terça-feira, 1 de junho de 2010

DR

Ao meu redor vejo relacionamentos amorosos de todos os tipos. Novos, longos, à distância, abertos e bem fechados. Todo mundo que está sozinho, uma hora ou outra, acha alguém. Mas e o que acontece depois? Sim, pois achar alguém é o fim de uma fase e apenas o começo de uma outra.

E aí está também o começo do problema de muita gente. De um lado, não é porque amamos que temos que suportar tudo. Intimidade não é tortura. De outro, qual o limite de intimidade possível? O quanto é intimo demais? Isso, se é que tal conceito existe!

Acontece que escolher o amor não é o mesmo que escolher a paz. Na verdade, amor está mais para guerra. As pessoas associam casamento e amor verdadeiro a romance, mandar flores, jantares românticos à luz de velas e até coisas mais profundas, como trazer filhos ao mundo. Mas o romance vai e volta. Uma hora seu marido ou sua esposa são melhores amigos e outra hora eles estão na casa do cachorro.

Então, confundimos discutir um problema com discutir a relação. A grande maioria de nós vive num movimento pendular de tudo ou nada, vida ou morte, amor eterno ou rejeição aguda, dedicação total ou rompimento. Será que relacionamento é esse conjunto de sobressaltos? Esquecer uma data, não dar presentinhos todo dia, não poder conversar quando o celular toca no trabalho, essas são coisas normais.

É verdade que em alguns casos precisamos mesmo discutir a relação e os hábitos. E isso deveria ser encarado como uma coisa positiva! Assinalar diferenças é sinônimo de compreender o outro, suas neuras e sonhos, de se colocar no lugar dele – com os olhos dele – e, muitas vezes, de se comprometer com um futuro de interesses mútuos.

Todo mundo que está acompanhado precisa respirar e permitir que o outro tenha seu espaço, sua hora de fazer suas coisas. E, claro, se permitir e se acostumar a tê-lo também. Por mais feliz que você esteja com essa pessoa, vai me dizer que você não gosta de poder ficar em casa um sábado comendo porcaria e ouvindo música brega bem alto usando roupas velhas?

O que faz tudo funcionar é a habilidade de um amar o outro incondicionalmente. E não há nada de romântico em amar alguém incondicionalmente. É um trabalho duro, é a coisa mais difícil do mundo. É como o homem que me disse que não tem motivos para amar sua esposa, ele a ama porque ama. Pois com “motivos” ele quer dizer os motivos exteriores. Não é só porque ela é bonita, talentosa, rica, nenhuma dessas coisas físicas. Ele ultrapassou essas coisas e a ama só porque ele a ama. Isso é amor em nível de alma.

Para ouvir depois de ler: I Am - Christina Aguilera

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Homem, o sexo frágil

Estava ouvindo uma canção que falava sobre “a sociedade pela perspectiva de uma menina”. Uma das estrofes dizia que elas sempre são silenciadas quando querem falar o que pensam, não podem mostrar que estão machucadas e que não podem mostrar também muitos sinais de força. Interessante, profundo, mas não mais tão correto.

Desculpe falar isso assim mas, neste momento, o homem é o sexo frágil. De um lado, as mulheres seguem em sua histórica caminhada para o lado masculino da força – saindo de casa para votar, subindo de cargos e de salários, tendo filhos mais tarde e tendo, assim, absoluto controle de sua vida. De outro lado, está um homem patético, que ainda não consegue lidar com a flutuação de emoções que existem em todas as relações humanas. Ele ainda não sabe o que fazer com suas emoções e tem medo, muito medo, de entrar em contato com seu lado feminino e de delegar tarefas às mulheres.

