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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Desconhece-te a ti mesmo

Todo mundo já fez perguntas filosóficas para si mesmo. Final de ano e aniversário são boas datas para isso. De onde viemos, para onde vamos e essas merdas todas. “Quem eu sou?”, a maior delas, talvez seja a única que possamos responder. Não é fácil, mas é possível.

O mundo está cheio de respostas. Eu sou brasileiro, filho, cristão, estudante, heterossexual, judeu, dentista, gay, negro, irmão, afilhado, índio, blogueiro, the walrus.

(Quando você era criança, por exemplo, sua mãe era só sua mãe. Aí você vai crescendo e vendo que ela é a esposa do seu pai, a empresária de tal lugar, a amiga de não sei quem. Mas é claro que essas respostas não são as que as pessoas buscam. Aliás, elas atrapalham um pouco a busca. Complicado isso. Do alto dos nossos 18 anos, achávamos que era o contrário, não? O peso da decisão de vestibular parecia tão mais decisivo; se errar nessa escolha, terei uma vida de merda para sempre. Mas na verdade, enquanto isso, fica cada vez mais fácil mudar de área, de rumo, de profissão. Sofríamos, na verdade, outro tipo de pressão – que ficará para outro texto, se ficar.)

Mas algo em você não é a representação desses papéis sociais que estamos fadados a cumprir. Outro dia ouvi uma frase ótima: desconhece-te a ti mesmo. Trata-se do inverso do aforisma grego citado por Platão, conhece-te a ti mesmo. Afinal, o que conhecemos da gente são esses rótulos que, com prazer, deixamos os outros colocarem na gente. Sabe quando seu pai te xinga dizendo que, se você nunca experimentou beterraba, como sabe que não gosta do sabor? Você é o que você faz quando não está sequestrado por um ideal. É o que você gosta (ou quer gostar) e faz (ou quer fazer) por você, para você, sem se importar em como isso será visto de fora.

Por isso, o elogio à diferença é tão perigoso quanto sua supressão. Ao invés de se orgulhar, de se envergonhar ou de recriminar, devíamos nos sentir livres para apenas ser. Aí você vai se permitindo e concluindo o que é bom ou não para você. E, é óbvio, o que é ruim para você pode ser exatamente o que o outro precisa e, portanto, você não deve opinar naquilo. E vice-versa.

Infelizmente, hoje, essa ideia não é possível em sua totalidade. Existem instituições muito, mas muito grandes mesmo, das quais não podemos simplesmente fugir. Viver fora delas é uma loucura, mas dentro, se traindo, também. E o dilema é esse. Fazer um acordo com o instituído versus aguentar a angústia de não ter aquilo que você abriu mão.

Há um provérbio, não sei de onde, que diz o seguinte: ninguém se banha, num rio, duas vezes com a mesma água. Desista das tags da vida real e vá andando enquanto não passar aquela dor que sinaliza que você não está em casa.

Para ouvir depois de ler: Live and Let Die - Paul McCartney

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Lâmpada fluorescente

Um adolescente ouvindo música com fones e um jovem engravatado na calçada. Na hora que chegam à faixa de pedestre, o sinal fecha e é mais perto voltar do que atravessar e os dois fazem o movimento ao mesmo tempo.

O engravato sorri para o adolescente distraído e diz:

- Não dá para confiar nessas coisas.
- Oi? – ele diz tirando um dos fones do ouvido.
- O bonequinho do sinal - diz apontando para o semáforo de pedestres -, ele nem sempre é confiável.

O mais jovem apenas sorri em resposta. O engravatado pergunta:

- O que você está ouvindo?
- Ahm, Phoenix. É uma banda francesa.
- Eu conheço.
- Hum.

Silêncio. Os dois estavam andando agora, e quase que paralelamente.

- Você está passeando ou mora por aqui?

O menino já não sabia se ficava irritado ou não. O cara parecia legal e era bonito, mas a situação era estranha.

- Meio que os dois. Eu estava no shopping ali e moro logo ali na frente.
- Ah, e foi fazer o que no shopping?
- Comprar canetas que escrevem em CDs - o moço fez cara de curioso e ele explicou -, porque vou gravar uns CDs para tocar numa festa amanhã.
- Ah, que legal! E você vai me chamar para ir nessa festa?
- ...Você nem deve gostar do que eu toco.
- Você nem me conhece...!

Ele parou de andar e o outro parou também. O mais velho disse:

- Acho que você já percebeu o que eu quero, não é?
- Me bater com uma lâmpada fluorescente?

O outro riu.

- Não. Aliás, quero exatamente o contrário.
- E o que é o contrário de bater em alguém com uma lâmpada fluorescente?

Ele mexeu no bolso, tirou um cartão de visita e disse:

- Me ligue um dia e eu te conto.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

No meu tempo, o amor...

Tirando a época em que era ministrada por um pastor evangélico, sempre fui muito com a cara dos meus professores de filosofia, sociologia e semiótica. Há algo nesses estudos que deixa a pessoa mais em paz no relacionamento dela com o mundo.

Em uma dessas aulas, lembro de um professor contando histórias sobre sua filha caçula e rindo muito dessas pessoas que dizem que quem não brincou na rua ou escalou árvores não teve infância. Afinal, são experiências diferentes. Nem melhores, nem piores, apenas diferentes. Nos tempos dos nossos bisavôs, o povo casava com 15 anos de idade. O conceito de infância é algo que muda de acordo com a época, a religião, a cultura etc.

Na verdade, penso que é assim com quase todos os assuntos. Pessoas mais velhas do que eu, mesmo as que usam com maestria o computador, tendem a usá-lo de forma que ele termine seu serviço ali, ou seja, não interagem com ninguém através dele. Para essas pessoas é praticamente impossível explicar como, via internet, nascem amizades e amores.

