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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

C'est la vie

Lá quando eu tinha 18 anos eu me apaixonei (não no sentido romântico) pela amiga de um amigo. Ela era linda e estava sempre muito bem vestida e perfumada. A gente sentava junto em um restaurante e enquanto eu procurava a cerveja mais barata do cardápio, ela pedia manhattans e outros drinks que eu não conhecia ainda.

Nos cafés de Belo Horizonte, ela falava com desenvoltura sobre autores que eu não conhecia ou que tinha lido um livrinho apenas. As piadas mais inteligentes eram as dela. Os assuntos mais interessantes eram os dela. Ela me falava sobre suas idas à Paris, como gostava muito e conhecia bem aquele lugar. Lembro de me sentir tímido perto dela, um reflexo da minha ignorância.

O tempo passou, nos distanciamos e ficou bem claro que a gente só conversava por causa do amigo em comum. Tudo bem, sem problema, c'est la vie. E essa distância (escondida no "contato" apenas via redes sociais) se revelou extremamente interessante: todo aquele charme que eu via realmente estava lá, mas não era o resultado de uma busca genuína por conhecimento ou cultura. Ela não passava de uma herdeira. O ritmo em que ela devorava livros e música francesa era proporcional ao tempo que tinha disponível por não precisar trabalhar.

(Antes de qualquer coisa, eu admito que identifico em mim uma ponta de inveja aqui. A falta de tempo e dinheiro me priva de várias coisas e ver gente com isso em abundância me revolta um pouco. Mas que bom pra ela! Quero dizer, tem muita gente que prefere usar essas horas para fazer coisas idiotas - e ler autores russos está bem longe de ser uma perda de tempo -, então é louvável que seu ócio tenha sido usado com esse fim, não é essa minha questão)

Mas não consigo parar de enxergar dessa maneira: ela era (na verdade, ainda ainda é) só uma pessoa com tempo, nada mais do que isso. E tempo, ainda mais quando existe dinheiro, transforma todo mundo naquilo que a pessoa quiser ser. Ela é realmente inteligente, mas como ela ficaria sem os perfumes caros, as roupas sempre novas, sem "Monty Phyton"? Sem o tempo para as duas faculdades, as aulas de gastronomia, de francês, italiano e inglês? Deus, como seria ela sem uma empregada doméstica em casa? Não sei, mas seria uma outra pessoa, imagino.

Esse é meu ponto: essa pessoa teria bom gosto se ela não pudesse sustentar o bom gosto? Tudo que ela tinha conquistado (materialmente e intelectualmente) foi, na verdade, oferecido para ela de alguma forma.

Existe muita inteligência adormecida por aí, gente interessada que não consegue correr atrás - pois o ponto de partida rumo àquela inteligência é diferente pra cada pessoa e depende bastante do contexto dela; quase mais do que de sua vontade. Ao mesmo tempo, há quem não queira gastar energia. Eu disse que o que ela tinha conquistado lhe foi, na verdade, oferecido. Mas ela teve a opção de não aceitar. Então o mérito é dela sim. Uma outra amiga sonhava em trabalhar com cinema e animação, e hoje está estudando isso no exterior. Não é só porque ela quer, é porque ela pode. Mas não é conto de fadas, ela precisa ralar, tirar ótimas notas etc. Enquanto isso, tenho um outro conhecido cujos pais não fizeram faculdade e depois de muita economia e luta, puderam oferecer isso ao garoto. Mas ele não quis.

Sempre falava com minha terapeuta quando reclamava da vida: "O problema não é o que eu sou, é o que eu queria ser". Nunca me dou por satisfeito pois eu quero ler mais coisas, ver mais coisas, conhecer mais gente, mais lugares. E quando percebo gente assim, navegando com graça no oceano do tudo-na-mão, fico me perguntando se nossos sonhos para o futuro são (ou deviam ser) proporcionais ao nosso passado. Se os meus fossem, acho que me frustaria menos.