Ele está em busca de status e poder e não vê nada na sua frente a não ser a carreira. Muitos pontos positivos aí, mas negativos também. Assim, não consegue ser realizado em nenhum campo. Ele não foi ensinado a fazer isso e, no fundo, segue acreditando que a mulher ao seu lado só o escolheu por sua posição profissional. Além disso, ele está obcecado pelo prazer feminino e, se é o sexo que confirma a condição de macho dele, ele está na mão da mulher, que é quem outorga a ele esse diploma. A prova disso é que cada vez menos os homens se safam de relacionamentos extraconjugais. Hoje, a mulher dispensa um parceiro com muita facilidade. Sem mulher, ele não é macho. Sem emprego, não é provedor. É um ciclo, percebeu?

Não sei se vejo tudo isso mais claro por ser gay, mas sempre achei uma babaquice esse mito de que o homem não precisa de ajuda, não precisa de tratamento, não precisa de proteção. Já mencionei nesse blog antes que, quando um homem me xinga de “viado” ou coisas assim, fico triste por sua mulher. É ela quem está aguentando marteladas sutis – ou literais - de uma pessoa que se sente obrigada a rejeitar tudo que é ligado ao que ele classifica como feminino - e que despreza. Ele não usa blusa rosa, não come arroz integral e não lê poesias. A culpada é a sociedade, que estabelece papéis para cada um dos sexos.

Obriga-se o menino a enfrentar precocemente situações para as quais ele talvez não esteja preparado, mas tem de ir em frente porque é homem, oras. Não pode ter medo dos colegas que querem te bater, não pode voltar chorando para casa, não pode gostar de artes, não pode ser magrelo. É uma coisa cultural muito comum no Brasil. Mulheres estão saindo do papel de objeto com maestria, se aproveitando dele. Elas tentam ser bonitas, educadas e bem vestidas pois sabem que trata-se de uma maneira até honesta de conseguir o que querem. Já o homem educado e bem vestido simplesmente quer fugir de críticas, passar despercebido, não ser humilhado.

Homens não sabem lidar com o desconforto, com o sagrado, com o feminino e acho que passou da hora de começar, porque no passado eles não tinham noção da própria insatisfação. Hoje, isso é luxo. Um homem lúcido, com o mínimo do erudito na sua formação, entende que vai viver mais, entende os benefícios de certos alimentos, os males de certos comportamentos, a importância de fazer check-up. Ao mesmo tempo, está começando a ter consciência do seu papel masculino como provedor e amante e começando a ter menos medo de reclamar, de contar suas angústias, de ir ao museu com prazer, de pedir um drink ao invés de uma pinga.

Mas, verdade seja dita, estão mais tristes, bem mais confusos e, claro, igualmente frágeis.

Para ouvir depois de ler: What It Feels Like For A Girl - Madonna

domingo, 23 de maio de 2010

O pop tem razão: "One More Time With Feeling"

“Eu era deprimido pois ouvia música pop ou eu ouvia música pop pois eu era deprimido?”. Essa é uma questão de “Alta Fidelidade”, não sei se do filme ou do livro ou dos dois. O que interessa é que a dúvida é pertinente. Para tentar extrair dela algum divertimento – ou alguma sabedoria – criei essa categoria no blog para analisar músicas que, de alguma forma, fazem sentido.



É típico no teatro infantil, por exemplo, que o primeiro personagem a interagir com a platéia grite “tudo bem?”. Todos respondem “tudo”. Ele diz que não ouviu direito, para as crianças responderem novamente, mais alto. “Tuuuudoooo!” É essa a idéia da expressão “de novo, agora com força” ou “agora com sentimento”, ou “one more time with feeling” – que, por acaso, é o nome de uma bela canção de Regina Spektor.

“Seus pontos foram feitos corretamente, mas suas cicatrizes estão se curando de forma errada”, ela canta. Poderosa metáfora. “One More Time With Feeling” é sobre as cobranças que fazemos de nós mesmos. Em nome do conforto, queremos muito, não nos esforçamos e ainda reclamamos do que não aconteceu.

“Você achava que, a essa altura, você seria melhor do que é. Você achava que, a essa altura, eles já teriam visto como você chegou longe”, diz com tristeza a letra. “E o orgulho dentro dos seus olhos estaria sincronizado com um amor inédito”.