A era digital mudou toda a forma prática da sociedade e o amor entrou nisso junto. Ele, que também muda conforme mudam os meios pelos quais se estabelece a relação com o corpo do outro, está tão inserido no mundo virtual quanto qualquer outro tópico. Desde sempre, em relacionamentos, saímos do nosso aconchego e atravessamos um espaço de dúvidas para encontrar o outro. Esses questionamentos – ou obstáculos? – são ideológicos, religiosos, estéticos, políticos. E o que o amor na era digital permite é o de passear por ele, explorá-los um pouco mais, antes de pular de ponta no desconhecido.

Antes, exáminavamos a aparência da pessoa, sua presença e seu cheiro, para ver se valia à pena ir mais fundo, e descobrir sua personalidade, caráter e valores. Mesmo que só cliquemos nos avatares que nos chamam atenção esteticamente, acho que essa ordem se inverte e, no mundo virtual, a pessoa não tão atrativa chamará mais atenção que uma pessoa mais bela se tiver interesses em comum declarados – mesmo sendo no formato de uma comunidade do seu livro ou filme favorito.

A mais nova versão do amor para além do corpo é esse amor digital, que é sem corpo! A pessoa te causa uma sensação boa com palavras que te manda por e-mail, MSN, SMS e, então, amor digital, nesse sentido das palavras, joga fora o corpo, mantendo apenas o que nos liga a ele sem que ele esteja entre nós: o intelecto.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Algo que pensei nos últimos dias

Foi Santo Agostinho, no terceiro século da idade média, quem percebeu pela primeira vez a conexão da inveja com a constituição primeira do ser humano. Ele elaborou uma frase sobre seu significado: “Video, sed non invideo”, ou seja, “vejo, mas não in-vejo”. Quer dizer, então se vejo, posso invejar. O erro – não dele e sim nosso – é atribuir inveja ao desejo pelos objetos dos outros apenas. É possível ter inveja em vários níveis, inveja da aparência e dos valores de terceiros até.

Exemplo? Que tal um estudo da Universidade Estadual de Washington sobre egoísmo? Ele demonstrou que certos atos de altruísmo, ao invés de melhorar a nossa reputação, podem fazer com que os outros não gostem da gente.

Em uma série de testes, os pesquisadores dividiram os voluntários em grupos de cinco e deram a eles “pontos”, que poderiam ser guardados ou usados para “comprar” vales-refeição. E disseram que abrir mão dos pontos aumentaria as chances do grupo de receber uma recompensa em dinheiro. Na verdade, enquanto a maioria fazia trocas justas de um ponto por um vale, alguns dos membros dos grupos eram atores e agiam, propositalmente, de forma egoísta, segurando todos os pontos para si, ou altruísta, abrindo mão de vários pontos em troca de menos vales, para que o grupo todo recebesse a recompensa final.

O que aconteceu foi que, ao final, a maioria dos voluntários de verdade disse que não gostaria de trabalhar com os egoístas de novo, obviamente. Mas a surpresa foi que grande parte deles também declarou o mesmo sobre os bonzinhos.

Pois é, até a pesquisa diz, bonzinho só se fode. Esse ressentimento está associado à inveja, acho. Pois vem muito mais de uma vontade de “ser como aquela pessoa” do que “não quero que aquela pessoa seja assim”. Tanto, que era a caridade dos colegas desprendidos que fazia os outros se sentirem mal – é que, no meio dos diferentes, se você acha que eles têm razão, você se sente pressionado a agir da mesma forma.

Na mesma linha de raciocínio estão todos esses que têm preguiça de discutir sustentabilidade, vegetarianismo, reciclagem de lixo, autoconhecimento, consumo consciente. Eles sabem que são ideias e conceitos mais corretos do que aqueles que levam em sua vida pessoal, mas a falta de força de vontade para mudar traz uma culpa por ter essa preguiça de fazê-lo – e é ela que alimenta essa inveja travestida de raiva travestida de indiferença. Admitir que se fez algo errado é bom, mas não torna o erro melhor.

Não estou propondo muitas discussões aqui. É só algo que pensei nos último dias.

Para ouvir depois de ler: Oh No! - Marina and the Diamonds


quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O clube de matemática do Sargento Pimenta

Para quem se coloca a pergunta “o que é o amor?” a resposta pode ser, basicamente, qualquer uma. Ganhar uma rosa sem motivos, ganhar uma rosa no aniversário, ganhar uma rosa depois do sexo, ganhar uma rosa depois de um soco. Tudo isso é amor para alguém. Jacó e Raquel, Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Frank e April, Lady Gaga e Alejandro.

E o que amor é para você? As cobertas de domingo, a festa hype de sábado, estar sempre rindo, estar sempre sério, estar nunca sozinho ou uma experiência profunda do erotismo, do desejo pelo corpo belo, do arrepio instruso e certeiro. Para mim, ele é tudo isso e mais, é algo que nos tira da racionalidade – queria usar a expressão “salva da racionalidade”, mas talvez não seja bem assim, afinal.

Mas o amor não é cego, senhores. Você pode até não escolher a quem vai direcionar seus pensamentos, mas eles só inundam sua cabeça se você deixar. Nos sentimos atraídos por todos, pois somos seres ligados às sensações e às fantasias, mas na hora do vamos ver há uma lista infinita de empecilhos bem reais. E acho que aí está a grande questão. A questão que move milhões de dólares em filmes, cosméticos e comidas: uma coisa dita tão boa, tão celebrada, não devia fazer sofrer, certo?

O fato é que ninguém acorda e vê uma macieira no quintal de casa. Explico: havia uma semente que foi plantada, cuidada e germinou. Tudo, absolutamente tudo, que faz um amor acender ou apagar, sempre esteve ali. O problema é que a macieira demora anos para estar totalmente crescida e esse intervalo de tempo causa a impressão do “de repente”. Acredite, nada nesse mundo acontece de repente. Ao mesmo tempo, não há nada novo debaixo do sol e todo o código daquela árvore estava adormecido naquela sementinha; ali dentro já havia uma árvore inteira. Só que você não viu.

Quando botamos o padrão do amor romântico no topo de prioridades e acreditamos na sua ilusão, estragamos o amor, pois o romantismo é apenas “uma das” formas do amor. E o preço dessa contradição é pago em lágrimas. É a infelicidade pelo desvio do padrão. Se tratarmos o amor como uma lista de regras, como uma caixinha na qual devemos nos encaixar, ele nega seu propósito original e, pela lógica das coisas desse mundo, deixa de ser amor. Concorda?

