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domingo, 13 de novembro de 2011

Toda unanimidade é burra


No meio desse ano eu assisti o documentário "Daquele Momento em Diante", que fala sobre a trajetória musical de Itamar Assumpção, da Vanguarda Paulista na década de 1980. Ele foi músico, compositor e cantor, gravou vários discos e, teoricamente, nunca fez sucesso no Brasil naquela época. Era "alternativo demais".

Em um vídeo, ele falava sobre a facilidade de fazer um show e ser bem recebido (e, digamos, compreendido) na Alemanha. "No Brasil é tudo uma dificuldade", ele compara. Aí suspira e diz assim: "Até quando esse país vai viver de Chico e Caetano?".

Na semana passada, Chico Buarque esteve na minha cidade, Belo Horizonte, e um dos jornais mais lidos daqui, o Estado de Minas, colocou o músico na capa. As manchetes eram títulos de músicas etc etc. De uma breguiça fenomenal. Uma coisa que chamou atenção foi uma linha que dizia assim: "Chico Buarque é unanimidade".

Se fosse numa sala de aula, era hora de levantar a mão e citar uma frase de Nelson Rodrigues pra professora: "Toda unanimidade é burra".

Eu entendo o fascínio das pessoas por Chico, mas acho que a hora dele passou. O mundo mudou e ele ficou parado. Direito dele. Mas é que gostar das músicas dele parece uma coisa obrigatória aqui nesse país. Mas, convenhamos, ele perdeu a mão nas composições - e tem lá mais que uma década. Não era muito mais legal quando ele era censurado e suas letras eram um desafio? Agora tanto faz.

Mas tudo bem, cada um tem o ídolo que merece. Se vocês acham que um velhaco amarelado continua sendo sexy e bom cantor, que bom pra vocês. E pra ele, claro.

O que me deixa chateado é essa babação de ovo excessiva. Pois isso cerca o cara de uma manta que ele não devia ter mais - não estou falando que ele devia ser desrespeitado, nada disso. Mas li que ele mesmo ficou abalado quando descobriu, há alguns anos, que tinham comunidades "Eu odeio Chico Buarque" no Orkut. Provavelmente ele também acreditava nessa unanimidade. Talvez seja hora dos fãs pegarem leve, serem mais críticos.

Sei lá. Ultimamente tenho concordado mais com Nelson Rodrigues do que com Angélicas, Renatas Marias, Ninas e Lolas. Fãs, em geral, são pessoas chatas, que não gostam de ser contrariadas. Fãs de MPB então, sai de baixo. Li um texto que os compara com religiosos fervorosos: se você não acredita no deus deles, está condenado.

A declaração do humorista Marcelo Madureira, que chamou o cineasta Glauber Rocha de "uma merda”, também sacudiu o Rio de Janeiro. Está vendo? O problema é essa suposta unanimidade. Se muita gente acha, você tem que achar também?

Detalhe: dia 31 de outubro, alguns dias antes do show de Chico em BH, foi o centenário de Carlos Drummond de Andrade, um dos escritores mais respeitados do país, e mineiro. Adivinha se ele foi capa do Estado de Minas...

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Divas x Divas


Todo mundo sabe que não sou lá fã de futebol. E só tem uma coisa mais chata que torcedor comemorando a vitória do time que torce: gente comemorando a derrota do time rival. Mas esse texto não é sobre o esporte, é sobre “divas”.

Não vou entrar no mérito do que elas são e de quem merece ou não o título de diva, mas percebi que elas são tipo times de futebol para alguns.

Se sua cantora favorita lançou um CD ou um clipe que você achou legal, você vai lá decora as músicas, as coreografias e arrasa na boate. Mas parece que se outra cantora lançou uma coisa que você achou ruim, você pode fazer piadas com as pessoas que gostam dela. Como se as vendas de um CD fossem um reflexo honesto sobre a qualidade das músicas...

Parece que muita gente esqueceu daquela época que o Lennon estava na plateia do Jagger e agora é cada um por si. Não pode gostar de Shakira e J-Lo, por exemplo. Acho uma babaquice esse tanto de viadinho agindo como se isso realmente importasse, ficando realmente ofendido e ofendendo uns aos outros por causa da pessoa que eles admiravam (olha isso!). Como se você ser fã de tal ou tal cantora definisse o seu caráter, seu senso de humor, seu lugar no mundo, seus valores.

É estranho. Tem muito preconceito no mundo com os gays e eles ainda conseguem arranjar um motivo a mais e besta como esse para brigar. Fora dessa comunidade são raros os casos, o resto do povo não está nem aí. "Eu gosto de Móveis e você gosta de Pato Fu. Ok, então". Mas não, não pode ser assim. Se o fulano gosta de Kylie e você gosta de Beyoncé, vocês tentam um explicar pro outro porque sua 'ídola' é melhor que a dele". Não, gente! Não é assim! Foda-se.

Na verdade, o maior problema é que não é apenas uma questão de gosto, é uma questão de ódio. Olha só: eu não vou muito com a cara do povo do Offspring, sabe? Então eu não baixo CD da banda e não vejo os clipes dos caras. Eu não corro atrás de tudo que eles fazem para poder anotar o que eu acho errado e jogar na cara dos fãs da banda. O que não gosto na banda não é uma prova irrefutável de que ela é ruim, não funciona assim. E muito menos irei usar os elementos que eu não gosto do Offspring para justificar a minha idolatria por outra banda. São artistas diferentes e há espaço para todos - talvez não no meu iPod, mas no mundo sim.

(Lady Gaga é um bom exemplo do contrário. Eu gosto dela. O que ela faz está longe de ser genial, mas também está longe de ser medíocre. O clipe novo saiu e, antes que eu pudesse ter tempo livre para ver, todas as pessoas que eu conheço e que não gostam dela já tinham visto e estavam pra lá e pra cá falando que o clipe é ruim. Oi? Que tara é essa? Pra quê isso? Deixem pra lá se vocês não gostam)

As pessoas também esqueceram que música é arte. E arte, em sua excelência, é subjetiva. Eu gostar não faz a coisa boa; eu não gostar não faz a coisa ruim. Estamos claros? É de uma arrogância muito grande comportamentos limitados desse tipo, rivalidades imaginárias como essas.

Que tal todo mundo perceber que o que você deixa de fazer pode ser exatamente o que deixa o outro feliz? É pedir demais que as pessoas se foquem naquilo que elas gostam? Acho que seria uma boa.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Em que planeta você vive?