Mas nem tudo está perdido. Tente de novo, grita com mais força e faça tudo com mais sentimento. Acho que essa é a mensagem por trás da composição. Repita tudo na sua cabeça até que comece a fazer sentido.

domingo, 16 de maio de 2010

Futebol é muito chato

Eu não quero ser do contra e reclamar por reclamar. Só quero dizer como eu detesto futebol. Não o esporte categoricamente, mas viver no país onde ele está acima de coisas muito mais importantes.

Se o seu personagem favorito da série “Friends” é a Monica e o meu é o Chandler, a gente explica por que, cita uns episódios, morre de rir e a conversa acaba. No futebol, as pessoas ficam em uma competição sem fim sobre como seus times são melhores que o outro, sendo que – apesar de todos serem muito parecidos – uns estão ganhando ou perdendo partidas, torneios e campeonatos. Ou seja, são fatos. E contra fatos não existem argumentos. Não interessa se pelo menos o fulano fez o passe certo ou errado, interessa que seu time perdeu, então fim da discussão. Seu time é ruim.

Mas a coisa mais irritante é como o esporte é um fator social. As pessoas te perguntam seu nome, idade e time pra qual torce, como se isso definisse seu lugar no mundo, seu caráter ou algo. Mais sentido faria perguntar seu livro favorito, uma pergunta que identificaria hábitos de leitura, gosto e nível de desenvolvimento mental e emocional. Perguntar seu time só esclarece para o interlocutor de que lado do estádio você senta e de que cor é a camisa/outdoor ridícula que você usa pela rua nos dias que seu time ganha ou que o time rival perde.

Outra coisa absurda do futebol aqui na terra dele é que todos os fanáticos usam xingamento extremamente rudes, preconceituosos e ofensivos até para quem não tem nada a ver com a história. A tradição manda os ganhadores chamarem os perdedores de “bicha”, “viado” e coisas assim. Nunca entendi muito bem isso. Só sei que é por isso que estamos tão atrasados nesse país em relação a direito dos homossexuais. Pois vivemos numa vala de homofóbicos considerados “machões” e “espertos”, amantes do futebol e com vergonha de defender o que eles consideram diferente, feminino, delicado ou errado.

E se a final do campeonato tal é na quarta-feira, o jogo termina muito tarde. As pessoas bebem em grupo, de frente para a TV e dormem no sofá. No dia seguinte, duas horas de atraso são aceitas no emprego. Uma falta é aceita se for um time ou um título muito importante. Isso é inacreditável, porque se eu perdi um episódio de “Big Bang Theory” fazendo hora extra no trabalho e quiser ver a reprise que passa uma da manhã, o problema é meu pra acordar amanhã. Chefe nenhum vai deixar de me descontar o atraso. Se eu for discotecar numa festa na quinta-feira, saio de lá às 4h e trabalho às 9h. O Oscar termina às 2h de uma segunda-feira e eu tenho que me virar. Mas ai de mim de precisar que me enviem um texto urgente em dia de jogo do Brasil.

Outra coisa péssima em futebol é que esportistas – principalmente os de esportes em grupo – geralmente são feios, não têm carisma e são todos muito parecidos. Você folheia um álbum da Copa completo e não vê a menor diferença entre as páginas com exceção da cor de pele e dos uniformes. Aliás, uniformes de time são uma puta de uma coisa imbecil. No campo, eles identificam de que lado cada um está. Aí, na sua vida, ele não tem papel nenhum. Mentira, tem sim.

Sabe carnaval de micareta? Eu acho aquilo a coisa mais imbecil do mundo. É um ritual primitivo absurdo colocar todo mundo num mesmo lugar, ouvindo a mesma merda, dançando exatamente do mesmo jeito e ainda por cima usando a mesma roupa. Usar uniforme de futebol – quando não se é jogador – tem essa função. Você faz parte de um grupo maior, de um coletivo. Que pobreza de espírito, não?

