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quinta-feira, 17 de maio de 2012

"Eu odeio esperar"

Tenho ouvido isso muito nos últimos anos, virou uma dessas modas sociais estranhas. Mas há um outro lado.

A espera de um bebê são 9 meses de gestação, tempo recheado de experiências. Os 15 minutos na sala do dentista são, na verdade, uma matéria de uma revista antiga que você não leu pois não viu na época e que nunca teria lido se não tivesse esperado esses 15 minutos. Os 10 minutos que demoram entre a ligação e a chegada do táxi? É um dente escovado, um acessório a mais na roupa, um laço bem dado no tênis. A lentidão do metrô é um capítulo a mais de um livro, uma música a mais no iPod.

Paciência é uma virtude que precisa ser adquirida o mais rápido possível.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Not easily offended

Todo mundo quer falar e se mostrar, mas ninguém quer ouvir ou ficar em silêncio. Quanto mais observo, mais penso isso. A gente tem tantos lugares, canais e maneiras de dar nossa opinião que esquecemos de ouvir. Não que a gente seja obrigado a ouvir o que os outros têm a dizer, mas acho que o que falta mesmo é tato para delimitar o que deve ou não ser dito.

É o seguinte: as pessoas não se focam naquilo que gostam ou acham que ter opinião sobre algo é não gostar daquele algo. Ou, pior, acham que é obrigatório ter opinião sobre tudo. Bem, adivinhem só, não é!

A frase que escolhi pra ilustrar o banner do blog ali em cima resume bem o que penso do assunto. “Espojar-se na lama não é a melhor maneira de ficar limpo”. Não fique perto daquilo que não quer estar envolto. Não gosta de amarelo? Então não use amarelo. É contra casamento gay? Então não case com um gay. Não gosta da banda? Então não ouça o CD. É contra aborto? Não aborte. Simples, simples.

Mas não, tem todo mundo que ficar brigando. Tô cansado dessa ditadura da opinião. Muitas vezes é ficando calado que aprendo mais – sobre o mundo, sobre os outros e sobre mim. Tem muita gente por aí precisando tentar isso.

Já dei a dica num outro texto e repito: Se você faz algo que é bom pra você e que, ao mesmo tempo, não é ruim pra ninguém, significa que é bom pra todo mundo. É pedir demais que as pessoas se foquem naquilo que elas gostam? Que tal todo mundo perceber que o que você odeia pode ser exatamente o que deixa o outro feliz? E que o que você ama não é nada além de bobo pra outra pessoa – e que você precisa aceitar isso. Acho que seria uma boa.

Parem de se ofender tão facilmente e cuidem das coisas que te interessam cuidar.


sexta-feira, 22 de julho de 2011

Do pão de queijo ao leite condensado de hoje


Minha bisavó tinha uma receita de pão de queijo que era puro amor. A massa era gostosa e fofa e o salgado era sempre grande. Uma fornada saía sempre que eu passava meu dia por lá. Ele sempre era servido com café nessas xícaras cor de mel. Nunca gostei da bebida, nem das xícaras, mas esse cheiro ainda me lembra dessa época. Sigo um fã de pão de queijo, mas igual aquele nunca mais provei.

Outra diversão gastronômica que só tinha lá era Toddy. Sim, Toddy tinha em todo lugar – inclusive na minha casa -, mas era só com leite, óbvio. Mas com uns 5 anos de idade desenvolvi uma fascinação estranha por querer provar o pó nas colheradas. Gostava da sensação seca na boca e do esforço estranho para engolir aquela meleca sabor chocolate que era formada. Pelo nível de bizarrice da coisa, não me deixavam fazer isso em casa. Mas lá podia; casa de bisavó pode tudo. Lembro da textura do sofá onde eu sentava para ver desenho animado com um potinho de Toddy puro. Depois eu ia pro quintal catar tatu-bolinha.

Na casa da minha avó era outra história. Lá tinha Danette e flans, os doces mais chiques do supermercado. Atacava todos, assim como atacava os Yakults. Aqueles potinhos de leite fermentado, por algum motivo muito estranho, só entravam na minha casa se tivesse alguém doente por ali. Agora que cresci e não frequento mais a casa dos meus avós como antes, percebi que os doces ainda estão por lá. Na verdade, eles são os lanchinhos de madrugada no meu avô, que sofre de insônia. Mas ele nunca reclamou de me ver roubando as delícias.

Sorvete também era uma coisa rara de se ver em casa. Potes de 2 litros eram muito caros – na verdade, eu ainda acho que são. A raridade dava um gosto diferente à sobremesa e culpo esses episódios por hoje eu ser um tarado com o doce e não poder pisar em um self-service - minha taça vira sempre um grande nada gelado e super doce.

Tinha também o sorvete de um cara que vendia na porta do meu colégio – o Instituo Lídia Angélica, no Itapoã. Era R$ 1,50 o cascão (com cobertura!) e tinha só um sabor indecifrável. Acho que era abacaxi, mas o negócio era metade amarelo e metade rosa. O “creme holandês” da São Domingos tem o mesmo gosto. Acho aquele lugar uma chacota – pois é caro demais pra qualidade baixa de seus sorvetes -, mas quando passo lá, pego um pote sabor infância.

Vocês lembram que a Coca-Cola tamanho família tinha 1 litro? Cada um da casa tinha um copo durante a refeição do sábado e acabou, meu amigo. Hoje, 1 litro é o que eu levo pra dentro do cinema. Na verdade, acho que o hype todo da minha geração ao redor de produtos como Kit Kat, Nutella e Pringles é isso; é a vontade de só comer tudo aquilo que não podíamos.

Parece que estou reclamando da minha infância, mas não estou. E minha mãe me entenderia: minha avó sempre fazia doces bem legais, mas era dessas que raspava a lata até ao alumínio começar a sair. Por isso, com seu primeiro salário, minha mãe comprou um leite condensado só pra ela. Toda vez que me vejo abrindo mão de um arroz pra comprar umas caixas de bis e alugar uns filmes, digo uma frase que virou o mantra do mercado: “esse é o meu leite condensado de hoje. E eu mereço!”

