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domingo, 3 de abril de 2011

Em algum lugar por aqui


Acabei de ver "Somewhere" e chorei em algumas cenas, viu? É um belo filme e cuja trilha sonora consegue arrancar lágrimas de tão bem pontuada. Mas uma outra coisa me chamou a atenção. A relação da menina com o pai lembra muito a minha com o meu pai. Claro que meu pai não era famoso ou rico e era ainda menos presente que o moço do filme, mas o tipo de relação é quase igual – pois o personagem é bem parecido com meu pai: bobo, mentiroso, distante e quase álcoolatra. O abismo intelectual que Cleo tem diante de Johnny é diferente, mas quase do mesmo tamanho daquele que eu tinha com meu pai. Aquele abismo que me deixava abobado. Eu ficava olhando para ele, tentando tomar coragem pra pular, mas eu ia cair se eu tentasse. Era melhor ficar cada um numa beirada mesmo, gritando. Mas aí eu fiquei rouco, parei de tentar ser ouvido, saí da beirada e fui pra casa.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Curtindo a vida, de fato (por enquanto)


“Ferris Bueller's Day Off”, no Brasil conhecido como “Curtindo a Vida Adoidado”, é um desses filmes oitentistas que todo mundo adora e faz questão que todos ao redor tenham visto e também adorem. Nunca tinha visto e, cansado dessa pressão, fui ver de qual era a desse filme. Não tive surpresa nenhuma. Como suspeitava, o filme não é lá grandes coisas.

(Não tratar clássicos com sacralidade é algo perigoso, eu sei. Mas o poder da propaganda é forte e eu sei que, na mais rasa das análises, é fácil ver como o longa é escasso em conteúdo. E que saber que não trata-se de uma obra-prima não quer dizer que precisam detestar o filme ou que não poderão mais gostar dele. Longe disso! Assim como acontece na música, saber que é ruim é diferente de não gostar; as duas coisas podem coexistir. Mas veja bem: quando chamo “Curtindo a Vida Adoidado” de escasso em conteúdo sei que nem todos os filmes precisam ser profundos e questionadores e cultos; eles podem ser apenas divertidos, e engraçados e de entretenimento. Minha questão aqui é que este longa falha até mesmo nisso. Vou chegar lá...)

O tal Bueller do título, interpretado por Matthew Broderick, é um adolescente que decide matar aula para aproveitar o dia e se finge de doente com maestria para os pais. Ao longo do dia, ao lado da namorada e de seu melhor amigo, foge do diretor da escola e lida com a inveja da irmã mais velha, que odeia o fato dele sempre conseguir se livrar dos problemas com facilidade.

O roteiro e a direção transformam todos os acontecimentos em épicos; matar escola é a coisa mais importante do mundo. Isso torna tudo propositalmente exagerado e deixa a história ótima e engraçada pra maioria, mas foi o que mais me irritou.

No final das contas, é a história de um garoto que é popular e por isso faz o que quer – incluindo aí mentir com maestria e sem necessidade para pais que já o mimam mais do que o suficiente, tratar a namoradinha como acessório e o melhor amigo como um facilitador do plano (pois ele tem dinheiro e um carro, por exemplo) e também como uma simples escada para chamar a atenção ainda mais para si mesmo.

Reflexo de uma sociedade, eu sei. E representação fiel de um tipinho que realmente existente nos colégios, eu sei também. Mas é que essa não foi nem é minha vida, e por isso esse não é ou será meu filme. Na escola, ou você recebe ou você manda bolinhas de papel. E quem as recebia não pode achar que esse filme é legal - especialmente porque essa bolinhas nunca somem, apenas tomam outra forma. É esse tipo de gente - que não se importa de verdade com nada além de si mesmo - quem está trazendo verdadeiro caos ao planeta, em vários níveis.

Quer dizer, vamos todos cantar em roda um ode à desigualdade e aos privilégios sem mérito? Vamos, pelo visto. Aliás, é isso que estamos fazendo há um bom tempo...

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Scott Pilgrim, seu lindo


Depois de muita enrolação, “Scott Pilgrim Contra o Mundo” não chegou aos cinemas brasileiros como um filme bem distribuído. Mas sabemos que isso não impede ninguém de nada. (Como é de praxe hoje em dia, consegui assisti-lo baixando ilegalmente pela internet. Legendado, com qualidade de DVD e tudo. Chupa essa, Paramount).

A premissa é simples: um menino no final de sua adolescência, naquela fase em que o que é considerado infantil e maduro se mistura, está querendo uma garota nova na cidade. Trata-se de Scott Pilgrim e Ramona Flowers. A parte da fantasia da história entra quando percebemos que, além de se apropriar de muitos recursos dos quadrinhos, o filme usa ícones de vídeo-game para descrever a tarefa máxima do longa: Scott deve derrotar os sete ex-namorados malvados da moça.

É igual na vida real, onde a bagagem do outro acaba perseguindo os dois, mas o longa é gênio na maneira que trata isso. É um épico para quem nunca participou de protestos importantes ou deixou a família para trás e foi pra guerra. É a aventura máxima de quem foi criado em casa, no seu quarto, querendo distância dos pais, jogando games e vendo TV. Por isso dialoga de forma tão precisa com seu público alvo. Todo nós nos sentimos como ele alguma vez na vida: quando nos sentimos menores do que os ex-namorados da pessoa que está com a gente agora, quando não sabemos o que falar para a nova namorada diante da antiga, quando começamos a gostar de outra pessoa enquanto ainda estamos com outra, quando trabalhamos juntos da ex etc.

É fantasioso, claro, mas exatamente por isso muito divertido. Tem muita luta e a dor dos socos são reais, mas não adianta sangrar muito pois é só dar reset que a luta começa de novo – boa metáfora para a vida real, não? Mas o roteiro é bom, as piadas são boas e a edição é brilhante – sério, esse filme precisa levar algum prêmio de montagem, pois é uma mistura muito linda de Matthew Vaughn e Michael Gondry. E a trilha? Tem Beck, Broken Social Scene, T. Rex, Rolling Stones, Black Lips e Metric.

