples. Trata-se de nada mais que uma declaração de amor. Clássico. Todo mundo canta junto. De volta à escuridão, chega a terceira e última parte de “The Couch”, que agora tem um tom um pouco mais animado que a versão original. Depois temos “Sympathetic Character”, que é uma das músicas que mais me tocaram no segundo álbum dela. É bem pesada e triste, e me permite gritar bastante.

Depois vem “Flinch”, que podia ter ficado de fora. É uma canção especial, mas é tão pesada quanto “Not As We” e ela devia ter escolhido uma das duas para o show e não ambas. Sem contar que ela é longa e, se estivesse fora, permitiria que outras duas entrassem. Enfim, a mulher já tá lá cantando, não é? Tratei de não pensar nisso e aproveitar a canção.

“Moratorium” começa. Caralho! Essa música faz muito sentido para mim neste momento da minha vida e, no palco, não havia uma camada eletrônica tão pesada quando a que o produtor Guy Sigsworth colocou no CD – ela já produziu Nelly Furtado, Björk e Madonna. Assim, a letra chama bem mais atenção e, enquanto ela faz refletir, também podemos dançar um pouco. Foi realmente inspiradora essa parte do show.

Lembro de ter virado para minha irmã e dito “Nossa, quando tocar 'You Oughta Know', neguinho vai morrer”. Eu fechei a boca e adivinha qual música começou? E sim, neguinho morreu. A galera pulava muito e gritava tanto que quase não dava pra ouvir Alanis. É a música definitiva e todos já passaram por uma traição – assunto que é abordado na faixa. Logo depois começa “Tapes”, mais calma, mas com uma temática parecida, auto-sabotagem. Linda performance de uma das minhas músicas favoritas do novo CD. Ela sai do palco e a produção arruma o espaço para a parte acústica do show.

E ela segue com o clássico “Hand In My Pocket”, que animou demais o pessoal. Alanis ficou sentada, mas essa canção tem praticamente uma coreografia: ela diz “hi-five” e a platéia faz um, ela diz “peace sign” e o mesmo acontece. Uma gracinha de música. Foi um show tão bom que estou sentindo esse texto ficar redundante.

Durante todo o show não existe muito efeito visual. O fundo do palco tem um desenho meio feio de uma grande árvore com galhos secos no pôr do sol, e Alanis, meio curvada, de perfil e com uma borboleta (ou flor?) acima da cabeça. Os telões do Chevrolet não foram ligados a pedido da produção da artista.

Ela segue o set acústico e dedica “Everything” para as pessoas sensíveis. No meio da canção vejo que minha irmã faz parte do grupo: Ela canta com a cabeça para cima e de olhos fechados, com as mãos no ar. A leve maquiagem está borrada de lágrimas. Ver aquilo me deu arrepios, achei muito lindo.

Vamos dançar de novo? Alanis já começa “So Pure” no ânimo da canção, que fala, basicamente sobre dançar. Não é bem um lado B, mas é considerada rara de se ver ao vivo. E, olha só, está no set da turnê que eu vi. Que beleza! Fim da canção, fim do show. Claro que ninguém da platéia se moveu.

Depois de sair do palco, ela volta com "You Learn", linda canção que contém a frase de minha próxima tatuagem. É, novamente, um grande momento. Impossível ficar melhor? Que nada. Mal termina e ela já segue com "Ironic". A platéia canta junto tão alto que ela desiste de cantar a primeira estrofe e estica o microfone, fazendo menção à platéia, que corresponde com a letra na ponta da língua. Abençoada seja a construtora ruim do Chevrolet Hall, que fez a arquibancada no lado direito do palco ser mais perto dele que a da esquerda. Assim, Alanis passou muito mais tempo deste lado – para minha alegria e para a do pessoal ao redor, claro.

Alanis se vai novamente. Ninguém mexe e ela volta para terminar o show agradecendo em forma de canção, com "Thank U", e dedica a música ao público (igual fez em Salvador). Depois, aparece uma luz no fundo onde lemos “thanks” e ela sai dali definitivamente. A banda é ovacionada e as luzes se acendem.

Meu corpo inteiro dói agora. Minha blusa está transparente de tanto que suei e eu faria tudo de novo. Aliás, se for pra mudar algo, daria um jeito de chegar ainda mais cedo.