Enfim, falei mais do que planejava. Não é pra criar polêmica, é só para que as pessoas pensem no assunto e no conceito de “prioridade”. Quando o futebol está na TV, não foi o mundo que parou pra assistir, foi apenas você que perdeu qualquer perspectiva de realidade. Especialmente a da diversão, que é o que todo esporte devia causar no não-praticante. Afinal, esporte faz bem pra saúde e se você já não está praticando, e sim apenas assistindo, que ele te cause prazer, pelo menos. E não guerra, discussões, brigas e piadas de péssimo gosto.

Para ouvir depois de ler: Human Behaviour - Björk

domingo, 25 de abril de 2010

Eu não vou trazer nada para você

Eu sabia que isso ia acontecer. Basta você dizer que vai fazer uma viagem internacional que logo aparecem conhecidos – daqueles bem distantes – te pedindo encomendas.

E não é que eu tenha anunciado demais não. Exatamente por isso, tentei não alardear demais minha ida, mas nunca tem como. Sempre tem um sem noção que descobre e vem te pedir para trazer um cacareco qualquer.

Para não ser rude, dou um sorriso leve e digo: “Me passa o que você quiser que, depois, eu vejo” e explico que, de maneira alguma, vou sair procurando o que a pessoa quer. Se, por acaso, eu topar de frente com o objeto desejado pelo conhecido, ok. Se não, me desculpe. Compre online ou quando você mesmo viajar.

É curioso isso. Tem conhecido meu que já foi pra Paris, Itália, Irlanda, Nova York, Los Angeles, Nova Orleans e Canadá e ninguém me trouxe nada. Não estou reclamando, pois nada pedi. As pessoas parecem não entender que quando você viaja para fora do país – principalmente pela primeira vez – quer encher suas malas é de coisas para você ou presentes para seus amigos mais chegados. Não para os outros!

Mentira, todo mundo entende isso sim. Aliás, todo mundo que já viajou pra qualquer lugar entende isso muito bem. Mas eles pedem coisas do mesmo jeito apostando na sua educação. Bom, estou deixando esse post como aviso. =P

Para ouvir depois de ler: I Love New York - Madonna

sexta-feira, 23 de abril de 2010

O País das Maravilhas de Tim Burton

Apesar de ter gostado muito dos filmes, uma coisa me incomodou em “Sherlock Holmes” e em “Onde Vivem os Monstros”. Os dois dão sinais de não serem a primeira opção de seus diretores. Era como se eles tivessem um cadernão de ideias soltas anotadas e aí buscaram livros com personagens já prontos para incorporar tais pensamentos. Era o que eu achei que aconteceria com a versão de “Alice no País das Maravilhas”, de Tim Burton.

Mas isso não aconteceu – pelo menos não de forma tão categórica.

Ele pegou os dois livros de Lewis Carroll com a personagem – “Alice's Adventures in Wonderland” e “Alice Through the Looking Glass” – e fez uma outra história. Como era de se esperar, Johnny Depp é ninguém menos que o Chapeleiro Maluco. Qualquer fã de cinema sabe muito bem que esse segundo adjetivo é a cara de seus melhores papéis e, talvez por isso, já não seja novidade.

Com uma semi-desconhecida como Alice – a australiana Mia Wasikowska, que não parece somar nada à narrativa – achei que Depp seria o centro das atenções. Bastou Helena Bonham Carter aparecer como a Rainha Vermelha para eu mudar de ideia. Ela tem uma maneira muito peculiar de fazer o tipo mandona e rouba todas as cenas em que está presente.

De outro lado, aparece Anne Hathaway, como a Rainha Branca, uma hilária sátira à delicadeza excessiva das princesas em filmes, e vários outros personagens realmente muito bons – com destaque para o Gato, com voz do ótimo Stephen Fry.

