quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Ewige wiederkunft

"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!"

Esse é um trecho de “A Gaia Ciência”, último trabalho da fase positiva de Nietzsche, que resume um pouco o conceito de “eterno retorno”. A ideia é a que bem e mal, angústia e prazer, dia e noite, são eventos e sensações que se alternam, inevitavelmente. Tanto na história pessoal quanto na mundial, tudo é cíclico. Pense aí na sua vida se não é verdade. Amores, decepções, depressões, novos amores. Crises, crescimentos, guerras, epidemias.

A questão ali foi posta por um demônio e dá arrepios só de pensar: conseguiria você viver, de novo, toda a sua vida? Isso quer dizer mesmos erros, acertos, prazeres, e essas coisas poéticas todas. Mas pense no lado mais material. São as mesmas doenças, curas, empregos, pais, moradias, chefes, crises, notas na escola, tapas na cara.

Eis porque a proposta é de um demônio. Embora pareça interessante em princípio, a proposta é absolutamente agoniante. Não é um presente divino e sim uma maldição. Você já pensou no passado e suspirou “Ah, se naquela época eu soubesse o que eu sei hoje”? Viver de novo a mesma vida é viver sempre com esse suspiro preso em você, vendo as coisas acontecerem iguais e imaginando como você poderia ter feito diferente.

Por outro lado, a reflexão é boa. Para poder viver a mesma vida, devemos amá-la muito, devemos tê-la vivida de forma muito lúcida e prazerosa e termos alcançado tudo que queríamos. Devemos? A questão é essa. Devemos ter amor ao nosso destino irremediável ou construí-lo?

Apenas seríamos capazes de amar a vida que temos a ponto de querer vivê-la novamente se ela for muito boa. E isso não está completamente nas nossas mãos. Ou está? Pois apesar das inúmeras histórias que religiões e cultos têm inventado, não temos garantia nenhuma que há mais do que essa vida besta nossa, essa que começou no ventre da sua mãe e que terminará numa cama de hospital - ou numa faixa de pedestre. Então é melhor tentar deixar cada momento merecedor de ser vivido de novo, certo?

Para refletir.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Pensando com Laerte


No filme “The Cement Garden”, de 1993, a personagem de Charlotte Gainsbourg é flagrada vestindo um menininho com roupas femininas. Ao ser questionada pelo irmão mais velho dele, ela diz: “Garotas podem usar jeans, usar camisetas e botas, pois é aceito ser um menino. Mas para uma menino, ser uma menina é degradante. Pois você acha que ser menina é degradante. Mas, secretamente, você adoraria saber, não adoraria? Como é que se sente uma garota?”.

Tem bem pouco tempo que Laerte, um dos maiores e melhores cartunistas do Brasil, resolveu fazer algo muito corajoso: revelar para todo mundo que curtia uma onda crossdresser – que é quando uma pessoa começa a usar algumas peças de roupa ou certos acessórios que são, geralmente, atribuídos ao sexo oposto. A declaração foi dada à revista Bravo!, em sua versão impressa e também em uma pequena entrevista em vídeo, aqui.

“Na verdade, a minha convicção é que todas as pessoas gostariam de experimentar muito mais do que aquilo que os códigos sociais permitem, recomendam e limitam. Em se tratando de roupas, acho que as pessoas gostariam de frequentar outros parâmetros e outras áreas também. A vontade de vestir roupas femininas é muito mais frequente do que se imagina. As pessoas sofrem muito por não fazer isso, por achar que é uma vergonha ou algum tipo de diminuição.”, diz ele de forma natural e lúcida. “Vestir uma roupa feminina é constestar um parâmetro de gênero que vigora na sociedade. No limite, é uma coisa política. No fundo, é uma contestação de proposta de mudança. Mas é um prazer meu também”.

