sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Acho que já te vi lá

Eu estava dentro do ônibus já no penúltimo capítulo do livro "My Horizontal Life", da Chelsea Handler: nele, ela narra as divertidas desventuras da festa de reunião da classe de seu melhor amigo gay, onde ela é convidada a fingir que é sua esposa. O tanto de mentiras contadas faz a história ir para caminhos cada vez mais engraçados.

Aí chegou meu ponto: estava indo a um Banco do Brasil perto da faculdade Fumec. As pessoas já estavam levantado - o ônibus estava bem vazio - e fiquei ao lado de uma menina bonita e de mochila que me olhou e disse:

- Você está indo pra Fumec?

"Não, eu formei tem um ano e meio - e nem foi pela Fumec" seria minha resposta honesta. Mas algo do livro me inspirou e o que eu falei, na verdade, foi outra coisa:

- Estou.

Que merda. Agora ela vai me fazer uma pergunta sobre o campus que deveria ser óbvia e eu não vou saber responder. Em um milésimo de segundo tentei lembrar o que sabia do lugar e uma imagem da única vez que estive lá dentro até chegou a aparecer na minha mente. Mas ao invés disso tudo, ela disse outra coisa:

- Acho que já te vi lá.

Ufa. Então resolvi chutar o balde. Sorri e apontei pra uma tatuagem vermelha que tenho no braço.

- Aposto que você está me reconhecendo por causa da tatuagem, né?

- Deve ser - ela disse rindo.

Não acreditei nessa menina, que viagem. Não sei muito bem se ela estava dando mole ou não, mas resolvi ir adiante. Só que o ônibus estava parado no sinal e o silêncio entre a gente ficou meio vergonhoso. Aí ela virou de volta pra mim:

- O que você estuda?

Pânico. O único curso que eu sabia que tinha lá era design que é, sem ofensas, um curso bem gay. E isso iria meio que finalizar o assunto, eu acho.

- O que você acha que eu estudo? - perguntei, jogando verde.

- Design?

Eu ri, disse que todo mundo achava isso ("deve ser por causa das minhas roupas"), mas que era algo que não tinha nada a ver. Pedi pra ela chutar outra coisa. Agora, com a dica, ela foi longe:

- Direito?

- Isso. Sabia que você ia adivinhar - disse e ri.

Descemos. Falei que ia ao banco antes e que qualquer dia a gente conversava mais. Ela despediu de mim com dois beijinhos. Fim.

domingo, 13 de novembro de 2011

Toda unanimidade é burra


No meio desse ano eu assisti o documentário "Daquele Momento em Diante", que fala sobre a trajetória musical de Itamar Assumpção, da Vanguarda Paulista na década de 1980. Ele foi músico, compositor e cantor, gravou vários discos e, teoricamente, nunca fez sucesso no Brasil naquela época. Era "alternativo demais".

Em um vídeo, ele falava sobre a facilidade de fazer um show e ser bem recebido (e, digamos, compreendido) na Alemanha. "No Brasil é tudo uma dificuldade", ele compara. Aí suspira e diz assim: "Até quando esse país vai viver de Chico e Caetano?".

Na semana passada, Chico Buarque esteve na minha cidade, Belo Horizonte, e um dos jornais mais lidos daqui, o Estado de Minas, colocou o músico na capa. As manchetes eram títulos de músicas etc etc. De uma breguiça fenomenal. Uma coisa que chamou atenção foi uma linha que dizia assim: "Chico Buarque é unanimidade".

Se fosse numa sala de aula, era hora de levantar a mão e citar uma frase de Nelson Rodrigues pra professora: "Toda unanimidade é burra".

Eu entendo o fascínio das pessoas por Chico, mas acho que a hora dele passou. O mundo mudou e ele ficou parado. Direito dele. Mas é que gostar das músicas dele parece uma coisa obrigatória aqui nesse país. Mas, convenhamos, ele perdeu a mão nas composições - e tem lá mais que uma década. Não era muito mais legal quando ele era censurado e suas letras eram um desafio? Agora tanto faz.

Mas tudo bem, cada um tem o ídolo que merece. Se vocês acham que um velhaco amarelado continua sendo sexy e bom cantor, que bom pra vocês. E pra ele, claro.