Boa sexta.

domingo, 26 de junho de 2011

Ini-amigos

Um dia desses eu fiquei pensando em alguns amigos do passado, em como cada um de nós foi para um lado diferente da vida. Nessa categoria de amigos, existem variações menores: aqueles que eu nunca mais nem ouvi falar, aqueles que eu encontro de vez em quando, aqueles que só “vejo no Facebook” e aqueles com quem eu ainda saio e bebo e converso.

Pelo menos um de cada categoria pode ser considerado um ini-amigo. Pessoas que já foram muito próximas e que, por nunca lhe terem feito nada de ruim, você não pode simplesmente dispensar da sua vida. Mesmo que vocês conversem pouco, ninguém tem culpa de vocês conversarem pouco. Ok, soa redundante e babaca, mas eu sei que todo mundo tem alguém assim na sua vida.

O que me fez refletir sobre esse assunto? Bom, várias coisas. Uma dessas pessoas abandonou tudo que tinha aqui (o que não era muito, adiciono) para tentar a sorte em outro país, em outro continente. Admirável, corajoso e muito invejável.

Especialmente por mim, que não tenho peito suficiente para uma investida dessa. Os exemplos são vários e vários. Conhecidos que moram fora mas também os que estão casados com aquela pessoa que foi o seu primeiro amor, ou aqueles que arranjaram o emprego dos sonhos deles antes que eu encontrasse o meu. Etc, etc.

Por isso gosto do termo “ini-amigos”. É que há uma compreensão e um companheirismo em torno da pessoa mas, mesmo assim, há também um pingo de inveja dela ou pelo menos algum nível de competição entre a gente.

Sei que no cinema e na música posso buscar outros milhares de exemplos, então sei que não estou louco. Isso realmente existe na vida de todo mundo, certo?

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Em que planeta você vive?

“Não acredito que todas essas bandas foram confirmadas no Planeta Terra. Já tô lá! (nunca ouvir falar de nenhuma)”

Alguém postou isso no Twitter dia desses, antes dos ingressos do festival se esgotarem, e eu ri muito. Resumiu bastante o que eu acho dessa febre toda de um festival com meia dúzia de bandas esgotar os trocentos mil ingressos em poucas horas.

Tem um amigo que chama essas coisas de Nutellas. Vocês lembram quando Nutella era uma coisa muito, muito cara? Todo mundo que tinha experimentado tinha gostado e fim. Aí ficou mais barato e, agora, todo mundo ama Nutella mais que a vida e quer casar com Nutella e ter filhos de Nutella. Nutella é tudo de bom, maravilhoso, melhor coisa do mundo e eu sempre gostei desde criança. É isso que está acontecendo com a música?

Mas ó, sou o primeiro a falar: não sou uma pessoa atualizada. Demoro para ver e ouvir aquilo que todo mundo está vendo e ouvindo agora. Sabe aquele cara vacilão que vem falar do novo CD da banda quando ela já está quase lançando o próximo? Pois é, sou eu.

Por isso, tudo que vou falar aqui agora tem pouca credibilidade, mas eu fico muito intrigado quando anunciam aquelas bandas que eu realmente nunca ouvi falar e geral vem comemorar quase com orgasmos.

(E quando tocam Florence and the Machine na boate? Povo berra a letra como se fosse a última música que vão ouvir na vida. E essa babação em cima da Adele agora? Eu, sempre o último a pegar essas coisas, tinha pensado em falar assim com um amigo: “Sabe a Adele, daquela música 'Chasing Pavements'? Já ouviu o novo CD dela?”. Antes de chegar à quarta palavra da frase fui interrompido por um “Meu deus, ela é maravilhoooooosaaaa!”. Até levei susto. Gente, é boa, mas não é isso tudo, fiquem calmos).

Tem uma safra de novos artistas que eu sei quem são, eu já ouvi ou já ouvi falar. Me passaram os clipes, vi no "SNL", etc. Estou cercado de pessoas antenadas em música e trabalho com isso. Mas sério, vocês realmente amam tanto assim The Vaccines? E Toro Y Moi é mesmo isso tudo? Vocês realmente ouviram algo do Peter Bjorn and John além daquela música do assobio? Poxa, vocês não só estão com tempo como são bem reservados.

Sim, pois antes do line-up do Planeta Terra, por exemplo, ninguém nunca falou de nenhuma dessas pessoas. Nunca me indicaram, nunca me passaram um link, nunca citaram numa conversa. Nunca vi nada a respeito desses artistas vindo da boca das mesmas pessoas que agora estão se matando ali na fila dos ingressos. Estranho, né?

Aquele seu amigo de bigode e de xadrez que acabou de twittar que o show da Sharon Jones foi o melhor do mundo nunca tinha mencionado a mulher antes - mas, claro, sabe todas as referências do último clipe da Lady Gaga e ficou falando mal dele no Twitter a semana passada toda. Talvez eu é que esteja abilolado demais com a minha ideia utópica de que as pessoas deviam falar mais é daquilo que as agrada. Ou é mesmo uma inversão de valores?

Não duvido que as bandas que citei sejam boas (aliás, vou até procurar ouvir tudo delas para entender a melação), mas elas também são só exemplos, não é nada contra elas, tá?

Fiquei pensado se isso era uma continuação daquela veia de pensamento do começo dos anos 2000, do “eu sou mais indie que você” e concluí que não. Afinal, se você quer provar que é alternativo e you've probably never heard of it, não pode se vangloriar de conhecer artista que está vindo pro Brasil, né? Você tem é que citar uma banda underground da Macedônia que nem lançou o primeiro EP ainda. Quem toca em festival já é mainstream demais pra essa galera.

Mas aí eu penso nas últimas coisas que baixei. Adicionadas recentemente no iTunes: Sara Lov, Hunx and His Punx, Cults, Pigeon Detectives, Ultraviolet Sound e Junior Boys. Também nunca mostrei nenhum deles para ninguém. Mas também duvido que fosse saltitar de alegria se algum confirmasse show no Brasil. Então não sei o que concluir. Não sei bem porque o hype alheio me incomoda. Será que é porque não faço parte dele, doutor?

