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quinta-feira, 17 de maio de 2012

"Eu odeio esperar"

Tenho ouvido isso muito nos últimos anos, virou uma dessas modas sociais estranhas. Mas há um outro lado.

A espera de um bebê são 9 meses de gestação, tempo recheado de experiências. Os 15 minutos na sala do dentista são, na verdade, uma matéria de uma revista antiga que você não leu pois não viu na época e que nunca teria lido se não tivesse esperado esses 15 minutos. Os 10 minutos que demoram entre a ligação e a chegada do táxi? É um dente escovado, um acessório a mais na roupa, um laço bem dado no tênis. A lentidão do metrô é um capítulo a mais de um livro, uma música a mais no iPod.

Paciência é uma virtude que precisa ser adquirida o mais rápido possível.

sábado, 14 de abril de 2012

Pagando pra ver

Acabei de ler uma HQ chamada "Paying For It". É a história real de um cartunista que decide que não quer ter mais namoradas e começa a fazer sexo apenas com prostitutas.

Depois de terminar um namoro e presenciar o novo relacionamento cheio de brigas da ex, Chester Brown percebe claramente que a ideia de amor romântico é um porre, causa mais dor do que alegria e quer pular fora desse barco. Ele defende que o sucesso dos relacionamentos são momentâneos pois as pessoas mudam - não necessariamente na mesma direção e isso é normal ("Me sinto uma pessoa diferente da que era há 10 anos e uma muito diferente da que eu era há 20 anos", exemplifica).

E aí o que sobra? Só chateação. Estar em um relacionamento amoroso sério não te garante sexo na hora que você quer. E se a única parte boa da relação é o sexo e você consegue sexo fácil fora de uma relação, pra quê ter uma relação?

A mãe de um dos amigos do tal cartunista fala que ele não tem respeito próprio ao saber que ele saiu com prostitutas. Chester diz que ao contrário do que pensam, se sente muito bem na vida e consigo mesmo e ainda argumenta: "Olha só o nosso amigo R, que acabou de levar um fora da namorada. Ele está péssimo tem muito tempo, ele está sofrendo. E porque ele está sofrendo? Pois ele foi rejeitado, pois ele precisa de alguém que esteja apaixonado por ele. Sem essa voz externa dizendo 'Te amo', ele desmorona. É por isso que pessoas precisar de relacionamentos, pois são inseguras. Precisam de alguém do lado de fora dizendo que elas são amáveis. Ou bonitas. Ou legais. Um cara com respeito próprio é um cara que não precisa estar num relacionamento [pra ser segura de si]". Interessante, não?

Pouco depois, ele conta aos amigos que deu uma de suas HQs para uma das prostitutas que ele vê. "Ela sabe o que você faz? Você conversa com elas?", perguntam os colegas. "Conversar - conhecer um pouco da moça - é um adicional à experiência. A faz parecer menos fria e impessoal", responde. E seu amigo recomenda: "Aqui vai uma ideia: se você quer ter uma experiência sexual que não é fria e impessoal, arranje uma namorada". Hum, touché.

O livro levanta várias questões interessantes sobre a invenção do romantismo ("no passado, era comum desenvolver afeto pela pessoa com quem você tinha se casado, mas amor não era motivo para casar. As pessoas casavam por dinheiro, status, famílias, acordos etc") e, mais para o final, começa até um debate sobre a legalização da prostituição - e de um ponto de vista que nunca tinha prestado atenção e que me surpreendeu.

No final, a mensagem é que cada um sabe da própria vida, cada um deve ir atrás do que acha certo para si - mas sempre é bom dar umas paradinhas no caminho pra ver se você está indo pro lugar que você quer ou pro lugar que estão te falando pra ir.

"Paying For It" não tem edição em português ainda, mas tem uma linguagem fácil, não é preciso ter um inglês afiado não. E vale muito a leitura, é um tipo de reflexão bem ímpar e, convenhamos, diferente. Muito do que é produzido atualmente pela indústria cultural é pra reforçar essas ideias de amorzinho e mimimi.

Mas o buraco é mais embaixo, claro. A gente lê essas coisas, entende, aceita, dá razão - mas não funcionamenos bem assim. É exatamente como Woody Allen diz em "Annie Hall":

O cara vai ao psicólogo e diz: "Doutor, meu irmão está louco; ele acha que é uma galinha". E o médico diz: "Bom, e porque você não interna ele?", e o cara diz: "Até internaria, mas preciso dos ovos".

Acho que é assim que me sinto sobre relacionamentos. São totalmente irracionais e loucos e absurdos. Mas a gente continua insistindo neles pois a maioria de nós precisa dos ovos.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Envelhecer, o elefante branco da comunidade gay


Em janeiro, um bem-sucedido terapeuta gay de Manhattan chamado Bob Bergeron cometeu suicídio. Sim, esse moço bonito da foto. Ele tinha 49 anos e estava prestes a publicar o livro “The Right Side of Forty: The Complete Guide to Happiness for Gay Men at Midlife and Beyond”. É, um livro de auto-ajuda direcionado aos gays com mais de 40 anos.

Sua filosofia era uma tentativa de convencer a si mesmo ou apenas uma maneira de ganhar dinheiro? Não sei. Mas muitos grupos gays são exageradamente baseados em beleza física e novidades, então acho que de qualquer forma vale a reflexão. Afinal, ao mesmo tempo que não devemos antecipar nossa velhice, não seremos jovens para sempre.

Nada contra quem fica por aí brigando sobre qual seriado de TV é melhor, gastando horas do dia decorando coregrafias de clipes ou na academia, gastando tubos de dinheiro em roupas e produtos tecnológicos da moda, mas espero sinceramente que essas mesmas pessoas estejam também buscando algo a mais da vida. Que elas queiram se conhecer mais, se desenvolver mais, compartilhar mais. Que reflitam um pouquinho sobre a vida, a morte, a efemeridade da existência. Ao contrário do que parece, pensar sobre isso não quer dizer ser obscuro, deprimido ou pessimista. Sair do armário para si e para o mundo pode ser muito doloroso, mas não quer dizer que a partir daí é só festa não.

O desafio mesmo - e esse não é só para os gays, claro - é conseguir ser feliz consciente da velhice, da doença, da morte e da solidão. Viver negando essas coisas é pra lá de fácil, existem vários jeitos. Mas, se negar essas coisas é a única maneira de você conseguir ser alegre, há algo errado. Não fica uma coisa meio falsa e histérica? Não cansa? Pois é. Fazer as pazes com a própria existência é o único jeito de estar satisfeito.

Satisfeito, pois "feliz" já seria uma palavra grande demais.

sábado, 24 de março de 2012

Vivendo sua vida w/ 689 others


Numa conversa essa semana, descobri que uma amiga tirou nada menos que 4 mil fotos do Vaticano quando esteve lá. Quatro mil! Precisava? É pra decorar cada detalhe do lugar ou é pra voltar pro Brasil e mostrar cada detalhe pros que não foram. A experiência tem que ser validada pelos outros?

Acho que qualquer resposta merece atenção: se em uma viagem você para a cada segundo para uma foto, deixa de experimentar aquele lugar de verdade. E abastecer seu Facebook com todas as fotos mostra que você ou é muito narcisista ou que quer que sua vida online represente com fidelidade a sua vida real. E isso não precisa acontecer.