Já acho suspeito quando dizem que "tal me pessoa me completa" - pois, afinal, a gente se soma, mas todos já estamos completos -, então nem sei o que dizer do fato de que, no fundo, estar em um relacionamento é atestar que você realmente acha que nenhuma das outras milhões de pessoas no mundo tem a ver com você, mesmo que você não tenha conhecido 0,01% delas nem superficialmente.

É que o amor-paixão-adrenalina desaparece na mesma velocidade com que chega e tudo o que resta são bitucas de cigarro no tapete. Quando o ar ainda fede, dizemos que jamais cairemos de novo nessa ilusão romântica. Mas basta respirarmos fundo no ar novamente limpo para estarmos lá, criando novos laços. Só não pode cair para a falta de respeito, que as vezes parece natural diante do excesso de intimidade.

Essa é a vida, segundo canção de Regina Spektor: você é jovem até não ser, você ama até não amar, você tenta até não conseguir, você ri até chorar, você chora até rir e todo mundo respira até seu último suspiro. Você espia dentro de si e pega as coisas que gosta e tenta amar as coisas que pegou. E aí você pega esse amor que você criou e deposita no coração de outra pessoa, que pulsa o sangue de outra pessoa. E andando de braços dados, você espera não se machucar, mas mesmo se machucando, fará tudo de novo.

É preciso coragem para pular de ponta numa piscina – bem funda – de improbabilidades. Acontece que é intraduzível a sensação boa de amar. E é bonito exatamente porque pode trazer junto com ele tanta dor, exige esforço e empenho, então precisa compensar o sofrimento. A pergunta, no final, é essa. Como anda essa equação por aí?

Para ouvir depois de ler: Real Love - John Lennon

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Clipes de papel

Dia dos Namorados – além de poder ser a data internacional da expectativa frustrada quanto aos presentes – é a data onde solteiros e solteiras se reúnem para brindar a solteirice. É curioso que uma data essencialmente comercial mexa tanto com o orgulho de todas as pessoas. Pela cidade inteira, no dia 12 de junho, tem eventos apenas para casais ou apenas para solteiros. Precisa mesmo ser um versus o outro?

Acho que estar acompanhado é mostrar que você tem atributos suficientes para ter alguém os querendo apenas para ela, é fazer parte do famigerado e clichêzento “final feliz” de mais da metade dos filmes de Hollywood. Mas é também fazer parte daquela parcela de gente careta, que não frequenta todas festas ou os restaurantes da moda. Todo mundo tem histórias de amiga que é a melhor companhia do mundo, mas que some quando começa a namorar; ou aquele amigo que simplesmente perde todo o seu senso de humor quando ao lado da noiva.

No final das contas, todo mundo sabe que é completamente e perfeitamente possível viver feliz sozinho desde que esta seja uma decisão espontânea e movida por um desejo genuíno. A solidão imposta à revelia pelas contingências do destino é tratada, especialmente hoje em dia, como uma catástrofe existencial. Bobagem, não? Mas, vendo o cenário por inteiro, estar solteiro é uma coisa altamente celebrada e que movimenta bilhões em academias, salões de beleza e lojas de roupas – claro que não estou dizendo que todo mundo frequenta esses lugares apenas para ficar atraente para outras pessoas, mas você sabe de que tipo pessoa estou falando.

Então é o seguinte: de um lado ficam casais felizes e de outro os solteiros, divididos entre os orgulhosos e os envergonhados. Mas não devia ser assim. Estar acompanhado não é, por conta própria, motivo nenhum para se sentir superior. Vivo dizendo que categorias em que você não teve poder de escolha não podem abrigar orgulho nem vergonha – como nascer homem ou mulher, hétero ou gay. E, nesse caso, a regra acaba também se aplicando, mesmo que a solteirice seja de ocasião, e não opção. Quem disse que todo casal é feliz? Quem disse que todo solteiro é infeliz? Ficar o “mês dos namorados” inteiro falando como você ama estar solteiro pode ser sinal exatamente do contrário...

A ideia do amor romântico, do feriado debaixo das cobertas e do delivery de pizza engana muito. Estar junto dá um trabalho danado e esses momentos são, na verdade, raros. Alguém me disse que "estar com alguém é um trabalho árduo fantasiado de aconchego", adorei a frase. Da mesma maneira, a ideia do solteirão bon vivant, que pega todo mundo e cada dia está com outra pessoa sem ligar a mínima para sentimentalismo, é falsa. Além de financeiramente cara. São poucos os que conseguem passar a vida toda assim.

Dia 12 de junho é um dia como outro qualquer em escala global. Igual o dia que você passa no vestibular, tem um filho, quebra a perna. Um dia normal para a humanidade. E, caso vocês não saibam, casais e solteiros podem sair e se divertir em qualquer outro dia.

O pior é que tudo se inverteu e já conheci um casal que se sente intimidado, não querendo comemorar o Dia dos Namorados para não ofender os amigos solteiros. Que preguiça! Gente, comemore. Primeiro pois, quando solteiros, ninguém tinha esse cuidado com você; segundo pois, afinal, qual outra data namorados têm estabelecida? Natal tem família, aniversário tem amigos. Dia dos Namorados pelo menos é uma coisa “oficial de casal”, entende? Torcia o pescoço, mas só namorando percebi que a data, mesmo que apenas comercial, se torna especialmente interessante para casais adultos e gente casada. É que programinhas e presentinhos todo aniversário de mês de namoro é coisa de adolescente e, com a maturidade, esses mimos podem ir sumindo aos poucos, mesmo que o sentimento de um pelo outro continue intacto. Um simples efeito colateral do excesso de intimidade.


Para ouvir depois de ler: Elastic Love – Christina Aguilera

terça-feira, 1 de junho de 2010

DR

Ao meu redor vejo relacionamentos amorosos de todos os tipos. Novos, longos, à distância, abertos e bem fechados. Todo mundo que está sozinho, uma hora ou outra, acha alguém. Mas e o que acontece depois? Sim, pois achar alguém é o fim de uma fase e apenas o começo de uma outra.