C'est la vie.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

O que eu aprendi com o Linux

Ou "Anedotas do Windows"

Já reparou que no Brasil até nome de coisa tecnológica é terceiro mundista? A galera no Maranhão tem projetos espaciais super legais, mas nada pode chamar Apollo, Starsix, Cybertud; tem que chamar Arara Azul, Saci Perêre, Aimoré. É assim que me sentia no Linux, no fim do mundo.

Confesso que quando a empresa resolveu trocar o sistema operacional de todos os computadores, tremi. Fui enrolando, trocando de lugar para ser o último da fila mas não teve jeito. Foram lá, me tiraram o Windows e instalaram uma coisa muita da maluca chamada Linux. Tudo é diferente no Linux. Não é Word, é BR Office, por exemplo. Sempre tenho preconceito com nomes assim.

É código aberto, é copyleft, é coisa e tal. Tudo bem, seus nerds, eu sei. Mas e daí? A barra de ferramentas está no lugar errado, tudo parece pesado e é laranja e que porra de pássaro esquisito é esse no papel de parede? Com o tempo, fui mudando o que podia ser mudado e me adaptando com o que não podia. Superei os nomes estranhos, os programas genéricos e ia me adaptando bem a eles.

Alguns dias atrás, veio a notícia:

- Gabriel, você deve deixar o Linux para trás. Ele não mais faz parte do seu trabalho. Eu sou seu pai.

Ok, tirando a parte da paternidade, a frase está certa. Voltaríamos ao Windows. Deixaria o Linux para trás, depois de tantos protestos abafados há mais de um ano. Por fora, ora comemorava, ora me fazia de desinteressado mas, por dentro, não queria voltar.

Não fui eu quem se adaptou ao Linux. O sistema operacional, outrora chamado de genérico, é que se adaptou às minhas necessidades. Mas voltar para o Windows, tudo bem, não seria o fim do mundo. Passada uma hora, enquanto eu recolocava pastas e favoritos no lugar, o Windows travou. Seria o primeiro – do já esquecido de tão inútil – control + alt + delete em anos. Algumas horas depois, vi que um documento importante havia sumido; culpa do Windows. Fiquei puto, mas o incidente gerou algumas piadas ao redor; risos dos não-afetados pelo problema.

Então elaborei uma teoria e, digamos, aprendi a lição. O Linux é o competente modelo. Não faz mais do que a obrigação de funcionar bem. Por isso mesmo, é pouco lembrado e pouco valorizado por aqueles que nunca interagiram com ele. Já o Windows, que dá erro pra caramba, é super conhecido, o piadista folgado, que faz o mesmo trabalho. Mas faz com um layout mais bonitinho e moderninho, de uma maneira menos estressada, chamando atenção e ganhando notoriedade.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Stay hungry, stay foolish

Steve Jobs fez um belo discurso na Universidade de Stanford em 2005 que só tive oportunidade de assistir hoje. Apesar das muitas pérolas de seu texto, os últimos parágrafos me chamaram mais atenção pois têm a ver com o que estou pensando nos últimos dias. Abaixo há o discurso completo e legendado, mas coloquei aqui também a transcrição da parte citada.





“Mais ou menos um anos atrás, fui diagnosticado com câncer. Eu vivi com esse diagnóstico o dia todo. No fim do dia, eu fiz uma biopsia, onde eles enfiaram um endoscópio pela garganta, através do meu estômago até meu intestino, colocam uma agulha no meu pâncreas e tiram algumas células do meu tumor. Eu estava sedado, mas minha esposa, que estava lá, me disse que quando viram as células sob um microscópio, os médicos começaram a chorar. Tratava-se de uma forma muito rara de câncer pancreático que é curável com cirurgia. Eu fiz a cirurgia e estou bem agora.