Acho que tudo em excesso é perigoso e isso que presenciei com os ingressos do Planeta Terra é um bom exemplo de como a internet está deixando o povo mais mente fechada que aberta. Está fechando o povo em grupinhos ao invés de colocar as pessoas em contato com coisas diferentes e que façam sentido para elas mesmas. É como se você precisasse conhecer tal e tal coisa para ser cool. Sendo que as tais coisas são sempre novas, nunca um clássico. É sempre a nova do The Killers e não a antiga do U2 – como se fossem super diferentes.

Preguiça. Não preguiça de conhecer essas bandas novas, mas de achar que conhecê-las é o suficiente para alimentar minha cultura musical – especialmente pois há muito, muito mais por aí.

O babacômetro tá chegando num nível alto demais.

domingo, 3 de abril de 2011

Em algum lugar por aqui


Acabei de ver "Somewhere" e chorei em algumas cenas, viu? É um belo filme e cuja trilha sonora consegue arrancar lágrimas de tão bem pontuada. Mas uma outra coisa me chamou a atenção. A relação da menina com o pai lembra muito a minha com o meu pai. Claro que meu pai não era famoso ou rico e era ainda menos presente que o moço do filme, mas o tipo de relação é quase igual – pois o personagem é bem parecido com meu pai: bobo, mentiroso, distante e quase álcoolatra. O abismo intelectual que Cleo tem diante de Johnny é diferente, mas quase do mesmo tamanho daquele que eu tinha com meu pai. Aquele abismo que me deixava abobado. Eu ficava olhando para ele, tentando tomar coragem pra pular, mas eu ia cair se eu tentasse. Era melhor ficar cada um numa beirada mesmo, gritando. Mas aí eu fiquei rouco, parei de tentar ser ouvido, saí da beirada e fui pra casa.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Alguns desenhos

Estava falando sobre desenho no MSN e me pediram alguns exemplos. Não tenho scanner, mostrei na cam. Tirei uns prints e estão aqui, só para constar.







terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Ela usa as chaves, ele quebra a porta


A empregada ainda fazia bolo de cenoura com calda de chocolate para as crianças crescerem saudáveis, suflê de legumes para a mãe seguir numa dieta com sabor e bifes não tão bem passados para o pai que gostava de sangue – mas as coisas estavam muito diferentes. O esforço de todos ao redor em fingir que nada havia mudado era até admirável, pois requeria muito esforço. Mas muito esforço cansa e o começo do fim aparecia todo dia em pequenos sinais pela casa. Numa troca de olhares, de palavras ou numa planta que mudava de lugar.

De fora, parecia que nunca estiveram apaixonados. Mas de fora, ninguém poderá dizer ao certo. De dentro, é bem possível que estivessem – ou que tenham estado, há muito tempo; um tempo que passou. Ele queria que isso mudasse, mas não mudou. Algo sempre esteve errado, mas ela fingia que não via.

Era estranho. Quando um ria, o outro se ofendia. Não eram amigos, eram companheiros de casa com nada mais do que, digamos testemunhas. Não reclamo como vítima. Não sofri com o fim, sofri com a espera. Não enxergo duas pessoas menos prováveis de terminarem juntas e ficava torcendo para o teatro acabar e cada um procurar seu rumo desde que percebei o seguinte: não é que ele pegava no sono vendo TV e acaba dormindo na sala; é que ele não era bem vindo na cama dela, que ela tinha comprado com o dinheiro dela, do trabalho dela, no quarto dela, na casa dela, construída por ela. Pra ela, pra ele, pra mim.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Desconhece-te a ti mesmo

Todo mundo já fez perguntas filosóficas para si mesmo. Final de ano e aniversário são boas datas para isso. De onde viemos, para onde vamos e essas merdas todas. “Quem eu sou?”, a maior delas, talvez seja a única que possamos responder. Não é fácil, mas é possível.

O mundo está cheio de respostas. Eu sou brasileiro, filho, cristão, estudante, heterossexual, judeu, dentista, gay, negro, irmão, afilhado, índio, blogueiro, the walrus.

(Quando você era criança, por exemplo, sua mãe era só sua mãe. Aí você vai crescendo e vendo que ela é a esposa do seu pai, a empresária de tal lugar, a amiga de não sei quem. Mas é claro que essas respostas não são as que as pessoas buscam. Aliás, elas atrapalham um pouco a busca. Complicado isso. Do alto dos nossos 18 anos, achávamos que era o contrário, não? O peso da decisão de vestibular parecia tão mais decisivo; se errar nessa escolha, terei uma vida de merda para sempre. Mas na verdade, enquanto isso, fica cada vez mais fácil mudar de área, de rumo, de profissão. Sofríamos, na verdade, outro tipo de pressão – que ficará para outro texto, se ficar.)

Mas algo em você não é a representação desses papéis sociais que estamos fadados a cumprir. Outro dia ouvi uma frase ótima: desconhece-te a ti mesmo. Trata-se do inverso do aforisma grego citado por Platão, conhece-te a ti mesmo. Afinal, o que conhecemos da gente são esses rótulos que, com prazer, deixamos os outros colocarem na gente. Sabe quando seu pai te xinga dizendo que, se você nunca experimentou beterraba, como sabe que não gosta do sabor? Você é o que você faz quando não está sequestrado por um ideal. É o que você gosta (ou quer gostar) e faz (ou quer fazer) por você, para você, sem se importar em como isso será visto de fora.

Por isso, o elogio à diferença é tão perigoso quanto sua supressão. Ao invés de se orgulhar, de se envergonhar ou de recriminar, devíamos nos sentir livres para apenas ser. Aí você vai se permitindo e concluindo o que é bom ou não para você. E, é óbvio, o que é ruim para você pode ser exatamente o que o outro precisa e, portanto, você não deve opinar naquilo. E vice-versa.

Infelizmente, hoje, essa ideia não é possível em sua totalidade. Existem instituições muito, mas muito grandes mesmo, das quais não podemos simplesmente fugir. Viver fora delas é uma loucura, mas dentro, se traindo, também. E o dilema é esse. Fazer um acordo com o instituído versus aguentar a angústia de não ter aquilo que você abriu mão.