E aí está também o começo do problema de muita gente. De um lado, não é porque amamos que temos que suportar tudo. Intimidade não é tortura. De outro, qual o limite de intimidade possível? O quanto é intimo demais? Isso, se é que tal conceito existe!

Acontece que escolher o amor não é o mesmo que escolher a paz. Na verdade, amor está mais para guerra. As pessoas associam casamento e amor verdadeiro a romance, mandar flores, jantares românticos à luz de velas e até coisas mais profundas, como trazer filhos ao mundo. Mas o romance vai e volta. Uma hora seu marido ou sua esposa são melhores amigos e outra hora eles estão na casa do cachorro.

Então, confundimos discutir um problema com discutir a relação. A grande maioria de nós vive num movimento pendular de tudo ou nada, vida ou morte, amor eterno ou rejeição aguda, dedicação total ou rompimento. Será que relacionamento é esse conjunto de sobressaltos? Esquecer uma data, não dar presentinhos todo dia, não poder conversar quando o celular toca no trabalho, essas são coisas normais.

É verdade que em alguns casos precisamos mesmo discutir a relação e os hábitos. E isso deveria ser encarado como uma coisa positiva! Assinalar diferenças é sinônimo de compreender o outro, suas neuras e sonhos, de se colocar no lugar dele – com os olhos dele – e, muitas vezes, de se comprometer com um futuro de interesses mútuos.

Todo mundo que está acompanhado precisa respirar e permitir que o outro tenha seu espaço, sua hora de fazer suas coisas. E, claro, se permitir e se acostumar a tê-lo também. Por mais feliz que você esteja com essa pessoa, vai me dizer que você não gosta de poder ficar em casa um sábado comendo porcaria e ouvindo música brega bem alto usando roupas velhas?

O que faz tudo funcionar é a habilidade de um amar o outro incondicionalmente. E não há nada de romântico em amar alguém incondicionalmente. É um trabalho duro, é a coisa mais difícil do mundo. É como o homem que me disse que não tem motivos para amar sua esposa, ele a ama porque ama. Pois com “motivos” ele quer dizer os motivos exteriores. Não é só porque ela é bonita, talentosa, rica, nenhuma dessas coisas físicas. Ele ultrapassou essas coisas e a ama só porque ele a ama. Isso é amor em nível de alma.

Para ouvir depois de ler: I Am - Christina Aguilera

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Você está preparado para o amor?


Independente de ter alguém do seu lado, você já se perguntou se está preparado para o amor? Saiba, de antemão, que uma coisa não está relacionada a outra. Casais casados há 50 anos podem não estar. Amantes recentes podem estar. É tudo uma questão de... de quê?

Ninguém sabe ao certo. Chega uma hora que algo dentro de você estala e você simplesmente sabe. Muitas vezes você ama a pessoa, mas não está pronto para isso e, sem querer, é capaz de sabotar tudo. Quem já teve o coração partido sabe como a falta de explicação de um fim dói bem mais do que o fim em si. Pois todos os fins que fogem do nosso controle colocam na nossa cabeça dúvidas sobre a gente mesmo e nosso lugar no mundo.

Eu não acredito que qualquer simpatia é amor à primeira vista, mas estar junto há muito tempo não é sinônimo de se dar bem. Amor é uma coisa delicada e repetitiva e, de forma nenhuma, deve ser desculpa para testar o outro, apenas testar a si mesmo. Amor de verdade não suporta jogos e labirintos mentais.

Dizem que sexo é o máximo de intimidade possível. Bobagem. Estar pelado do lado de alguém ou dentro de alguém não é nada. Respeitar o caráter, os valores e os traumas do outro, isso sim é intimidade. Amor e intimidade estão interligados em pequenos atos. Em saber que, quando o outro pede duas colheres de açúcar, está na verdade pedindo três.

A pessoa amada é quem está na sua mente quando você ouve as músicas alegres antes de dormir, quando lê um texto bonito, é com quem você se preocupa quando vê que um temporal está sendo armado no céu. Como li outro dia, estar acompanhado é um trabalho árduo, mas disfarçado de aconchego.

Para ouvir depois de ler: Nicest Thing – Kate Nash

terça-feira, 22 de setembro de 2009

O que você precisa, segundo os Beatles

Com seus 13 álbuns relançados com uma mixagem mais trabalhada e clara, voltei a ouvir Beatles sem parar. O quarteto foi, para mim, a introdução ao rock. Quando eu era criança, na minha cabeça, existiam apenas MPB e rock – e rock era coisa de gente má, cabeluda e adoradora do diabo. Obviamente, a minha confusão era grande e foi ouvindo Beatles que percebi isso, fuçando a coleção de vinis e CDs da minha mãe.

Crescer ouvindo Jonh, Paul, George e Ringo foi algo que moldou muito minha personalidade e valores. Afinal, as respostas sobre o sentido da vida estão escondidas nos lugares menos prováveis. E da dúvida mais corriqueira às inquietações filosóficas mais profundas, os Beatles responderam tudo.

E é bem mais fácil digerir as divertidas canções que aprender sobre sephirot, rezar virado pra Meca ou ler noventa versículos contando apenas a genealogia de Matusalém. Aliás, imagina só um CD com o Cid Moreira declamando “Something” ou “I Want You” de maneira grave e pausada? Sensacional.

Como dizer para aquela pessoa que você está apaixonado? Prefira a abordagem discreta, fale baixinho. “Closer, let me whisper in your ear, say the words you long to hear: I’m in love with you”. Quando você brigar com um amigão ou se irritar com sua mãe, lembre-se do trecho de “We Can Work it Out”: “life is very short, and there’s no time for fussing and fighting, my friend”. O verso não podia estar mais coberto de razão.