Isso foi o mais próximo que cheguei de encarar a morte, e espero que tenha sido o mais próximo por mais algumas décadas. Tendo passado por isso, eu posso dizer isso a vocês agora com um pouco mais de certeza do que quando a morte era útil, mas puramente um conceito intelectual: ninguém quer morrer.

Mesmo as pessoas que querem ir para o céu não querem morrer para chegar lá! E, mesmo assim, a morte é um destino que todos compartilhamos. Ninguém nunca escapou dela. E é assim mesmo que tem que ser, porque a morte é provavelmente a melhor invenção da vida. É o agente de mudança da vida. Ela limpa o velho para abrir caminho para o novo. Agora, o novo são vocês mas, algum dia, não muito longe de agora, vocês gradualmente se tornarão o antigo e serão limpados fora. Desculpe ser tão dramático, mas é a verdade.

Seu tempo é limitado, então não o desperdice vivendo a vida dos outros. Não seja amarrado por dogma – que é viver com os resultados dos pensamentos de outras pessoas. Não deixe o barulho da opinião dos outros afogar sua própria voz interior. E, mais importante, tenha a coragem de seguir seu coração e intuição. De alguma forma, eles já sabem o que você verdadeiramente quer se tornar. Todo o resto é secundário.

Quando eu era jovem, havia uma publicação incrível chamada “The Whole Earth Catalog”, que foi uma das bíblias da minha geração. Foi criado por um colega chamado Stewart Brand, não muito longe daqui, em Menlo Park, e ele trouxe isso à vida com seu toque poético. Isso foi no fim dos anos 60, antes dos PCs e ferramentas de editoração, então foi tudo feito com máquina de escrever, tesoura e câmeras polaroid. (…) Quando chegou ao fim, eles lançaram uma edição final. Era no meio dos anos 70 e eu tinha a idade de vocês. Na contra capa havia uma fotografia de uma rua de campo de manhã cedo, do tipo onde vocês se encontraria pedindo carona. Na parte de baixo estavam as palavras: “Mantenha-se com fome. Mantenham-se tolo.” Foi a mensagem de despedida deles quando estavam se desligando. Mantenham-se com fome. Mantenham-se tolos. E eu sempre desejei isso para mim mesmo. E agora, como vocês estão se graduando para começar o novo, eu desejo isso para vocês. Mantenham-se com fome. Mantenham-se tolos.”

Fome de vida, sede de descobrir, humildade para procurar, ingenuidade para saber ouvir. Eis meu 2011, amém.

Para ouvir depois de ler: Teenage Dream - T.Rex

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Viu essa bagunça da "Men's Health"?


A edição de dezembro da revista de boa forma "Men’s Health" traz nada menos que seis chamadas de capa exatamente iguais às publicadas há dois anos, em outubro de 2007. Pelo visto, metade dos destaques da revista atual contém o mesmo texto da edição lançada há dois anos, incluindo as exatas 1.293 dicas para comer melhor.

Na capa atual, o ator sensação Taylor Lautner, do longa-metragem "Lua Nova", já na antiga, o fodão do Jason Stathem, de filmes como "Carga Explosiva", "Revólver" e "Snatch".

O diretor de redação, David Zinczenko, disse (aqui) que a repetição das chamadas faz parte de uma estratégia da marca: "Foi proposital, trata-se de uma ação conjunta dos nossos títulos", e, logo depois, afirmou que os assinantes receberam a publicação com uma capa diferente.

Bom, proposital a gente já sabia, pois ninguém consegue fazer isso aí sem querer, né? O Gawkor, blog onde eu li a declaração do cara, não caiu na balela e termina o texto pedindo novas explicações do editor e ainda zombando: "Faremos uma nova matéria e uma nova manchete para elas".

Casos como o do "KLB é homenageado pela ONU" (lembra disso?) são corriqueiros na era da internet. Uma revista copiar outra, a gente sempre vê. Não que esse pessoal esteja certo - aliás, pelo contrário - mas é bem comum. Agora, você confiaria em uma revista que republica matérias dela mesma? Essa é a pergunta rondando a ação da "Men's Health".