Mas se Burton alcança a glória com o uso do 3D, com o ar sombrio à uma história anteriormente mágica, com figurinos e cenografia – a cena onde Alice encolhe e diminui várias vezes é um desafio de escalas e planos de distância –, ele peca nas cenas de ação, que são previsíveis e rápidas. Mas a gente se importa? Não muito.

A linha entre o real e o feito por computador é imperceptível em vários momentos e apenas Burton pode transformar “Alice” em um filme de aventura que não parece ser algo aproveitador – lembrando que estou analisando apenas o filme e não os milhares de produtos lançados sobre ele.

O cenário criado pelo diretor para continuar a história de Carroll faz jus ao que ele escreveu anteriormente. Burton até cita o manuscrito original da história – chamado “Alice's Adventures Underground” – e faz muitas piadas, especialmente visuais. Apesar disso, ficaram de fora alguns trocadilhos e lições de moral através da lógica, como "Você poderia me dizer, por favor, qual caminho eu devo seguir?", "Isso depende muito de onde você deseja chegar", até o chá maluco e o desaniversário.

Daqui do meu modesto ponto de vista, muita gente vai se decepcionar com a história, principalmente quem é fã de longa data dos livros ou leu correndo antes de ver o filme. Talvez tivesse sido melhor, para o público e para a própria Disney, fazer uma versão da história original e não aumentar nada. A narrativa de Tim Burton é mesmo um espetáculo agradável aos olhos, mas também é fria e previsivelmente exótica.

Mesmo que isso signifique longas filas e chateação de púberes ao redor, “Alice no País das Maravilhas” merece ser visto no cinema. Não é o melhor trabalho de nenhum dos envolvidos na produção, mas está longe, muito longe, de ser vergonhoso.

sábado, 10 de abril de 2010

Os prédios continuam de pé

Neste momento, na casa ou prédio em que você vive ou está, você só consegue perceber fisicamente, com seus cinco sentidos, cerca de dez por cento do prédio.

Pense bem. Dentro das paredes há tanta coisa a mais do que no exterior delas. O encanamento, os fios elétricos, o material de isolamento, os dutos de ar. Há também muito trabalho, esforço e tempo que foi investido e que, depois, quase ninguém vê e talvez nunca irá apreciar.

Na vida, em qualquer organização, negócio, família ou pessoa, também existem camadas que nunca vemos. O trabalho mais fundamental que fazemos passa despercebido. E às vezes é difícil mostrar o que temos feito. Quantas vezes sentimos a dor de outra pessoa, rezamos por ela, contamos casos alheios e fazemos elogios que nunca chegarão aos ouvidos da tal pessoa?

Mas talvez seja hora de fechar os olhos e pensar em tudo que não pode ser visto. Para o bem ou para o mal, você pode imaginar coisas que nunca existiram, mas também pode visualizar acontecimentos verdadeiros que farão o valor desses relecionamentos subirem no seu conceito.

No meio da pior das tragédias e de todo o caos, ninguém recebe crédito pelo prédio que não desabou durante o terremoto. E isso é uma puta injustiça.

terça-feira, 30 de março de 2010

Enfim, só.

É muito bom ter amigos, estar cercado de gente e estar em um relacionamento. O problema começa quando passamos a depender dos outros para construirmos nossa própria identidade. Por isso, tem gente que odeia ficar sozinho.

Eu as entendo. Vivemos num mundo totalmente projetado para fora, para os outros. São inúmeras propagandas mostrando o que você deve ter ou usar para ser aceito por um grupo. Várias redes sociais para nos mantermos conectados, nos comunicando, interagindo, compartilhando, nos fazendo presentes e nos dando a sensação de estarmos sendo ouvidos.

Mas eu fui uma dessas crianças que foi criada em silêncio. Minha casa era grande e vazia – mas não no sentido pejorativo. É que eu brincava muito sozinho e viajava com meus livros e figurinhas e fantasias. Estar sozinho nunca foi penoso. Pelo contrário! E isso faz com que, as vezes, eu me sinta sufocado pelas pessoas que não enxergam esse prazer. Esse povo expansivo ou meloso em excesso. A capacidade de se recolher está tão pouco trabalhada assim hoje em dia?