O que me deixa chateado é essa babação de ovo excessiva. Pois isso cerca o cara de uma manta que ele não devia ter mais - não estou falando que ele devia ser desrespeitado, nada disso. Mas li que ele mesmo ficou abalado quando descobriu, há alguns anos, que tinham comunidades "Eu odeio Chico Buarque" no Orkut. Provavelmente ele também acreditava nessa unanimidade. Talvez seja hora dos fãs pegarem leve, serem mais críticos.

Sei lá. Ultimamente tenho concordado mais com Nelson Rodrigues do que com Angélicas, Renatas Marias, Ninas e Lolas. Fãs, em geral, são pessoas chatas, que não gostam de ser contrariadas. Fãs de MPB então, sai de baixo. Li um texto que os compara com religiosos fervorosos: se você não acredita no deus deles, está condenado.

A declaração do humorista Marcelo Madureira, que chamou o cineasta Glauber Rocha de "uma merda”, também sacudiu o Rio de Janeiro. Está vendo? O problema é essa suposta unanimidade. Se muita gente acha, você tem que achar também?

Detalhe: dia 31 de outubro, alguns dias antes do show de Chico em BH, foi o centenário de Carlos Drummond de Andrade, um dos escritores mais respeitados do país, e mineiro. Adivinha se ele foi capa do Estado de Minas...

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Quem são os homofóbicos?

Regina Navarro Lins, psicanalista, fala de sexualidade e relacionamentos em sua coluna na internet. Por acaso, me deparei com uma sobre homossexualidade. Aqui tem ela na íntegra. Mas resolvi fazer um texto contando o que ela fala nas minhas palavras.

A gente sempre julga as coisas com os valores do nosso tempo, com os que nos foram ensinados, sem saber que o mundo foi e é muito diferente dependendo da época e do lugar analisados. Religiões, crenças, ideias, valores e costumes nasceram, se firmaram e até passaram e você nem ficou sabendo. A homossexualidade é um exemplo.

Ela foi uma força conservadora na Grécia clássica (século V a.C.), por exemplo. Em algumas cidades, era uma prática necessária dos ritos de passagem da juventude. Sua repressão só começou nos séculos XII e XIII.

No século XIX, a atividade homossexual deixou de ser classificada como pecado e passou a ser considerada doença. Mas é interessante perceber como o tabu só diminuiu nos anos 60, com o surgimento dos anticoncepcionais: a dissociação entre o ato sexual e a reprodução possibilitou aos homossexuais sair um pouco da clandestinidade na medida em que as práticas homo e hétero se aproximaram. Afinal, ambas visavam o prazer.

Mas a discriminação com gays continua, no formato de piadinha e agressões. Qual o motivo disso então? É que ultrapassa as quatro paredes, claro. Segundo ela, a homofobia deriva de um tipo de pensamento que trata diferença e inferioridade de formas parecidas.

Homofóbicos são, então, pessoas conservadoras e rígidas, no sentido de serem favoráveis à manutenção dos papéis sexuais tradicionais. Pois quando se considera que um “homem homossexual não é homem”, fica óbvia a tentativa de preservação dos estereótipos masculinos e femininos, uma coisa tradicional que tem várias formas. E isso, que já foi amplamente discutido nesse blog, é uma bobagem com os dias contados.

Enfim, a homofobia reforça a frágil heterossexualidade de muitos homens. Ela é, então, um mecanismo de defesa psíquica, uma estratégia para evitar o reconhecimento de uma parte de si mesmo que a pessoa não quer aceitar. Ou acha que é coincidência que todos os ataques a gays são sempre homens atacando homens?

Não acho que necessariamente todo homofóbico é um gay enrustido, mas dirigir a própria agressividade contra os homossexuais pode ser simplesmente um modo de exteriorizar os seus próprios conflitos - e assim torná-los suportáveis.