Vamos lá: são textos sobre saúde, muitos são frios, nada deve ter mudado. Por isso, acho bem válido republicar matérias ocasionalmente. Mas colocar mais de uma republicação num único número, todas da mesma edição antiga, e ainda com as chamadas idênticas e no mesmo lugar da capa já é desaforo demais, não? Sem contar a falta de respeito com o leitor.

Não foi a toa que a imprensa americana não engoliu a desculpa do editor e classificou a duplicação como nada mais que preguiça e descuido. É o famoso caso do "ah, ninguém vai perceber". Mas se tem uma coisa que a web mostrou pra gente foi exatamente isso. Sempre tem alguém que percebe.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

O que esse povo pensa do futuro?

A chamada geração Y, que nasceu nos anos 1980, chegou ao mercado de trabalho. Mais do que esperado, isso gera um enorme choque. De um lado, empresas tradicionais e absolutamente hierárquicas, de outro, recém formados com planos de carreira almejando uma chefia até, no máximo, seus 27 anos. A crise mudou um pouco essa visão dos jovens, mas as empresas estão falhando na adaptação. É equivocado generalizar? Talvez. Mas vamos ignorar isso e seguir e você vai ver onde eu quero chegar.

O que acontece, e aposto que gente como Marcelo Tas me apoiaria nisso, é que os empregadores ainda tratam seu estagiário e trainee como o jovem perdido no mundo que está, por quase um favor, recebendo uma chance de aprender. Em 2009 essa é a maior balela do mundo. Afinal, quem está chegando agora no mercado de trabalho soma mais conhecimento do que era possível antes. Sim, pouca experiência profissional, mas no nível teórico, todos os profissionais de uma empresa estão nivelados quando o assunto é bacharelado, curso de inglês e palestras, sem contar que o jovem de hoje acumula experiências de vida muito diferentes das que seus chefes tinham quando começaram. Portanto, chega desse discurso.

A grande característica da minha geração é que ela foi criada à base do prazer. Meus pais tiravam boas notas pois era a obrigação deles. Eu tirava pois, passando de ano, ganhava um presente. Percebem a diferença? O grande coringa do jovem no mercado de trabalho é esse. Ele trabalhará horas à fio se for em algo que ele goste. Mas, ei, todo mundo sabe que nem todo mundo vai trabalhar em algo que gosta. E aí está outra característica desse pessoal que veio ao mundo na mesma época que eu. Nascidos e encastelados desde então, sucumbem na primeira crítica e não admitem estar errados, o que é um mega ponto contra eles no mercado de trabalho verdadeiro.

Nem todos, inclusive, estão a fim de se darem bem por conta própria. Como Millôr Fernandes disse, ninguém fala mais entusiasticamente de livre-empresa, de leis de mercado e "que vença o melhor" do que a pessoa que herdou tudo do pai. Minha geração não lidou de verdade com política ou guerras e se sente informada lendo sites superficiais. Isso é de um antagonismo gigantesco. Como vários dos de ontem, os jovens hoje falam sobre distribuição de renda, ecologia e sustentabilidade, mas tudo de dentro da casa dos pais, sem ter tido contato real com nenhum desses tópicos e planejando manter essa distância.

Qualidade de vida é isso pra essa galera, é garantir o seu. Não é necessariamente sair da casa dos pais e começar uma revolução na sua vida não. Esse povo quer deixar sua marca no mundo, fazer diferença, chamar atenção, mas com tudo garantido pelos pais antes. O carro, as viagens, o computador, a cerveja e as roupas de grife.

Todas essas características tendem a ficar mais agudas daqui pra frente, nas gerações a seguir, e isso me causa um certo medo. Já agora eu me vejo cercado de indivíduos hedonistas e egocêntricos, tratando tudo ao redor como descartável. No mercado talvez isso seja bom. Afinal, quem é qualificado e não recebe o aumento prometido diz “adeus” e começa em outra empresa logo demais. Mas sei lá...