O caso das fotos no Vaticano parece exagerado (e é mesmo), mas todo mundo faz isso o dia todo: porque raios as pessoas compartilham nas redes sociais o restaurante onde estão, a comida que cozinham, quantos quilômetros correram? Porque existem tantos sites para você marcar os filmes e seriados que viu, os livros que leu, shows que foi, músicas que ouviu? Acho que um dos motivos é falta de assunto mesmo: a agonia de ver todo mundo “postando alguma coisa” e a pessoa sem nada pra dizer. Outro motivo, ao meu ver, é porque a experiência se perdeu. Para muitas pessoas hoje, fazer algo só por fazer e só para elas mesmas não é suficiente; elas precisam divulgar, todo mundo precisa saber o que ela gosta de fazer. Como se espalhar por aí que você está se divertindo garantisse que você está se divertindo mais...

Ao mesmo tempo que eu compreendo (divulgar que você viu e gostou de certo filme te coloca dentro de um grupo), acho isso bem triste. A espontaneidade está ficando igual - algo que é contra o próprio conceito de espontaneidade. E acompanhar a vida online de alguém ainda está bem longe de conhecê-la de verdade – mesmo que seja de alguém que tente muito colocar sua rotina inteira dentro da web.

Resultado: fica tudo no meio da caminho. Por exemplo: você vai no aniversário de um amigo, metade das pessoas você conhece, a outra metade nunca te deu um “oi”, mas já tem uma opinião sobre você (aliás, o que as pessoas mais têm nos dias de hoje é opinião formada sem conhecimento). O ponto de partida da relação já está todo bagunçado; não existem surpresas nos assuntos primários, que deviam despertar interesse, e não há interesse nos assuntos surpresas.

Outros exemplos: perceber um erro de português absurdo vindo de uma pessoa que fala o tempo inteiro dos milhões de livros que leu. Ou encontrar pessoalmente com alguém que twitta todos os dias que vai à academia e ver que a pessoa não emagreceu nada. O oversharing das redes coloca esse tipo de lupa julgadora nas pessoas – e o pior é que são elas que colocam essa lupa na própria cabeça.

Já falei disso em um texto anterior: à medida que a tecnologia se torna mais onipresente, nossa relação com ela se torna mais íntima, conferindo-lhe poder de influenciar decisões, humores e emoções. Mas é só se a gente deixar! Suas redes sociais não precisam ser um reflexo fiel da sua vida real o tempo todo, listando o que você faz ou onde está e com quem. Meu celular tem tecnologia pra entrar na internet e eu me conecto quando quero, sabe? Mas não sincronizo meu Twitter, meu Facebook nem meu e-mail com ele. Nenhuma janelinha vai pular dele enquanto eu estiver almoçando, no cinema ou dormindo. Eu escolhi que eu é que vou lá ver o que está acontecendo quando eu quiser – afinal, o celular está lá para me servir, não o contrário. Perceber isso faz muita diferença.

Um bom exercício em qualquer situação é aquele joguinho infantil dos “porquês”. Cheguei num restaurante com um amigo, mal tinha me sentado e ele pegou o celular dizendo “Já vou dar check-in!”. Eu perguntei porque, ele respondeu e perguntei mais umas vezes. No final das contas, ele não tinha motivo algum pra dar check-in ali. Não queria convidar ninguém ir pra lá também, não ia escrever uma crítica sobre o restaurante (esse é o propósito do Foursquare, não é?), nem queria se mostrar fodão (o lugar não era chique, nem caro, nem nada). Ele pareceu meio perdido, percebeu que fazia parte de um “rebanho socio-tecnológico” dos que fazem algo pois os outros também fazem, sem refletir sobre aquilo. O mesmo jogo serve pra ser feito antes de cada upload de foto, cada status novo. Que objetivo você quer alcançar tornando pública aquela informação pessoal sua?

Passou da hora de muita gente por aí amadurecer nesse sentido, saber separar as coisas. É uma campanha que pode parecer antiquada, mas poxa. Você está vivendo sua vida para você ou para os outros?


segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

C'est la vie

Lá quando eu tinha 18 anos eu me apaixonei (não no sentido romântico) pela amiga de um amigo. Ela era linda e estava sempre muito bem vestida e perfumada. A gente sentava junto em um restaurante e enquanto eu procurava a cerveja mais barata do cardápio, ela pedia manhattans e outros drinks que eu não conhecia ainda.

Nos cafés de Belo Horizonte, ela falava com desenvoltura sobre autores que eu não conhecia ou que tinha lido um livrinho apenas. As piadas mais inteligentes eram as dela. Os assuntos mais interessantes eram os dela. Ela me falava sobre suas idas à Paris, como gostava muito e conhecia bem aquele lugar. Lembro de me sentir tímido perto dela, um reflexo da minha ignorância.

O tempo passou, nos distanciamos e ficou bem claro que a gente só conversava por causa do amigo em comum. Tudo bem, sem problema, c'est la vie. E essa distância (escondida no "contato" apenas via redes sociais) se revelou extremamente interessante: todo aquele charme que eu via realmente estava lá, mas não era o resultado de uma busca genuína por conhecimento ou cultura. Ela não passava de uma herdeira. O ritmo em que ela devorava livros e música francesa era proporcional ao tempo que tinha disponível por não precisar trabalhar.

(Antes de qualquer coisa, eu admito que identifico em mim uma ponta de inveja aqui. A falta de tempo e dinheiro me priva de várias coisas e ver gente com isso em abundância me revolta um pouco. Mas que bom pra ela! Quero dizer, tem muita gente que prefere usar essas horas para fazer coisas idiotas - e ler autores russos está bem longe de ser uma perda de tempo -, então é louvável que seu ócio tenha sido usado com esse fim, não é essa minha questão)

Mas não consigo parar de enxergar dessa maneira: ela era (na verdade, ainda ainda é) só uma pessoa com tempo, nada mais do que isso. E tempo, ainda mais quando existe dinheiro, transforma todo mundo naquilo que a pessoa quiser ser. Ela é realmente inteligente, mas como ela ficaria sem os perfumes caros, as roupas sempre novas, sem "Monty Phyton"? Sem o tempo para as duas faculdades, as aulas de gastronomia, de francês, italiano e inglês? Deus, como seria ela sem uma empregada doméstica em casa? Não sei, mas seria uma outra pessoa, imagino.

Esse é meu ponto: essa pessoa teria bom gosto se ela não pudesse sustentar o bom gosto? Tudo que ela tinha conquistado (materialmente e intelectualmente) foi, na verdade, oferecido para ela de alguma forma.

Existe muita inteligência adormecida por aí, gente interessada que não consegue correr atrás - pois o ponto de partida rumo àquela inteligência é diferente pra cada pessoa e depende bastante do contexto dela; quase mais do que de sua vontade. Ao mesmo tempo, há quem não queira gastar energia. Eu disse que o que ela tinha conquistado lhe foi, na verdade, oferecido. Mas ela teve a opção de não aceitar. Então o mérito é dela sim. Uma outra amiga sonhava em trabalhar com cinema e animação, e hoje está estudando isso no exterior. Não é só porque ela quer, é porque ela pode. Mas não é conto de fadas, ela precisa ralar, tirar ótimas notas etc. Enquanto isso, tenho um outro conhecido cujos pais não fizeram faculdade e depois de muita economia e luta, puderam oferecer isso ao garoto. Mas ele não quis.

Sempre falava com minha terapeuta quando reclamava da vida: "O problema não é o que eu sou, é o que eu queria ser". Nunca me dou por satisfeito pois eu quero ler mais coisas, ver mais coisas, conhecer mais gente, mais lugares. E quando percebo gente assim, navegando com graça no oceano do tudo-na-mão, fico me perguntando se nossos sonhos para o futuro são (ou deviam ser) proporcionais ao nosso passado. Se os meus fossem, acho que me frustaria menos.