“Não acredito que todas essas bandas foram confirmadas no Planeta Terra. Já tô lá! (nunca ouvir falar de nenhuma)”

Alguém postou isso no Twitter dia desses, antes dos ingressos do festival se esgotarem, e eu ri muito. Resumiu bastante o que eu acho dessa febre toda de um festival com meia dúzia de bandas esgotar os trocentos mil ingressos em poucas horas.

Tem um amigo que chama essas coisas de Nutellas. Vocês lembram quando Nutella era uma coisa muito, muito cara? Todo mundo que tinha experimentado tinha gostado e fim. Aí ficou mais barato e, agora, todo mundo ama Nutella mais que a vida e quer casar com Nutella e ter filhos de Nutella. Nutella é tudo de bom, maravilhoso, melhor coisa do mundo e eu sempre gostei desde criança. É isso que está acontecendo com a música?

Mas ó, sou o primeiro a falar: não sou uma pessoa atualizada. Demoro para ver e ouvir aquilo que todo mundo está vendo e ouvindo agora. Sabe aquele cara vacilão que vem falar do novo CD da banda quando ela já está quase lançando o próximo? Pois é, sou eu.

Por isso, tudo que vou falar aqui agora tem pouca credibilidade, mas eu fico muito intrigado quando anunciam aquelas bandas que eu realmente nunca ouvi falar e geral vem comemorar quase com orgasmos.

(E quando tocam Florence and the Machine na boate? Povo berra a letra como se fosse a última música que vão ouvir na vida. E essa babação em cima da Adele agora? Eu, sempre o último a pegar essas coisas, tinha pensado em falar assim com um amigo: “Sabe a Adele, daquela música 'Chasing Pavements'? Já ouviu o novo CD dela?”. Antes de chegar à quarta palavra da frase fui interrompido por um “Meu deus, ela é maravilhoooooosaaaa!”. Até levei susto. Gente, é boa, mas não é isso tudo, fiquem calmos).

Tem uma safra de novos artistas que eu sei quem são, eu já ouvi ou já ouvi falar. Me passaram os clipes, vi no "SNL", etc. Estou cercado de pessoas antenadas em música e trabalho com isso. Mas sério, vocês realmente amam tanto assim The Vaccines? E Toro Y Moi é mesmo isso tudo? Vocês realmente ouviram algo do Peter Bjorn and John além daquela música do assobio? Poxa, vocês não só estão com tempo como são bem reservados.

Sim, pois antes do line-up do Planeta Terra, por exemplo, ninguém nunca falou de nenhuma dessas pessoas. Nunca me indicaram, nunca me passaram um link, nunca citaram numa conversa. Nunca vi nada a respeito desses artistas vindo da boca das mesmas pessoas que agora estão se matando ali na fila dos ingressos. Estranho, né?

Aquele seu amigo de bigode e de xadrez que acabou de twittar que o show da Sharon Jones foi o melhor do mundo nunca tinha mencionado a mulher antes - mas, claro, sabe todas as referências do último clipe da Lady Gaga e ficou falando mal dele no Twitter a semana passada toda. Talvez eu é que esteja abilolado demais com a minha ideia utópica de que as pessoas deviam falar mais é daquilo que as agrada. Ou é mesmo uma inversão de valores?

Não duvido que as bandas que citei sejam boas (aliás, vou até procurar ouvir tudo delas para entender a melação), mas elas também são só exemplos, não é nada contra elas, tá?

Fiquei pensado se isso era uma continuação daquela veia de pensamento do começo dos anos 2000, do “eu sou mais indie que você” e concluí que não. Afinal, se você quer provar que é alternativo e you've probably never heard of it, não pode se vangloriar de conhecer artista que está vindo pro Brasil, né? Você tem é que citar uma banda underground da Macedônia que nem lançou o primeiro EP ainda. Quem toca em festival já é mainstream demais pra essa galera.

Mas aí eu penso nas últimas coisas que baixei. Adicionadas recentemente no iTunes: Sara Lov, Hunx and His Punx, Cults, Pigeon Detectives, Ultraviolet Sound e Junior Boys. Também nunca mostrei nenhum deles para ninguém. Mas também duvido que fosse saltitar de alegria se algum confirmasse show no Brasil. Então não sei o que concluir. Não sei bem porque o hype alheio me incomoda. Será que é porque não faço parte dele, doutor?

Acho que tudo em excesso é perigoso e isso que presenciei com os ingressos do Planeta Terra é um bom exemplo de como a internet está deixando o povo mais mente fechada que aberta. Está fechando o povo em grupinhos ao invés de colocar as pessoas em contato com coisas diferentes e que façam sentido para elas mesmas. É como se você precisasse conhecer tal e tal coisa para ser cool. Sendo que as tais coisas são sempre novas, nunca um clássico. É sempre a nova do The Killers e não a antiga do U2 – como se fossem super diferentes.

Preguiça. Não preguiça de conhecer essas bandas novas, mas de achar que conhecê-las é o suficiente para alimentar minha cultura musical – especialmente pois há muito, muito mais por aí.

O babacômetro tá chegando num nível alto demais.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Roqueiros de verdade não reclamam

Flashrock: O evento promovido pela Converse reuniu um monte de bandas muito boas (e outras nem tão boas, mas tá valendo) no Lapa Multshow, em Belo Horizonte. O negócio era no Dia do Rock, numa terça, e totalmente de graça. Obviamente, a procura é grande e chegar cedo é pré-requisito para se divertir. Quem não fez isso ficou de fora. Muito, muito ruim, mas não vale reclamar. Você realmente achou que um evento desses – de graça – ia ser vazio, tranquilo, seco, rápido? Quer isso, paga 200 reais em showzinho no Palácio das Artes, espertão. Todo mundo pegando boi e ainda fica de mimimi. Organização e segurança é uma coisa, o som das bandas é outra. E, todos sabemos, um não tem a ver com o outro.

Discutir rock: Pode ser igual discutir religião, livros favoritos, ídolos de longa data. Uma coisa é falar que “o som de tal banda é pesado demais e não me agrada”, outra coisa é falar que “a banda é baranga e que qualquer um faz um som melhor." Essa segunda afirmação é uma polêmica gratuita e, na realidade, uma ofensa. Discutir assim, na verdade, não é discutir. É xingar, simplesmente. Nenhuma música é, de fato, boa ou ruim, pois adjetivos são subjetivos. Músicas te agradam ou não. É muito chato esse povo que adora uma discussão, contanto que ele tenha razão no final. Gente, pode saber, a banda que você mais odeia do fundo do coração tem muitos fãs. Então vamos todo mundo ficar de boa?