Me preocupam – e também me fascinam, confesso – esses que não escolhem aprender e/ou se qualificar e os que vivem de freelancer, por exemplo. Eu estou pensando de forma limitada só aceitando empregos de carteira assinada, em já querer um mínimo de segurança para o futuro? É muito fácil se jogar no mundo sabendo que, se der uma merda, a casa dos pais estará seca, sã e salva para você no caminho de volta. Mas será assim pra sempre? O que esse pessoal pensa do futuro?

Quem descansa agora, trabalha muito mais amanhã. Só tô dizendo...

Para ouvir depois de ler: Smells Like Teen Spirit - Nirvana

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Top 5 razões para formar em jornalismo mesmo o diploma não sendo mais exigido

Para quem não está sabendo, o Supremo Tribunal Federal (STF), derrubou a exigência do diploma para exercício da profissão de jornalista. Legal, não? Já não basta os jornalistas – que tem quatro anos de aulas sobre ética, lingüística e técnicas de escrita – estarem cada vez mais sensacionalistas e emburrecendo. Agora, qualquer um pode escrever para um jornal. É, se abrir vaga para redator no jornal aí da sua cidade pode se candidatar. Formado em jornalismo, arquitetura ou nem formado. Dona de casa pode, pedreiro pode, pintor de parede. Não importa se você teve esses quatro aninhos de aula não.

Enfim, eu estou no sétimo período. E agora?

Será que se eu bater na porta da tesouraria da faculdade eles me devolvem o que já paguei de mensalidade? Acho que não. Então tá, vamos pensar pelo lado bom?

Top 5 razões para formar em jornalismo mesmo o diploma não sendo exigido

1) Você vai ter algum diferencial diante das pessoas que não cursaram faculdade. Isso quer dizer que, em jornalismo, “graduado” será o novo “pós-graduado”. Ele deixa de ter aquela vibe de obrigação e passa a ser seu coringa;

2) Você já pode publicar uma revista e ter seu nome no expediente, como responsável, sem precisar do Ministério do Trabalho;

3) Não precisa esperar aquela burocracia chatissíma que é a colação de grau;

4) Você pode usar seu diploma para embrulhar peixe,

5) Cela especial caso você vá em cana.

Pronto!

Ficou mais feliz, amigo jornalista?

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Os jornalistas não querem dominar o mundo

Não sei porque as pessoas adoram falar mal de jornalismo. E a moda pega! Qualquer dia vai virar modalidade esportiva. Lá vem os acadêmicos com todos aqueles paradigmas velhos para falar que o jornalista mau (esfrega as mãos e aperta os olhinhos) vai colocar uma informação na sua cabeça e ela vai ficar ali porque você, espectador, é uma massa amorfa e passiva que engole e só. Sim, ainda tem gente que acredita nisso. Será que o jornalista dá risada maligna depois disso também?

Ainda bem que existe, muito além dos jornalistas, o controle remoto, que permite que você mude o canal da tevê ou desligue o rádio, o computador ou o escambau. “Mas aí vc corta a comunicação”, diriam os acadêmicos. E eu digo “pelo menos você filtra o que você vai ou não receber”. E mesmo que você esteja amarrado na cadeira e não possa evitar a exposição ao que você não quer, respire aliviado, você tem personalidade, capacidade de interpretação e memória seletiva. A informação nunca chegaria a você como o malévolo profissional programou.

Parênteses: Alguém sabe quanto ganha um jornalista? Desde quando alguém com esse piso merreca é ameaça séria a alguém?

Poder é um conceito que não passa perto da maioria dessa turma. Poder é o garoto que vi passeando na rua com o cachorro, em dia útil e horário comercial, no Lourdes. Quando passei do lado dele senti aquele perfume que a gente sabe que foi fabricado e comprado em terras muito longe das nossas. Cheirinho de Europa. Moletom caríssimo, olhos verdes e tempo para ter qualidade de vida. Talvez ele domine o mundo. Nós, não.