Fico feliz em ver gente que enxerga como uma babaquice esses mitos. Dividir a humanidade em gênero é uma coisa que nasceu com as religiões, com a ideia de que a divisão deveria vir das metades necessárias para conceber uma nova vida e com as antigas crenças da vida em matrimônio.

Voltando ao Laerte: “Eu não estou imitando uma mulher, não quero passar por mulher. Eu estou confabulando com um modo de ser que vem sido atribuído às mulheres. Assim como as mulheres – enquanto gênero – frequentam hoje modos, vestimentas e comportamentos que eram exclusivamente masculinos, acho que os homens deviam fazer essa passagem também”. Acho que ele tem razão.

Hoje, uma mulher tem a liberdade de usar calça, sapatos sem salto, não precisa de espartilho, pode falar alto, grosso e beber cerveja. Enquanto isso, nenhum homem pode usar blusa rosa, beber um drink de frutas, comer arroz integral ou ler poesias. A gente – eu, você, nossos pais, nossos tataravôs – chegou aqui há pouco tempo e se engana achando que o mundo sempre foi assim. As coisas foram evoluindo de uma maneira que, por sua lentidão, parecem naturais, mas não são. Em outras culturas, em outras épocas, matar um animal para comer era pecado; era impossível mudar de classe social; bebês usarem roupas amarelas atraía dinheiro; homens só faziam sexo com mulheres para procriarem, pois o prazer mesmo vinha da relação com outros homens.

As gerações mais recentes são daquelas que obrigam o menino a enfrentar precocemente situações para as quais ele talvez não esteja preparado, mas tem de ir em frente porque é homem. Não pode ter medo, não pode chorar, não pode dançar, não pode gostar de arte. O resultado é um bando de gente despreparada para lidar com o desconforto, com o sagrado, com o feminino - e um monte de mulheres insatisfeitas com seus próprios homens, claro.

A chamada "cultura ao redor" não pode ser mais forte do que nossa vontade de mudar e nossa inclinação a pensar diferente, a pensar sobre nossos hábitos e sobre os nossos próprios pensamentos. Não há quem resista a tanta pressão e angústia, presentes dos dois lados da moeda. Passou da hora de todo mundo aprender a cuidar da sua vida. No seguinte sentido: se a coisa que faz bem para você não faz mal para ninguém, significa que a coisa faz bem a todos. Liberdade é isso.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Prodepressivo


Nas últimas décadas, a indústria e a ciência desenvolveram remédios muito eficientes e com menos efeitos desagradáveis para tratar ansiedade, depressão e déficit de atenção, entre outras manifestações psíquicas. Isso é muito bom: tratamento mais seguro e eficiente para quem precisa. Para quem precisa. Mas estou achando que todo mundo se vê nessa lista.

É meio estranho como é moda falar que está estressado e deprimido. A doença do momento, por exemplo, é a bipolaridade. Mas se você tem variações de humor, você é normal. Bipolar é um transtorno psicológico grave. Sim, transtorno. E muito complicado de ser diagnosticado mesmo por profissionais. Piadinhas não deviam entrar nisso.

Tristezas, inseguranças, ansiedade e inquietações são normais na vida de qualquer um, mas passaram a ser facilmente medicados, tirando um pouco nossa responsabilidade de lidar e de resolver conflitos. A mãe vê o filho chorando e leva ele para a farmácia ao invés de sentar e conversar. Vivemos numa época onde as pessoas acreditam que é possível viver sem sentir nenhum tipo de dor física ou psíquica. Basta uma fincadinha na cabeça ou um mero ar nostálgico e já corremos para tomar uma aspirina ou um antidepressivo?

Se tem uma coisa que aprendi – e que já foi explorado aqui nesse blog – é que felicidade eterna não é algo alcançável. Felicidade é uma coisa mutável e, por baixo de suas oscilações, deve haver sim é uma paz de espírito.