Pensando no futuro? “When I'm 64”. Está desanimado com a vida? Coloca “Hey Jude”. Terminou o namoro? Que tal “Yesterday”? E, depois de dar adeus à sua garota, se bater aquele vazio, ponha na vitrola “All You Need is Love”. A lição? Não há nada que não possa ser feito se você tiver o que realmente precisa. Ou seja, amor.

sábado, 22 de agosto de 2009

Você merece alguém melhor que eu

Já ouviu essa frase? Não é uma das piores armadilhas do mundo?

Se você concordar com a pessoa estará, supostamente, falando que não gosta dela. Admitindo que está de olho em outro alguém ou se colocando no alto de um pedestal inalcançável de beleza e sabedoria e dizendo que ninguém ao seu lado é capaz de ser tão bom quando você.

Por outro lado, se você discordar, rola uma sensação de estar se diminuindo. De que você aceita qualquer pessoa do seu lado. E, além disso, talvez ainda dê a impressão contrária. A de que você precisa estar ali para cuidar da outra pessoa que, por sua vez e se interpretar assim, vai achar a afirmação um tanto quanto orgulhosa demais.

Conversando com uma amiga, concluímos que sempre que a tal frase é proferida ela é verdadeira. Mas o que rola é que esse “alguém melhor” não é, necessariamente, outra pessoa.

sábado, 18 de julho de 2009

Delimitação do problema

Para quem não sabe, eu formo na faculdade no final desse ano. Uma das coisas que preciso fazer para conseguir meu diploma é uma monografia. Em resumo, nesse tipo de texto, geralmente o autor precisa responder uma pergunta. Essa pergunta é chamada de “problema” e a concepção dela é “a delimitação do problema”. Afinal, trata-se de um problema de pesquisa, uma pergunta de pesquisa.

Desse modo, um problema de pesquisa pode ser “Como o jornal Estado de São Paulo tratou a eleição presidencial dos Estados Unidos?” ou “Como a música do filme ‘Pequena Miss Sunshine’ dialoga com seu roteiro?”. Para cada resposta, aspectos diferentes devem ser analisados. Nesses casos, em que cadernos do jornal o assunto apareceu, com qual freqüência, em que dias da semana, qual o tamanho dos textos; ou que tipo de música tem no filme, em que cena cada uma aparece, que tipo de cena sempre tem música etc.

Os assuntos, as perguntas e as respostas são, sem exageros, sem fim. Assim também andam minhas conclusões sobre um assunto que permeia muitos dos meus diálogos e também textos nesse blog: amor. Pois numa sociedade onde é possível ter amor sem sexo e sexo sem amor, como você sabe onde você está em um relacionamento? Se é que você está em um! Que sinais você deve levar em consideração ou enviar ao outro?

Uma amiga acaba de sair do que ela chama “buraco negro”. Um daqueles relacionamentos que não podem ser chamados de relacionamentos por ninguém em sã consciência – exceto por especialistas mentais, que o batizarão com um termo técnico da psicologia.

Todo mundo já passou por isso: já se foram dois meses e à medida que você foi conhecendo a outra pessoa, foi vendo como ela é interessante. Mas nem tudo que reluz é ouro e os cabelinhos do seu pescoço arrepiam quando você percebe que tem algo errado.

E tinha mesmo. Ela não estava apaixonada pelo cara, mas, movida pelo carinho que tinha por ele, propôs uma coisa mais séria. Ele se disse encantando com a proposta e disposto a tentar, devagar. No dia seguinte, ele disse que iria viajar para passar um tempo em Porto Alegre e abro aspas para citar exatamente o que ele disse: “Vai ser uma viagem ótima. Nunca fui para lá solteiro”.

– Eu dei uma volta de 360 graus em um final de semana! – disse ela – Já não é ruim o suficiente estar com uma pessoa que você tem certeza que não gosta de você? Ele tem que jogar na minha cara assim?

Eu não sabia o que dizer. Afinal, era uma posição confortável. Há uma mulher engraçada, bonita e afim de você de um lado e uma viagem anteriormente programada do outro. Poder abraçar as duas opções – viajar, aprontar tudo e ter uma pessoa garantida na volta – soa interessante na menos maquiavélica das mentes.

- Mas eu não quero fazer isso comigo mesma. Eu não quero ser a imbecil que fica esperando, sabe?

Eu sabia. Por isso disse:

- Só tem uma coisa que você pode fazer: nada. Você já deixou claro, muito claro, sobre seus sentimentos por ele. Quando ele voltar espere ele te procurar. Não mexa uma palha. Se ele vier, bom. Se não vier, é porque não vai dar certo. Mentir pra você mesma agora só vai piorar as coisas. E as coisas não estão boas.

Ela sorriu para mim.

Adivinhe se ele ligou.



Para ouvir depois de ler: Angus & Julia Stone - Hollywood

domingo, 12 de julho de 2009

A modernidade não precisa ser líquida

Segundo o sociólogo Zygmunt Bauman, vivemos em tempos líquidos. Um mundo repleto de sinais confusos, propenso a mudar com rapidez e de forma imprevisível.

Pegue como exemplo as empresas. Com o passar do tempo, abrir uma empresa se tornou algo mais fácil. Atualmente, basta ter um computador – e pode ser o mesmo que você usa em casa. O que isso quer dizer? Estruturalmente, ela não tem uma base física. E isso traz inúmeros benefícios, como diminuição de custos e a facilidade e rapidez com que os cacos serão recolhidos caso ela não dê certo. Em poucos dias tudo está pronto para começar algo novo.

O mesmo tem acontecido com o amor e os relacionamentos. Ninguém quer nada profundo hoje em dia. Afinal, em caso de falência, muitos ficarão sem emprego e será muito triste derrubar o prédio da sede. Talvez seja uma tendência. Ao invés de termos casamentos duradouros e namoros cheios de cumplicidade, temos casos curtos que não levamos mais do que uma ducha para esquecer.

É muito fácil isso. Não se envolver é sinônimo de não se machucar, não se entregar e também é uma segurança de que você não está sendo passado pra trás por ninguém. Entretanto, quem tem todos não tem ninguém e nunca houve tantos casos de estresse, depressão e distúrbios alimentares no mundo. Como foi que chegamos nisso?