A história é de Scott, Ramona e dos ex-namorados, no máximo. Mas todos os personagens secundários são ótimos. A ex-namoradinha chinesa, os membros da banda, o roomate gay – e sua habilidade incrível de digitar SMSs. “Scott Pilgrim” entra na lista dos melhores filmes, digamos, nerds. Junto com “Superbad”, “Kick-Ass” e outros assim, inocentes diante da gama de filmes bem mais importantes lançados ao mesmo tempo, mas que marcam a gente pois fazem uma crônica muito bem feita da rotina e das fantasias de uma geração.

domingo, 19 de setembro de 2010

Os normais


Estou aproveitando todos os meus momentos vagos para ver todos – sim, eu ousei dizer todos – os filmes que quis ver e ainda não pude. Alugando, baixando, pegando emprestado, estou tentando passar pelas minhas vistas os requisitados clássicos, como “Duck Soup”, até alguns títulos mais novos, como “Os Excêntricos Tenenbaums”.

A família Tenenbaum é, literalmente, genial. Chas é um investidor pleno aos 11 anos; Ritchie é um fenômeno do tênis e Margot, adotada, é uma dramaturga que escreve sua primeira peça aos 9 anos. Já Royal, o pai, é um canalhão que, chutado para fora de casa pela esposa, Ethel, vai à falência. Respectivamente, estamos falando de Ben Stiller, Luke Wilson, Gwyneth Paltrow, Gene Hackman e Anjelica Huston. Além deles, temos Bill Murray e Owen Wilson no elenco.

A primeira questão é que uma vez genial nem sempre genial. Os filhos, já adultos, somam alguns traumas recentes com a sensação de estarem congelados em seus momentos de glória do passado. Isso é chocante, digamos assim, para o pai, que finge estar para morrer afim de se reaproximar da prole, arrependido de suas sacanagens passadas.

Não é o argumento mais original da história do cinema, mas o desenrolar é magnifíco. É gostoso acompanhar como, a cada momento, as situações parecem ficar mais malucas – como, por exemplo, descobrirmos que um dos irmãos está apaixonado pela irmã adotiva e como um amigo de infância, que sempre quis ser um Tenenbaum, hoje é traficante de drogas.

Wes Anderson, o diretor, conta a história como que em capítulos de livros e cria um cenário muito peculiar e uma imagem bem diferente de Nova York. Aqui, só vemos prédios residenciais, um Central Park vazio e ruas sem táxis amarelos.

Não quero me aprofundar em críticas, apenas deixar registrado como achei esse filme belo - sendo "belo" tudo aquilo que causa alguma reação na gente. É para rir, chorar e se emocionar. Seja por se identificar com todos ou nenhum dos personagens. Como diz o pôster do longa, família não é uma palavra, é uma sentença.

Para ouvir depois de ler: Nazareth – Ruby Tuesday

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Orações para todos


Nos Estados Unidos, é muito comum fazerem filmes exclusivamente para a TV. Antes, isso era considerado um trabalho menor, mas hoje não é mais assim. Um filme para TV concorre a prêmios exclusivos e, apesar de não ter reprise, sempre acaba na internet e em DVD. Ironicamente, isso alavanca a audiência. A aposta é de que todo mundo vai comentar do filme no dia seguinte – ou mais cedo ou mais tarde – e antecipar-se à modinho é sempre algo interessante para os americanos.

“Prayers for Bobby”, do ano passado, foi um desses. Produzido pelo Lifetime, que pode ser considerado um canal dedicado às donas de casa, o longa é inspirado no livro "Prayers for Bobby: A Mother's Coming to Terms with the Suicide of Her Gay Son", de Leroy Aarons, ainda sem lançamento em português. Um livro que, como o nome diz, conta a história real de uma mãe cujo filho cometeu suicídio depois de sua família não ter aceitado sua homossexualidade.

No elenco está Sigourney Weaver, atriz que ficou famosa nos anos 1980 devido aos filmes de ficção da série “Alien” - hoje com 60 anos de idade. Com esse papel, ela foi indicada para o Emmy de 2009. Ryan Kelley, de 23 anos, nome mais cotado para o filme "Ben 10", faz o papel do jovem.

Na verdade, a história é mais complexa: a mãe é uma católica fervorosa e todos, inclusive o garoto, começam a história tratando a inclinação sexual "diferente" como uma doença causada por sua falta de fé. Portanto, algo totalmente curável com a leitura da Bíblia, grupo de orações, idas à igreja, pescarias com o pai e o irmão, terapia e, claro, encontros com meninas escolhidas pela mãe - que corrige até a maneira como o garoto caminha.

Bobby tenta, mas não consegue mudar sua maneira de pensar e sua atração por pessoas do mesmo sexo. Sentindo-se preso, decide morar fora um tempo, com sua prima, em outra cidade. Lá, descobre lugares que o aceitam e pessoas que o entendem, incluindo um namorado que lhe é fiel. De volta à sua casa, para mostrar como está feliz, tem seu estilo de vida rejeitado por completo e decide acabar com sua própria vida. O filme parte daí, mostrando o que esse ato causa na estrutura emocional da família.

Não é por acaso que a taxa de suicídios é explosiva entre jovens homossexuais, principalmente entre efeminados e usuários de drogas – legais ou não. Uma coisa estúpida é apanhar na rua porque você é gay, outra é chegar no conforto de seu lar e ouvir um “bem feito”. Não há quem resista a tanta pressão e angústia. Por isso, o rumo do filme é comovente para praticamente qualquer um que o assita. A denúncia ali está muito além de orientação sexual.

No mundo inteiro, todo dia, famílias de todos os credos e classes ainda encurralam seus filhos diante da possibilidade de que eles desenvolvam qualquer tipo de comportamento que não o esperado pelos pais. Isso gera apenas discussão, depressão, desgaste e revolta. Como diz a mãe de Bobby: se antes de julgar, todos procurássemos saber com o que estamos lidando, sob todos os pontos de vista, a vida seria melhor.