Isso tudo sem contar que um remédio como Ritalina é um derivado da anfetamina, por assim dizer, e pode causar dependência. Ele deve ser usado por quem precisa e não por quem está atravessando uma fase de mais inquietação. E, do jeito que andamos, nem percebemos nosso vício. E eles estão começando cada vez mais cedo.

Que tal checar como andam seus pensamentos, valores e sua rotina antes de ingerir alguma nova pílula? Uma das suas missões – ou obrigações - é exatamente essa, aprender a lidar com emoções desagradáveis. A vida é sobre isso e obstáculos só existem para que sejam superados.

domingo, 19 de setembro de 2010

Os normais


Estou aproveitando todos os meus momentos vagos para ver todos – sim, eu ousei dizer todos – os filmes que quis ver e ainda não pude. Alugando, baixando, pegando emprestado, estou tentando passar pelas minhas vistas os requisitados clássicos, como “Duck Soup”, até alguns títulos mais novos, como “Os Excêntricos Tenenbaums”.

A família Tenenbaum é, literalmente, genial. Chas é um investidor pleno aos 11 anos; Ritchie é um fenômeno do tênis e Margot, adotada, é uma dramaturga que escreve sua primeira peça aos 9 anos. Já Royal, o pai, é um canalhão que, chutado para fora de casa pela esposa, Ethel, vai à falência. Respectivamente, estamos falando de Ben Stiller, Luke Wilson, Gwyneth Paltrow, Gene Hackman e Anjelica Huston. Além deles, temos Bill Murray e Owen Wilson no elenco.

A primeira questão é que uma vez genial nem sempre genial. Os filhos, já adultos, somam alguns traumas recentes com a sensação de estarem congelados em seus momentos de glória do passado. Isso é chocante, digamos assim, para o pai, que finge estar para morrer afim de se reaproximar da prole, arrependido de suas sacanagens passadas.

Não é o argumento mais original da história do cinema, mas o desenrolar é magnifíco. É gostoso acompanhar como, a cada momento, as situações parecem ficar mais malucas – como, por exemplo, descobrirmos que um dos irmãos está apaixonado pela irmã adotiva e como um amigo de infância, que sempre quis ser um Tenenbaum, hoje é traficante de drogas.

Wes Anderson, o diretor, conta a história como que em capítulos de livros e cria um cenário muito peculiar e uma imagem bem diferente de Nova York. Aqui, só vemos prédios residenciais, um Central Park vazio e ruas sem táxis amarelos.

Não quero me aprofundar em críticas, apenas deixar registrado como achei esse filme belo - sendo "belo" tudo aquilo que causa alguma reação na gente. É para rir, chorar e se emocionar. Seja por se identificar com todos ou nenhum dos personagens. Como diz o pôster do longa, família não é uma palavra, é uma sentença.

Para ouvir depois de ler: Nazareth – Ruby Tuesday

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

No meu tempo, o amor...

Tirando a época em que era ministrada por um pastor evangélico, sempre fui muito com a cara dos meus professores de filosofia, sociologia e semiótica. Há algo nesses estudos que deixa a pessoa mais em paz no relacionamento dela com o mundo.

Em uma dessas aulas, lembro de um professor contando histórias sobre sua filha caçula e rindo muito dessas pessoas que dizem que quem não brincou na rua ou escalou árvores não teve infância. Afinal, são experiências diferentes. Nem melhores, nem piores, apenas diferentes. Nos tempos dos nossos bisavôs, o povo casava com 15 anos de idade. O conceito de infância é algo que muda de acordo com a época, a religião, a cultura etc.

Na verdade, penso que é assim com quase todos os assuntos. Pessoas mais velhas do que eu, mesmo as que usam com maestria o computador, tendem a usá-lo de forma que ele termine seu serviço ali, ou seja, não interagem com ninguém através dele. Para essas pessoas é praticamente impossível explicar como, via internet, nascem amizades e amores.