E acaba tendo também uma função social, especialmente em grupos neo-nazistas, mas também em bares e nos escritórios por aí: um heterossexual que exprime seus preconceitos contra os gays pode ganhar a aprovação dos outros héteros ao redor, aumentando a confiança em si. Não tem meio termo: chamou o time adversário de boiola, chamou o motorista infrator de viado, chamou o colega de trabalho de afetado? Tudo é a mesma farinha. Tudo é preconceito pois o que há de parecido entre as expressões é o fato de igualar os gays a algo que você considera perdedor, errado ou inferior.

A homofobia não deixará de existir num passe de mágica, mas qual é a fórmula? Caminhamos hoje (lentamente, eu diria) para uma sociedade de parceria. E, se nela o desejo de adquirir poder sobre os outros não for preponderante, a homossexualidade deixará de ser tratada como anomalia, passando a ser aceita simplesmente como uma diferença.

Sinceramente, não sei se estarei vivo pra ver isso.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Not easily offended

Todo mundo quer falar e se mostrar, mas ninguém quer ouvir ou ficar em silêncio. Quanto mais observo, mais penso isso. A gente tem tantos lugares, canais e maneiras de dar nossa opinião que esquecemos de ouvir. Não que a gente seja obrigado a ouvir o que os outros têm a dizer, mas acho que o que falta mesmo é tato para delimitar o que deve ou não ser dito.

É o seguinte: as pessoas não se focam naquilo que gostam ou acham que ter opinião sobre algo é não gostar daquele algo. Ou, pior, acham que é obrigatório ter opinião sobre tudo. Bem, adivinhem só, não é!

A frase que escolhi pra ilustrar o banner do blog ali em cima resume bem o que penso do assunto. “Espojar-se na lama não é a melhor maneira de ficar limpo”. Não fique perto daquilo que não quer estar envolto. Não gosta de amarelo? Então não use amarelo. É contra casamento gay? Então não case com um gay. Não gosta da banda? Então não ouça o CD. É contra aborto? Não aborte. Simples, simples.

Mas não, tem todo mundo que ficar brigando. Tô cansado dessa ditadura da opinião. Muitas vezes é ficando calado que aprendo mais – sobre o mundo, sobre os outros e sobre mim. Tem muita gente por aí precisando tentar isso.

Já dei a dica num outro texto e repito: Se você faz algo que é bom pra você e que, ao mesmo tempo, não é ruim pra ninguém, significa que é bom pra todo mundo. É pedir demais que as pessoas se foquem naquilo que elas gostam? Que tal todo mundo perceber que o que você odeia pode ser exatamente o que deixa o outro feliz? E que o que você ama não é nada além de bobo pra outra pessoa – e que você precisa aceitar isso. Acho que seria uma boa.

Parem de se ofender tão facilmente e cuidem das coisas que te interessam cuidar.


sexta-feira, 22 de julho de 2011

Do pão de queijo ao leite condensado de hoje


Minha bisavó tinha uma receita de pão de queijo que era puro amor. A massa era gostosa e fofa e o salgado era sempre grande. Uma fornada saía sempre que eu passava meu dia por lá. Ele sempre era servido com café nessas xícaras cor de mel. Nunca gostei da bebida, nem das xícaras, mas esse cheiro ainda me lembra dessa época. Sigo um fã de pão de queijo, mas igual aquele nunca mais provei.

Outra diversão gastronômica que só tinha lá era Toddy. Sim, Toddy tinha em todo lugar – inclusive na minha casa -, mas era só com leite, óbvio. Mas com uns 5 anos de idade desenvolvi uma fascinação estranha por querer provar o pó nas colheradas. Gostava da sensação seca na boca e do esforço estranho para engolir aquela meleca sabor chocolate que era formada. Pelo nível de bizarrice da coisa, não me deixavam fazer isso em casa. Mas lá podia; casa de bisavó pode tudo. Lembro da textura do sofá onde eu sentava para ver desenho animado com um potinho de Toddy puro. Depois eu ia pro quintal catar tatu-bolinha.

Na casa da minha avó era outra história. Lá tinha Danette e flans, os doces mais chiques do supermercado. Atacava todos, assim como atacava os Yakults. Aqueles potinhos de leite fermentado, por algum motivo muito estranho, só entravam na minha casa se tivesse alguém doente por ali. Agora que cresci e não frequento mais a casa dos meus avós como antes, percebi que os doces ainda estão por lá. Na verdade, eles são os lanchinhos de madrugada no meu avô, que sofre de insônia. Mas ele nunca reclamou de me ver roubando as delícias.