SWU: Puta que pariu, esses ingressos são muito baratos, parem de falar o contrário. Estamos em um país pobre, eu sei, mas é só refletir para concluir a mesma coisa. São bandas gringas que vieram de muito, muito longe tocar aqui. Ok, um festival grande, nos Estados Unidos, tem ingressos que custam o equivalente à 80, 90 reais. Mas ó, a meia-entrada do SWU é 120 reais. A diferença é que as bandas não moram aqui e os organizadores pagam aviões, vistos, transportes e hotéis para os membros, empresários, familiares e instrumentos deles. Além do cachê, claro. Viajar pra lá pode ser complicado, para muitos já que o show é em Itu, mas o ingresso sai em 6x no cartão e os shows só rolam lá pra outubro! Yeah!

Post assim, do meio do nada, mas eu fico vendo essas coisas ao redor e me revolto com a falta de noção da galera, com a mente pequena e falta de respeito das pessoas mesmo. E o espírito reclamão do brasileiro? Tô fora.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Aguilera é conceito

MIA, Ladytron, Le Tigre e mais uma penca de gente foi contratada para dar uma nova cara à Christina Aguilera. Supostamente, seria uma trabalho mais alternativo, mais eletrônico e com menos gritinhos – o que faz muito sentido comercial em tempos de Lady Gaga em alta e Mariah Carey em baixa.

Christina Aguilera falha nessa missão em dois momentos: suas baladas seguem como sempre foram e, em 18 faixas, existem dois tracks de introdução muito fracos e pra lá de quatro músicas com letras muito, muito ruins.

Mas o CD é ótimo. Quer dizer, na primeira ouvida não é tão bom quanto o esperado, mas assim que você se acostuma, é só alegria. Ignorando o péssimo primeiro single, “I'm Not Myself Tonight”, o álbum cumpre – mesmo que de forma mínima – a nova embalagem a que se propõe. Sim, pois o núcleo de Christina Aguilera é o mesmo. A prova são as baladas “Lift Me Up”, “I Am”, composta por Sia, e “All I Need”, uma declaração de amor muito bonita ao seu filho.

Por outro lado, as faixas com a tal proposta eletrônica não deixam a desejar na qualidade nem na originalidade. “Bionic”, que dá título ao disco, é ótima. Dessa leva, “Elastic Love” é de longe o destaque, mas “I Hate Boys” e “My Girls”, com participação de Peaches, também são ótimas. Todas têm letras interessantes e bem pouca da gritaria típica de Aguilera – entretanto, nada de auto-tune.

Como é notável, a latinidade e a sexualidade – dois temas muito entrelaçados – também voltam a percorrer canções da loira, que não faz feio ao cantar sobre sexo dentro do casamento em “Sex For Breakfast”, sexo oral em “Woohoo”, sadomasoquismo em “Desnudate” e masturbação em “Vanity”.

Ou seja, não dá para reclamar. Aguilera nunca teve um estilo 100% definido e seus álbuns são conceituais. Esse foi mais um, com um novo conceito. As acusações de ter copiado Lady Gaga são exageradas, tendo em vista que a mesma vive copiando Madonna, que por sua vez copiava David Bowie ou Debbie Harry.

Há espaço para todo mundo e muitas vezes na história da música o lado criativo precisa mesmo apontar para o lado que dá dinheiro. Mas isso nem sempre quer dizer menos qualidade. E Christina prova isso, pegando o que é tendência e mudando de uma maneira que ficasse confortável para ela. A vida é assim.

Para ouvir depois de ler: Bi~ON~iC - Christina Aguilera

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Passou, passou

Estava fazendo uma seleção de músicas que seriam interessantes de tocar em uma festa sobre a década de 1990. Havia muita coisa boa, muita coisa ruim e muita coisa boa-ruim na caixa de som. Nenhuma festa em que o setlist é restrito a algum período de tempo só pode ter música boa. Quando as músicas ruins de um certo tempo tocam, não são para serem apreciadas como composições. São para te trasportarem para um outro tempo, para você ouvir e ter a sensação de estar de novo em algum outro lugar, ouvindo aquela música e fazendo uma outra coisa - beijando alguém que já passou, por exemplo.

Mas o mais curioso foi que minha irmã, agora com 16 anos, passou perto e, sem saber o que eu estava fazendo, disse:

- Por que vocês está ouvindo isso? Essa música é tão velha!

Eu fiquei em silêncio, me perguntando como uma canção de 1999 pode ser considerada velha por ela, que ouve Marvin Gaye e que, recentemente, descobriu os hits oitentistas de Madonna e os sucessos de David Bowie?

Então me ocorreu. Ela ainda não é madura o suficiente para entender, de fato, uma festa de flashback. Mas já sabe, quase instintivamente, que músicas ruins passam e que só as realmente boas merecem ser ouvidas depois de seu tempo.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

"Celebrate good times, c'mon!"

Essa é uma frase da música "Celebration", do grupo Kool & The Gang. Bem apropriada para a coletânea de mesmo nome que Madonna lançou um tempinho atrás.

Todas as músicas que valem a pena ouvir estão aqui? Sim. Muita coisa boa ficou de fora? Claro. Mas é assim mesmo que seria. Na minha opinião, só faltou colocar um pouquinho mais das baladas feitas no meio dos anos 90. As únicas canções que realmente senti falta foram “Human Nature” e “What It Feels Like For A Girl” – especialmente pois a versão do clipe não tem a letra toda e ela é linda.

No meio das outras canções, alguns hits – por maiores que sejam ou tenham sido – se apagam diante de outros. “Everybody” podia ter sido facilmente editada e como assim colocar “Live To Tell” depois de “Take A Bow”? Muito pesado e, ao mesmo tempo, diferente. Mas, sim, os melhores e mais famosos hits estão presentes.

A coletânea vem com duas inéditas: “Celebration” e “Revolver”, sendo que a segunda vem depois de “Erotica”. É possível mesmo que Madonna ache que essas canções estejam no mesmo patamar? E colocá-las no fim do disco, depois de todos os hits, é um baita erro. Já que o CD não vai respeitar a cronologia, melhor colocar as faixas novas na abertura. Elas, que já são fracas, minguam aqui.

Já o DVD duplo é organizado cronologicamente. A melhor maneira, para evitar sustos com cabelos dos anos 80. E é ele que eu recomendo. As maiores surpresas são a inclusão de clipes esquecidos como “Who's That Girl” e os até então proibidões, como “Justify My Love”. Os discos também trazem uma Madonna ruiva por computador em “Hung Up” e uma versão alternativa de “Get Together”. Pena não ter o excelente “American Life”, cortado de todas as versões da coletânea.