C'est la vie.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Not easily offended

Todo mundo quer falar e se mostrar, mas ninguém quer ouvir ou ficar em silêncio. Quanto mais observo, mais penso isso. A gente tem tantos lugares, canais e maneiras de dar nossa opinião que esquecemos de ouvir. Não que a gente seja obrigado a ouvir o que os outros têm a dizer, mas acho que o que falta mesmo é tato para delimitar o que deve ou não ser dito.

É o seguinte: as pessoas não se focam naquilo que gostam ou acham que ter opinião sobre algo é não gostar daquele algo. Ou, pior, acham que é obrigatório ter opinião sobre tudo. Bem, adivinhem só, não é!

A frase que escolhi pra ilustrar o banner do blog ali em cima resume bem o que penso do assunto. “Espojar-se na lama não é a melhor maneira de ficar limpo”. Não fique perto daquilo que não quer estar envolto. Não gosta de amarelo? Então não use amarelo. É contra casamento gay? Então não case com um gay. Não gosta da banda? Então não ouça o CD. É contra aborto? Não aborte. Simples, simples.

Mas não, tem todo mundo que ficar brigando. Tô cansado dessa ditadura da opinião. Muitas vezes é ficando calado que aprendo mais – sobre o mundo, sobre os outros e sobre mim. Tem muita gente por aí precisando tentar isso.

Já dei a dica num outro texto e repito: Se você faz algo que é bom pra você e que, ao mesmo tempo, não é ruim pra ninguém, significa que é bom pra todo mundo. É pedir demais que as pessoas se foquem naquilo que elas gostam? Que tal todo mundo perceber que o que você odeia pode ser exatamente o que deixa o outro feliz? E que o que você ama não é nada além de bobo pra outra pessoa – e que você precisa aceitar isso. Acho que seria uma boa.

Parem de se ofender tão facilmente e cuidem das coisas que te interessam cuidar.


domingo, 26 de junho de 2011

Ini-amigos

Um dia desses eu fiquei pensando em alguns amigos do passado, em como cada um de nós foi para um lado diferente da vida. Nessa categoria de amigos, existem variações menores: aqueles que eu nunca mais nem ouvi falar, aqueles que eu encontro de vez em quando, aqueles que só “vejo no Facebook” e aqueles com quem eu ainda saio e bebo e converso.

Pelo menos um de cada categoria pode ser considerado um ini-amigo. Pessoas que já foram muito próximas e que, por nunca lhe terem feito nada de ruim, você não pode simplesmente dispensar da sua vida. Mesmo que vocês conversem pouco, ninguém tem culpa de vocês conversarem pouco. Ok, soa redundante e babaca, mas eu sei que todo mundo tem alguém assim na sua vida.

O que me fez refletir sobre esse assunto? Bom, várias coisas. Uma dessas pessoas abandonou tudo que tinha aqui (o que não era muito, adiciono) para tentar a sorte em outro país, em outro continente. Admirável, corajoso e muito invejável.

Especialmente por mim, que não tenho peito suficiente para uma investida dessa. Os exemplos são vários e vários. Conhecidos que moram fora mas também os que estão casados com aquela pessoa que foi o seu primeiro amor, ou aqueles que arranjaram o emprego dos sonhos deles antes que eu encontrasse o meu. Etc, etc.

Por isso gosto do termo “ini-amigos”. É que há uma compreensão e um companheirismo em torno da pessoa mas, mesmo assim, há também um pingo de inveja dela ou pelo menos algum nível de competição entre a gente.

Sei que no cinema e na música posso buscar outros milhares de exemplos, então sei que não estou louco. Isso realmente existe na vida de todo mundo, certo?

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Esteja aqui


Na última semana eu estava cercado de pessoas muito agradáveis. Metade dessas pessoas era formada por amigos de longa data, outra metade por novos conhecidos com quem me dei muito bem. Tínhamos bebido, estávamos dançando e cercados de pessoas animadas, fazendo a mesma coisa. No primeiro silêncio de falta de assunto, o rosto de todos eles brilharam. Mas não estou sendo metafórico.

Era o reflexo da tela do celular de todos eles. Verificando suas contas e citações no Twitter, Facebook e outras redes sociais. "O momento presente deixou de ser divertido, vou me atualizar sobre o momento presente dos outros". Parecia que a ação coletiva era essa. Eu não tenho esse hábito móvel. Eu trabalho no computador e online, e sempre dou uma olhada nesses sites mas, quando desligo o PC, me desligo deles. Por isso essas coisas me irritam, acho. Dá vontade de tacar os aparelhos alheios na parede, gritar “vida real!” e sair correndo pelado na rua. Mas eu me controlo.

Como disse Seinfeld, é como se a pessoa pegasse o telefone e comparasse aquele conteúdo com o que você está dizendo e decidisse o que é mais interessante. Como se ninguém conseguisse ficar focado numa coisa só por mais de alguns minutinhos. Como se essa grosseria não fosse equivalente à de abrir uma revista na sua cara enquanto você está falando e começar a ler suas páginas.



Isso tem um nome, sabia? É FOMO, sigla de “fear of missing out”, ou seja, “medo de perder alguma coisa”.

Jeena Wortham, do New York Times, escreveu um texto muito bom sobre isso, algo que todos nós já fomos testemunhas (ou somos participantes) sem entender direito mas sabendo, quase instintivamente, que algo nisso está errado.

O que as pessoas fazem, na verdade, é comparar o que estão fazendo e onde estão com o que os outros estão fazendo e onde eles estão. É como se houvesse um medo de que, estando aqui, você está desperdiçando sua oportunidade de estar naquela festa cuja foto alguém acabou de colocar no Facebook.

Parece rídiculo, é compreensível, mas não é nada mais que verdade. Se você está aqui, você não está em outro lugar. É muito simples. A vida toda, desde o começo, foi assim. Se você está com essa roupa, não está com aquela outra; se casou com fulano não casou com beltrano. Mas é que antes você não sabia em tempo real o que está acontecendo no resto do mundo em paralelo, né?

Tem um personagem no filme “Mensagem Para Você” (recomendo muito!) que faz uma observação interessante nesse sentido. Ele conceitua o vídeo cassete como um aparelho que serve para gravar a programação da televisão quando você sai de casa. Mas conclui que parte do objetivo de sair de casa, muitas vezes, é exatamente o de não ver TV. Certo?

De volta à matéria, a jornalista conta sobre uma amiga que se sentia de bem com a vida até abrir o Facebook e ver o status de alguém falando, por exemplo, que teve um filho, enquanto ela tem 28 anos e três colegas de quarto. Nessas ocasiões, ela disse, sua reação instintiva é, com frequência, postar um relato de uma coisa legal que fez ou uma foto divertida do seu fim de semana. Isso a faz se sentir melhor, veja bem. E, claro, deve provocar FOMO em outra pessoa.

Sherry Turkle, uma professora do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, diz que à medida que a tecnologia se torna mais onipresente, nossa relação com ela se torna mais íntima, conferindo-lhe o poder de influenciar decisões, humores e emoções. Mas é só se a gente deixar, claro. Suas redes sociais não precisam ser um reflexo fiel da sua vida real - listando o que você faz ou onde está e com quem - o tempo todo.

Tanto, que a jornalista perguntou a Turkle o que as pessoas poderiam fazer para lidar com esse dilema estressante do FOMO. Ela simplesmente disse para deixar o celular de lado um pouco.

E aí, você consegue?