Há um provérbio, não sei de onde, que diz o seguinte: ninguém se banha, num rio, duas vezes com a mesma água. Desista das tags da vida real e vá andando enquanto não passar aquela dor que sinaliza que você não está em casa.

Para ouvir depois de ler: Live and Let Die - Paul McCartney

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Escorpianos


- ...Muita gente faz aniversário em novembro.
- É. Os filhos do Carnaval.
- Oi?
- Filhos do Carnaval, nunca ouviu isso? Que quem nasceu em novembro foi concebido em fevereiro. Carnaval.
- Que idiota.
- Idiota nada, faz as contas.
- As contas estão certas, a piada é que é idiota.
- Não é piada.
- Ah, então em fevereiro as pessoas só fazem sexo durante a semana do carnaval?
- Não, mas é que...
- O que? Você tá insinuando que eu fui um acidente, ou que minha mãe casou grávida, ou que nenhum casal casado faz sexo em fevereiro, só solteiros em micaretas?
- Meu Deus, não é isso, é que...
- É que o Carnaval cai em fevereiro todos os anos? E que, então, todo mundo que nasceu em agosto foi concebido no Natal?
- Não, aí não. Por que quem foi concebido no Natal nasceu em setembro. A não ser que a pessoa tenha sido prematura.
- Puta merda...

terça-feira, 9 de novembro de 2010

A maldita sinceridade

Segundo Rousseau, a sinceridade é como uma espécie de “tormento cultural”. Imagine o mundo onde não há mentira, que chatice. Empresas falindo porque a foto da embalagem é exatamente como o produto é lá dentro; milhões de mulheres com raiva dos maridos que não gostaram do novo corte de cabelo; currículos mais do que enxutos. Mentiras são lubrificantes sociais.

Ou não? Quero dizer, na comédia “A Invenção da Mentira” - que não é um filme muito engraçado, mas que recomendo pelos questionamentos que levanta -, vemos um mundo onde ela ainda não existe e as pessoas estão tão acostumadas em ouvir a verdade que não se ofendem, e aceitam tudo naturalmente. O cara pergunta se a moça quer jantar com ele de novo e, ao invés de falar que está sem tempo ou algo assim, ela responde que ele é chato, feio e que mastiga a comida de uma maneira nojenta. Aceitar verdades devia ser normal, mas não é. A sinceridade é uma preocupação que oscila entre aceitação, negação e caricaturização.

Das autobiografias aos reality shows, forja-se uma verdade para satisfazer certas curiosidades, hoje segmentadas – um imagina como os outros fazem sexo, enquanto outro imagina como as pessoas lavam louça, vai saber. É que todos sabem, mesmo que instintivamente, que a personalidade cultural das pessoas não reflete exatamente quem ela é em essência. A pessoa que veste tal roupa e vai trabalhar em tal coisa é um personagem, criado por ela com base em um aspecto da sua “personalidade total”. É sua persona – uma palavra grega que diz respeito à máscara por onde a voz passa. Todo mundo está afim de ver a intimidade alheia, o outro lado dos outros, mesmo que não comungue de forma plena das suas próprias ações ocultas – ou “não públicas”. Mas ser sincero é expôr sua intimidade?

Voltando o assunto: sinceridade não é só isso. Que você não é você, em sua totalidade, o dia inteiro, você sabe. Estava querendo falar é de outro tipo de sinceridade.

O Brasil, especialmente, é um país onde esses conceitos todos se confundem. Educação, falsidade. A linha é tênue e você pode ter bastante certeza da sua posição sem conseguir que enxerguem isso. Por aqui, as regras vêm da cordialidade, herdada do tempo de colônia. É a relação de fazer tudo o que o país opressor quer enquanto planeja-se a independência por baixo dos panos. É a relação do tapinha nas costas enquanto amola-se a faca que virá em seguida.

Por outro lado, ser sincero e falar o que se pensa o tempo todo para todo mundo já é uma perversão, não uma qualidade. Existem os momentos onde omissões se fazem necessárias e mesmo mentiras – que, quando não ferem à justiça, são saudáveis.

Perceba que, quando te perguntam algo, volta e meio você diz antes da resposta: “Posso ser sincero?”. Ora, porque não poderia? Ah, por muitos motivos. Sempre começamos uma crítica colocando a palavra “sinceramente” na frase. É para amenizar e para nos excluir da culpa – afinal, foi você que pediu minha opinião! Para a filosofia e para muitos, sinceridade é sinônimo de confissão. E – se quem se confessa dá testemunho, conta algo porque viveu e presenciou um fato que pode narrar – confissões podem ser usadas como arma contra aquele que se confessa. Igual funciona quando compatilhamos com alguém um segredo.

Como não sabemos tudo sobre nós mesmos, jamais passaremos essa informação adiante. Mas podemos compartilhar impressões e sentimentos e, então, um pode se sentir como o outro se sente - e esse é o significado da palavra compaixão, intimamente ligada aos relacionamentos amorosos, paternos e de amizade. É a concepção ética de cada um que entra em jogo no assunto. Ter acesso a uma informação, a uma confissão, e não usá-la contra a pessoa tem a ver com isso, certo?

Para refletir.

Para ouvir depois de ler: All I Really Want - Alanis Morissette

domingo, 7 de novembro de 2010

Hábitos alimentares são culturais, sabia?

O DJ e produtor musical Moby esteve no Brasil para participar do Festival UMF, que rolou no sábado passado, e aproveitou para falar de seu novo livro, “Gristle”, lançado em outubro e que trata do tema vegetarianismo.

“Gristle” é para qualquer pessoa que esteja repensando seus hábitos alimentares e as consequências da indústria que cria animais para alimentação. O músico se juntou ao ativista Miyun Park e reunu vários nomes para discutir o assunto – um grupo eclético que contém fazendeiros, atletas profissionais, cientistas, executivos de indústrias alimentícias e outros -, mostrando porque a indústria de abate animal desnecessariamente faz mal aos trabalhadores, às comunidades, ao meio-ambiente, à nossa saúde, aos nossos bolsos e, claro, aos animais.