A era digital mudou toda a forma prática da sociedade e o amor entrou nisso junto. Ele, que também muda conforme mudam os meios pelos quais se estabelece a relação com o corpo do outro, está tão inserido no mundo virtual quanto qualquer outro tópico. Desde sempre, em relacionamentos, saímos do nosso aconchego e atravessamos um espaço de dúvidas para encontrar o outro. Esses questionamentos – ou obstáculos? – são ideológicos, religiosos, estéticos, políticos. E o que o amor na era digital permite é o de passear por ele, explorá-los um pouco mais, antes de pular de ponta no desconhecido.

Antes, exáminavamos a aparência da pessoa, sua presença e seu cheiro, para ver se valia à pena ir mais fundo, e descobrir sua personalidade, caráter e valores. Mesmo que só cliquemos nos avatares que nos chamam atenção esteticamente, acho que essa ordem se inverte e, no mundo virtual, a pessoa não tão atrativa chamará mais atenção que uma pessoa mais bela se tiver interesses em comum declarados – mesmo sendo no formato de uma comunidade do seu livro ou filme favorito.

A mais nova versão do amor para além do corpo é esse amor digital, que é sem corpo! A pessoa te causa uma sensação boa com palavras que te manda por e-mail, MSN, SMS e, então, amor digital, nesse sentido das palavras, joga fora o corpo, mantendo apenas o que nos liga a ele sem que ele esteja entre nós: o intelecto.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Quem é você no dia?


Querem me fazer acreditar que todos os gays são obrigados a saber o que se passa no que chamam por aí de mundo pop. Quer dizer, estou dentro do clubinho se assistir novela, ler sites de fofoca, sair para boates todos os dias e saber cantar as músicas de uma cantorazinha menor de idade que usa um cifrão no lugar da letra S.

Se você ainda não viu o último tombo da Shakira, no show em Lima, você não é ninguém na noite. Ninguém vai querer conversar com você, não importa os filmes e livros clássicos que passaram pelos seus olhos, essa é a informação relevante do dia, a nova tatuagem da Rihanna. É rei do mundo purpurinado quem tem vasto conhecimento nesse raso mundinho.

Isso me irrita. É que depois de virar madrugadas lendo “Os Miseráveis” e de ouvir Beatles ainda em vinil, eu me sentia um idiota ao ler “Poliana” e ouvindo Britney Spears. Saber diferenciar bom e ruim pode não ser suficiente na hora do gosto e não gosto. Mas cheguei à conclusão de que cada coisa desperta algo diferente em mim e que há espaço para tudo se eu souber hierarquizar de forma clara aquilo que contribui para o meu caráter e aquilo que é pura diversão efêmera, como lasanha congelada.

É um absurdo colocar todos no mesmo pote, mas me vejo tão rodeado de gays que só se preocupam com modinhas que temo por eles no futuro. É muito mais social, eu acho. Afinal, os que não souberem tratar de certos assunto são excluídos de uma minoria que já não é assim tão incluída na sociedade. Ou seja, chegamos num ponto do aceitamento social do gay entre os gays onde ele precisa esconder seu José Saramago debaixo da sua blusa da Mariah Carey. É uma maluquice isso.

Alguém me salva?

Não é que eu não me divirta entre eles. Eu ouço Lady Gaga, eu gosto de dançar, eu uso skinny jeans. Mas há tão mais do que isso no mundo, meu caros! Tão mais!

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Quer ser meu amigo?


“Diga-me com quem andas e te direi quem és” é um ditado exagerado – ter amigos diferentes de você faz parte da graça deles. Mas é fato que ter amigos já sinaliza algo. Amizade, para mim, vem antes de outros tipos de relacionamentos, como os amorosos ou paternos, pois trata-se do primeiro objetivo moral da vida de qualquer ser humano de cultura. Ter amigos é ser alguém.