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O homem das cavernas em você

Acabei de ler um texto muito bom (esse aqui ó) sobre como um simples batom na cara de uma moça faz um bando de homens correrem atrás dela como cães atrás de uma fêmea no cio.

Não defendo assobios nem xingamentos na rua, mas é inegável que esses traços evolutivos têm resquícios complicados de escapar - você acha que churrasco é um evento social divertido inventado pela galera da facul ou uma variação de um ritual cavernoso de assar a carne da caça dançando em volta da fogueira?

Outra coisa é que batom vermelho - e rosa, e vermelinho na bochecha (chama blush, né?) - comunica mais do que essas mensagens sociais que ela identificou na festa onde foi. A gente cora quando está sexualmente excitado. Isso é fato. E há algo de primitivo em ver isso escancarado pra gente, em ver uma pessoa rubra. As primeiras a perceberam isso foram as egípcias. Qualquer dia, zapeando pelo History Channel ou pelo Discovery, você pega um documentário sobre o assunto.

Mulher maquiada chama atenção pois parece excitada. Quadris largos chamam atenção pois são uma garantia de que a moça vai conseguir parir meus filhos. Mulheres de salto chamam atenção pois lembram patas de mamíferos. Homens musculosos são bons de caça e vão prover bem para minha família. Isso tudo passou, passou, mas foi empacotado de um jeito diferente pra nossa sociedade, que agora tem outros valores.

Os códigos que caem não são substituídos por outros, o que gera confusão. O que funciona ali, é brega aqui, etc. As regras sociais tem diferenças gritantes dentro da mesma cultura. O cara que quer te conquistar chamando pra beber pinga e dançar um funk leva um tapa seu, mas leva a virgindade de outra. Tem gente que acha isso legal, e não aquelas coisas que você gosta. Por isso todo mundo tende a ficar mais fechado nos mesmos ciclos. As outras realidades não nos dizem respeito. Fora do nosso ciclo, sempre achamos que estamos diante de um grupo de canibais que compensam com X aquilo que lhes falta em habilidades sociais. Sendo X um tipo de música, de roupa, de celular, uma profissão, um hábito...

Outra coisa que tem a ver é que a moça que colocou um short curto pois estava com calor não merece ouvir os mesmos assobios na rua de quem colocou o mesmo short justamente para ouvi-los. Mas não tem como alguém de fora saber o objetivo dela ter usado aquela roupa, certo? Mas tem como ninguém assobiar também, não tem?

Mudando de assunto, mas ainda nesse: dias desses constatei uma coisa meio estranha. Quando me xingam de viadinho na rua eu não posso fazer nada. Mas tenho um amigo gay que sempre grita alguma coisa de volta. Ele é forte. Malhado de academia, mesmo. Fiquei pensando nisso um tempo. Xingam ele e ele revida, apelando para a força, chamando para a briga. “Vem aqui apanhar do viadinho então, vem!”. O valentão que gritou sempre corre. Primitivo, não? Das duas partes!

Mas funciona.

domingo, 1 de maio de 2011

A bolha hétero

O discurso de um colunista sexual gay sobre os héteros hoje em dia. Tem um pouco a ver com o que eu escrevi aqui, lembra? Veja o vídeo. É bem interessante.



Eis algo curioso sobre essa coluna que faço há tantos anos. Dos 17 aos 25 anos, quando comecei, odiava os caras héteros. Quando comecei a coluna era uma piada e eu era mal com héteros. A ideia era ter uma coluna de conselhos que fosse o contrário daquelas homofóbicas, sendo heterofóbica. Por um tempo fui todo "fuck you, straight people, fuck you, straight guys, I fucking hate you! Vão se fuder"

E os héteros meio que gostaram e eu comecei a receber várias cartas de homens seguindo meus conselhos. Alguns anos depois, como o Grinch, meu coração cresceu e, de repente, eu amava os héteros. Não daquela maneira estranha que eles se amam, mas sim de uma forma platônica. Pois eu comecei a ter pena deles.

"Eles mandam no mundo, eles mandam no mundo". É, mas mandar no mundo não é tão glamuroso, alguém tem que mandar no 7/11 e no Taco Bell e quem quer fazer isso? Deixe com eles. Mas, sexualmente, eles são miseráveis. E quem os deixa assim? Mulheres, gays e outros héteros.

A identidade heterossexual, desde o começo dos movimentos de direito civil das mulheres e dos gays, tem sido ameaçado, digamos. De alguma forma, nos anos 60, quando os gays começaram a sair do armário, de repente era gay ter seu pau chupado - não apenas chupar um pau.

Se você é um cara hetéro na América, hoje, o que te faz hétero é não ser menina e não ser bicha. Então tudo que meninas fazem ou gostam ou que bichas fazem ou gostam é proibido. E você quer manter seu currículo de hétero, então homens héteros não podem ter sentimentos, não podem ter mamilos - todo dia eu recebo cartas de héteros dizendo "eu gostaria de ter meus mamilos estimulados enquanto chupo minha namorada, sou gay?" Não! Nenhuma quantidade de carinho no meu mamilo faria uma vagina tolerável pra mim! Pode ligar a bateria de um carro neles e não funcionaria.

Não podem ter sentimentos, não podem se preocupar com o que vestem ou com suas aparências e há esse terror de que alguma coisa no sexo deles não é "normal". Uns caras acham estranho pois só gostam de cachorrinho e isso deve ser gay, pois ser gay tem a ver com bundas, né?

E recebo cartas das namoradas também. "Meu namorado deve ser gay pois ele gosta de cachorrinho, de estimulação nos mamilos, pois ele corre pra casa pra assistir 'ER'". E que triste é ser hétero e ter o mundo todo fechado pra você.

Meninas vão para a faculdade e têm experiências lésbicas, até se identificam como lésbicas por um tempo, e depois se formam e falam "ah, no que eu estava pensando? Eu gosto de pinto". E héteros se casam com elas e acham isso legal e pedem pra ouvir à respeito, mas héteros sabem que elas são hétero agora. Eles não pensam "você é lésbica, eu sei que é, pois você não teria feito essas coisas se não fosse uma lésbica secretamente e pra sempre".

Mas se um héteros conhece, digamos, apenas um cara e eles dão uns pegas uma noite, bêbados, e os amigos descobrem, ou se sua namorada descobre... A piada é "você constrói mil pontes e ninguém te chama de engenheiro, mas chupe um pinto e você é bicha pro resto da vida". Que tristeza!

Tem uma bombeira lésbica que trabalha perto do meu escritório e uma vez ela passou por mim e eu dei uma checada nela. Depois pensei "nossa, é uma mulher!". Agora é uma piada nossa. Ela chegou pra mim e me disse isso. "Você quer trepar comigo, mesmo sabendo que sou mulher!" e é verdade, eu treparia com ela. E isso não me faz menos gay. Há uma mulher, no mundo inteiro, com quem eu transaria. E, héteros, não te faz menos hétero ter um homem no mundo que desperte algo assim, de alguma forma, no seu cérebro. Chace Crawford que seja! Crossdresser não te faz menos hétero. Você gosta do que você gosta.

Se seu sexo envolve um homem e uma mulher é sexo heterossexual, não importa o que vocês façam. Nem se ela enfiar o dedo no seu ânus. Não é um interruptor que vai te transformar em gay! Se ela coloca o dedo lá e você gosta, você está gostando daquela "straight finger in the ass action"! Recebo milhões de cartas com essa de "eu gosto de fio-terra, diga-me que não sou gay", de homens e de suas namoradas. Mas não recebo cartas de gays falando que os namorados deles gostam de ver filmes pornô com mulheres. Eles não pensam "ai meu deus, ele deve ser hétero!"