Não comer carne é, para mim, uma opção mais saudável para melhorar meu estilo de vida já tão desregrado. Esse lado ético veio depois. Li que Paul McCartney parou de comer bicho depois de sair para pescar com os amigos. "Vi o peixe se debatendo dentro do barco, querendo se soltar do anzol. Percebi que a vida dele era tão importante para ele quanto a minha vida é importante para mim". Como alguém que passou mais da metade da vida cantando hinos de amor e comunhão poderia olhar para seu almoço e fingir que aquilo ali não era um animalzinho antes?

É engraçado. Quando você para de comer carne você começa a se sentir aquele personagem do filme de terror que tem certeza que viu os fantasmas, mas ninguém acredita. "Será que só eu vejo que o discurso que se usa para justificar a exploração dos animais é o mesmo que, no passado, usamos para defender a escravidão e a desigualdade de direitos entre homens e mulheres? Será que as pessoas não percebem que hábitos alimentares são questões culturais e de costume? Será que não compreendem que, como seres desenvolvidos e pensantes, não precisamos repetir o que nos foi ensinado como certo, que podemos questionar as coisas?"

Por essas coisas, não comer carne virou um pequeno protesto. É a minha maneira de boicotar uma indústria que destrói o meio ambiente e explora, tortura e mata animais. O que gastam com cereais e água para engordar o bicho que será morto teria sido muito melhor utilizado alimentando humanos que estão passando fome. E não precisa ser nenhum gênio para calcular isso. Claro que não há interesse comercial em parar de alimentar os bichos e simplesmente dar para os pobres, mas é mais um grupo que não quero fazer parte - junto ao grupo dos que enxergam as coisas da natureza meramente como matérias primas.

Eu adoraria estar cercado de pessoas que pensassem assim, não me sinto desconfortável com que não o faz, mas eu também não quero entrar em discussões com quem não está interessado em ouvir. Trata-se de uma escolha pessoal que não diz respeito à opinião alheia. Quer dizer, vegetarianos têm tanta certeza que estão certos que alguns acabam ficando chatos. Mas antes de atacá-los ou de sair por aí declarando seu amor por bacon, pelo menos reflita antes sobre o que vocês está abrindo mão versus o bem que você faz para mundo e para você.

Para ouvir depois de ler: The Smiths - Meat is Murder

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Pensando com Laerte


No filme “The Cement Garden”, de 1993, a personagem de Charlotte Gainsbourg é flagrada vestindo um menininho com roupas femininas. Ao ser questionada pelo irmão mais velho dele, ela diz: “Garotas podem usar jeans, usar camisetas e botas, pois é aceito ser um menino. Mas para uma menino, ser uma menina é degradante. Pois você acha que ser menina é degradante. Mas, secretamente, você adoraria saber, não adoraria? Como é que se sente uma garota?”.

Tem bem pouco tempo que Laerte, um dos maiores e melhores cartunistas do Brasil, resolveu fazer algo muito corajoso: revelar para todo mundo que curtia uma onda crossdresser – que é quando uma pessoa começa a usar algumas peças de roupa ou certos acessórios que são, geralmente, atribuídos ao sexo oposto. A declaração foi dada à revista Bravo!, em sua versão impressa e também em uma pequena entrevista em vídeo, aqui.

“Na verdade, a minha convicção é que todas as pessoas gostariam de experimentar muito mais do que aquilo que os códigos sociais permitem, recomendam e limitam. Em se tratando de roupas, acho que as pessoas gostariam de frequentar outros parâmetros e outras áreas também. A vontade de vestir roupas femininas é muito mais frequente do que se imagina. As pessoas sofrem muito por não fazer isso, por achar que é uma vergonha ou algum tipo de diminuição.”, diz ele de forma natural e lúcida. “Vestir uma roupa feminina é constestar um parâmetro de gênero que vigora na sociedade. No limite, é uma coisa política. No fundo, é uma contestação de proposta de mudança. Mas é um prazer meu também”.

Fico feliz em ver gente que enxerga como uma babaquice esses mitos. Dividir a humanidade em gênero é uma coisa que nasceu com as religiões, com a ideia de que a divisão deveria vir das metades necessárias para conceber uma nova vida e com as antigas crenças da vida em matrimônio.

Voltando ao Laerte: “Eu não estou imitando uma mulher, não quero passar por mulher. Eu estou confabulando com um modo de ser que vem sido atribuído às mulheres. Assim como as mulheres – enquanto gênero – frequentam hoje modos, vestimentas e comportamentos que eram exclusivamente masculinos, acho que os homens deviam fazer essa passagem também”. Acho que ele tem razão.

Hoje, uma mulher tem a liberdade de usar calça, sapatos sem salto, não precisa de espartilho, pode falar alto, grosso e beber cerveja. Enquanto isso, nenhum homem pode usar blusa rosa, beber um drink de frutas, comer arroz integral ou ler poesias. A gente – eu, você, nossos pais, nossos tataravôs – chegou aqui há pouco tempo e se engana achando que o mundo sempre foi assim. As coisas foram evoluindo de uma maneira que, por sua lentidão, parecem naturais, mas não são. Em outras culturas, em outras épocas, matar um animal para comer era pecado; era impossível mudar de classe social; bebês usarem roupas amarelas atraía dinheiro; homens só faziam sexo com mulheres para procriarem, pois o prazer mesmo vinha da relação com outros homens.

As gerações mais recentes são daquelas que obrigam o menino a enfrentar precocemente situações para as quais ele talvez não esteja preparado, mas tem de ir em frente porque é homem. Não pode ter medo, não pode chorar, não pode dançar, não pode gostar de arte. O resultado é um bando de gente despreparada para lidar com o desconforto, com o sagrado, com o feminino - e um monte de mulheres insatisfeitas com seus próprios homens, claro.