Assistindo assim, todos de uma vez, você percebe como os clipes são datados, no sentido de que você assiste e sabe de que época ele é. Interessante ver como Madonna é mesmo uma imensa antena que capta várias referências e tendências, mistura tudo e devolve ao mundo de uma forma única, se tornando por sua vez uma influência e um ícone, lógico.

Muita gente torceu o nariz de “Miles Away” ter entrado nesse DVD, uma simples colcha de retalhos com imagens da última turnê. Mas, como a própria Madonna disse, esse lançamento é para celebrar sua carreira e, ao mesmo tempo, agradecer aos fãs. E é nesse clipe que eles estão mais presentes.

Nenhuma das capas é genial e podiam ser fotos mais atuais, mas os encartes todos são bem bonitos, artísticos e com direito a pôster – e, todo mundo sabe, fãs adoram pôster!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Woody Allen por Caetano Veloso?

Tive notícia de que Woody Allen foi tema de uma entrevista que Caetano Veloso deu para o Correio das Artes, suplemento literário do jornal paraibano A União, que circula há 60 anos.

Muitos discordam, mas Caetano é um ótimo letristas e compositor e é admirável ele estar lançando CD e fazendo show até hoje – a qualidade de tais acontecimentos já é outra história. O negócio é que alguém precisa avisá-lo, com urgência, que ele é um cantor. Pois ele não se satisfaz com isso. Também quer ser sociólogo, antropólogo, filósofo, historiador, ensaísta, teólogo, crítico literário e cinematográfico. Todos queremos e realmente somos tudo isso, mas apenas na mesa do bar. Caetano pode falar abobrinhas para a Rolling Stone e ser lido por milhares de pessoas. Essa é a diferença.

“É um careta, um cineasta pequeno”, declarou o cantor sobre Woody Allen. “Gay, maconha, rock, Bob Dylan, tudo isso é desprezado por ele”. Como se ignorar tais assuntos fosse sinônimo de ser um diretor ruim e como se todos os filmes que abordam tais temas fossem obras primas.

“E muitas das piadas são excelentes. Mas sempre se revela uma visão estreita”. Exatamente o mesmo pensamento pregado pelas pessoas que fazem parte daquele movimento contra música. Elas dizem que uma vez que a letra está gravada, cantar é apenas repetir uma ideia, sendo a música sinônimo de não evolução. Um argumento tão furado quanto a opinião de Caetano. Aliás, esqueça isso. Vamos considerar o argumento como firme e sair em caça de piadas com visão ampla!?

“Allen tem a grande elegância de dar a seus filmes a duração que os filmes tinham quando ele era menino. Talvez isso contribua para para o seu relativo fracasso comercial nos EUA: o público exige supersized movies”. Eu não sei nem por onde começar. O mais recente filme de Woody Allen, “Vicky Cristina Barcelona”, amplamente premiado, tem 1h36 de duração. E arrecadou mais de 23 milhões de dólares. Pouco comparando com algum do bruxo Harry Potter, mas é o dobro do que arrecadou, por exemplo, “A Rosa Púrpura do Cairo” e mais de 10 milhões a mais que “Tiros na Broadway”, de 1994, favorito de Caetano. O sucesso é relativo, mas isso combinado com chamar o cineasta de "pequeno", pode nos levar a concluir que, para Caetano, os bons cineastas são, então, aqueles por trás de líderes de bilheteria e só. Tiro arriscado esse.

Caetano Veloso parece perdido em vários sentidos da palavra. É muito complicado ser vanguardista hoje em dia e, ironicamente, a falta de censura limita artistas de sua geração, eu sei. Mas daí para criar polêmica onde não tem é algo meio estúpido de se fazer. Qualquer pessoa que der uma entrevistinha falando mal de Caetano recebe uma respostinha no blog dele no dia seguinte. Mas Woody Allen? Ah, dele eu vou falar mal pro suplemento de um jornal paraibano.

Há espaço para todos, especialmente no mundo das artes, mas eu não consigo evitar a comparação de como cada um dos dois está lidando com sua carreira no momento, mesmo que em áreas diferentes. Cada um conclui o que quiser, claro, mas para mim Caetano perdeu alguns bons pontos dos pouquíssimos restantes.

Para ouvir depois de ler: Never Smile At A Crocodile - Peter Pan

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Músicas para dias de chuva

Ficamos um tempinho sem luz aqui no trabalho e aí fomos tentar lembrar as melhores músicas que tem como temática a chuva. Eis:

Rain - Madonna
Rain - The Beatles
Purpple Rain - Prince
Singing in the Rain - Gene Kelly
I'm Only Happy When It Rains - Garbage
Rainy Days and Mondays – The Carpenters
Raindrops Keep Falling On My Head - Burt Bacharach


E depois com o sol:

Here Comes The Sun - The Beatles
Good Day Sunshine - The Beatles
Ain't No Sunshine – Jackson 5 / Bill Withers
Let The Sunshine In – (Quem canta?)

Lembra outras?

sábado, 26 de setembro de 2009

O jogo segundo Madonna

"American Life", nono álbum de estúdio da Madonna, é considerado um dos trabalhos mais arriscados dela, no nível artístico e comercial. As músicas são de 2003 e falam de política, religião, família e fama em tempos de George W. Bush invadindo o Iraque e reality shows sobre absolutamente tudo. O CD ganhou boas críticas e os singles até foram bem nas paradas, mas ele não é o favorito de muita gente.

Não é o meu caso.

Por inúmeros motivos, "American Life" é um dos CDs dela que mais gosto. Ele mistura folk e tecno e as letras são as melhores possíveis, ricas e sinceras. Conceitual, o álbum teve produção do franco-afegão Mirwais Ahmadzaï.

Hoje, anos depois de seu lançamento, descobri "The Game", uma canção feita para o álbum e que acabou de fora. Absurdamente linda com uma letra peculiar e que faz bastante sentido para quem já leu alguma coisa sobre espiritualidade, tikun ou Cabala.



You want, I've got
You take, have not
Your loss, my gain
We're all the same

You're in a game but you don't know it
Get in control or you're gonna blow it
Find out his name find out where did it come from
I want to know if he's really got some
Is he really got some?

You have, I lack
We fade to black
Your move, I take
You win, checkmate

We're all sick but we just can't see it
Call it a trick, but we don't want to be it
Try to break through all of your defenses
How would it feel to let go of your senses?