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Curtindo a vida, de fato (por enquanto)


“Ferris Bueller's Day Off”, no Brasil conhecido como “Curtindo a Vida Adoidado”, é um desses filmes oitentistas que todo mundo adora e faz questão que todos ao redor tenham visto e também adorem. Nunca tinha visto e, cansado dessa pressão, fui ver de qual era a desse filme. Não tive surpresa nenhuma. Como suspeitava, o filme não é lá grandes coisas.

(Não tratar clássicos com sacralidade é algo perigoso, eu sei. Mas o poder da propaganda é forte e eu sei que, na mais rasa das análises, é fácil ver como o longa é escasso em conteúdo. E que saber que não trata-se de uma obra-prima não quer dizer que precisam detestar o filme ou que não poderão mais gostar dele. Longe disso! Assim como acontece na música, saber que é ruim é diferente de não gostar; as duas coisas podem coexistir. Mas veja bem: quando chamo “Curtindo a Vida Adoidado” de escasso em conteúdo sei que nem todos os filmes precisam ser profundos e questionadores e cultos; eles podem ser apenas divertidos, e engraçados e de entretenimento. Minha questão aqui é que este longa falha até mesmo nisso. Vou chegar lá...)

O tal Bueller do título, interpretado por Matthew Broderick, é um adolescente que decide matar aula para aproveitar o dia e se finge de doente com maestria para os pais. Ao longo do dia, ao lado da namorada e de seu melhor amigo, foge do diretor da escola e lida com a inveja da irmã mais velha, que odeia o fato dele sempre conseguir se livrar dos problemas com facilidade.

O roteiro e a direção transformam todos os acontecimentos em épicos; matar escola é a coisa mais importante do mundo. Isso torna tudo propositalmente exagerado e deixa a história ótima e engraçada pra maioria, mas foi o que mais me irritou.

No final das contas, é a história de um garoto que é popular e por isso faz o que quer – incluindo aí mentir com maestria e sem necessidade para pais que já o mimam mais do que o suficiente, tratar a namoradinha como acessório e o melhor amigo como um facilitador do plano (pois ele tem dinheiro e um carro, por exemplo) e também como uma simples escada para chamar a atenção ainda mais para si mesmo.

Reflexo de uma sociedade, eu sei. E representação fiel de um tipinho que realmente existente nos colégios, eu sei também. Mas é que essa não foi nem é minha vida, e por isso esse não é ou será meu filme. Na escola, ou você recebe ou você manda bolinhas de papel. E quem as recebia não pode achar que esse filme é legal - especialmente porque essa bolinhas nunca somem, apenas tomam outra forma. É esse tipo de gente - que não se importa de verdade com nada além de si mesmo - quem está trazendo verdadeiro caos ao planeta, em vários níveis.

Quer dizer, vamos todos cantar em roda um ode à desigualdade e aos privilégios sem mérito? Vamos, pelo visto. Aliás, é isso que estamos fazendo há um bom tempo...

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O amante

Além do acasalamento, há este outro abraço, que é um enlaçamento imóvel: estamos encantados, enfeitiçados: estamos no sono, sem dormir; estamos na volúpia infantil do adormecer: é o momento das histórias contadas, o momento da voz, que vem me hipnotizar, me siderar, é o retorno à mãe.

Contudo, durante esse abraço infantil, o genital acaba irremediavelmente por surgir; ele corta a sensualidade difusa do abraço incestuoso; a lógica do desejo põe-se em marcha, o querer-possuir retorna, o adulto se justapõe à criança. Sou então dois sujeitos ao mesmo tempo: quero a maternidade e a genitalidade.

O amante poderia ser assim definido: uma criança de pau duro.

– Barthes

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Desconhece-te a ti mesmo

Todo mundo já fez perguntas filosóficas para si mesmo. Final de ano e aniversário são boas datas para isso. De onde viemos, para onde vamos e essas merdas todas. “Quem eu sou?”, a maior delas, talvez seja a única que possamos responder. Não é fácil, mas é possível.

O mundo está cheio de respostas. Eu sou brasileiro, filho, cristão, estudante, heterossexual, judeu, dentista, gay, negro, irmão, afilhado, índio, blogueiro, the walrus.

(Quando você era criança, por exemplo, sua mãe era só sua mãe. Aí você vai crescendo e vendo que ela é a esposa do seu pai, a empresária de tal lugar, a amiga de não sei quem. Mas é claro que essas respostas não são as que as pessoas buscam. Aliás, elas atrapalham um pouco a busca. Complicado isso. Do alto dos nossos 18 anos, achávamos que era o contrário, não? O peso da decisão de vestibular parecia tão mais decisivo; se errar nessa escolha, terei uma vida de merda para sempre. Mas na verdade, enquanto isso, fica cada vez mais fácil mudar de área, de rumo, de profissão. Sofríamos, na verdade, outro tipo de pressão – que ficará para outro texto, se ficar.)

Mas algo em você não é a representação desses papéis sociais que estamos fadados a cumprir. Outro dia ouvi uma frase ótima: desconhece-te a ti mesmo. Trata-se do inverso do aforisma grego citado por Platão, conhece-te a ti mesmo. Afinal, o que conhecemos da gente são esses rótulos que, com prazer, deixamos os outros colocarem na gente. Sabe quando seu pai te xinga dizendo que, se você nunca experimentou beterraba, como sabe que não gosta do sabor? Você é o que você faz quando não está sequestrado por um ideal. É o que você gosta (ou quer gostar) e faz (ou quer fazer) por você, para você, sem se importar em como isso será visto de fora.

Por isso, o elogio à diferença é tão perigoso quanto sua supressão. Ao invés de se orgulhar, de se envergonhar ou de recriminar, devíamos nos sentir livres para apenas ser. Aí você vai se permitindo e concluindo o que é bom ou não para você. E, é óbvio, o que é ruim para você pode ser exatamente o que o outro precisa e, portanto, você não deve opinar naquilo. E vice-versa.

Infelizmente, hoje, essa ideia não é possível em sua totalidade. Existem instituições muito, mas muito grandes mesmo, das quais não podemos simplesmente fugir. Viver fora delas é uma loucura, mas dentro, se traindo, também. E o dilema é esse. Fazer um acordo com o instituído versus aguentar a angústia de não ter aquilo que você abriu mão.

Há um provérbio, não sei de onde, que diz o seguinte: ninguém se banha, num rio, duas vezes com a mesma água. Desista das tags da vida real e vá andando enquanto não passar aquela dor que sinaliza que você não está em casa.

Para ouvir depois de ler: Live and Let Die - Paul McCartney

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Comissão de Justiça aprova PEC da Felicidade

A chamada PEC da Felicidade foi aprovada, nesta quarta-feira (10), pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ). De autoria do senador Cristovam Buarque (PDT-DF), a PEC 19/10 visa ressaltar que os direitos sociais elencados no artigo 6º da Constituição são essenciais à busca da felicidade. Ao justificar a proposta, Cristovam disse que a busca pela felicidade só é possível se os direitos essenciais estiverem garantidos. Depois de aprovada, o artigo dirá que "são direitos sociais, essenciais à busca da felicidade, a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados". Apenas isso. Está faltando trabalho para esse povo, não?

Segundo recente estudo de economistas brasileiros, citado pelo senador, fatores como renda, sexo, emprego e estado civil influenciam no nível de felicidade das pessoas.