Recomendo esse filme - que é facilmente encontrado na web para download. E não é coisa de militância nem nada. Apesar de alguns clichês, o filme não é sentimentalóide e é sóbrio na discussão a que se propõe. A história é comovente e, aposto, está levando muita gente às lágrimas.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Terapia com "O Rei Leão"


Estava pensando em como "O Rei Leão" é um dos meus desenhos animados favoritos. Vi e revi nos cinemas várias vezes e ainda vejo e revejo o DVD sempre que bate vontade. Os traços são lindos - dão emoção aos animais sem que eles pareçam demasiado humanos -, a história é envolvente, colorida, animada e profunda. Profunda até demais.

As lições aprendidas com o "ciclo da vida", a traição de Scar, a culpa de Simba, o estilo de vida "Hakuna Matata" e a revolta das leoas são metáforas para alguns dos mais complexos movimentos filosóficos ou socias já vistos no planeta.

Exemplos?

Timão diz ao achar Simba no deserto: "Quando o mundo vira as costas para você, você vira as costas para o mundo". Junto ao Timão, ele ensina que o leãozinho não precisa fazer aquilo ao que foi ensinado só porque foi ensinado assim, que ele tinha outras maneiras de viver.

Quando Rafiki, aquele babuíno, conversa com Simba, já adulto, o leão diz ter vergonha do seu passado, pois não pode mudá-lo. No que o macaco responde com uma paulada na sua cabeça. Ele apela mas ele diz: "Você não pode fazer mais nada agora. Está no passado". Simba responde: "É, mas ainda dói!". Nisso, Rafiki vai dar com o bastão na cabeça do felino novamente. Ele, já prevendo isso, desvia. Poxa, tem lição maior do que essa?

Belo filme.

domingo, 27 de junho de 2010

"Kick-Ass" kick ass!

Nunca fui fã de quadrinhos por motivos que não vem ao caso. Mas nunca escondi meu gosto por filmes de super-herói. Não sei se fui eu que cresci ou se os produtores que perderam a cabeça, mas produções como “Hulk” e “Transformers” não me chamavam atenção. São filmes muito afetados e, de tão irreais, não me causam interesse.

Não que “V de Vingança”, “Watchmen” ou “O Cavaleiro das Trevas” sejam realistas, mas são um pouco mais do que os filmes de super-heróis clássicos e talvez exatamente por isso me causem mais fascínio.

Quando fui assistir “Kick-Ass” só sabia que o filme tinha muita violência. Não tinha ideia nem da sinopse da produção. E foi uma agradável surpresa.

Na vontade de se tornar um herói na vida real, um adolescente arranja uma fantasia e sai por aí querendo combater o crime. Mesmo desengonçado na missão, ele inspira um pai e sua filha, ambos muito mais bem treinados, a fazerem o mesmo e acabam numa acirrada briga com os chefes do tráfico de cocaína em Nova York.

Dirigido por Matthew Vaughn – produtor dos filmões de ação de Guy Ritchie – “Kick-Ass” mistura violência e sangue, muito sangue, com comédia e romance. Mas ele não peca em nenhum aspecto. Não há piada sem graça, cena de luta mal feita e nem romance fácil. A visão feita do mundo adolescente americano tem seus elementos universais e o público – especialmente o masculino – vai morrer de rir com os contratempos do protagonista.

E que protagonista! Além de Aaron Johnson ser lindo, ele é engraçado, competente, e suas primeiras cenas como herói são impagáveis. Chloe Moretz, a criança-adulta de “(500) Dias com Ela”, não cresceu, mas já apareceu roubando todas as cenas em que aparece – o filme é quase dela. Tem também Nicolas Cage, mas quase todo o elenco foge aos olhos dos mais velhos, por serem famosos em séries de TV - o que é uma boa estratégia de divulgação, diga-se de passagem.

Referências ao mundo adolescente de hoje não faltam. No meio das claras citações aos filmes e aos quadrinhos, os personagens lidam com MySpace, Facebook e YouTube, coisas normais na vida de todo mundo hoje, mas que insistem em não existir nos mundos fictícios – já reparou como em nenhum filme ou série as pessoas resolvem as coisas por e-mail ou conversam no MSN?

O filme é baseado numa HQ que nunca li, não posso comentar a adaptação. Mas como uma obra cinematográfica, é muito bom. A narrativa é rápida, mas sem atropelos, e duas horas passam voando, com perdão do trocadilho. É desses que verei mais algumas vezes, com certeza.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

O País das Maravilhas de Tim Burton

Apesar de ter gostado muito dos filmes, uma coisa me incomodou em “Sherlock Holmes” e em “Onde Vivem os Monstros”. Os dois dão sinais de não serem a primeira opção de seus diretores. Era como se eles tivessem um cadernão de ideias soltas anotadas e aí buscaram livros com personagens já prontos para incorporar tais pensamentos. Era o que eu achei que aconteceria com a versão de “Alice no País das Maravilhas”, de Tim Burton.

Mas isso não aconteceu – pelo menos não de forma tão categórica.

Ele pegou os dois livros de Lewis Carroll com a personagem – “Alice's Adventures in Wonderland” e “Alice Through the Looking Glass” – e fez uma outra história. Como era de se esperar, Johnny Depp é ninguém menos que o Chapeleiro Maluco. Qualquer fã de cinema sabe muito bem que esse segundo adjetivo é a cara de seus melhores papéis e, talvez por isso, já não seja novidade.

Com uma semi-desconhecida como Alice – a australiana Mia Wasikowska, que não parece somar nada à narrativa – achei que Depp seria o centro das atenções. Bastou Helena Bonham Carter aparecer como a Rainha Vermelha para eu mudar de ideia. Ela tem uma maneira muito peculiar de fazer o tipo mandona e rouba todas as cenas em que está presente.

De outro lado, aparece Anne Hathaway, como a Rainha Branca, uma hilária sátira à delicadeza excessiva das princesas em filmes, e vários outros personagens realmente muito bons – com destaque para o Gato, com voz do ótimo Stephen Fry.

Mas se Burton alcança a glória com o uso do 3D, com o ar sombrio à uma história anteriormente mágica, com figurinos e cenografia – a cena onde Alice encolhe e diminui várias vezes é um desafio de escalas e planos de distância –, ele peca nas cenas de ação, que são previsíveis e rápidas. Mas a gente se importa? Não muito.