Ah, e não pense que isso vale apenas para casais. Já assistiu “Clube da Luta”? O personagem de Edward Norton tem uma teoria ótima sobre tudo na nossa vida que é servido em uma “porção individual”, como em aviões. Temos amizades segmentadas e uma lista de tópicos apropriados para cada pessoa do trabalho e de casa. Não somos nós mesmos hora nenhuma.

Mas não precisa ser assim. Claro que, com tudo isso, arranjar alguém disposto a não seguir esse modelo de comportamento é cada vez mais raro, mas é possível. Talvez muitos dos que são assim nem percebam. Por isso, agradeça aos céus se tem um bom amigo do lado ou alguém que te ama por perto. São pessoas que você merece ter na sua vida, mas que estão ficando extintas no mundo.

Para ouvir depois de ler: Folding Chair – Regina Spektor

domingo, 28 de junho de 2009

Quem é quem?

– Um manda e o outro sofre. É sempre assim em todo relacionamento. E nem sempre você faz a mesma coisa, mas é sempre uma variação disso.

Ele fechou a boca e bebeu mais um gole de cerveja. Curiosamente, a teoria era da menina com quem ele estava fazendo sexo casual regular. Não cabia a mim julgar qual dos dois fazia qual das duas coisas. Mas sim julgar a teoria. É verdade? Em um relacionamento, sempre há quem mande e quem sofra?

Exemplos? Bom, o mundo ficou perplexo quando um dos maiores rockstars da história, que podia servir-se de groupies à vontade, resolveu desposar uma japonesinha sem sal. Ainda acho que John Lennon e Yoko Ono eram almas gêmeas, mas era claro ali para todos que a última palavra era dela, não? E o fato dele ser famoso e milionário não mudava isso.

Quando as duas pessoas decidem que a aventura do momento é ficar juntas, não é que um vá sempre sofrer. Mas o pêndulo das decisões sempre cai mais para um lado. E porque isso acontece?

Pais e mães passam a vida falando que o amor pelos filhos é igual. Sim, igual entre os filhos, mas não dos filhos para eles. Na vida amorosa também. As duas pessoas podem verbalizar exatamente a mesma coisa, mas os verdadeiros sentimentos de um pelo outro se encontram nas pequenas coisas. “Eu te amo” são três palavras apenas, todos já sabemos. O sentimento de verdade está escondido no ato de abrir uma porta, de rir das piadas sem graça, de pagar um café, na ansiedade pelo telefonema e no compromisso com o fazer a ligação prometida.

Duas pessoas que se gostam nunca se gostam da mesma maneira. Mas talvez esteja aí o elemento que faz uma pessoa ser interessante para a outra. E também a explicação para o fato de que, sempre, alguém sai mais machucado que o outro quando as coisas chegam ao fim.



Para ouvir depois de ler: I Want To Hear What You Have Got To Say – The Subways

domingo, 21 de junho de 2009

Mais um adjetivo

Tudo começou quando uma amiga conheceu um cara. Ele era o amigo de um amigo e aconteceu deles se encontrarem por acaso no show de uma banda independente muito ruim – mas cujos membros eram também amigos e, assim, mereciam o esforço. Além do mais, a entrada era 10 reais e convidados da banda ganham cervejas.

Sem dúvidas ele era o mais velho ali, mas nem por isso menos divertido. Bem humorado, esclarecido, educado. Tudo que minha amiga sempre quis em alguém. Depois de três semanas saindo juntos e de duas noites quentes, ela descobriu que ele tinha um adjetivo a mais na lista: casado.

Devastada, ela teve que terminar tudo. Sempre existe a possibilidade de um divórcio, mas quem aí já ouviu falar de uma história assim que deu certo?

Ela me telefonou quando descobriu, coitada. É verdade que eu seria uma boa pessoa para dar conselhos ou abraços numa hora dessas. Afinal, Deus sabe quantas vezes isso aconteceu comigo – exceto que, comigo, a pessoa nunca era casada, já que esse direito ainda não é permitido aos gays, mas vocês entenderam. Embora eu conte nos dedos as pessoas que realmente mexeram comigo, perdi a conta de quantas eu tive que deixar ir pois estavam com outra pessoa ou pelo menos querendo outra.

Acontece que o cara não podia ter escolhido pior hora para revelar seu segredo. Eu estava numa dessas sessões de cinema que começam as 22h20 e, como é de costume, meu celular estava desligado. Geralmente eu o coloco no modo silencioso, não sei por que não fiz isso aquele dia. Acontece que, na falta dos meus conselhos e talvez com vergonha de contar o que havia acontecido para terceiros, ela procurou ouvir a voz de outra pessoa: Jack Daniel.

Em meia hora, não só tinha esquecido o cara, como tinha esquecido o cartão de crédito no bar, a bolsa no táxi e talvez seu próprio nome. Na manhã seguinte, tudo voltou a sua mente e com um telefonema, agora não sai da minha.

Para ouvir depois de ler: Chasing Pavements - Adele

sábado, 20 de junho de 2009

- Sua garota é adorável, Hubbell



Talvez algumas pessoas não possam ser domadas. Talvez elas tenham que correr livres até que achem alguém tão selvagem quantos elas para correr junto.

Para ver depois de ler: Monster Box Sex and the City

domingo, 7 de junho de 2009

Um brinde silencioso

Tem uma música cuja letra reclama que as coisas simples ficaram complicadas demais para minha vida. Bastava que a gente assistisse ao mesmo programa de TV ou tivéssemos o mesmo personagem como preferido e podíamos ser amigos.

Hoje, a cada dia que passa, o círculo se fecha. A lista de “podes” e “não-podes” das pessoas que queremos ao nosso redor vai ficando cada vez mais objetiva – e isso não quer dizer pequena. Longe disso.

E quem dera estivesse falando apenas de beleza. É que por mais feiosa que a pessoa seja, sempre tem alguém que vai achá-la linda. Mas é que essas listas secretas são tanto abrangentes quanto específicas. Não fala inglês? Perde uns pontos. Nunca viu tal filme? Usa tal roupa? Gosta de tal autor? E por aí vai...