Então, vamos conversar, senador? É verdade, só quando essa lista toda estiver garantida é que dá para fazer festa e começar a ser feliz de verdade. Peraí. Alguém é feliz de verdade aqui?

A felicidade é o grande motivo pelo qual o ser humano busca ter um futuro. A felicidade é uma questão do corpo e do desejo e isso é algo bem amplo. Passa por todas essas coisas mundanas safadinhas que você está pensando, pelos atos fisiológicos que estão na Constituição e também pela arte como um todo. O negócio é que “felicidade” é um conceito inalcançável, extremamente particular e agora deram para rotulá-lo – até no sentido literal.

A gente vive num mundo que confunde felicidade com satisfação ou realização; e agora querem colocar isso por escrito. Essa mudança no texto implica que quem tem educação, saúde, alimentação, trabalho, moradia, lazer e tudo aquilo, é feliz. É feliz. Gente, mas não pode colocar isso na Constituição! Não é assim a vida. Olha só: quantas milhões de vezes você viu alguém dizer que quando fizesse ou tivesse tal coisa seria feliz e que, quando conseguiu, não foi bem assim? Talvez você já tenha vivido isso. Eu sei que eu sim. Sempre coloco minha “felicidade” numa coisa que farei no futuro. Minha vida estará perfeita quando meu salário aumentar, quando eu comprar aquela roupa, quando eu arranjar um namorado, quando eu visitar aquela cidade, quando eu ler aquele livro, quando eu morar naquela casa. Aí você vai lá, consegue a coisa, realiza o desejo, e nada muda. Você se sente igual, talvez pior.

A confusão de conceito transforma a “realização” numa “felicidade encaixotada”. A publicidade diz que aquela coisa ali vai te fazer feliz e você vai lá e compra, não é? Não estou fora disso. Só acho essa PEC 19/10 uma babaquice pois dá a impressão que quer transformar obrigações do governo em “pacotes de felicidade”. Temo que se um país atrasado desse já sair achando que ter saneamento básico, por exemplo, é felicidade, não vai cobrar nada além disso do futuro, sabe como? O que está na constituição é o mínimo do mínimo do mínimo para se pensar em algum tipo de felicidade plena ou paz real.

Quem disse que felicidade é ter educação ou previdência? Vai saber. E se o trabalho que me faz feliz é contrabando de mulheres? E se o que me faz feliz é matar gente? E se o que me faz feliz é ver meus amigos gays se casando? E se o que faz a menina ali feliz é ela não precisar parir o filho do ex-namorado? Sim, eu sei que as primeiras coisas da lista são crimes, mas a outra metade da lista não está legalizada também não.

O repórter Josias de Souza escreveu no blog dele: “O que é preciso para roçar a felicidade? Todos procuram a resposta. Por ora, ninguém encontrou. Livros? Não, não. O conhecimento leva à reflexão sobre as mazelas humanas. Infelicidade certa. Esperança? Amor? Dinheiro? (…) Calma, seus problemas estão próximos do fim. A Comissão de Justiça do Senado aprovou a emenda constitucional da felicidade. A coisa vai ao plenário. Depois de aprovada, você talvez não ache a felicidade. Mas vai dispor de cobertura constitucional para continuar procurando. Boa sorte! Se encontrar, não seja egoísta. Avise ao repórter, ligue para os amigos, grite ao mundo”.

Entenderam?

Para refletir, senador, para refletir....

Para ouvir depois de ler: So-Called Chaos – Alanis Morissette

terça-feira, 9 de novembro de 2010

A maldita sinceridade

Segundo Rousseau, a sinceridade é como uma espécie de “tormento cultural”. Imagine o mundo onde não há mentira, que chatice. Empresas falindo porque a foto da embalagem é exatamente como o produto é lá dentro; milhões de mulheres com raiva dos maridos que não gostaram do novo corte de cabelo; currículos mais do que enxutos. Mentiras são lubrificantes sociais.

Ou não? Quero dizer, na comédia “A Invenção da Mentira” - que não é um filme muito engraçado, mas que recomendo pelos questionamentos que levanta -, vemos um mundo onde ela ainda não existe e as pessoas estão tão acostumadas em ouvir a verdade que não se ofendem, e aceitam tudo naturalmente. O cara pergunta se a moça quer jantar com ele de novo e, ao invés de falar que está sem tempo ou algo assim, ela responde que ele é chato, feio e que mastiga a comida de uma maneira nojenta. Aceitar verdades devia ser normal, mas não é. A sinceridade é uma preocupação que oscila entre aceitação, negação e caricaturização.

Das autobiografias aos reality shows, forja-se uma verdade para satisfazer certas curiosidades, hoje segmentadas – um imagina como os outros fazem sexo, enquanto outro imagina como as pessoas lavam louça, vai saber. É que todos sabem, mesmo que instintivamente, que a personalidade cultural das pessoas não reflete exatamente quem ela é em essência. A pessoa que veste tal roupa e vai trabalhar em tal coisa é um personagem, criado por ela com base em um aspecto da sua “personalidade total”. É sua persona – uma palavra grega que diz respeito à máscara por onde a voz passa. Todo mundo está afim de ver a intimidade alheia, o outro lado dos outros, mesmo que não comungue de forma plena das suas próprias ações ocultas – ou “não públicas”. Mas ser sincero é expôr sua intimidade?

Voltando o assunto: sinceridade não é só isso. Que você não é você, em sua totalidade, o dia inteiro, você sabe. Estava querendo falar é de outro tipo de sinceridade.

O Brasil, especialmente, é um país onde esses conceitos todos se confundem. Educação, falsidade. A linha é tênue e você pode ter bastante certeza da sua posição sem conseguir que enxerguem isso. Por aqui, as regras vêm da cordialidade, herdada do tempo de colônia. É a relação de fazer tudo o que o país opressor quer enquanto planeja-se a independência por baixo dos panos. É a relação do tapinha nas costas enquanto amola-se a faca que virá em seguida.

Por outro lado, ser sincero e falar o que se pensa o tempo todo para todo mundo já é uma perversão, não uma qualidade. Existem os momentos onde omissões se fazem necessárias e mesmo mentiras – que, quando não ferem à justiça, são saudáveis.

Perceba que, quando te perguntam algo, volta e meio você diz antes da resposta: “Posso ser sincero?”. Ora, porque não poderia? Ah, por muitos motivos. Sempre começamos uma crítica colocando a palavra “sinceramente” na frase. É para amenizar e para nos excluir da culpa – afinal, foi você que pediu minha opinião! Para a filosofia e para muitos, sinceridade é sinônimo de confissão. E – se quem se confessa dá testemunho, conta algo porque viveu e presenciou um fato que pode narrar – confissões podem ser usadas como arma contra aquele que se confessa. Igual funciona quando compatilhamos com alguém um segredo.

Como não sabemos tudo sobre nós mesmos, jamais passaremos essa informação adiante. Mas podemos compartilhar impressões e sentimentos e, então, um pode se sentir como o outro se sente - e esse é o significado da palavra compaixão, intimamente ligada aos relacionamentos amorosos, paternos e de amizade. É a concepção ética de cada um que entra em jogo no assunto. Ter acesso a uma informação, a uma confissão, e não usá-la contra a pessoa tem a ver com isso, certo?

Para refletir.

Para ouvir depois de ler: All I Really Want - Alanis Morissette

domingo, 7 de novembro de 2010

Hábitos alimentares são culturais, sabia?

O DJ e produtor musical Moby esteve no Brasil para participar do Festival UMF, que rolou no sábado passado, e aproveitou para falar de seu novo livro, “Gristle”, lançado em outubro e que trata do tema vegetarianismo.