Don't forget to ask him his name
If you knew what I knew, you'd be doing the same
Ambiguity does us no good
I want everything to be understood

terça-feira, 22 de setembro de 2009

O que você precisa, segundo os Beatles

Com seus 13 álbuns relançados com uma mixagem mais trabalhada e clara, voltei a ouvir Beatles sem parar. O quarteto foi, para mim, a introdução ao rock. Quando eu era criança, na minha cabeça, existiam apenas MPB e rock – e rock era coisa de gente má, cabeluda e adoradora do diabo. Obviamente, a minha confusão era grande e foi ouvindo Beatles que percebi isso, fuçando a coleção de vinis e CDs da minha mãe.

Crescer ouvindo Jonh, Paul, George e Ringo foi algo que moldou muito minha personalidade e valores. Afinal, as respostas sobre o sentido da vida estão escondidas nos lugares menos prováveis. E da dúvida mais corriqueira às inquietações filosóficas mais profundas, os Beatles responderam tudo.

E é bem mais fácil digerir as divertidas canções que aprender sobre sephirot, rezar virado pra Meca ou ler noventa versículos contando apenas a genealogia de Matusalém. Aliás, imagina só um CD com o Cid Moreira declamando “Something” ou “I Want You” de maneira grave e pausada? Sensacional.

Como dizer para aquela pessoa que você está apaixonado? Prefira a abordagem discreta, fale baixinho. “Closer, let me whisper in your ear, say the words you long to hear: I’m in love with you”. Quando você brigar com um amigão ou se irritar com sua mãe, lembre-se do trecho de “We Can Work it Out”: “life is very short, and there’s no time for fussing and fighting, my friend”. O verso não podia estar mais coberto de razão.

Pensando no futuro? “When I'm 64”. Está desanimado com a vida? Coloca “Hey Jude”. Terminou o namoro? Que tal “Yesterday”? E, depois de dar adeus à sua garota, se bater aquele vazio, ponha na vitrola “All You Need is Love”. A lição? Não há nada que não possa ser feito se você tiver o que realmente precisa. Ou seja, amor.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Quero ser amigo do Mika

Não sei vocês, mas eu gosto bastante das músicas do Mika. Quando ele surgiu eu torci o nariz e nem procurei saber do que se tratava. Mas resolvi – não faz mais que um mês – dar uma chance e baixei o primeiro álbum dele, “Life In Cartoon Motion”, e me surpreendi bastante. A voz feminina dele combina muito bem com as letras alegres que ele escreve.

Ele acaba de lançar seu novo single, “We Are Golden”, e eu estou doido para o CD novo dele sair logo. E ele também está. Afinal, desembolsar 25 mil libras em um bar não é uma coisa que a gente faz todo dia!

Mas, calma. Ele não bebeu tudo sozinho. Ele fez um convite a seus fãs pelo Twitter. “Festa hoje à noite no bar Ground Floor, na Portobello Road, 186. Bebidas são por minha conta. Vejo vocês lá. É sério, não estou brincando”. Eu iria e, claro, a galera foi! Mais de 300 pessoas atenderam ao convite e todo mundo ganhou um pint, que é aquele copo padrão de cerveja, com 570 ml, do cantor.

Achei fofo!

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Who the fuck is Lady GaGa?

É inevitável comentar, mas pouca gente ousou fazer apostas. Então, aí vai a minha: Lady GaGa, o mais recente fenômeno da música pop, não quer só seus 15 minutos de fama. Essa moça ainda vai dar mais o que falar.

Um tempo atrás, Kanye West disse que ela era a nova Madonna. A moça não teve a infância complicada da atual cinquentona, frequentou a escola particular de um convento, aprendeu a tocar piano com 17 anos e estudou música na Universidade de Artes de Nova York.

Ok, mas o que faz Lady GaGa especial? Como muitos, ela apareceu do nada com um hit chiclete, mas a diferença é que a loira não parece ter cafetões. Podem dizer que ela é só mais um produto da mídia, mas não sei se é bem por aí. E tem mais: as referências dela, que vão de David Bowie a Queen. Do cantor ela pegou o visual e o dom de fazer canções com a sonoridade que eu chamo de diferente/familiar, e da banda seu nome artístico – uma citação à canção “Radio GaGa”, de 1983.

A loira acaba de lançar clipe para a música “Paparazzi”, que mistura uma letra de amor com referências a groupies, stalkers e fotógrafos. A canção faz parte de seu álbum de estréia, “The Fame”. O vídeo tem uma historinha com direito a Lady GaGa andando de cadeira de rodas, notas de dinheiro com a cara dela e coreografias tão malucas quanto os figurinos.

E foi ele que me motivou a escrever esse texto. O clipe tem 7 minutos. Alguém tem que concordar que isso é um feito. Principalmente em tempos onde podemos baixar toda a discografia dos Beatles de graça e em minutos, e que a maioria das pessoas só assiste clipes em uma telinha de YouTube.

Dividindo a cena com GaGa está o ator sueco Alexander Skarsgård, da série “True Blood”. A direção ficou com Jonas Äkerlund, que já dirigiu clipes de Moby, Prodigy, Metallica e Cristina Aguilera. Será que vamos voltar à era dos vídeos que são mega produções, como bem fazia Michael Jackson?

Claro que não é nada espetacularmente bom. As letras não são profundas, nem nada assim. Mas essa não é a idéia e, dentro da proposta que ela quer, ela vai bem e faz tudo muito certo. Só sei que diziam que Britney Spears seria a nova Madonna e não deu. Acho que GaGa pode ocupar o posto. Mas é segredo esse palpite. Apesar de tudo, ainda é muito cedo para falar. O que não pode de jeito nenhum é começar a ser repetitiva. Gagueira não tem graça.

Para ouvir depois de ler: Paparazzi - Lady GaGa

domingo, 10 de maio de 2009

Ninguém ri de Deus

Regina Spektor, cantora/pianista que eu amo, acabou de lançar o primeiro single de seu novo CD, chamado “Far”. A música é “Laughing With”, que fala sobre um tema um tanto quanto amplo: Deus.

Ela canta lindamente sobre como a gente age diferente sobre o assunto de acordo com o lugar que estamos. Deus pode ser engraçado em piadas sobre céu ou quando é representado por mágicos ou quando atende pedidos como um gênio da lâmpada.

Mas Deus não é isso, é?

Ninguém ri de Deus no hospital, na guerra, quando está com fome ou frio. É sobre isso a canção. E isso foi uma coisa muito bonita de se ouvir hoje. É complicado manter a fé no meio de um mundo complicado e sem sentido. Mas quanto mais eu reflito sobre o assunto, mais sentido eu vejo nas coisas.