* Manoella Oliveira.

domingo, 3 de agosto de 2008

Sábado com Fernanda Takai

Sabe o programa “Tira Onda”, do canal de TV por assinatura Multishow? O conceito é simples: com câmeras escondidas ao seu redor, uma personalidade se disfarça de pessoa comum, por assim dizer. Juliana Paes tirou onda como balconista de livraria, Daniele Suzuki como caixa de supermercado. É a primeira vez que o programa vem a Minas Gerais e a gravação será com Fernanda Takai. Saio correndo atrasado e paro no Mercado Central, aqui em Belo Horizonte. Acho o pessoal e ouço as instruções. Vou ser assistente de produção do programa.

Fernanda Takai chega, sempre simpática e sorridente. Diz “obrigada” a todos que passam e gritam elogios e depois conversa com as produtoras do programa. No total somos cerca de 16 pessoas, sendo que mais da metade veio do Rio de Janeiro. Fernanda vai se passar por uma atendente de uma loja que vende ervas e raízes.

Primeiro foi preciso, com muito custo, esvaziar um corredor para Fernanda gravar uma passagem – a abertura do programa onde ela se apresenta e diz onde está. Essa não é uma tarefa fácil levando em conta que o Mercado Central é um dos lugares que mais passa gente nessa cidade. E era uma da tarde de sábado! Mas ainda não era essa a parte mais difícil.

Vimos onde estavam as câmeras e, sem interferir no fluxo natural dos clientes da loja, precisaríamos pegar a autorização do uso de imagem de todas as pessoas que passassem na frente delas! E forem bem lá umas mil pessoas, no mínimo. Algumas simpáticas, outras super grossas, fomos tentando recolher permissões durante toda a gravação, que durou cerca de duas horas.

Todo mundo super cansado, mas feliz com o término da gravação. Deu tudo certo no final – sempre dá – e agora é hora de todos almoçarem juntos (às quatro da tarde). Não foi fácil pegar uma mesa pra vinte pessoas no Casa Cheia – o restaurante do Mercado Central que ganhou o concurso Comida Di Buteco desse ano. Sentados, pedimos o prato vencedor: almôndegas de carne de sol com molho de abóbora e queijo, arroz com brócolis e alho e batatas fritas.

Abraços e beijos e “prazer em conhecer” pra todo mundo. Levanto, vou pra casa e minhas pernas doem. Mas foi um sábado muito interessante. Bem diferente e, na maior parte dos momentos, divertido.

Para ouvir depois de ler: Diz Que Fui Por Aí - Fernanda Takai

domingo, 18 de maio de 2008

Mate o entrevistado

Além de só comer miojo de galinha caipira ou tomate, ser leitor assíduo da revista “Caras”, e só me sentir confortável naquelas meias baratinhas das Lojas Americanas, tenho uma face pouco conhecida. Eu fui produtor de TV.

Ok, eu tenho 20 anos, não trabalhei na Globo. Mas ter passado sete meses fazendo matérias e produzindo um programa semanal de entrevistas foi pra lá de punk rock – nos sentidos bom e ruim da coisa. A vontade de assassinar uma boa dúzia de convidados não tá escrito. Aqueles que, por mais que a TV já tenha completado 57 anos, ainda não entenderam o procedimento de aparecer nela. Pensando nisso, me ocorreu de fazer uma lista com as duas regras óbvias. Foram instituídas lá em mil novecentos e Hebe-Camargo-Menina, mas alguns insistem em esquecer:

Fique na cadeira!
Nada de cadeiras que giram, pois o telespectador fica mareado com aquele balanço. Mete lá um sofá ou um banquinho de madeira. O fio do microfone passa por trás e deixa tudo certinho pro convidado sentado. O problema é que, depois de uma hora de entrevista, o sujeito esquece que tá na TV, fica confortável, e esquece que o apresentador despediu de você de mentirinha. Você ainda precisa ficar ali sentado pra gente fazer cenas de corte e te desconectar do microfone. Mas eles ouvem o “obrigado pela participação” e se levantam! Grrrr!