Era sobre exatamente isso que eu estava falando no almoço com três amigos: Olívia, uma jornalista de São Paulo; Marcelo, estudante de história e Juliana, publicitária.

Ele começou: “Eu odeio ficar sozinho. Mas, ultimamente, tenho odiado mais ainda a maneira que sou tratado por quem está do meu lado”. Pedimos mais explicações. “As últimas duas mulheres que ficaram comigo simplesmente passaram a ignorar meus telefonemas. Não entendo o que fiz de errado. Não houve pronunciamento ou desculpa alguma, como uma outra pessoa ou porque eu faço tal coisa errada. Nada. Simplesmente decidiram. Não entendo”.

Juliana: “E daí?”. Todos arregalaram os olhos, como pedindo frases completas – e elas vieram: “Você ainda tem isso de sentir mal? Eu cansei. A vida é muito curta e eu já desperdicei tempo demais. Metade da infância querendo ser adolescente, metade da adolescência querendo ser adulta. Não quero passar minha vida adulta querendo voltar a ser adolescente. E quem termina um namorinho de duas semanas e sofre é adolescente”.

Eu apenas observava – estarrecido, diga-se de passagem – quando Olívia tirou as palavras da minha boca: “Você é louca?”. E continuou: “E se você tivesse começado a gostar de verdade da pessoa? Olha, tudo bem que tem essa coisa cerejinha [referindo-se ao símbolo do hedonismo] de que a vida é curta e que se fulana saiu de cena basta partir pra outra, mas não é bem assim”. Silêncio. Todos sabíamos que não era. Mas e era o que?

Essa é a questão, acho. Os antigos códigos de ética dos relacionamentos ficaram cafonas e desceram a ladeira, mas ninguém sabe como substituí-los.

“Vocês acham que as pessoas estão mais exigentes?”, perguntei. Todos falaram um “não” meio arrastado. Marcelo: “Exigências sempre existiram, mas eram outras”. Juliana concordou. “É, agora elas estão mais específicas. Eu não consigo imaginar pontos que fossem comuns o suficiente para unir, por exemplo, um engenheiro e uma atriz”. Olívia fez uma careta – ela detesta quando a profissão das pessoas entra na jogada, diz que isso não tem nada a ver, pois já tinha ficado com doutores e pintores de parede. “Ok, mas com qual deles vocês se casaria?”, perguntei. Ela apenas deu de ombros e engoliu o resto de seu chá gelado.

“Então vamos lá”, eu disse. “Somos quatro pessoas na mesa e vocês três estão saindo com alguém. Como estão indo as coisas?”. Um fez cara de quem estava esperando o outro falar algo antes. Juliana disse que ia bem. Estava há um mês com um outro publicitário e que tudo estava ótimo, apesar de não ter rolado sexo ainda. Olívia disse que seu caso era recente demais. Tratava-se de um rapaz que ela tinha conhecido um ano atrás e visto uma vez por mês desde então e agora, finalmente, tinha durado duas semana seguidas. “A gente combina, mas não sei como vai ser o futuro ainda”.

E por que não sabe? Porque ninguém sabe? Romeu sabia no segundo que viu Julieta, Jacó trabalhou 14 anos de graça para ter Raquel. O que coloca tantos empecilhos hoje em dia nos relacionamentos? É o excesso de opções, falta de auto confiança?

“Nada disso”, disse Marcelo. “Por exemplo, eu estou saindo com uma menina, mas realmente não dá. Ela fica reproduzindo os cânones ultrapassados do Positivismo como se o cientificismo fosse desse jeito". Todos apenas levantamos as sobrancelhas e as interrogações saindo de nossas testas eram quase visíveis. Ele reparou e completou a tempo e com ar sábio: “O que quero dizer é que eu não quero só companhia. Talvez seja uma imaturidade minha, mas o que eu quero é uma pessoa sã e inteligente que, no final das contas, me considere insubstituível”.

Fizemos um brinde silencioso a isso – uma esperança secreta de todos na mesa. Bom, nem tão secreta assim mais.

Para ouvir depois de ler: Björk - All Is Full Of Love


terça-feira, 19 de maio de 2009

A roupa de não encontrar

Essa não é uma dessas histórias que a gente conta pra qualquer um.

Existem algumas coisas que tem o dom de incomodar qualquer pessoa, bonita, feia, alta, baixa. Insetos barulhentos enquanto você dorme, alarmes de carros enquanto você lê. Mas uma das principais é ter certeza que alguém que acabou de passar por você na rua é sua alma gêmea e não poder fazer nada a respeito.

Bem, quase nada.

Ele tinha bochechas rosas e andava sempre muito arrumado, provavelmente seu trabalho pedia isso, seja lá onde é que ele trabalha. Nos víamos tanto que era como se nos conhecêssemos. Aquele olhar trocado passou de tímido para constante – sem chegar nunca no provocativo ou insinuante. Era como quem dizia “olá, vi que você está aí e que me viu olhando para você também”. Não é que eu me vestia por aquele olhar, mas sempre checava minha roupa depois desses momentos.

Sabe como é. Um dia você está inspirado e veste seu melhor figurino, no outro você coloca uma blusa por cima do pijama e vai trabalhar. Esses segundos dias passaram a não existir. Eu tinha uma espécie de uniforme para vê-lo. Ou melhor, não vê-lo. Pois, no sentido de “ver” querendo dizer “sair com” ou “dormir com”, eu não estava vendo ninguém. Muito menos ele! Bom, eu só quero dizer que presto mais atenção no que visto pelas manhãs agora.

Mas não é que isso seja ruim. Se ele não gostar de mim, tudo bem. Eu não o forçaria, não precisaria disso. Mas se quando me olha, ele me deseja, posso dizer que já estamos apaixonados.

Só falta todo o resto.

E eu vejo que ele será a pessoa perfeita para mim durante três bons meses. Aí meus hábitos ruins e as músicas ruins que ele ouve entrariam no meio e a gente ia ficar muito irritado um com o outro o tempo todo. Mas, ei, é assim mesmo. Quem acha que não faz sentido começar nada pois sabe que aquilo vai acabar, está muito equivocado. O que vale é o miolo mesmo. No meio fica o ápice dos filmes e da vida.