A energia do universo é quase matemática, o que faz com que muita gente não acredite em Deus. Mas tudo bem. Eu também não acredito. Não naquele sentido de um ser onipotente, provavelmente um velho barbado de manta branca ou que é a cara do Morgan Freeman. Deus está em todos, é nossa alma, é toda a energia que tocamos.

Você pode encher os pulmões de ar e declarar a meio mundo que Deus é uma ilusão, uma bobagem ou um delírio. Mas eu pago pra ver você repetir a mesma frase ao lado do leito de morte de uma pessoa que você ama.

Para ouvir depois de ler: Laughing With – Regina Spektor

quarta-feira, 29 de abril de 2009

"Like A Prayer" tem 20 anos

Onde você estava no outono de 1989? Talvez você não se lembre. Mas se fizermos essa pergunta para Madonna a resposta vai vir rapidinho: ela estava lançando o álbum “Like A Prayer”, até hoje considerado um de seus melhores.

Fiz uma matéria sobre ele pro Portal Mundo Oi. Leia aqui!


terça-feira, 3 de março de 2009

Os 11 anos de Ray of Light

O álbum “Ray of Light” comemora mais um ano de vida hoje e já é mocinha, soprando 11 velinhas. E não acho que é necessário dizer como eu gosto dele, afinal, um elemento da capa está tatuado no meu ombro. Mas acontece que este ainda é meu CD favorito de Madonna.

Lançado em 1998, Madonna, logo ela, vai na contramão do pop chiclete de boybands e cantoras teens da época e aposta em uma sonoridade completamente diferente e canções com temas delicados. A pegada eletrônica transformava qualquer barulinho em ritmo e formava camadas que cobriam bases acústicas formando boas músicas que iam do mid-tempo ao dance.

Com a voz trabalhada depois do musical “Evita”, a cantora alcança notas mais altas e se mostra muita mais versátil, entoando mantras e apresentando músicas que tinham tanto gritos quanto cochichos. Madonna tinha dado à luz sua primeira filha e para recuperar a forma começou a fazer yoga. Cheia de perguntas sobre o universo – afinal, ter um filho é explicar para ele o sentido da vida e isso não é algo fácil de fazer se nem você o entende – ela começou seus estudos de Cabala. E está tudo lá, nas letras dessas músicas que para mim, em resumo, conceituavam o que era maturidade.

Madonna se revela solitária na faixa de abertura, “Drowned World”, e medrosa em “Mer Girl”, última canção do disco que é, na verdade, um poema sobre a morte de sua mãe, simplesmente recitado. Fala sobre orgasmos em “Candy Perfume Girl”. Reflete sobre violência e otimismo em faixas como “Swim” e “Sky Fits Heaven”. Já em canções como "Skin", "To Have and Not to Hold" e "The Power of Good Bye" fala sobre relacionamentos e perdas - e as duas últimas apresentam melodias que lembram Astrud Gilberto. Fala da maternidade em “Little Star”, claro, e ainda canta na língua sagrada da Índia, o sânscrito, na faixa “Shanti/Ashtangi”.

Ela teve a manha de escolher William Orbit e Patrick Leonard como produtores. Dois caras incrivelmente criativos e com propriedade para o que ela queria. O primeiro na experimentação eletrônica e o segundo nas letras (ele também escreveu “Like a Prayer”, por exemplo).

Na época que o álbum alcançou minhas mãos (ou seria o contrário?) eu estava em uma fase muito peculiar. Eu já tinha começado a ler sobre Cabala, mas era um CD muito cheio de poesias e extremamente tocante – especialmente se ouvido com fones – e vi como era necessário ir mais fundo. Comecei a fazer yoga e análise e, tendo “Ray of Light” como marco inicial, minha vida mudou completamente. Ninguém pode medir isso.

Com a incrível marca das 15 milhões de cópias vendidas e 4 Grammys, o álbum teve bons clipes, com destaque para o melancólico "Frozen", o agitado “Ray of Light” e o artístico “Nothing Really Matters”, com uma releitura das duas personagens principais do livro “Memórias de uma Gueixa”, de Arthur Golden.

E é por isso tudo que ele continua sendo meu favorito.

Ah, o desenho da capa é o símbolo de uma árvore. Trata-se de um ícone de equilíbrio entre o mundo espiritual (galhos) e o material (raízes).

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Eu vi Alanis Morissette



Tudo bem, eu sei que Belo Horizonte não entrou para o eixo dos grandes shows e que a vinda de Alanis Morissette ao Brasil – especialmente à Belo Horizonte – tem mais a ver com lucrar o que o CD não conseguiu e, por consequência, estimular a venda de CDs. Afinal, depois da explosão do álbum “Jagged Little Pill” (1995), que superou as 30 milhões de cópias, a saída dos discos tem diminuído. Tudo absolutamente normal, a venda de todo mundo no mundo da música caiu com a internet e downloads e pirataria e tudo. Mas ela nunca parou de produzir e, apesar da crítica torcer o nariz para algumas coisas, ela nunca deixou de lado a melhor coisa de sua música. Aquele elemento sem nome que mistura particular e universal. E por isso eu nunca deixei de acompanhar Alanis, que está até tatuada no meu braço.

No show, pude ver que aquela suposta raiva do começo da carreira não existe mais. Depois de um momento tenso para colocar minha irmã para dentro do Chevrolet Hall (ela tem 14 anos e a censura era de 16), notei que ela era a pessoa mais nova ali. Afinal, Alanis deixou de ser a porta-voz de meninas em crise existencial pré-adolescente.

Como nas outras apresentações da turnê, a banda entra primeiro tocando a primeria parte de "The Couch", que é uma música complexa, cheia de palavras complicadas e sem refrão. Alanis canta, mas ainda não está no palco. Quando ela aparece começa “Uninvited”, uma bela canção que foi trilha do filme “Cidade dos Anjos”. Ela está vestida de preto e a platéia grita de uma forma ensurdecedora. Com razão! Os músicos são ótimos e, no instrumental final da música, Alanis balança a cabeça e roda pelo palco, praticamente em transe. Enquanto eu estava praticamente em estado de choque.

Depois começa “Versions Of violence” uma música sinistra do mais recente álbum de inéditas, chamado “Flavors Of Entanglement”. É uma música que ficou ainda mais pesada sem a camada eletrônica apresentada no disco e, assim, a platéia se sentiu ainda mais convidada a gritar bem alto.

Daqui, Alanis volta no tempo e vai direto para a faixa 1 do CD que lhe revelou. Ela toca gaita em “All I Really Want”, que ainda é uma das minhas favoritas. Eu pulo de mãos dadas com minha irmã e não lembro de ter gritado tão alto em nenhum outro show. Estamos num lugar ótimo. Deus abençoe Bruno, meu amigo que chegou mais cedo e pegou lugar na fila. Estamos um pouco mais à direita do palco, calculo que há uns cinco ou seis metros dele.