Um amigo que te traiu pode voltar a ser seu amigo? Uma malvadeza, digamos assim, torna tudo inválido? E quando a situação é a de um amigo que traiu um outro amigo seu, como fica? Do lado de qual amigo você fica, como medir qual é mais amigo? Um coração partido por uma amizade cicatriza mais rápido?

Para Aristóteles, saber ser amigo equivale a ser ético e é aí que entra essa questão, ao meu ver. Para ser amigo, basta alguém que sabe o que é o mal, mas deseja o bem. Penso assim e, por isso, vejo certa exclusividade na amizade. Reparou que quem leva a sério amizade costuma dizer que tem poucos amigos? Acho que é por aí. Não dá para considerar qualquer chapa de boteco seu brother e confessor particular. O que não quer dizer que não se possa ser agradável e sorridente a muitos – mas é que um amigo verdadeiro merece mais que isso.

Não há amizade que se sustente por interesses – e cabem nessa categoria mais coisas do que podemos imaginar. O amigo, como pessoa, não pode ser um meio para um fim, como status, dinheiro ou qualquer tipo de vingança, e esses interesses às vezes vem em forma de armadilhas tão bem planejadas que a mais perspicaz das pessoas é capaz de não enxergá-las.

Como em todos os relacionamentos, são as coisas relevantes do começo que se tornam insuportáveis no final. Saber analisar isso é a chave. Só me basta dizer, nessa minha reflexão existencial boba de hoje, que a amizade deve ter fim nela mesma e que cada um deve saber de si.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Algo que pensei nos últimos dias

Foi Santo Agostinho, no terceiro século da idade média, quem percebeu pela primeira vez a conexão da inveja com a constituição primeira do ser humano. Ele elaborou uma frase sobre seu significado: “Video, sed non invideo”, ou seja, “vejo, mas não in-vejo”. Quer dizer, então se vejo, posso invejar. O erro – não dele e sim nosso – é atribuir inveja ao desejo pelos objetos dos outros apenas. É possível ter inveja em vários níveis, inveja da aparência e dos valores de terceiros até.

Exemplo? Que tal um estudo da Universidade Estadual de Washington sobre egoísmo? Ele demonstrou que certos atos de altruísmo, ao invés de melhorar a nossa reputação, podem fazer com que os outros não gostem da gente.

Em uma série de testes, os pesquisadores dividiram os voluntários em grupos de cinco e deram a eles “pontos”, que poderiam ser guardados ou usados para “comprar” vales-refeição. E disseram que abrir mão dos pontos aumentaria as chances do grupo de receber uma recompensa em dinheiro. Na verdade, enquanto a maioria fazia trocas justas de um ponto por um vale, alguns dos membros dos grupos eram atores e agiam, propositalmente, de forma egoísta, segurando todos os pontos para si, ou altruísta, abrindo mão de vários pontos em troca de menos vales, para que o grupo todo recebesse a recompensa final.

O que aconteceu foi que, ao final, a maioria dos voluntários de verdade disse que não gostaria de trabalhar com os egoístas de novo, obviamente. Mas a surpresa foi que grande parte deles também declarou o mesmo sobre os bonzinhos.

Pois é, até a pesquisa diz, bonzinho só se fode. Esse ressentimento está associado à inveja, acho. Pois vem muito mais de uma vontade de “ser como aquela pessoa” do que “não quero que aquela pessoa seja assim”. Tanto, que era a caridade dos colegas desprendidos que fazia os outros se sentirem mal – é que, no meio dos diferentes, se você acha que eles têm razão, você se sente pressionado a agir da mesma forma.

Na mesma linha de raciocínio estão todos esses que têm preguiça de discutir sustentabilidade, vegetarianismo, reciclagem de lixo, autoconhecimento, consumo consciente. Eles sabem que são ideias e conceitos mais corretos do que aqueles que levam em sua vida pessoal, mas a falta de força de vontade para mudar traz uma culpa por ter essa preguiça de fazê-lo – e é ela que alimenta essa inveja travestida de raiva travestida de indiferença. Admitir que se fez algo errado é bom, mas não torna o erro melhor.