“Gristle” é para qualquer pessoa que esteja repensando seus hábitos alimentares e as consequências da indústria que cria animais para alimentação. O músico se juntou ao ativista Miyun Park e reunu vários nomes para discutir o assunto – um grupo eclético que contém fazendeiros, atletas profissionais, cientistas, executivos de indústrias alimentícias e outros -, mostrando porque a indústria de abate animal desnecessariamente faz mal aos trabalhadores, às comunidades, ao meio-ambiente, à nossa saúde, aos nossos bolsos e, claro, aos animais.


Não comer carne é, para mim, uma opção mais saudável para melhorar meu estilo de vida já tão desregrado. Esse lado ético veio depois. Li que Paul McCartney parou de comer bicho depois de sair para pescar com os amigos. "Vi o peixe se debatendo dentro do barco, querendo se soltar do anzol. Percebi que a vida dele era tão importante para ele quanto a minha vida é importante para mim". Como alguém que passou mais da metade da vida cantando hinos de amor e comunhão poderia olhar para seu almoço e fingir que aquilo ali não era um animalzinho antes?

É engraçado. Quando você para de comer carne você começa a se sentir aquele personagem do filme de terror que tem certeza que viu os fantasmas, mas ninguém acredita. "Será que só eu vejo que o discurso que se usa para justificar a exploração dos animais é o mesmo que, no passado, usamos para defender a escravidão e a desigualdade de direitos entre homens e mulheres? Será que as pessoas não percebem que hábitos alimentares são questões culturais e de costume? Será que não compreendem que, como seres desenvolvidos e pensantes, não precisamos repetir o que nos foi ensinado como certo, que podemos questionar as coisas?"

Por essas coisas, não comer carne virou um pequeno protesto. É a minha maneira de boicotar uma indústria que destrói o meio ambiente e explora, tortura e mata animais. O que gastam com cereais e água para engordar o bicho que será morto teria sido muito melhor utilizado alimentando humanos que estão passando fome. E não precisa ser nenhum gênio para calcular isso. Claro que não há interesse comercial em parar de alimentar os bichos e simplesmente dar para os pobres, mas é mais um grupo que não quero fazer parte - junto ao grupo dos que enxergam as coisas da natureza meramente como matérias primas.

Eu adoraria estar cercado de pessoas que pensassem assim, não me sinto desconfortável com que não o faz, mas eu também não quero entrar em discussões com quem não está interessado em ouvir. Trata-se de uma escolha pessoal que não diz respeito à opinião alheia. Quer dizer, vegetarianos têm tanta certeza que estão certos que alguns acabam ficando chatos. Mas antes de atacá-los ou de sair por aí declarando seu amor por bacon, pelo menos reflita antes sobre o que vocês está abrindo mão versus o bem que você faz para mundo e para você.

Para ouvir depois de ler: The Smiths - Meat is Murder

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A curva da traição


Para o feriado, peguei vários DVDs emprestados. Entre eles, alguns episódios da série “Os Normais”. Em um deles, um antigo namorado da Vani volta da Europa e a convida para um jantar. Ela acha o cara muito lindo e começa, propositalmente, uma discussão com Rui. Brigados, cada um vai para um lado e ela fica livre para encontrá-lo. No jantar, ele revela que o velho continente mudou sua visão das coisas e que, agora, ele é gay. Vani e Rui retomam o relacionamento como se nada tivesse acontecido.

Se o cara não fosse gay, ela teria ficado com ele, com certeza. Aliás, muitos episódios da série mostram um dos dois traindo o outro, mas eles seguem no relacionamento. Isso é um reflexo da vida real? O que é traição? Resolvi fazer uma pesquisa entre meus amigos. Não pretendo fechar a questão, nem discutir as coisas que “motivam uma traição”, é só uma curiosidade cultural.

- Fugiu do combinado é traição. Se o relacionamento é aberto e está combinado que pode ficar com outras pessoas, não é traição a pessoa ir lá e ficar com outra pessoa – me disse uma amiga.

É, mas e aí? Você pega a pessoa e estabelece esses acordos quando? Quer dizer, não dá para sentar na frente do computador e ir escrevendo regras, imprimir o papel e plastificar. Sem contar que assusta chegar para a pessoa, logo depois do “quer namorar comigo?” e perguntar “o que é traição para você?”. Ok, até acontece. Mas não com muita frequência. Isso é até explorado com muito bom humor na série “Friends”, quando todos elaboram uma lista de 5 celebridades que eles têm direito de fazer sexo se tiverem oportunidades.

Na mesma série, num dos mais clássicos episódios, Rachel se sente sufocada por Ross e pede um tempo. Ele fica muito abalado, pois ela é a garota da sua vida desde o tempo do colégio, sai de noite para beber e vira alvo das cantadas de uma moça muito atraente. Eles passam a noite junto mas, pela manhã, a namorada se arrepende. Ele concorda em voltar, fica feliz, mas ela fica sabendo que ele dormiu com a moça e, mesmo tendo sido na noite em que eles estavam declaradamente separados, não o perdoa - transformando a separação em definitiva.

- Mas sexo é traição com certeza – diz um amigo.
- E sexo pela internet?
- Também! Quer dizer, não. Ah, sei lá.
- Poxa, mas pra pessoa trair com sexo pela internet o traído tem que ser muito ruim, né?
- Ou muito ausente – outra pessoa observa.

Em um episódio de “Sex and the City”, Carrie diz que a definição de traição varia, mas que sua teoria é que, para uma pessoa, o que coinstitui traição é diretamente proporcional à sua vontade de trair. Ou seja, quem não considera que beijar é trair, está afim é de beijar outra pessoa. Já a personagem Samantha diz que traição é uma coisa virtual que depende da mistura da consciência da pessoa com sua natureza humana. “Afinal, se você não for pego, você não traiu”.

Hum, estão começando a perceber o dilema? Tem gente que acha que beijo não é traição. Tem gente que acha que sexo pela internet é. Tem gente que, se é a namorada com outra mulher, não é. Tem esposa que deixa, tranquilamente, o noivo comer uma prostituta na despedida de solteiro. Tenho uma amiga lésbica que diz que a única traição impoerdoável é se a namorada pegar um homem.

- Acho que intenção não é traição. Você pode querer fazer mil coisas com a outra pessoa. Mas se ficar na sua, tudo bem. Mas ir lá e fazer algo, já é.
- Então um selinho na amiga, no reveillon, é traição?
- Depende de em quem é o selinho. E também se, depois, rola uma mão na cintura, uma piscadinha.

Uma amiga interrompe:

- No fim das contas, se meu namorado quiser beijar ou comer outra mulher tão pouco vou me importar e ficar triste. É apenas carnal. Pior seria se ele disse que está apaixonado por ela. Aí ele me traiu feio.
- E se ele não só quiser? E se ele fizer? Acaba tudo ou dá para relevar?
- Pegou ou apaixonou? Uma coisa dá para conversar, a outra não.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Ewige wiederkunft

"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!"

Esse é um trecho de “A Gaia Ciência”, último trabalho da fase positiva de Nietzsche, que resume um pouco o conceito de “eterno retorno”. A ideia é a que bem e mal, angústia e prazer, dia e noite, são eventos e sensações que se alternam, inevitavelmente. Tanto na história pessoal quanto na mundial, tudo é cíclico. Pense aí na sua vida se não é verdade. Amores, decepções, depressões, novos amores. Crises, crescimentos, guerras, epidemias.