Não bote a mão no microfone!
A haste do microfone devia dar choques de 220 volts em quem encostasse ali sem ser repórter. Porque ô mania que essa gente tem de querer afagar o instrumento de trabalho do jornalista ou tomá-lo da mão dele. Quando é microfone de lapela (aqueles que ficam na gola) convidados são mestres em dar umas boas expirações altas ou encostar a mão toda hora nele, causando o famoso xugstaramrram no áudio.

Ai, ai. TV só é bom do lado de fora. E olhe lá!

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Entrevista com Márcia Tiburi

Márcia Tiburi é graduada em filosofia e artes e mestre e doutora em filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Escreveu vários livros de filosofia e recentemente lançou o livro “A Mulher de Costas”, segundo romance da Trilogia Íntima. A primeira parte, “Magnólia”, foi finalista do prêmio de literatura Jabuti em 2006. É também professora, colunista de revistas e integrante do programa “Saia Justa”, do canal GNT. Foi uma entrevista recheada de gesticulação, sinergia, risos e palavras difíceis. Não difíceis daquelas que ninguém sabe o significado, mas daquelas que deixam a fala bonita. Das que me deixavam em dúvida entre admirar a inteligência dela ou me envergonhar da minha ignorância.

P: Os dois primeiros volumes da trilogia falam sobre mulheres. Qual a diferença? Do que se tratam os livros?
R: “Magnólia” é a história de uma mulher que se encontra com ela mesma. E isso acontece, por exemplo, se olhando no espelho, talvez descobrindo uma memória perdida ou tendo que enfrentar seus próprios botões. Enfim, você enfrenta algo que é a sua própria fantasmagoria. É um romance um pouco solipsista, de auto-encontro com aquilo que o sujeito tem de enganação de si. Pois ele é o que ele é, o que ele não sabe que é e o que ele não é. Então há esse jogo de descoberta do dentro e do fora, por um personagem. E “A Mulher de Costas” é uma história de uma mulher que se encontra consigo mesma, que ao invés de se enfrentar com um espelho se enfrenta com um deserto. Enquanto “Magnólia” fica dentro de casa, abre uma gaveta e faz uma viagem pelo jardim pra depois poder voltar – e atravessar com isso vários infernos –, “A Mulher de Costas” é uma mulher que simplesmente faz uma travessia de um deserto para outro deserto. É a história de uma princesa moura encantada, que faz parte da mitologia gaúcha, que é a lenda da salamanca do Jarau, que eu conto da minha maneira.

P: E porque Trilogia Íntima?
Eu comecei a escrever essas histórias todas ao mesmo tempo, tanto “Magnólia”, “A Mulher de Costas” e “O Manto” – que ainda estou escrevendo. E “íntimo” pois queria falar desse solipsismo, dessa convivência e auto-experimentação. O íntimo é essa convivência. A busca solitária e a descoberta. Mas acho que o que tem de meu, tem de universal. As pessoas que leram e me deram retorno, conseguiram entrar nessa viagem. Pois não é uma viagem minha que eu dou a elas, mas uma proporcionada aos leitores através dos personagens.

P: São histórias independentes, porque estão na mesma trilogia?
R: Sim, são livros independentes, mas estão interconectados, há integração entre eles. O que não tem é uma linearidade. Não há uma cronologia que explica “Magnólia” como primeira história e supostamente uma tese, aí “A Mulher de Costas” como antítese e depois “O Manto” como uma síntese. É o contrário! O que tem de comum entre as três é essa experiência de entrega ao mesmo e ao outro e a tentativa de compreensão dessa Banda de Möbius, desses dois lados de uma mesma moeda – onde cada lado é um lado mas compõem um mesmo elemento. Relato ou novela não é uma coisa que eu estou atrás de fazer. Respeito quem faz, claro, mas não é o que eu faço.