Não estou propondo muitas discussões aqui. É só algo que pensei nos último dias.

Para ouvir depois de ler: Oh No! - Marina and the Diamonds


quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O clube de matemática do Sargento Pimenta

Para quem se coloca a pergunta “o que é o amor?” a resposta pode ser, basicamente, qualquer uma. Ganhar uma rosa sem motivos, ganhar uma rosa no aniversário, ganhar uma rosa depois do sexo, ganhar uma rosa depois de um soco. Tudo isso é amor para alguém. Jacó e Raquel, Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Frank e April, Lady Gaga e Alejandro.

E o que amor é para você? As cobertas de domingo, a festa hype de sábado, estar sempre rindo, estar sempre sério, estar nunca sozinho ou uma experiência profunda do erotismo, do desejo pelo corpo belo, do arrepio instruso e certeiro. Para mim, ele é tudo isso e mais, é algo que nos tira da racionalidade – queria usar a expressão “salva da racionalidade”, mas talvez não seja bem assim, afinal.

Mas o amor não é cego, senhores. Você pode até não escolher a quem vai direcionar seus pensamentos, mas eles só inundam sua cabeça se você deixar. Nos sentimos atraídos por todos, pois somos seres ligados às sensações e às fantasias, mas na hora do vamos ver há uma lista infinita de empecilhos bem reais. E acho que aí está a grande questão. A questão que move milhões de dólares em filmes, cosméticos e comidas: uma coisa dita tão boa, tão celebrada, não devia fazer sofrer, certo?

O fato é que ninguém acorda e vê uma macieira no quintal de casa. Explico: havia uma semente que foi plantada, cuidada e germinou. Tudo, absolutamente tudo, que faz um amor acender ou apagar, sempre esteve ali. O problema é que a macieira demora anos para estar totalmente crescida e esse intervalo de tempo causa a impressão do “de repente”. Acredite, nada nesse mundo acontece de repente. Ao mesmo tempo, não há nada novo debaixo do sol e todo o código daquela árvore estava adormecido naquela sementinha; ali dentro já havia uma árvore inteira. Só que você não viu.

Quando botamos o padrão do amor romântico no topo de prioridades e acreditamos na sua ilusão, estragamos o amor, pois o romantismo é apenas “uma das” formas do amor. E o preço dessa contradição é pago em lágrimas. É a infelicidade pelo desvio do padrão. Se tratarmos o amor como uma lista de regras, como uma caixinha na qual devemos nos encaixar, ele nega seu propósito original e, pela lógica das coisas desse mundo, deixa de ser amor. Concorda?

Já acho suspeito quando dizem que "tal me pessoa me completa" - pois, afinal, a gente se soma, mas todos já estamos completos -, então nem sei o que dizer do fato de que, no fundo, estar em um relacionamento é atestar que você realmente acha que nenhuma das outras milhões de pessoas no mundo tem a ver com você, mesmo que você não tenha conhecido 0,01% delas nem superficialmente.

É que o amor-paixão-adrenalina desaparece na mesma velocidade com que chega e tudo o que resta são bitucas de cigarro no tapete. Quando o ar ainda fede, dizemos que jamais cairemos de novo nessa ilusão romântica. Mas basta respirarmos fundo no ar novamente limpo para estarmos lá, criando novos laços. Só não pode cair para a falta de respeito, que as vezes parece natural diante do excesso de intimidade.

Essa é a vida, segundo canção de Regina Spektor: você é jovem até não ser, você ama até não amar, você tenta até não conseguir, você ri até chorar, você chora até rir e todo mundo respira até seu último suspiro. Você espia dentro de si e pega as coisas que gosta e tenta amar as coisas que pegou. E aí você pega esse amor que você criou e deposita no coração de outra pessoa, que pulsa o sangue de outra pessoa. E andando de braços dados, você espera não se machucar, mas mesmo se machucando, fará tudo de novo.