A linha entre o real e o feito por computador é imperceptível em vários momentos e apenas Burton pode transformar “Alice” em um filme de aventura que não parece ser algo aproveitador – lembrando que estou analisando apenas o filme e não os milhares de produtos lançados sobre ele.

O cenário criado pelo diretor para continuar a história de Carroll faz jus ao que ele escreveu anteriormente. Burton até cita o manuscrito original da história – chamado “Alice's Adventures Underground” – e faz muitas piadas, especialmente visuais. Apesar disso, ficaram de fora alguns trocadilhos e lições de moral através da lógica, como "Você poderia me dizer, por favor, qual caminho eu devo seguir?", "Isso depende muito de onde você deseja chegar", até o chá maluco e o desaniversário.

Daqui do meu modesto ponto de vista, muita gente vai se decepcionar com a história, principalmente quem é fã de longa data dos livros ou leu correndo antes de ver o filme. Talvez tivesse sido melhor, para o público e para a própria Disney, fazer uma versão da história original e não aumentar nada. A narrativa de Tim Burton é mesmo um espetáculo agradável aos olhos, mas também é fria e previsivelmente exótica.

Mesmo que isso signifique longas filas e chateação de púberes ao redor, “Alice no País das Maravilhas” merece ser visto no cinema. Não é o melhor trabalho de nenhum dos envolvidos na produção, mas está longe, muito longe, de ser vergonhoso.

domingo, 7 de março de 2010

Cobertura do Oscar 2010

A galerinha linda do blog Oi Tudo em Cima vai cobrir ao vivo a cerimônia de entrega do Oscar desse ano. É só clicar aí embaixo que é só alegria.



terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

"Nine" é uma chatice

Penélope Cruz merece todos os aplausos do mundo por sua atuação em “Nine”. Ela é, com certeza, a peça mais marcante e fundamental dessa história. Mas isso não pode ser considerado um elogio. Afinal, ela divide cena com Nicole Kidman, Judi Dench e Sophia Loren, atrizes com o rosto tão esticado de plásticas e paralisados de botox, que a gente não consegue saber muito bem onde está o drama, o humor ou a ironia em suas falas.

Para o espanto de muitos, ela não canta mal e sua cena de dança é especialmente sexy. Pena que toda sua participação no filme não soma 30 minutos, o que faz da indicação ao Oscar até um relativo mistério. Sua presença em “Abraços Partidos” é bem mais interessante, mas é bom que isso faz com que Almodóvar baixe a bola, pare de tratar os prêmios como garantidos e escreva um roteiro mais honesto no futuro.

Voltando à “Nine”, é uma pena que ele não passe nem perto da beleza que é “Chicago”, premiado musical anterior do cineasta Rob Marshall. Ele foi pra outro lado do mundo e conseguiu fazer músicas parecidas. A maioria delas é ótima, com um arzinho smoky jazz cabaré, mas uma história se passa em Roma e outro em Chicago! É complicado enxergar onde termina a licença poética e começa o comodismo nas composições -sempre cheias de misturas de idiomas e pobres de rimas.

A história fala sobre um cineasta que está enfrentando uma crise de criatividade – e de meia-idade – e se esforça para concluir seu filme mais recente em meio a confusões e lembranças e romances, envolvendo esposa, amante, uma jornalista de moda, sua mãe, sua infância etc. Tudo foi inspirado no filme autobiográfico de Federico Fellini, “8 ½”.

A história parece rica, e é! Mas é complexa demais e não há como contá-la com a rapidez proposta. O personagem de Daniel Day Lewis sofre por uma tal mulher e o público nem entendeu ainda o motivo, pois não deu tempo de explicar a influência da tal fulana na vida dele. Sem contar que a maior parte das pessoas não entende o tormento que é trabalhar com algo que requer inspiração e acaba achando seus conflitos psicológicos frívolos.

Quando o filme “Piaf” saiu parecia pré-requisito pra ser gay ter assistido. Então eu impliquei e não vi ainda. Mas Marion Cotillard em “Nine” foi interessante. Que moça simpática! Se eu fosse cineasta amarrava essa menina e transformava na nova musa de Hollywood. E talvez isso já esteja acontecendo e eu é que esteja atrasado...

Prefiro nem comentar como as cenas de dança parecem ter sido filmadas no mesmo lugar e nem a participação de Fergie, que dá vergonha só de lembrar. Já Kate Hudson – cada vez mais a cara da mãe - faz uma cena de dança bem legal, pena que na hora de cantar ela erra a pronúncia da única expressão em italiano que há na letra.

Outro ponto é que a fama de sexy das italianas só rola por lá. Pro resto do mundo elas não são lá um estereótipo de beleza por serem cheinhas, temperamentais e nada delicadas. O inverso acontece com os homens de lá que, mesmo peludos e igualmente temperamentais, são considerados deuses no exterior. Um filme que se passa na Itália devia citar isso – especialmente um musical por, historicamente, atrair o público feminino e gay.

Falar nisso, vá ensaiando a tarantela. Lembra dos gays com “Milk” e “Brockback Mountain” e dos negros em “Dreamgirls” e “Hairspray”? Então. Itália é a pauta do verão, e ainda será tema de filmes, documentários e editoriais de moda no mundo inteiro, se prepare.

Aliás, outro mérito de Penélope Cruz é ter ultrapassado o limite latino da carreira. As pessoas não reparam muito essas coisas, mas ela é da safra que foi moda no final dos anos 1990, quando explodiu no mundo todo gente como Shakira, Salma Hayek, Jennifer Lopez, Gloria Estefan, Rick Martin, Enrique Iglesias e muitas outras pessoas que ou desapareceram ou trataram de apagar as origens do currículo. Cruz continua intacta e o motivo é simples: ela atua bem. Mas todo e qualquer adjetivo é discutível, então vamos deixar isso pra lá. Indiscutível é que ser uma espanhola que interpreta uma italiana que fala inglês deve ter dado trabalho.