A chamada "cultura ao redor" não pode ser mais forte do que nossa vontade de mudar e nossa inclinação a pensar diferente, a pensar sobre nossos hábitos e sobre os nossos próprios pensamentos. Não há quem resista a tanta pressão e angústia, presentes dos dois lados da moeda. Passou da hora de todo mundo aprender a cuidar da sua vida. No seguinte sentido: se a coisa que faz bem para você não faz mal para ninguém, significa que a coisa faz bem a todos. Liberdade é isso.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Prodepressivo


Nas últimas décadas, a indústria e a ciência desenvolveram remédios muito eficientes e com menos efeitos desagradáveis para tratar ansiedade, depressão e déficit de atenção, entre outras manifestações psíquicas. Isso é muito bom: tratamento mais seguro e eficiente para quem precisa. Para quem precisa. Mas estou achando que todo mundo se vê nessa lista.

É meio estranho como é moda falar que está estressado e deprimido. A doença do momento, por exemplo, é a bipolaridade. Mas se você tem variações de humor, você é normal. Bipolar é um transtorno psicológico grave. Sim, transtorno. E muito complicado de ser diagnosticado mesmo por profissionais. Piadinhas não deviam entrar nisso.

Tristezas, inseguranças, ansiedade e inquietações são normais na vida de qualquer um, mas passaram a ser facilmente medicados, tirando um pouco nossa responsabilidade de lidar e de resolver conflitos. A mãe vê o filho chorando e leva ele para a farmácia ao invés de sentar e conversar. Vivemos numa época onde as pessoas acreditam que é possível viver sem sentir nenhum tipo de dor física ou psíquica. Basta uma fincadinha na cabeça ou um mero ar nostálgico e já corremos para tomar uma aspirina ou um antidepressivo?

Se tem uma coisa que aprendi – e que já foi explorado aqui nesse blog – é que felicidade eterna não é algo alcançável. Felicidade é uma coisa mutável e, por baixo de suas oscilações, deve haver sim é uma paz de espírito.

Isso tudo sem contar que um remédio como Ritalina é um derivado da anfetamina, por assim dizer, e pode causar dependência. Ele deve ser usado por quem precisa e não por quem está atravessando uma fase de mais inquietação. E, do jeito que andamos, nem percebemos nosso vício. E eles estão começando cada vez mais cedo.

Que tal checar como andam seus pensamentos, valores e sua rotina antes de ingerir alguma nova pílula? Uma das suas missões – ou obrigações - é exatamente essa, aprender a lidar com emoções desagradáveis. A vida é sobre isso e obstáculos só existem para que sejam superados.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Quem é você no dia?


Querem me fazer acreditar que todos os gays são obrigados a saber o que se passa no que chamam por aí de mundo pop. Quer dizer, estou dentro do clubinho se assistir novela, ler sites de fofoca, sair para boates todos os dias e saber cantar as músicas de uma cantorazinha menor de idade que usa um cifrão no lugar da letra S.

Se você ainda não viu o último tombo da Shakira, no show em Lima, você não é ninguém na noite. Ninguém vai querer conversar com você, não importa os filmes e livros clássicos que passaram pelos seus olhos, essa é a informação relevante do dia, a nova tatuagem da Rihanna. É rei do mundo purpurinado quem tem vasto conhecimento nesse raso mundinho.

Isso me irrita. É que depois de virar madrugadas lendo “Os Miseráveis” e de ouvir Beatles ainda em vinil, eu me sentia um idiota ao ler “Poliana” e ouvindo Britney Spears. Saber diferenciar bom e ruim pode não ser suficiente na hora do gosto e não gosto. Mas cheguei à conclusão de que cada coisa desperta algo diferente em mim e que há espaço para tudo se eu souber hierarquizar de forma clara aquilo que contribui para o meu caráter e aquilo que é pura diversão efêmera, como lasanha congelada.

É um absurdo colocar todos no mesmo pote, mas me vejo tão rodeado de gays que só se preocupam com modinhas que temo por eles no futuro. É muito mais social, eu acho. Afinal, os que não souberem tratar de certos assunto são excluídos de uma minoria que já não é assim tão incluída na sociedade. Ou seja, chegamos num ponto do aceitamento social do gay entre os gays onde ele precisa esconder seu José Saramago debaixo da sua blusa da Mariah Carey. É uma maluquice isso.

Alguém me salva?

Não é que eu não me divirta entre eles. Eu ouço Lady Gaga, eu gosto de dançar, eu uso skinny jeans. Mas há tão mais do que isso no mundo, meu caros! Tão mais!

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Quer ser meu amigo?


“Diga-me com quem andas e te direi quem és” é um ditado exagerado – ter amigos diferentes de você faz parte da graça deles. Mas é fato que ter amigos já sinaliza algo. Amizade, para mim, vem antes de outros tipos de relacionamentos, como os amorosos ou paternos, pois trata-se do primeiro objetivo moral da vida de qualquer ser humano de cultura. Ter amigos é ser alguém.

Um amigo que te traiu pode voltar a ser seu amigo? Uma malvadeza, digamos assim, torna tudo inválido? E quando a situação é a de um amigo que traiu um outro amigo seu, como fica? Do lado de qual amigo você fica, como medir qual é mais amigo? Um coração partido por uma amizade cicatriza mais rápido?

Para Aristóteles, saber ser amigo equivale a ser ético e é aí que entra essa questão, ao meu ver. Para ser amigo, basta alguém que sabe o que é o mal, mas deseja o bem. Penso assim e, por isso, vejo certa exclusividade na amizade. Reparou que quem leva a sério amizade costuma dizer que tem poucos amigos? Acho que é por aí. Não dá para considerar qualquer chapa de boteco seu brother e confessor particular. O que não quer dizer que não se possa ser agradável e sorridente a muitos – mas é que um amigo verdadeiro merece mais que isso.

Não há amizade que se sustente por interesses – e cabem nessa categoria mais coisas do que podemos imaginar. O amigo, como pessoa, não pode ser um meio para um fim, como status, dinheiro ou qualquer tipo de vingança, e esses interesses às vezes vem em forma de armadilhas tão bem planejadas que a mais perspicaz das pessoas é capaz de não enxergá-las.