Conquistar intimidade consigo mesmo é uma das coisas mais preciosas que se pode desenvolver ao longo da vida. No meu caso começou muito cedo, mas nunca é tarde. Trocar a sensação de ausência do outro pela presença de si mesmo é algo que só pode fazer bem.

E isso não tem nada a ver com fobias sociais, reclusão dentro de casa ou ficar em posição de lótus repetindo mantras. Sabe aquele momento do dia em que você fica repassando tudo que aconteceu? Basta levar esses pensamentos, que geralmente aparecem antes de dormir ou na hora do banho, para os outros momentos do dia.

É muito fácil. A parte difícil é controlá-los para não virarem uma tagarelice sem fim. Você precisa é usar esse tempo para tomar decisões, buscar soluções, cultivar ideias, confrontar dúvidas e medos, descobrir certezas, descartar o que já não nos serve mais.

Um querida amiga deu a dica um dia desses: perguntar porque. Você chegará a lugares incríveis se for honesto com você mesmo. “Por que não ligo no primeiro encontro? Porque tenho receio de ele achar que 'ajoelhou tem que rezar'. Por que ele acharia isso? Porque eu fiz não sei o que...”. Esse jogo dos porquês é muito pessoal. Mas vale – e muito – experimentar, pois existem crenças enraizadas que não devem mais nos acompanhar e o primeiro passo para a transformação é identificá-las.

Voltando ao assunto, depois de um dia agitado, a necessidade de falar compulsivamente, trocar idéias, desabafar – como deve fazer sua mãe e, talvez, você também – pode até fornecer um alívio momentâneo, mas o estado de inquietação permanece – já reparou aquelas pessoas que só usam as redes sociais para reclamar da vida? Então, é por isso.

Portanto, nada como recolher-se um pouco e permitir que os últimos acontecimentos sejam processados cuidadosamente. Com o tempo, a mágica acontece: à medida em que nos permitimos, vez ou outra, nos recolher em nossa concha, mais nos conectamos com nosso próprio centro, nossa essência e, conseqüentemente, adquirimos uma visão mais abrangente do nosso mundo interior e, ao mesmo tempo, de nossa conexão com tudo o que é externo a nós.

A partir disso, nosso relacionamento com os outros e com a vida só tem a ganhar, pois se torna mais verdadeiro, paciente e maduro. Quanto mais preenchidos nos sentimos, mais temos a oferecer. E quanto mais oferecemos, mais recebemos em troca.

Para ouvir depois de ler: How High - Madonna


quinta-feira, 11 de março de 2010

Cabeleira do Zezé

O povo não entende que viado é um xingamento, achando que faz referencia ao animal. Mas o animal é o veado. "Viado" vem da palavra "transviado", e virou sinônimo de homossexual em 1964, com a marchinha de carnaval "Cabeleira do Zezé", que questionava a sexualidade de um homem de cabelos longos.

Então, chamar de viado é chamar de transviado, ou seja, perdido, sem rumo, deslocado, fora dos planos etc. Dependendo do contexto, do interlocutor e do tom, parece que você está falando que a pessoa tem uma doença, um defeito, um distúrbio - e isso, qualquer conselho de psicologia e pessoa de bom senso sabe que é falso.

Da mesma maneira, várias outras palavras podem assumir papel de xingamento extremamente rude, preconceituoso e ofensivo também de acordo com seu contexto, interlocutor e tom. Palavras como "galinha", "bicha", "vaca" e "pitizento", por exemplo.

Deu vontade de escrever sobre isso hoje.

domingo, 7 de março de 2010

Cobertura do Oscar 2010

A galerinha linda do blog Oi Tudo em Cima vai cobrir ao vivo a cerimônia de entrega do Oscar desse ano. É só clicar aí embaixo que é só alegria.