Ainda assim e mesmo muito premiada, não consigo achar que ela já teve seu grande papel. “Nine” pode ter rendido uma indicação ao Oscar, mas não é a melhor produção para ter na biografia. Prefiro pensar que a carreira dela ainda aguarda algo maior para o futuro, que ela é maior do que os papéis que já lhe foram oferecidos – sempre o de uma mulher sexy e/ou maluca e/ou bandida. Que coisa! Oremos por ela e por Rob Marshall.

Ciao.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Os monstros mudaram de endereço

Todos os mocinhos e moiçolas já foram assistir “Onde Vivem os Monstros”, certo? O longa metragem é a primeira investida infantil do cineasta Spike Jonze e tem levado ao cinema todo tipo de gente, exceto crianças.

Ele foi baseado no livro de Maurice Sendak, original de 1963, que contém bem poucas páginas. Tão poucas que quando você termina de ler, fica se perguntando como farão um filme de duas horas sobre aquilo.

Depois de uma briga com a mãe e com a irmã mais velha, um garotinho chamado Max sai correndo de casa. Corre tanto que chega ao litoral, pega um barco e vai parar numa ilha cheia de enormes monstros. Ele não se intimida, faz contato com eles, conta umas mentiras sobre si e acaba sendo nomeado como rei do lugar.

A trilha foi merecidamente indicada a prêmios e elogiada pela crítica. Karen O., vocalista da banda Yeah Yeah Yeahs, fez um trabalho muito sensível e divertido em vários momentos.

No livro, nenhum dos monstros encontrados por Max tem um caráter definido – sequer têm nome. Isso é óbvio para quem já leu a obra e pôde perceber que ela tem nada mais que nove frases. Isso, claro, dá muito espaço para Jonze, que também escreveu o roteiro, transformar a história no que ele quiser, basicamente. As ilustrações, também de Sendak, são representadas fielmente por criaturas que misturam fantasias de pelúcia com computação gráfica.

Monstros sem nome, personalidade ou gênero definido ganham todas essas características e mais um monte de complexidades inimagináveis e extremamente humanas, incluindo um casal que recentemente terminou um relacionamento e está em dúvida se volta ou não.

O filme causa estranheza, pois é totalmente inverso à lógica de se contar uma história – especialmente se ela for infantil. O roteiro é sugestivo em momentos que devia ser objetivo e deixa espaços vagos na hora das explicações lógicas. O que interessa, basicamente, é ver como as criaturas criadas pela imaginação do garotinho são reflexos do que ele pensa sobre o mundo dos adultos. Se não for visto assim, os acontecimentos do longa não parecem nada mais do que uma série de eventos aleatórios.

Mas, olha, a história é o hype do verão – mesmo que ninguém tivesse ouvido falar nesse livro antes –, então não quero parecer um reclamão que só não gostou pois todo mundo gostou. Pelo contrário!

O que quis dizer é que o filme é lindo, a fotografia é maravilhosa, as músicas são excelentes e a história encanta. O que me incomodou foi a liberdade poética absurda que permitiram Jonze de ter. Sei lá. Ele devia ter escrito um roteiro sobre sua infância - e não ter saído por aí se intrometendo na história dos outros.

Para ouvir depois de ler: Karen O and the Kids – Where The Wild Thing Are OST

domingo, 3 de janeiro de 2010

Julie, Julia, Meryl, Amy e Nora!

Senhoras e senhores, estou encantado com “Julie & Julia”, filme que acabo de ver, estrelando Meryl Streep e Amy Adams, até-então-moça-de-um-papel-só. Mas preciso, antes de falar dele, apresentar-lhes sua diretora.

Nora Ephron pode ser alguém que você nunca ouviu falar antes, mas ela está por trás das melhores comédias românticas já feitas. Nenhuma delas é estrelada por uma Julia Roberts esperando que um homem rico a salve. Um traço de Nora é exatamente ter heroínas independentes como protagonistas e também dar um pouco mais de voz ao homem – coisa que raramente acontecia no gênero.

Por isso ela brilhou absurdamente em longas como “Harry e Sally – Feitos Um Para o Outro”, de 1989, “Mensagem Para Você”, de 1999, e como roteirista de “Linhas Cruzadas”, de 2000. Apesar desses méritos – que até lhe valeram três indicações ao Oscar –, ela também é a culpada pelo fracassado “Bilhete Premiado”, de 2000 e pela absurda adaptação de “A Feiticeira”, de 2005 – o que foi essa ideia e como assim um filme sem Larry Tate?

Enfim, esses deslizes valeram um suspiro dos profundos e eu acabei esnobando “Julie & Julia” um tempo. Mas, convenhamos, sabia que não era uma comédia romântica, que era baseada em fatos reais e, ora, se tem Meryl Streep no elenco então a gente precisa ver! E se tem Meryl Streep e não tem o James Bond cantando Abba, melhor ainda.

O longa traça um paralelo entre a vida de Julia Child, famosa autora de livros de culinária e apresentadora de TV, e a de Julie Powell, que quer cozinhar todas as 524 receitas do livro “Mastering the Art of French Cooking” no período de um ano enquanto posta na web sua experiência. O filme é, portanto, baseado em livros, cartas e em um blog.

É curioso se surpreender com Meryl Streep. De fato uma das melhores e mais versáteis atrizes de Hollywood, ela tem como hábito surpreender as pessoas. Surpresas são inesperadas e, se forem rotineiras, deixam de ser surpresa. Esse antagonismo é que me deixa intrigado com o talento dela. Como ela consegue? Já sobre Amy Adams, lembro que assisti “Encantada” e pensei “essa menina vai viver para sempre sendo lembrada por esse papel”. Ledo engano. Julie não é a persona mais complicada de interpretar, mas a imagem de princesinha da Disney não chega perto desse longa. Stanley Tucci também está adorável como marido de Julia.

Esse é um desses filmes que fazem todo mundo sair da sala de projeção com algum plano na cabeça, com uma vontade de mudar algo. Uma reorganizada no armário que seja. Alguns vegetarianos não vão gostar de algumas cenas, mas faça como eu e coma algo antes de entrar no cinema. A tentação nem chega perto daquelas cenas quase pornográficas do filme “Chocolate”, por exemplo, mas existem alguns momentos onde você ouve um coro de “hummm” por entre as poltronas.