Como em todos os relacionamentos, são as coisas relevantes do começo que se tornam insuportáveis no final. Saber analisar isso é a chave. Só me basta dizer, nessa minha reflexão existencial boba de hoje, que a amizade deve ter fim nela mesma e que cada um deve saber de si.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O clube de matemática do Sargento Pimenta

Para quem se coloca a pergunta “o que é o amor?” a resposta pode ser, basicamente, qualquer uma. Ganhar uma rosa sem motivos, ganhar uma rosa no aniversário, ganhar uma rosa depois do sexo, ganhar uma rosa depois de um soco. Tudo isso é amor para alguém. Jacó e Raquel, Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Frank e April, Lady Gaga e Alejandro.

E o que amor é para você? As cobertas de domingo, a festa hype de sábado, estar sempre rindo, estar sempre sério, estar nunca sozinho ou uma experiência profunda do erotismo, do desejo pelo corpo belo, do arrepio instruso e certeiro. Para mim, ele é tudo isso e mais, é algo que nos tira da racionalidade – queria usar a expressão “salva da racionalidade”, mas talvez não seja bem assim, afinal.

Mas o amor não é cego, senhores. Você pode até não escolher a quem vai direcionar seus pensamentos, mas eles só inundam sua cabeça se você deixar. Nos sentimos atraídos por todos, pois somos seres ligados às sensações e às fantasias, mas na hora do vamos ver há uma lista infinita de empecilhos bem reais. E acho que aí está a grande questão. A questão que move milhões de dólares em filmes, cosméticos e comidas: uma coisa dita tão boa, tão celebrada, não devia fazer sofrer, certo?

O fato é que ninguém acorda e vê uma macieira no quintal de casa. Explico: havia uma semente que foi plantada, cuidada e germinou. Tudo, absolutamente tudo, que faz um amor acender ou apagar, sempre esteve ali. O problema é que a macieira demora anos para estar totalmente crescida e esse intervalo de tempo causa a impressão do “de repente”. Acredite, nada nesse mundo acontece de repente. Ao mesmo tempo, não há nada novo debaixo do sol e todo o código daquela árvore estava adormecido naquela sementinha; ali dentro já havia uma árvore inteira. Só que você não viu.

Quando botamos o padrão do amor romântico no topo de prioridades e acreditamos na sua ilusão, estragamos o amor, pois o romantismo é apenas “uma das” formas do amor. E o preço dessa contradição é pago em lágrimas. É a infelicidade pelo desvio do padrão. Se tratarmos o amor como uma lista de regras, como uma caixinha na qual devemos nos encaixar, ele nega seu propósito original e, pela lógica das coisas desse mundo, deixa de ser amor. Concorda?

Já acho suspeito quando dizem que "tal me pessoa me completa" - pois, afinal, a gente se soma, mas todos já estamos completos -, então nem sei o que dizer do fato de que, no fundo, estar em um relacionamento é atestar que você realmente acha que nenhuma das outras milhões de pessoas no mundo tem a ver com você, mesmo que você não tenha conhecido 0,01% delas nem superficialmente.

É que o amor-paixão-adrenalina desaparece na mesma velocidade com que chega e tudo o que resta são bitucas de cigarro no tapete. Quando o ar ainda fede, dizemos que jamais cairemos de novo nessa ilusão romântica. Mas basta respirarmos fundo no ar novamente limpo para estarmos lá, criando novos laços. Só não pode cair para a falta de respeito, que as vezes parece natural diante do excesso de intimidade.

Essa é a vida, segundo canção de Regina Spektor: você é jovem até não ser, você ama até não amar, você tenta até não conseguir, você ri até chorar, você chora até rir e todo mundo respira até seu último suspiro. Você espia dentro de si e pega as coisas que gosta e tenta amar as coisas que pegou. E aí você pega esse amor que você criou e deposita no coração de outra pessoa, que pulsa o sangue de outra pessoa. E andando de braços dados, você espera não se machucar, mas mesmo se machucando, fará tudo de novo.

É preciso coragem para pular de ponta numa piscina – bem funda – de improbabilidades. Acontece que é intraduzível a sensação boa de amar. E é bonito exatamente porque pode trazer junto com ele tanta dor, exige esforço e empenho, então precisa compensar o sofrimento. A pergunta, no final, é essa. Como anda essa equação por aí?

Para ouvir depois de ler: Real Love - John Lennon

domingo, 18 de julho de 2010

O voto gay?

Outro dia, li que Dilma Roussef fechou uma parceria com um pastor evangélico, cujo nome não recordo, para assessorar sua campanha direcionado a esse público, que representa 25% dos eleitores. Na proposta, ela assinou embaixo do que foi pedido por ele em contrato: não virão do poder Executivo leis que aceitem o aborto, o casamento gay e a adoção de crianças pelos cidadãos GLBT.

Isso me fez pensar: em assunto político, foi uma boa troca? Quer dizer, não sei quanto dos eleitores é gay, mas o número soma aos héteros favoráveis à causa. Talvez seja maior que esses 25%. De qualquer forma, o treco já foi assinado. O negócio é que ser à favor ou contra não basta para ganhar nem perder meu voto.

Um exemplo? Marta Suplicy, como sexóloga, saía por aí mandando beijos para a comunidade gay, mas foi a primeira a apontar a homossexualidade não-pública de um rival como objeto de chantagem e barganha.

Marina Silva tem algumas das propostas mais interessantes para o meio ambiente, por exemplo, mas já disse que não tem o casamento gay como "correto", por causa de sua religião, mas que direito civil é direito civil e todo mundo devia tê-los. A declaração causou tanto frisson que abafou o que ela disse depois, e apenas a primeira parte de sua fala tomou os jornais. Portugal tem um presidente católico fervoroso que não teve medo de aprovar o casamento gay declarando aos quatro cantos que achava errado aquilo, mas que era uma questão de dar ao povo o que ele quer.

Acho que faz sentido e que poderia ser caso dela. Se tem gente por aí achando lindo o movimento gay, mas nos bastidores assinando contratos jurando que vai deixá-lo às moscas, talvez o voto em alguém abertamente contra fizesse mais sentido. Olha a que ponto chegamos! Enquanto isso, Serra se diz favorável, não assinou nada com ninguém e, cá entre nós, tem mais know how do que as outras candidatas juntas. Mas dá uma preguiça dele, né?