P: E a sua filosofia está aparecendo nesses romances?
R: Acho que é a linguagem que aparece na literatura. A filosofia está incorporada em mim e faz parte do meu vocabulário e as questões que estão entranhadas, visceradas, também. Mas eu não tenho um projeto literário à base da razão, ao contrário, eu me interesso por tudo aquilo que foi catalogado por todos os gêneros da literatura. Eu acho que o exercício literário é a sua chance de esquizofrenia (risos). Esquizofrenia para o bem!

P: Como é escrever sobre filosofia atualmente?
R: A filosofia se tornou importante no Brasil, que está aprendendo a democracia. Na ditadura não havia espaço para pensamento livre e é natural que agora a filosofia entre na moda. E tomara que de fato as pessoas se envolvam em reflexões críticas na política, no cotidiano, na responsabilidade ética.

P: Mas há espaço para ela no mundo da informação instantânea?
R: A atenção no próprio pensamento nos torna filósofos do mundo da informação instantânea. O que a filosofia deve fazer é recolocar a atenção que nos é arrancada pelos meios de comunicação no lugar dessa atenção. E, ao meu ver, também mostrar como é o olhar vagaroso sobre as coisas.

P: Você acha que a filosofia está mais acessível às pessoas?
R: Há sim uma vontade das editoras, dos meios de comunicação, da própria esfera culta da sociedade, talvez de uma classe média um pouco mais esclarecida que gosta de cinema e literatura e vai gostar também de filosofia. Mas ainda não dá pra fazer muita festa porque o trabalhador explorado, além de estar excluído do jornal ou da internet, não tem dinheiro para livro nenhum e não está lendo nada. Mas há sim uma vontade de abertura à filosofia por parte das classes lúcidas, que tenta recolocar parâmetros e rever posicionamentos práticos.

P: Como tem sido a resposta para a tentativa de levar filosofia para a TV, com o “Saia Justa”?
R: Um pouco de informação erudita sempre é possível. E esse programa tem um formato, em si mesmo, filosófico. Pois ele é um fórum de mulheres emitindo opiniões. Mais ou menos fundamentadas. É isso que me anima em fazer esse programa: são pessoas diferentes que se propõem a conversar em torno de temas tentando construir um diálogo. Acho que as mulheres foram proibidas de falar ao longo da história da humanidade, então vejo esse programa como um oásis no seio da sociedade patriarcal.

P: O programa é muito criticado por falar demais de sexo...
R: É um programa de TV com todos os defeitos que os programas de TV têm. Mas é que no Brasil se faz muito sexo, há muita pornografia, mas na hora de falar sério sobre o assunto parece que você está cometendo uma heresia. Educação sexual, por exemplo, no Brasil é inexistente. Mas a gente discute também esse cinismo que a gente vive. Sobre política, questões de ética – no sentido de comportamento. Mas é um programa de fala aberta então há muita interferência. E a TV, pela falta de tempo e necessidade de linearidade, limita muito.

P: É verdade que você está escrevendo uma autobiografia tem dez anos?
R: Sim. Começou como um romance em 1998 e eu escrevo e reescrevo, reescrevo. Por que o mais difícil é reconstruir a memória de sua infância. Aliás, se tem alguma coisa boa de se falar da vida de alguém, a meu ver, é a infância, pois o resto é a vida besta de todo mundo. A vida minha e sua que diferença vai ter? Que grandes feitos são tão importantes na vida de alguém para que ele acha que pode contar? Não sei. Mas é que minha vontade é de conseguir memórias perdidas do tempo em que a vida era pura poesia. E no lembrar você vai imaginando coisas, mas eu me divirto com o descortinar desse passado.

Quem quiser ler/ver a entrevista na íntegra é só me perguntar quando vai ao ar ou me pedir um exemplar do jornal :)