Apesar de todo mundo se deliciar no desenrolar da história, senti que faltou um desfecho. É como se o filme acabasse no meio, o que me levaria a chamar sua existência de sem propósito se eu já não tivesse aprendido a lição mais sagrada da sétima arte: não deixar que sua opinião sobre o final apague o prazer que você teve ao longo do filme.

Para quem ficou interessado na história, eis o link do blog de Julia Powell aqui! Bon appetit!

Para ouvir depois de ler:
Simple Kind of Life - No Doubt

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Woody Allen por Caetano Veloso?

Tive notícia de que Woody Allen foi tema de uma entrevista que Caetano Veloso deu para o Correio das Artes, suplemento literário do jornal paraibano A União, que circula há 60 anos.

Muitos discordam, mas Caetano é um ótimo letristas e compositor e é admirável ele estar lançando CD e fazendo show até hoje – a qualidade de tais acontecimentos já é outra história. O negócio é que alguém precisa avisá-lo, com urgência, que ele é um cantor. Pois ele não se satisfaz com isso. Também quer ser sociólogo, antropólogo, filósofo, historiador, ensaísta, teólogo, crítico literário e cinematográfico. Todos queremos e realmente somos tudo isso, mas apenas na mesa do bar. Caetano pode falar abobrinhas para a Rolling Stone e ser lido por milhares de pessoas. Essa é a diferença.

“É um careta, um cineasta pequeno”, declarou o cantor sobre Woody Allen. “Gay, maconha, rock, Bob Dylan, tudo isso é desprezado por ele”. Como se ignorar tais assuntos fosse sinônimo de ser um diretor ruim e como se todos os filmes que abordam tais temas fossem obras primas.

“E muitas das piadas são excelentes. Mas sempre se revela uma visão estreita”. Exatamente o mesmo pensamento pregado pelas pessoas que fazem parte daquele movimento contra música. Elas dizem que uma vez que a letra está gravada, cantar é apenas repetir uma ideia, sendo a música sinônimo de não evolução. Um argumento tão furado quanto a opinião de Caetano. Aliás, esqueça isso. Vamos considerar o argumento como firme e sair em caça de piadas com visão ampla!?

“Allen tem a grande elegância de dar a seus filmes a duração que os filmes tinham quando ele era menino. Talvez isso contribua para para o seu relativo fracasso comercial nos EUA: o público exige supersized movies”. Eu não sei nem por onde começar. O mais recente filme de Woody Allen, “Vicky Cristina Barcelona”, amplamente premiado, tem 1h36 de duração. E arrecadou mais de 23 milhões de dólares. Pouco comparando com algum do bruxo Harry Potter, mas é o dobro do que arrecadou, por exemplo, “A Rosa Púrpura do Cairo” e mais de 10 milhões a mais que “Tiros na Broadway”, de 1994, favorito de Caetano. O sucesso é relativo, mas isso combinado com chamar o cineasta de "pequeno", pode nos levar a concluir que, para Caetano, os bons cineastas são, então, aqueles por trás de líderes de bilheteria e só. Tiro arriscado esse.

Caetano Veloso parece perdido em vários sentidos da palavra. É muito complicado ser vanguardista hoje em dia e, ironicamente, a falta de censura limita artistas de sua geração, eu sei. Mas daí para criar polêmica onde não tem é algo meio estúpido de se fazer. Qualquer pessoa que der uma entrevistinha falando mal de Caetano recebe uma respostinha no blog dele no dia seguinte. Mas Woody Allen? Ah, dele eu vou falar mal pro suplemento de um jornal paraibano.

Há espaço para todos, especialmente no mundo das artes, mas eu não consigo evitar a comparação de como cada um dos dois está lidando com sua carreira no momento, mesmo que em áreas diferentes. Cada um conclui o que quiser, claro, mas para mim Caetano perdeu alguns bons pontos dos pouquíssimos restantes.

Para ouvir depois de ler: Never Smile At A Crocodile - Peter Pan

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Glorioso Tarantino!

Estou abobado com “Bastardos Inglórios”, novo filme do diretor Quentin Tarantino. Não é necessário ser fã do cara para se deliciar com o longa, mas é preciso ter visto mais que os dois volumes de “Kill Bill”, seus filmes anteriores, para perceber como ele é genial e, provavelmente, o melhor de sua carreira.

A história, de forma simples, mostra um grupo de resistência cuja meta é matar nazistas. Simplesmente isso. Ele é contado em cinco capítulos que misturam - com maestria - assassinatos, tiros e muito sangue com diálogos dos mais geniais. Aliás, esse é um dos méritos do cineasta, o de criar tensão nos espectadores tanto com granadas e espadas quanto com palavras.

Exemplos? Lembra do alter ego do Super-Homem em “Kill Bill – Volume 2”, das gorjetas e de “Like A Virgin” em “Cães de Aluguel” e do quarteirão com queijo de “Pulp Fiction”? Então. A primeira cena aqui, que se passa na França invadida por nazistas, trata da diferença mínima entre um rato e um esquilo e como, apesar disso, temos nojo apenas do primeiro roedor. O discurso é uma metáfora para os judeus e vem da boca de um nazista, claro, interpretado pelo ótimo Cristoph Waltz.

Além dele, Brad Pitt merece destaque. A veia humorística do cara está mais afiada que nunca. E, sim, melhor que em “Queime Depois de Ler”. As belas Diane Kruger e Mélanie Laurent também estão excelentes e ajudam muito – e com glamour – a passar a sensação de que você está dentro do filme. A história se costura de uma forma muito inteligente e o final não poderia ser mais inesperado.

Não vejo a hora de rever.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A favor de "Anticristo"

Veja que irônico. Passar o 12 de outubro, dia da padroeira do Brasil, assistindo a um filme chamado “Anticristo”. Estrelando Charlotte Gainsbourg e Willem Dafoe, para quem não sabe, trata-se do novo longa de Lars Von Trier, dos filmes “Dogville” e “Dançando no Escuro”.

A sinopse? Um casal que recentemente perdeu o filho vai morar numa cabana em uma floresta para, supostamente, enfrentar os medos da mulher. Uma sinopse bem picareta, confesso. Mas falar mais pode não ser bom.