É preciso coragem para pular de ponta numa piscina – bem funda – de improbabilidades. Acontece que é intraduzível a sensação boa de amar. E é bonito exatamente porque pode trazer junto com ele tanta dor, exige esforço e empenho, então precisa compensar o sofrimento. A pergunta, no final, é essa. Como anda essa equação por aí?

Para ouvir depois de ler: Real Love - John Lennon

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Sobre política

Dilma, Serra, Marina, Plínio e o cacete. Época de eleição, especialmente as presidenciais, é época de refletir sobre a última gestão, sobre as mudanças que aconteceram e as que queremos que aconteçam. A gente vive num país de merda, onde eu estou aqui, na frente de um computador que eu já acho ultrapassado, enquanto do outro lado da rua tem um cara dormindo no chão, sem casa para voltar, sem dinheiro para comprar comida, sem lugar para tomar banho; famílias inteiras vivendo com metade do meu salário “que não dá pra nada”. A democracia é muito jovem por aqui e vai demorar para nos juntarmos aos peixes graúdos em muitos assuntos.

Eu não acho legal viver num país que posa de bacanudo pros gringos enquanto tem gente dentro dele passando fome, acho isso um grave problema de priorização. A pose pode gerar respeito e atrair investimento, mas aplicados da maneira errada, nada muda aqui dentro de verdade. Uma coisa que não muda mesmo, por exemplo, é minha vontade de ir embora. Mas ó, líderes não são perfeitos e as imperfeições dos líderes que escolhemos são reflexos das nossas. Entretanto, não devemos mudar de líder, devemos mostrar a eles que tipo de mudanças queremos deles.

Política é um jogo de ego e de manipulação mental via mídia. O candidato promete um salário mínimo de 5 mil reais, enquanto outro promete gás de cozinha para pobres que nem conhecemos. Por que não votamos no primeiro deles, já que sua proposta é a melhor pra gente? É porque ele é tosco, tem um cenário ruim e uma cara feia. Já aquele que faz promessas menores, as faz com mais convicção, num cenário limpo, lindo e iluminado, e as imprime em folhetos coloridos e com fotos grandes de suas imperfeições de pele mascaradas por programas de computador. É ou não é?

Por que pensar sobre o meio ambiente é coisa do Partido Verde? Por que distribuição de renda é coisa do PT? Por que privatização é coisa do PSDB? Todos são assuntos que interessam a todos e não devemos escolher qual assunto/partido queremos discutir agora. Tudo deve ser levado em consideração o tempo todo. Meu incômodo é que existem pautas que, com a globalização, rodam o mundo. Casamento gay, por exemplo, é o assunto do momento. Mas as vezes me pego pensando que abriria mão dessa luta com um sorriso no rosto se me garantissem afinco verdadeiro em todas as promessas de melhor ensino, menos violência, saneamento básico e energia elétrica aos pobres. Anda não dá para pedir menos homofobia do Seu Zé, um sem educação, no sentido escolar e/ou erudito, criado numa favelona onde “viados” são estrangulados todo dia.

Enfim.

A mentalidade conservadora enfatiza a responsabilidade que temos pelas nossas próprias ações enquanto a liberal nos traz o pensamento de que devemos tratar os outros como gostaríamos de ser tratados. O erro está, portanto, em jogar cada coisa para um lado, enquanto deveríamos unir essas formas de pensar. Ah, mas não estou falando de candidatos e sim do nosso cotidiano. Enquanto a galera não perceber que o pessoal é o global e que o pessoal é o político, nada anda. Vivemos em comunidade e esse povo maquiado que você vê no palanque vai mudar de discurso assim que for conveniente, te garanto. É a gente que precisa mudar isso daqui – então não jogue sua parte da responsabilidade em cima de uma urna eletrônica.


Ouça depois de ler: Madonna - I'm So Stupid