Chega a segunda parte de “The Couch” e é admirável a quantidade de gente que sabe a letra. Ela é tão complicada e antiga, que acho que a própria cantora se surpreendeu. A banda começa a contorcer o fundo e uma nova música aparece. Dá pra ver a interrogação no olhar das pessoas ao redor, até que “Not The Doctor” se revela. Eu sabia que ela estava na lista, mas é inegável que foi um bom presente. Ela foi cantanda poucas vezes em turnês e me senti feliz por ter ouvido ao vivo uma música tão importante para mim.

Aí começa “Not As We”, uma das músicas novas, também muito carregada emocionalmente. É uma balada tão triste, que dói. Nessa hora a baranga do meu lado subiu no ombro de um amigo para levantar uma faixa que dizia algo como “Alanis, posso te dar meu livro de poesia de presente?”. Não me importei com a grosseria do ato pois ele me permitiu chegar um pouco mais pra frente. Trata-se de uma música intíma e Alanis fez questão de não ver o cartaz. Bem feito.

Depois de tanta melancolia, que tal dançarmos um pouco? Começa a gostosa “Head Over Feet”, que tem uma letra das mais doces e simples. Trata-se de nada mais que uma declaração de amor. Clássico. Todo mundo canta junto. De volta à escuridão, chega a terceira e última parte de “The Couch”, que agora tem um tom um pouco mais animado que a versão original. Depois temos “Sympathetic Character”, que é uma das músicas que mais me tocaram no segundo álbum dela. É bem pesada e triste, e me permite gritar bastante.

Depois vem “Flinch”, que podia ter ficado de fora. É uma canção especial, mas é tão pesada quanto “Not As We” e ela devia ter escolhido uma das duas para o show e não ambas. Sem contar que ela é longa e, se estivesse fora, permitiria que outras duas entrassem. Enfim, a mulher já tá lá cantando, não é? Tratei de não pensar nisso e aproveitar a canção.

“Moratorium” começa. Caralho! Essa música faz muito sentido para mim neste momento da minha vida e, no palco, não havia uma camada eletrônica tão pesada quando a que o produtor Guy Sigsworth colocou no CD – ela já produziu Nelly Furtado, Björk e Madonna. Assim, a letra chama bem mais atenção e, enquanto ela faz refletir, também podemos dançar um pouco. Foi realmente inspiradora essa parte do show.

Lembro de ter virado para minha irmã e dito “Nossa, quando tocar 'You Oughta Know', neguinho vai morrer”. Eu fechei a boca e adivinha qual música começou? E sim, neguinho morreu. A galera pulava muito e gritava tanto que quase não dava pra ouvir Alanis. É a música definitiva e todos já passaram por uma traição – assunto que é abordado na faixa. Logo depois começa “Tapes”, mais calma, mas com uma temática parecida, auto-sabotagem. Linda performance de uma das minhas músicas favoritas do novo CD. Ela sai do palco e a produção arruma o espaço para a parte acústica do show.

E ela segue com o clássico “Hand In My Pocket”, que animou demais o pessoal. Alanis ficou sentada, mas essa canção tem praticamente uma coreografia: ela diz “hi-five” e a platéia faz um, ela diz “peace sign” e o mesmo acontece. Uma gracinha de música. Foi um show tão bom que estou sentindo esse texto ficar redundante.

Durante todo o show não existe muito efeito visual. O fundo do palco tem um desenho meio feio de uma grande árvore com galhos secos no pôr do sol, e Alanis, meio curvada, de perfil e com uma borboleta (ou flor?) acima da cabeça. Os telões do Chevrolet não foram ligados a pedido da produção da artista.

Ela segue o set acústico e dedica “Everything” para as pessoas sensíveis. No meio da canção vejo que minha irmã faz parte do grupo: Ela canta com a cabeça para cima e de olhos fechados, com as mãos no ar. A leve maquiagem está borrada de lágrimas. Ver aquilo me deu arrepios, achei muito lindo.

Vamos dançar de novo? Alanis já começa “So Pure” no ânimo da canção, que fala, basicamente sobre dançar. Não é bem um lado B, mas é considerada rara de se ver ao vivo. E, olha só, está no set da turnê que eu vi. Que beleza! Fim da canção, fim do show. Claro que ninguém da platéia se moveu.

Depois de sair do palco, ela volta com "You Learn", linda canção que contém a frase de minha próxima tatuagem. É, novamente, um grande momento. Impossível ficar melhor? Que nada. Mal termina e ela já segue com "Ironic". A platéia canta junto tão alto que ela desiste de cantar a primeira estrofe e estica o microfone, fazendo menção à platéia, que corresponde com a letra na ponta da língua. Abençoada seja a construtora ruim do Chevrolet Hall, que fez a arquibancada no lado direito do palco ser mais perto dele que a da esquerda. Assim, Alanis passou muito mais tempo deste lado – para minha alegria e para a do pessoal ao redor, claro.

Alanis se vai novamente. Ninguém mexe e ela volta para terminar o show agradecendo em forma de canção, com "Thank U", e dedica a música ao público (igual fez em Salvador). Depois, aparece uma luz no fundo onde lemos “thanks” e ela sai dali definitivamente. A banda é ovacionada e as luzes se acendem.

Meu corpo inteiro dói agora. Minha blusa está transparente de tanto que suei e eu faria tudo de novo. Aliás, se for pra mudar algo, daria um jeito de chegar ainda mais cedo.

Perfeito.

domingo, 25 de janeiro de 2009

- Oi, Eric Clapton

Sabe quando, sem nenhum motivo especial, alguém te presenteia com uma coletânea de um cantor que você não conhece direito? Aí você vai ouvindo e, aos poucos, conhecendo a obra completa e acaba gostando. Melhor foi o presente que ganhei de minha mãe: a autobiografia de Eric Clapton.

Antes do livro eu conhecia o que? Acho que nada além de “Layla” e de todas as participações dele em shows beneficentes ou em memória de alguém. E ler sobre o processo criativo e os bastidores de músicas que você não conhece é igualmente fascinante, talvez melhor do que se eu conhecesse. Depois eu vou lá, procuro uma canção ou um álbum e ele soa mais inédito ainda para mim.

Mas, apesar de Eric ser uma lenda viva da música, essa não foi a parte que mais me chamou atenção no livro.