Para começo de conversa, o filme é dividido em capítulos e digo logo que o Epílogo e o Prólogo são absurdamente lindos e poéticos. Quanto ao restante do longa, apenas o “poético” continua – pois o “lindo” sai correndo e foge pra bem longe. É um filme tão – ou mais – desagradável e chocante do que o trailer sugere. E é muito bom.

Para o pessoal ao redor, na sala de cinema, a dedicação do marido e a depressão da mulher estão completamente desconectadas do mundo real. Na tela, a morte é natural, a natureza é violenta, a dor é necessária e o sexo é um prazer e um castigo. Tudo igualzinho na vida real, mas ninguém gosta de admitir isso, certo? Por isso é tão desconfortável e fundamental – para quem tem estômago – acompanhar a história deles.

Aliás, essa foi minha coisa favorita em "Anticristo". Sabia que seria desde que ouvi no trailer a frase “A natureza é a igreja de Satã”. Greenpeace e Al Gore nos fazem acreditar que o homem é um vírus destruidor da sempre boa e generosa mãe natureza. Não nego que estamos num momento delicado da evolução e que o planeta está em ruínas, mas a natureza assusta e não é perfeita ou benevolente. Animais fofinhos comem outros animais fofinhos, bichos parem bichos mortos e inúmeros parasitas são... bom, parasitas!

É importante ver filmes assim, pois a capacidade de aceitar o incômodo não é trabalhada suficiente hoje em dia. Talvez cenas tão densas, envolvendo mutilação e sexo, muito sexo, incomodem o espectador que não vê propósito naquilo tudo. Mas todos os filmes são obras de arte abertas para interpretação. No caso, Lars Von Trier apenas deixa a maior parte da conclusão para quem está na poltrona. Os menos esforçados não verão sentido algum no filme. E isso é ótimo! São eles mesmos os que precisam aprender que nem sempre tudo faz sentido.

sábado, 12 de setembro de 2009

Subindo no conceito

É chover no molhado dizer que a Pixar é genial, mas “Up! – Altas Aventuras”, novo filme do estúdio que é braço da Disney, é mesmo maravilhoso. O roteiro é muito bom, sendo divertido e, em vários momentos, sensível.

Um senhor aposentado – dublado no Brasil por Chico Anysio – está prestes a ser mandado para um asilo e decide fugir amarrando centenas de balões de hélio no telhado de sua casa. A idéia é visitar cachoeiras na América do Sul, destino que sempre sonhou conhecer com sua esposa já falecida. O problema é que um aprendiz de escoteiro acabou subindo pelos ares junto, o que abre espaço para situações hilárias entre os dois.

Cheio de referências a filmes antigos, novamente a Pixar dá um ar brilhante a heróis insólitos. De brinquedos a ratos, agora a platéia se pega amando um velhinho rabugento, sendo comovida pelo amor que ele mantém à esposa falecida e pela amizade que nasce com uma criança até então considerada apenas irritante.

A tendência é ir reduzindo um pouco o número de personagens principais em cada filme. Enquanto a Dreamworks, principal concorrente, se preocupa em fazer continuações para sucessos de bilheteria e vai aumentando o número de personagens caricatos a cada novo longa, a Pixar faz o caminho inverso. Vários ótimos filmes únicos com menos personagens principais e muito, muito tempo investido no roteiro, antes de mais nada.

Por isso concordo com quem disse que é a Pixar quem está criando novos clássicos infantis. “Shrek” e “Madagascar” são ótimos, mas são filmes como “Toy Story”, “Monstros S.A.”, “Procurando Nemo” e “Up!” que eu tenho ou terei vontade de rever de tempos em tempos.

Para ver depois de ler: "Up!" (Pete Docter e Bob Peterson), EUA, 2009.

sábado, 15 de agosto de 2009

“Brüno”: genial ou homofóbico?

Acabei de assistir “Brüno”, nova comédia de Sasha Baron Cohen, ator também por trás de “Borat”, produção de 2006 indicada ao Oscar de melhor roteiro original.

O primeiro filme conta a jornada de um repórter do Cazaquistão aos Estados Unidos, mostrando as supostas diferenças culturais entre os dois lugares. Toda a produção tem um ar de “câmera escondida”, apenas registrando a reação das pessoas aos atos malucos do tal cazaque.

Novamente, o personagem principal dá título ao filme, mas Brüno é um repórter gay pra lá de caricato, especialista em moda. Austríaco, ele sai de seu país em busca de fama e se mete em inúmeras roubadas.

O que acontece é que ele não é famoso ainda e não pode sair ileso de excentricidades como falar mal de pessoas que não conhece, adotar africanos e ter a pretensão de acabar com a guerra no mundo. Ao encarnar um personagem como Brüno – que é superficial, afetado e incrivelmente burro – todos os alicerces da cultura norte-americana tem potencial para ser alvo de algum tipo de sátira, mesmo que não explicitamente.

O novo filme é muito mais incorreto que "Borat" e também muito mais ousado. Hilário ver Paula Abdul, por exemplo, falando que fazer trabalhos humanitários e ajudar outras pessoas “é como respirar o ar que respiro” ao mesmo tempo que usa um mexicano de quatro como poltrona. Impossível enumerar as cenas que mais ri, são muitas. Mas tenha uma atenção especial à viagem dele ao Oriente Médio, seus dias acampando e à música no final.

O principal erro é que, como em “Borat”, Cohen entra em um grupo – no caso, os gays – para provocar as pessoas ao redor, mas acaba satirizando o próprio grupo que se apropriou. Interromper uma passeata contra os direitos homossexuais vestido com roupas de sadomasoquismo é engraçado, mas de forma alguma contribui para qualquer tipo de tolerância, certo? O tiro sairia pela culatra se o objetivo fosse melhorar a aceitação dos gays na sociedade. Como não é o caso, o longa segue bem. Mas tem seus méritos no assunto quando, por exemplo, mostra quão ridícula é a fala de um pastor que, supostamente, “cura” gays.