A questão ali foi posta por um demônio e dá arrepios só de pensar: conseguiria você viver, de novo, toda a sua vida? Isso quer dizer mesmos erros, acertos, prazeres, e essas coisas poéticas todas. Mas pense no lado mais material. São as mesmas doenças, curas, empregos, pais, moradias, chefes, crises, notas na escola, tapas na cara.

Eis porque a proposta é de um demônio. Embora pareça interessante em princípio, a proposta é absolutamente agoniante. Não é um presente divino e sim uma maldição. Você já pensou no passado e suspirou “Ah, se naquela época eu soubesse o que eu sei hoje”? Viver de novo a mesma vida é viver sempre com esse suspiro preso em você, vendo as coisas acontecerem iguais e imaginando como você poderia ter feito diferente.

Por outro lado, a reflexão é boa. Para poder viver a mesma vida, devemos amá-la muito, devemos tê-la vivida de forma muito lúcida e prazerosa e termos alcançado tudo que queríamos. Devemos? A questão é essa. Devemos ter amor ao nosso destino irremediável ou construí-lo?

Apenas seríamos capazes de amar a vida que temos a ponto de querer vivê-la novamente se ela for muito boa. E isso não está completamente nas nossas mãos. Ou está? Pois apesar das inúmeras histórias que religiões e cultos têm inventado, não temos garantia nenhuma que há mais do que essa vida besta nossa, essa que começou no ventre da sua mãe e que terminará numa cama de hospital - ou numa faixa de pedestre. Então é melhor tentar deixar cada momento merecedor de ser vivido de novo, certo?

Para refletir.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Pensando com Laerte


No filme “The Cement Garden”, de 1993, a personagem de Charlotte Gainsbourg é flagrada vestindo um menininho com roupas femininas. Ao ser questionada pelo irmão mais velho dele, ela diz: “Garotas podem usar jeans, usar camisetas e botas, pois é aceito ser um menino. Mas para uma menino, ser uma menina é degradante. Pois você acha que ser menina é degradante. Mas, secretamente, você adoraria saber, não adoraria? Como é que se sente uma garota?”.

Tem bem pouco tempo que Laerte, um dos maiores e melhores cartunistas do Brasil, resolveu fazer algo muito corajoso: revelar para todo mundo que curtia uma onda crossdresser – que é quando uma pessoa começa a usar algumas peças de roupa ou certos acessórios que são, geralmente, atribuídos ao sexo oposto. A declaração foi dada à revista Bravo!, em sua versão impressa e também em uma pequena entrevista em vídeo, aqui.

“Na verdade, a minha convicção é que todas as pessoas gostariam de experimentar muito mais do que aquilo que os códigos sociais permitem, recomendam e limitam. Em se tratando de roupas, acho que as pessoas gostariam de frequentar outros parâmetros e outras áreas também. A vontade de vestir roupas femininas é muito mais frequente do que se imagina. As pessoas sofrem muito por não fazer isso, por achar que é uma vergonha ou algum tipo de diminuição.”, diz ele de forma natural e lúcida. “Vestir uma roupa feminina é constestar um parâmetro de gênero que vigora na sociedade. No limite, é uma coisa política. No fundo, é uma contestação de proposta de mudança. Mas é um prazer meu também”.

Fico feliz em ver gente que enxerga como uma babaquice esses mitos. Dividir a humanidade em gênero é uma coisa que nasceu com as religiões, com a ideia de que a divisão deveria vir das metades necessárias para conceber uma nova vida e com as antigas crenças da vida em matrimônio.

Voltando ao Laerte: “Eu não estou imitando uma mulher, não quero passar por mulher. Eu estou confabulando com um modo de ser que vem sido atribuído às mulheres. Assim como as mulheres – enquanto gênero – frequentam hoje modos, vestimentas e comportamentos que eram exclusivamente masculinos, acho que os homens deviam fazer essa passagem também”. Acho que ele tem razão.

Hoje, uma mulher tem a liberdade de usar calça, sapatos sem salto, não precisa de espartilho, pode falar alto, grosso e beber cerveja. Enquanto isso, nenhum homem pode usar blusa rosa, beber um drink de frutas, comer arroz integral ou ler poesias. A gente – eu, você, nossos pais, nossos tataravôs – chegou aqui há pouco tempo e se engana achando que o mundo sempre foi assim. As coisas foram evoluindo de uma maneira que, por sua lentidão, parecem naturais, mas não são. Em outras culturas, em outras épocas, matar um animal para comer era pecado; era impossível mudar de classe social; bebês usarem roupas amarelas atraía dinheiro; homens só faziam sexo com mulheres para procriarem, pois o prazer mesmo vinha da relação com outros homens.

As gerações mais recentes são daquelas que obrigam o menino a enfrentar precocemente situações para as quais ele talvez não esteja preparado, mas tem de ir em frente porque é homem. Não pode ter medo, não pode chorar, não pode dançar, não pode gostar de arte. O resultado é um bando de gente despreparada para lidar com o desconforto, com o sagrado, com o feminino - e um monte de mulheres insatisfeitas com seus próprios homens, claro.

A chamada "cultura ao redor" não pode ser mais forte do que nossa vontade de mudar e nossa inclinação a pensar diferente, a pensar sobre nossos hábitos e sobre os nossos próprios pensamentos. Não há quem resista a tanta pressão e angústia, presentes dos dois lados da moeda. Passou da hora de todo mundo aprender a cuidar da sua vida. No seguinte sentido: se a coisa que faz bem para você não faz mal para ninguém, significa que a coisa faz bem a todos. Liberdade é isso.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Prodepressivo


Nas últimas décadas, a indústria e a ciência desenvolveram remédios muito eficientes e com menos efeitos desagradáveis para tratar ansiedade, depressão e déficit de atenção, entre outras manifestações psíquicas. Isso é muito bom: tratamento mais seguro e eficiente para quem precisa. Para quem precisa. Mas estou achando que todo mundo se vê nessa lista.

É meio estranho como é moda falar que está estressado e deprimido. A doença do momento, por exemplo, é a bipolaridade. Mas se você tem variações de humor, você é normal. Bipolar é um transtorno psicológico grave. Sim, transtorno. E muito complicado de ser diagnosticado mesmo por profissionais. Piadinhas não deviam entrar nisso.

Tristezas, inseguranças, ansiedade e inquietações são normais na vida de qualquer um, mas passaram a ser facilmente medicados, tirando um pouco nossa responsabilidade de lidar e de resolver conflitos. A mãe vê o filho chorando e leva ele para a farmácia ao invés de sentar e conversar. Vivemos numa época onde as pessoas acreditam que é possível viver sem sentir nenhum tipo de dor física ou psíquica. Basta uma fincadinha na cabeça ou um mero ar nostálgico e já corremos para tomar uma aspirina ou um antidepressivo?

Se tem uma coisa que aprendi – e que já foi explorado aqui nesse blog – é que felicidade eterna não é algo alcançável. Felicidade é uma coisa mutável e, por baixo de suas oscilações, deve haver sim é uma paz de espírito.

Isso tudo sem contar que um remédio como Ritalina é um derivado da anfetamina, por assim dizer, e pode causar dependência. Ele deve ser usado por quem precisa e não por quem está atravessando uma fase de mais inquietação. E, do jeito que andamos, nem percebemos nosso vício. E eles estão começando cada vez mais cedo.

Que tal checar como andam seus pensamentos, valores e sua rotina antes de ingerir alguma nova pílula? Uma das suas missões – ou obrigações - é exatamente essa, aprender a lidar com emoções desagradáveis. A vida é sobre isso e obstáculos só existem para que sejam superados.