Eu chorei de rir quando Clapton descreveu seu primeiro porre, que rolou em um evento de música: “Chegamos lá no sábado de manhã e planejávamos ficar até domingo à noite. Decidimos ir ao pub para almoçar antes de chegar ao festival. A última coisa que me lembro daquele dia é estar dançando em cima de uma das mesas com um cara que nunca tinha visto na vida. (...) Eu tinha ido com alguns amigos, com a intenção de acampar no bosque perto do festival e, quando dei por mim, estava acordando de manhã sozinho, no meio do nada. Não tinha dinheiro, tinha me cagado, tinha me mijado, tinha me vomitado todo e não tinha idéia de onde estava. (...) Fiquei imensamente desiludido com meus amigos, chocado por terem me deixado naquela situação, sozinho e sem nenhum dinheiro, mas a coisa realmente insana era que mal podia esperar para fazer tudo de novo”. O começo de uma amizade bem duradoura com o álcool.

O que mais me impressionou foi a quantidade de drogas que Clapton usava. Ele descreve umas coisas realmente insanas, como tomar soníferos e manter-se acordado à base de cocaína curtindo o efeito da mistura, de como o pó que ele usava era incrivelmente forte já que feito por um amigo que estudava química, de como ele preferia cheirar heroína (e não injetar, pois ele tem medo de agulhas). Em um ponto da vida (dentro de uma fase que ele dá o título de “Anos Perdidos”), ele estava sempre chapado, e o vício nasceu sem que ele notasse. Ele percebeu que estava viciado quando viu que ia ter que dirigir 300 quilômetros e era melhor estar sóbrio para cair na estrada com o Ferrari.

“Lembro das primeiras 24 horas de abstinência como inferno absoluto. Foi como se eu estivesse envenenado. Cada nervo e cada músculo do meu corpo entrou em espasmos de cãimbra, me enrosquei em posição fetal e uivava de agonia. Jamais tinha sentido dor como aquela, nem quando era garoto e tive escarlatina [doença infecciosa que afeta a língua, a garganta e toda a pele, que sofre alterações como descamação, vermelhidão e coceira]. Não havia comparação. Levou três dias inteiros, sem nenhum fiapo de sono nesse tempo. E o pior é que estar limpo da droga era uma sensação horrível. Minha pele parecia em carne viva, meus nervos estavam todos em sobressalto e eu mal podia esperar para usá-la de novo.”

Depois de uma clínica de reabilitação, Eric ficou melhor, mas começou a abusar do álcool, geralmente e equivocadamente tratado como uma droga mais branda. Ele trocou de vícios. Aterrorizante.

Se ele está vivo agora e still can rock, é quase um milagre. E apesar de toda essas aventuras serem, digamos, normais para a época - e especialmente para uma estrela do rock -, é assustador ler sobre o assunto na primeira pessoa. Não é segredo que eu guardo uma espécie de desprezo (ou rancor?) por pessoas que usam drogas. E lendo a autobiografia de Clapton isso veio novamente à mente.

Um querido amigo que já teve uma fase junkie das pesadas me contou algo que tem muito a ver com minha opinião sobre o assunto. Uma terceira pessoa disse: “Como você quer que alguém se interesse por você e te ame e te respeite se você não faz isso com você mesmo?”. Drogas são uma agressão física e espiritual e quem não vê assim é porque já está envolvido demais na coisa - e estar envolvido nem sempre quer dizer usar ou vender.

Costumo dizer que cheirar pó é coisa de rock star. Se você tem uma vidinha 9 to 5, existem inúmeros baratos mais legais que o que drogas podem causar. Ouvir Eric Clapton, por exemplo.

Para ouvir depois de ler: I Shot The Sheriff – Eric Clapton

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Eu vi a Madonna

Como praticamente todos ao meu redor, você deve saber que passei o último final de semana em São Paulo e que fui para assistir ao show de Madonna. Rapaz, foi genial.



Não é um show, é um espetáculo. A música, as roupas, as danças e as projeções no telão se casam muito bem e fazem que cada música tenha uma vibração totalmente única. Sem contar que Madonna é um ícone e ver qualquer ícone de perto causa um nervosismo incrível. E, desculpem os invejosos, mas ela está no mesmo patamar que Elvis, Frank Sinatra e Beatles quando o assunto é ser a porta voz de uma geração.

Os preços não permitiam, mas se você colocasse alguém que não curte Madonna na platéia, a pessoa ia curtir. Não há como não curtir a apresentação. Não é uma banda de rock, onde o show pode ter improvisos e os integrantes podem subir ao palco chapados. Aqui, há muito ensaio e praticamente nada foge do script. Mas, ao invés de deixar a apresentação ruim, isso faz dela perfeita. É quase uma instalação de arte.

Quase não acredito que posso cortar Madonna daquela lista mental secreta de shows que precisamos assistir antes de morrer. E nem creio que em 2009 vai ter Alanis Morissette aqui em Belo Horizonte. Terminei o ano com uma chave de ouro e começo o próximo com outra.

Quer muitos detalhes do show? Clique aqui!

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Geração anos 90

Fiz aniversário há um tempo e tenho refletido sobre o peso da idade. E, confesso, ainda está leve. Sabe, 21 anos é muito e é tão pouco.

Nasci em 1987. Ano que o Nirvana foi fundado. Vi Collor na TV, sem entender direito quem ele era. Comprei vinil da "TV Colosso" e nunca me derem nenhuma mesada antes do Real. Cresci em silêncio, roubando os discos dos Beatles da minha mãe, indo pra escola de all stars, penteando o cabelo de lado e lendo Mark Twain no ônibus. Só bebia refrigerante às vezes. E a garrafa tamanho família tinha só 1 litro!

Ensinei minha mãe a jogar "Prince of Persia" em um computador de tela preto e branca. Passava sábados inteiros jogando "Mario World". Eu tinha um canivete do MacGyver. Aprendi a falar inglês sozinho, vendo filmes legendados desde quando aprendi a ler. Vi "Titanic" e os primeiros filmes da Pixar no cinema. Fazia amigo oculto no Natal com a família. Tinha bonecos dos Power Rangers que viravam a cabeça.

Nunca vou esquecer a primeira vez que comi uma pipoca de microondas, a primeira vez que andei de avião, o primeiro CD que comprei, a primeira vez que tive coragem de levar meu discman para a escola. Das vezes que matei aula simplesmente para andar, que ri até minha barriga doer com certos amigos, das vezes que fui parar na diretoria (foram poucas, mas foram punks).

Pensa bem. Se deu pra me divertir tanto até agora, imagine no resto da minha vida! Quando as coisas ficaram tão complicadas?

Para ouvir depois de ler: Say You'll Be There - Spice Girls