Perfeito.

domingo, 25 de janeiro de 2009

- Oi, Eric Clapton

Sabe quando, sem nenhum motivo especial, alguém te presenteia com uma coletânea de um cantor que você não conhece direito? Aí você vai ouvindo e, aos poucos, conhecendo a obra completa e acaba gostando. Melhor foi o presente que ganhei de minha mãe: a autobiografia de Eric Clapton.

Antes do livro eu conhecia o que? Acho que nada além de “Layla” e de todas as participações dele em shows beneficentes ou em memória de alguém. E ler sobre o processo criativo e os bastidores de músicas que você não conhece é igualmente fascinante, talvez melhor do que se eu conhecesse. Depois eu vou lá, procuro uma canção ou um álbum e ele soa mais inédito ainda para mim.

Mas, apesar de Eric ser uma lenda viva da música, essa não foi a parte que mais me chamou atenção no livro.

Eu chorei de rir quando Clapton descreveu seu primeiro porre, que rolou em um evento de música: “Chegamos lá no sábado de manhã e planejávamos ficar até domingo à noite. Decidimos ir ao pub para almoçar antes de chegar ao festival. A última coisa que me lembro daquele dia é estar dançando em cima de uma das mesas com um cara que nunca tinha visto na vida. (...) Eu tinha ido com alguns amigos, com a intenção de acampar no bosque perto do festival e, quando dei por mim, estava acordando de manhã sozinho, no meio do nada. Não tinha dinheiro, tinha me cagado, tinha me mijado, tinha me vomitado todo e não tinha idéia de onde estava. (...) Fiquei imensamente desiludido com meus amigos, chocado por terem me deixado naquela situação, sozinho e sem nenhum dinheiro, mas a coisa realmente insana era que mal podia esperar para fazer tudo de novo”. O começo de uma amizade bem duradoura com o álcool.

O que mais me impressionou foi a quantidade de drogas que Clapton usava. Ele descreve umas coisas realmente insanas, como tomar soníferos e manter-se acordado à base de cocaína curtindo o efeito da mistura, de como o pó que ele usava era incrivelmente forte já que feito por um amigo que estudava química, de como ele preferia cheirar heroína (e não injetar, pois ele tem medo de agulhas). Em um ponto da vida (dentro de uma fase que ele dá o título de “Anos Perdidos”), ele estava sempre chapado, e o vício nasceu sem que ele notasse. Ele percebeu que estava viciado quando viu que ia ter que dirigir 300 quilômetros e era melhor estar sóbrio para cair na estrada com o Ferrari.

“Lembro das primeiras 24 horas de abstinência como inferno absoluto. Foi como se eu estivesse envenenado. Cada nervo e cada músculo do meu corpo entrou em espasmos de cãimbra, me enrosquei em posição fetal e uivava de agonia. Jamais tinha sentido dor como aquela, nem quando era garoto e tive escarlatina [doença infecciosa que afeta a língua, a garganta e toda a pele, que sofre alterações como descamação, vermelhidão e coceira]. Não havia comparação. Levou três dias inteiros, sem nenhum fiapo de sono nesse tempo. E o pior é que estar limpo da droga era uma sensação horrível. Minha pele parecia em carne viva, meus nervos estavam todos em sobressalto e eu mal podia esperar para usá-la de novo.”

Depois de uma clínica de reabilitação, Eric ficou melhor, mas começou a abusar do álcool, geralmente e equivocadamente tratado como uma droga mais branda. Ele trocou de vícios. Aterrorizante.

Se ele está vivo agora e still can rock, é quase um milagre. E apesar de toda essas aventuras serem, digamos, normais para a época - e especialmente para uma estrela do rock -, é assustador ler sobre o assunto na primeira pessoa. Não é segredo que eu guardo uma espécie de desprezo (ou rancor?) por pessoas que usam drogas. E lendo a autobiografia de Clapton isso veio novamente à mente.

Um querido amigo que já teve uma fase junkie das pesadas me contou algo que tem muito a ver com minha opinião sobre o assunto. Uma terceira pessoa disse: “Como você quer que alguém se interesse por você e te ame e te respeite se você não faz isso com você mesmo?”. Drogas são uma agressão física e espiritual e quem não vê assim é porque já está envolvido demais na coisa - e estar envolvido nem sempre quer dizer usar ou vender.