Para ouvir depois de ler: Blue Lips - Regina Spektor

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Vitória

Recebi uma mensagem logo de manhã na semana passada. É uma amiga, vamos chamá-la de Vitória. Ela me conta em um SMS com seis caracteres de pura empolgação: “Peguei”. O assunto, no caso, era um jovem que fazia parte de suas fantasias na última semana. Mas esse texto não tem um final feliz, se prepare.

Eles se conheceram por acaso no Stadt Jever, aqui em Belo Horizonte. Ele foi ao banheiro e ela sentou em sua mesa, achando que ela estava vaga. Ele voltou e os dois começaram a conversar. As amigas dela chegaram, mas não antes deles trocarem números. Ele apenas acenou para todas com a cabeça e sumiu pela porta.

Ele demorou três dias para ligar. A desculpa era clássica, havia perdido o papel. Vitória não se importou. Ele era educado e os dois conseguiram manter uma conversa digna durante os cinco minutos que estiveram juntos. Minutos versus uma vida inteira é bem diferente, ela sabia, mas era um começo. Afinal, com quantos desconhecidos você passa cinco minutos conversando sem parar e sem citar a previsão do tempo, os engarrafamentos ou os signos?

Combinaram de sair e saíram. Encontraram-se e fizeram uma boa refeição japonesa na sexta. Jantaram filés bonitos no sábado. E domingo ele queria almoçar com ela. Segundo ela, ponto positivo.

- Quando mais cedo no relógio, mais séria está a coisa. Se ele quer encontrar pro almoço deve ser por causa das nossas conversas, que são ótimas.

Fazia sentido a explicação dela. Mas não pude evitar perguntar:

- Mas e como é o sexo?
- Ainda não fizemos sexo.
- Ih...

Expliquei para Vitória que, se o problema não era a agenda deles e se ainda não existia sexo, a teoria dela estava inversa. O almoço provavelmente seria o fim de tudo. Se eles estivessem se pegando de verdade, não teria nada a ver. Mas, sem sexo, você cair de “drinks com comidas sofisticadas” para “almoço no shopping com guaraná” é uma tragédia. É porque ficou tedioso. De uma forma inexplicavelmente estranha e incrivelmente encantadora, ela arregalou apenas um olho e me perguntou o que fazer.

- Pegue as rédeas. Ligue para ele, cancele o almoço e sugira algo de noite. Dê um jeito dele entender que você quer ir pra cama. Não vá se não quiser, mas jogue com a possibilidade.

E foi o que ela fez. Ela não queria perder o moço. Como poucas pessoas, não se sentia pronta para sexo no quarto encontro, mas sabia que o rapaz tinha seu valor. No final das contas, como a telinha luminosa me informou, eles acabaram mesmo na cama. Uau.

Hoje fez, portanto, uma semana do incidente. O telefone celular dela não para de tocar. É o tal. Aparentemente, o homem morava com os pais ainda. Era uma casa gigantesca e seu quarto era independente, mas em algum lugar ali estavam seus pais. Aquele ar de executivo que deu super certo precocemente acabou. Era óbvio que o cara, que já estava na casa dos 30, era mantido com mesadas, o que afasta mulheres independentes.

Enquanto eu escolhia de qual líquido industrial a máquina da Nestlé ia encher meu copo, Vitória concluiu:

- Eu já passei dessa fase de estar fascinada pelo glamour vazio. Umas pegadas aleatórias têm o seu valor, mas uma pessoa independente, bem humorada e talentosa é muito mais tesão.

Eu ri e concordei mentalmente.

Para ouvir depois de ler: Alanis Morissette - That I Would Be Good

domingo, 29 de março de 2009

Sinceramente falando

Sempre ouço falar que grandes escritores se inspiram em todo e nenhum lugar. Do meio do nada lhes vem uma história pronta na cabeça e tudo que eles fazem é achar um papel e escrevê-la. Eu, não sendo um grande escritor, não funciono assim.

Às vezes não sei o que quero falar e sento no computador. Abro um novo arquivo, em branco, e fico olhando para ele. Sei que tenho algo pra falar, pra tirar de mim. Olho para a janela, que fica perto do monitor. Vejo as nuvens e não raro acho que devia fotografá-las mas deixo a tarefa para depois. Algumas vezes chupo uma bala, tomo um gole de algo. E aí vem o texto. Ele chega tímido, comedido e é, provavelmente, sobre o mesmo assunto do anterior. Curioso que eles não me soem repetitivos. Cada dia é um e eu estou diferente. Minha visão é outra sobre o mesmo fato. Mas não posso deixar de observar que o núcleo duro do fato ainda é o mesmo. Fato.

Outras vezes estou à toa. Sentado em um banco do shopping olhando para uma vitrine cheia de roupas estranhas e me vem uma declaração de amor na cabeça. Uma ode a um sentimento com muitos rostos e nenhum deles perto o suficiente para ser tocado. Abro minha mochila e escrevo no caderno. Mudo pouquíssimas coisas, ele vem realmente pronto, completo e sem pedir permissão. Acho igualmente curioso isso. Sei que se ele pedisse eu não o deixaria chegar. Tenho percebido que me falta sensibilidade às coisas grandes. Passei tanto tempo exercitando-me para enxergar as pequenas que perdi a noção do tamanho do todo.

Ainda me abalo com as mesmas coisas, situações, pessoas, frases e canções. Invento diálogos e telefonemas na minha cabeça e tendo a fazer meus textos direcionados a esses rostos distantes. Isso é igualmente chato e libertador. É tudo uma fase, eu sei. Um período de felicidade é seguido por um bem triste. Pois felicidade não é real, a paz é. E eu escrevo sem medo de ser interpretado de forma equivocada, pois um dia isso não vai acontecer mais. É que esses períodos duram tempos diferentes, então eu sigo escrevendo sobre tudo e todos. Aqui, ali, em qualquer lugar.