Comédias desse tipo são especialmente engraçadas para mim, pois as pessoas ao redor acham que estão sendo acariciadas com risos, mas estão levando belas bofetadas na cara. A crítica aos costumes está lá e, no fim, você acha que a sociedade não tem solução mesmo. A intolerância e a ignorância estão enraizadas de uma forma muito profunda e você percebe que riu para não chorar. Mas pelo menos riu bastante.

terça-feira, 7 de julho de 2009

E as piadas gays de "A Era do Gelo 3"?

Acabei de chegar do cinema. Fui assistir “A Era do Gelo 3”. Eu poderia falar sobre como é divertido assistir um filme em 3D, das diferenças básicas entre as animações da DreamWorks e da Pixar ou mesmo da loira que sentou ao meu lado e tinha guardado os óculos achando que eram um brinde até que seu namorado explicou o conceito de “filme em 3D” para ela. Mas eu vou falar de outra coisa.

A quantidade de piadas sexuais e homossexuais que existem no filme é absurda. Mas isso não é ruim. Pelo contrário! Muito bem colocadas, nenhuma delas é preconceituosa ou de mal gosto.

Não viu o filme ou não lembra? Então vamos a exemplos – que podem conter spoilers.

Primeiro que Sid, uma preguiça desengonçada, fica com ciúmes de outros personagens do filme prestes a ter um filho. Ele rouba os ovos de uma dinossauro e quer criar os pequenos monstrinhos como se fossem seus. Ele não só se refere sempre como “mãe” dos bichos, como também se rotula “uma mãe solteira querendo criar seus bebês nesse mundo cruel” – tudo isso fazendo hilários black bitch moves.

O mesmo personagem sai em busca de comida para seus recém nascidos. Ao avistar uma búfala, segue pé ante pé para ordenhá-la e servir sua cria com seu leite. O filme simplesmente corta para a próxima cena: Sid sendo perseguido pelo animal enfurecido e gritando para ele: “Achei que você era uma fêmea!”

Mais para frente do filme, Buck, um personagem da nova safra cheio de histórias para contar, explica o motivo de poder expulsar sem meias palavras uma borboleta pré-histórica enorme de seu caminho: “Eu conheço ele desde que era uma larvinha. Sabe? Desde antes de sair do casulo” – numa clara referência a gays enrustidos.

Não é a primeira vez que isso aparece no cinema. “Madagascar 2”, outra animação do mesmo estúdio, também é cheio de ótimas piadas do tipo. Eu acho essa iniciativa ótima. Trata-se de um assunto delicado, mas que pode ser tratado com delicadeza pelas pessoas certas.

E precisa ser assim. Em 2009 não dá para criar filhos ignorantes sobre o assunto. Como é dito no filme “Milk” (que eu revi esta semana com minha irmã de 15 anos) crianças e adolescentes precisam saber que não estão errados, que não são doentes ou odiados por Deus. Assim eles poderão se sentir confortáveis na própria pele e serão seres humanos mais decentes. It’s OK to be gay.

Para ouvir depois de ler: Why It's So Hard? - Madonna

sábado, 20 de junho de 2009

- Sua garota é adorável, Hubbell



Talvez algumas pessoas não possam ser domadas. Talvez elas tenham que correr livres até que achem alguém tão selvagem quantos elas para correr junto.

Para ver depois de ler: Monster Box Sex and the City

sábado, 11 de abril de 2009

Falar sério sobre “Crepúsculo”?

Acabai de alugar o primeiro filme da sensação “Crepúsculo”. É, não li os livros e não vi no cinema. Estou mais uma vez atrasado da modinha – isso está ficando recorrente, o que será que quer dizer? Amadureci? Quase que nem escrevo um texto sobre ele. Mas acho que algumas de minhas observações deviam ser escritas e qual o objetivo de escrevê-las se não o de publicar?

Uma jovem chamada Bella Swan muda de cidade e fica encucada com o ar misterioso de Edward Cullen, que estuda em sua escola. Com um tempo de convívio, uma paixão forte entre eles aparece no meio da revelação de uma curiosa característica do cara: ele é um vampiro e a garota acaba virando refém do segredo da existência dessas criaturas.

Dá pra resumir a história assim, mas claro que há muito mais do que isso – trata-se, inclusive, de uma trilogia de filmes. Todos eles baseados em livros da autora Stephanie Meyer. “Crepúsculo” é o primeiro da saga e arrecadou mais de 36 milhões de dólares em seu final de semana de estréia nos Estados Unidos.

Não quero e não vou entrar nos méritos do longa como sendo nada a não ser mais um filme de entretenimento. Ele não passa disso e muito se engana quem acha que isso é uma ofensa a ele. Ele é bem produzido, boa fotografia, bons efeitos especiais e o elenco é competente e esteticamente impecável.

Não vi muito filmes de vampiros na vida, mas achei interessante a abordagem das criaturas feitas aqui: nada de caixões ou dentes pontiagudos. O peso do segredo de fazer parte desse grupo é o que faz a história interessante para mim.

Mas, convenhamos, é mais um filme adolescente. Apesar do lado vampiresco (que teoricamente deveria abrir e organizar um arcabouço de informações, lendas e tradições), a história é muito simples e inocente. De fora ele até parece uma produção sombria, mas preste atenção nos valores presentes ali: um amor juvenil quase shakespeariano, quase sem contato físico algum e absurdamente idealizado (alguém aí achou sua alma-gêmea com 17 anos?). E, no meio de muitas cenas e enquadramentos feitos apenas para tirarem suspiros das menininhas, uma história de luta que não é necessariamente do bem contra o mal.

Algo errado com ele? Nada! Quanto mais contestador ele parecer, mais adolescentes em crise vão assistir. E quanto mais inocente ele for, mais os pais vão aprovar a febre. Se o filme é legal, não tem problema eu deixar meus filho gastar tubos de dinheiro com ele, certo? Sabia que uma pesquisa mostrou que a média de vezes que os adolescentes viram “O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel” no cinema foi de três vezes?

Era só isso que queria dizer. Não faz sentido torcer o nariz para “Crepúsculo”. Trata-se de um bom passatempo e de um longa que cumpre o que promete (entreter) e nada mais. Quem disse que todos os filmes do mundo precisam ser contestadores e cults?

Para ouvir depois de ler: Rockz - Tô Planejando