Costumo dizer que cheirar pó é coisa de rock star. Se você tem uma vidinha 9 to 5, existem inúmeros baratos mais legais que o que drogas podem causar. Ouvir Eric Clapton, por exemplo.

Para ouvir depois de ler: I Shot The Sheriff – Eric Clapton

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

E esse São Paulo Fashion Week, ein?

Para quem não sabe, eu estou cobrindo o São Paulo Fashion Week e isso me fez refletir sobre moda. De uma forma ou de outra, não interessa que tipo de roupa você usa. Tudo vira uma maneira de se expressar. Afinal, se você não se importa com alta costura e usa jeans e blusa branca, você acaba passando a mensagem de que você não se importa com moda! Então é inevitável...

Declarado isso, vamos seguir.

Eu adoro comprar roupas e passo um tempo considerável pensando no que vestir (dependendo da ocasião, claro), mas sempre achei desfiles uma bobagem. E, tendo que acompanhar todos do SPFW, acho que isso mudou um pouco. Me vi mais interessado naquilo, apesar de ter muito estilista que está mais inclinado para artista plático, não? O pessoal é tão montado e colorido que dá dó. Não é a toa que eles precisam mudar tudo de 6 em 6 meses, ninguém aguenta.

Mas isso não é um xingo, ok? Eu acho que moda pode andar de mãos dadas com inteligência e bom senso. Encará-la como uma grande corporação maligna que quer todo mundo branco e magro é um pensamento muito atrasado. Existe muito que ser visto e entendido num desfile e eu me surpreendi quando percebi que concluí isso.

Tampouco moda é uma arma de consumo. Vi algumas roupas nas passarelas idênticas a peças que eu já tenho no meu armário, basta combinar com outras peças ou acessórios. Realmente acho que a roupa, além de te manter vestido, serve para se expressar. É uma maneira de colocar alguma idéia do lado de fora – seja sua cor favorita em sua mochila ou o seu filme favorito na estampa da blusa. São ícones de sua personalidade.

O ideal é não levar tudo tão a sério e tomar um cuidado básico para não parecer ridículo: não ser nunca o primeiro nem o último a usar uma tendência.


(Desfile da V.Rom)

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Querido pai,

Estou lendo um livro muito interessante. Chama-se “Tudo Que Você Não Soube” e é sobre uma mulher que resolve escrever todos os segredos que manteve de seu pai e entregar os papéis ao homem, que se encontra em seu leito de morte, em um hospital.

Fiquei inspirado com isso e resolvi fazer este texto. Não vai lá ser um texto curto, eu bem sei. Como a moça do livro, vou omitir as partes que vivemos juntos. Trata-se de confissões, segredos e lama. Três quase-sinônimos em uma narrativa de cinema, mas não em um texto assim.

Não por pena, mas pelo apelo de continuidade, acho melhor começar pelas confissões mais leves.

Tem uma música da Alanis Morissette que se chama “Sympathetic Character” que, eu juro, foi feita por mim para você. Como diz a letra, eu sempre tive medo de você. Tanto das adagas verbais quanto da dor física mesmo. Eu não gostava do seu silêncio nem do seu volume. Acho que isso que hoje eu chamo de educação nos outros é apenas uma vontade secreta que sejam diferentes de você. Você fala sempre muito alto, tão indelicado. Mas nem é essa a questão dessa música. A questão é que, por ser jovem e sensível, você não achava que certos sentimentos me eram cabíveis. Dor? Rejeição? Intimidação? Ainda bem que eu parei de tentar te agradar bem cedo.

É que você nunca percebeu como eu tive que esconder muita coisa por causa disso, mesmo que estivéssemos no mesmo nível de ódio ou raiva pelo mundo. Sem contar que uma das poucas coisas que admiro em você é a sua capacidade de estar quase sempre alegre e com cara de quem nunca sofreu ou fez ninguém sofrer. Acho isso admirável, mesmo tendo total consciência que isso é resultado de você ser uma das pessoas mais ignorantes que eu já conheci em toda a minha vida.