Só sei que nada vai mudar de verdade com nenhum deles. Casamento gay é uma pauta do momento, mas esse país aqui está longe de não ser preconceituoso - e não é legalizar a união civil que vai fazer isso. Contra, a favor, pouco importa. A lei já existe, é só o Supremo mudar a interpretação.

Semana passada, isso aconteceu na Argentina e ela tornou-se o primeiro país da América Latina onde casamento entre pessoas do mesmo sexo é permitido. Aí, o mesmo portal de internet que escreveu uma matéria ótima sobre o assunto, foi o que linkou o texto com um banner sobre o resultado de um jogo de futebol - numa alusão ao tima perdedor, indiretamente chamado de "viado". E o melhor: várias pessoas ao redor, as mesmas que não se importam com sua orientação sexual e são super tranquilas e cabeça aberta, foram as primeiras a divulgar o negócio, rindo da piadinha que algum estagiário imbecil fez dentro do site.

Penso que, se hoje legalizassem o casamento gay, adoção de crianças por gays e leis anti homofobia, nada mudaria na minha vida. Não vou comemorar o passo da Argentina enquanto taxistas não pararem porque eu dei sinal de mão dada com meu namorado, enquanto existirem skinheads fazendo ronda na rua Augusta, enquanto todo mundo fizer piadinhas no seu aniversário de 24 anos, enquanto héteros têm vergonha de usar blusa rosa, enquanto os times de futebol perdedores forem xingados de "bicha", enquanto tem gente com medo de ir para casa sozinho.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

E subi de volta


Tive que descer na portaria do prédio.

- É você que está buzinando?
- Aham.
- Então, você tem celular não?
- Oi?
- Liga pra pessoa que você está esperando. Ou então toca o interfone ali - apontei - porque parece que a pessoa não entendeu que a buzina é para ela e não é justo você encher o saco de todo mundo da rua com sua buzina, é?

E subi de volta.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Clipes de papel

Dia dos Namorados – além de poder ser a data internacional da expectativa frustrada quanto aos presentes – é a data onde solteiros e solteiras se reúnem para brindar a solteirice. É curioso que uma data essencialmente comercial mexa tanto com o orgulho de todas as pessoas. Pela cidade inteira, no dia 12 de junho, tem eventos apenas para casais ou apenas para solteiros. Precisa mesmo ser um versus o outro?

Acho que estar acompanhado é mostrar que você tem atributos suficientes para ter alguém os querendo apenas para ela, é fazer parte do famigerado e clichêzento “final feliz” de mais da metade dos filmes de Hollywood. Mas é também fazer parte daquela parcela de gente careta, que não frequenta todas festas ou os restaurantes da moda. Todo mundo tem histórias de amiga que é a melhor companhia do mundo, mas que some quando começa a namorar; ou aquele amigo que simplesmente perde todo o seu senso de humor quando ao lado da noiva.

No final das contas, todo mundo sabe que é completamente e perfeitamente possível viver feliz sozinho desde que esta seja uma decisão espontânea e movida por um desejo genuíno. A solidão imposta à revelia pelas contingências do destino é tratada, especialmente hoje em dia, como uma catástrofe existencial. Bobagem, não? Mas, vendo o cenário por inteiro, estar solteiro é uma coisa altamente celebrada e que movimenta bilhões em academias, salões de beleza e lojas de roupas – claro que não estou dizendo que todo mundo frequenta esses lugares apenas para ficar atraente para outras pessoas, mas você sabe de que tipo pessoa estou falando.

Então é o seguinte: de um lado ficam casais felizes e de outro os solteiros, divididos entre os orgulhosos e os envergonhados. Mas não devia ser assim. Estar acompanhado não é, por conta própria, motivo nenhum para se sentir superior. Vivo dizendo que categorias em que você não teve poder de escolha não podem abrigar orgulho nem vergonha – como nascer homem ou mulher, hétero ou gay. E, nesse caso, a regra acaba também se aplicando, mesmo que a solteirice seja de ocasião, e não opção. Quem disse que todo casal é feliz? Quem disse que todo solteiro é infeliz? Ficar o “mês dos namorados” inteiro falando como você ama estar solteiro pode ser sinal exatamente do contrário...

A ideia do amor romântico, do feriado debaixo das cobertas e do delivery de pizza engana muito. Estar junto dá um trabalho danado e esses momentos são, na verdade, raros. Alguém me disse que "estar com alguém é um trabalho árduo fantasiado de aconchego", adorei a frase. Da mesma maneira, a ideia do solteirão bon vivant, que pega todo mundo e cada dia está com outra pessoa sem ligar a mínima para sentimentalismo, é falsa. Além de financeiramente cara. São poucos os que conseguem passar a vida toda assim.

Dia 12 de junho é um dia como outro qualquer em escala global. Igual o dia que você passa no vestibular, tem um filho, quebra a perna. Um dia normal para a humanidade. E, caso vocês não saibam, casais e solteiros podem sair e se divertir em qualquer outro dia.

O pior é que tudo se inverteu e já conheci um casal que se sente intimidado, não querendo comemorar o Dia dos Namorados para não ofender os amigos solteiros. Que preguiça! Gente, comemore. Primeiro pois, quando solteiros, ninguém tinha esse cuidado com você; segundo pois, afinal, qual outra data namorados têm estabelecida? Natal tem família, aniversário tem amigos. Dia dos Namorados pelo menos é uma coisa “oficial de casal”, entende? Torcia o pescoço, mas só namorando percebi que a data, mesmo que apenas comercial, se torna especialmente interessante para casais adultos e gente casada. É que programinhas e presentinhos todo aniversário de mês de namoro é coisa de adolescente e, com a maturidade, esses mimos podem ir sumindo aos poucos, mesmo que o sentimento de um pelo outro continue intacto. Um simples efeito colateral do excesso de intimidade.


Para ouvir depois de ler: Elastic Love – Christina Aguilera