Eu decidi parar de comer carne em 2009. Já parei totalmente com a bovina e a de frango. A de peixe tive e ainda estou tendo dificuldades (pois eu realmente amo sushi) e a de porco foi fácil, fácil. Sim, eu. Logo eu! Acho que tudo começou nas aulas de biologia da oitava série, estudando o sistema circulatório. Eu nunca mais fui capaz de comer o coração de uma ave. Coraçãozinho, como você diz. Era na hora que estava no prato, ou quando sentia o nervinho na boca, ou quando partia o órgão no meio. Eu me sentia o pior ser humano do mundo com essas coisas. E não só pelo ato de comer, mas olhando pelo lado poético. Estou comendo um coração! Isso não deve fazer bem pra minha alma. E depois vieram outros fatos e outras pessoas que me ajudaram na decisão, mas nessa parte da história você entra pois você é um carnívoro. De marca maior. Gosta de gado, carne, entende de cortes e de churrasco. Aliás, você não é o orgulhoso dono de um bar especialista em fazer espetinhos de carnes? Pois é. Um filho que não come carne não deve ser motivo de orgulho para alguém como você. É igual ter um filho boiola.

Lembra que eu falei sobre confissões mais leves primeiro? Pois é. Repare que maravilha de construção teve o parágrafo acima. É, você leu certo. Mas, caso não tenha entendido, aí vai: eu sou bicha. Bicha, não né? É politicamente incorreto falar assim (e ilegal em alguns países, sabia?), mas eu sou homossexual. Ok, e essa palavra tem consoantes demais – incluindo dois Ss e um X! Que tal falarmos apenas gay? É a palavra ideal, apesar de ter um Y.

Jurei que, depois do show da Madonna, ia te contar sobre isso. Afinal, todo mundo já sabe e, obviamente, você suspeita(va). Antes que você me telefone gritando, já aviso: não, eu não dou a bunda; sim, eu já peguei mulher – ainda pego as vezes pois elas têm algo que homens não têm: seios. Mas elas são muito chatas e metódicas. Enquanto os homens são bobos e, por conseqüência, mais fáceis de lidar, levar, comer e conviver. Isso faz parecer que minha vida se baseia nisso, não? Mas saiba que eu conto nos dedos com quem já fui pra cama, que eu nunca tinha bebido antes dos 18, que eu nunca sequer experimentei nenhum tipo de droga ilegal, que eu tenho um sistema de crenças baseado em Deus e na Cabala e que eu tenho um emprego de verdade. Você tem muito mais motivos para se orgulhar de ser meu pai do que eu tenho para me orgulhar de ser seu filho.

Com amor,

Gabriel

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

O filme do cachorro e o filme dos skatistas

Esta semana eu vi dois filmes bem diferentes. O líder de bilheteria do momento, “Marley & Eu”, e o cultuado “Paranoid Park”, em uma mostra de cinema sobre filmes que passaram batido pelas salas no ano anterior.

“Marley & Eu” acompanha a vida de um casal que tem um cachorro labrador cujo nome dá título ao filme. A história é uma gracinha, não se trata de um cachorro inteligente, ou que fala. Ele é um cão normal, de um casal que quer começar uma família. Não há espaço pra filosofia numa película assim, mas ninguém quer filosofia por aqui. Minha irmã de 14 anos não parou de chorar pois, de fato, é um filme engraçado mas sem ser pastelão e as partes sérias são delicadas, sem contar que a trilha e a fotografia são realmente geniais. Um ótimo filme para se ver em família e, definitivamente, para se ver no cinema.

Já “Paranoid Park” é uma situação completamente diferente. Dirigido por Gus Van Sant, ele me levou de volta à minha pré-adolescência. Não, eu não fazia parte de um grupinho de skatistas como Alex, o garoto do filme, mas eu vi nele muito de como eu era, uma mistura de não se importar com nada e de ter medo de muita coisa.

O longa não é cronológico e fala, basicamente, sobre um assassinato bizarro que acontece perto de uma pista de skate. Assim, todos que praticam o esporte são suspeitos ou, no mínimo, objeto de estudo dos investigadores do caso. É curioso como o diretor enfatiza momentos das filmagens que, em outros filmes, nada está acontecendo. Com slowmotion, podemos notar – além de manobras ótimas em várias cenas – uma diferença de olhar que diz muito sobre o personagem. Tudo isso ainda é sublinhado com a trilha (uma música que normalmente seria usada numa cena de muita ação, aqui é aproveitada na hora em que Alex anda em um dos corredores da escola, por exemplo). Há uma economia de palavras também e achei isso estimulante. É um filme muito bem costurado que, apesar de tenso, me fez sair leve do cinema.

De uma forma muito, muito diferente, gostei dos dois filmes.