Sorvete também era uma coisa rara de se ver em casa. Potes de 2 litros eram muito caros – na verdade, eu ainda acho que são. A raridade dava um gosto diferente à sobremesa e culpo esses episódios por hoje eu ser um tarado com o doce e não poder pisar em um self-service - minha taça vira sempre um grande nada gelado e super doce.

Tinha também o sorvete de um cara que vendia na porta do meu colégio – o Instituo Lídia Angélica, no Itapoã. Era R$ 1,50 o cascão (com cobertura!) e tinha só um sabor indecifrável. Acho que era abacaxi, mas o negócio era metade amarelo e metade rosa. O “creme holandês” da São Domingos tem o mesmo gosto. Acho aquele lugar uma chacota – pois é caro demais pra qualidade baixa de seus sorvetes -, mas quando passo lá, pego um pote sabor infância.

Vocês lembram que a Coca-Cola tamanho família tinha 1 litro? Cada um da casa tinha um copo durante a refeição do sábado e acabou, meu amigo. Hoje, 1 litro é o que eu levo pra dentro do cinema. Na verdade, acho que o hype todo da minha geração ao redor de produtos como Kit Kat, Nutella e Pringles é isso; é a vontade de só comer tudo aquilo que não podíamos.

Parece que estou reclamando da minha infância, mas não estou. E minha mãe me entenderia: minha avó sempre fazia doces bem legais, mas era dessas que raspava a lata até ao alumínio começar a sair. Por isso, com seu primeiro salário, minha mãe comprou um leite condensado só pra ela. Toda vez que me vejo abrindo mão de um arroz pra comprar umas caixas de bis e alugar uns filmes, digo uma frase que virou o mantra do mercado: “esse é o meu leite condensado de hoje. E eu mereço!”

Boa sexta.

domingo, 26 de junho de 2011

Ini-amigos

Um dia desses eu fiquei pensando em alguns amigos do passado, em como cada um de nós foi para um lado diferente da vida. Nessa categoria de amigos, existem variações menores: aqueles que eu nunca mais nem ouvi falar, aqueles que eu encontro de vez em quando, aqueles que só “vejo no Facebook” e aqueles com quem eu ainda saio e bebo e converso.

Pelo menos um de cada categoria pode ser considerado um ini-amigo. Pessoas que já foram muito próximas e que, por nunca lhe terem feito nada de ruim, você não pode simplesmente dispensar da sua vida. Mesmo que vocês conversem pouco, ninguém tem culpa de vocês conversarem pouco. Ok, soa redundante e babaca, mas eu sei que todo mundo tem alguém assim na sua vida.

O que me fez refletir sobre esse assunto? Bom, várias coisas. Uma dessas pessoas abandonou tudo que tinha aqui (o que não era muito, adiciono) para tentar a sorte em outro país, em outro continente. Admirável, corajoso e muito invejável.

Especialmente por mim, que não tenho peito suficiente para uma investida dessa. Os exemplos são vários e vários. Conhecidos que moram fora mas também os que estão casados com aquela pessoa que foi o seu primeiro amor, ou aqueles que arranjaram o emprego dos sonhos deles antes que eu encontrasse o meu. Etc, etc.

Por isso gosto do termo “ini-amigos”. É que há uma compreensão e um companheirismo em torno da pessoa mas, mesmo assim, há também um pingo de inveja dela ou pelo menos algum nível de competição entre a gente.

Sei que no cinema e na música posso buscar outros milhares de exemplos, então sei que não estou louco. Isso realmente existe na vida de todo mundo, certo?

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Divas x Divas


Todo mundo sabe que não sou lá fã de futebol. E só tem uma coisa mais chata que torcedor comemorando a vitória do time que torce: gente comemorando a derrota do time rival. Mas esse texto não é sobre o esporte, é sobre “divas”.

Não vou entrar no mérito do que elas são e de quem merece ou não o título de diva, mas percebi que elas são tipo times de futebol para alguns.

Se sua cantora favorita lançou um CD ou um clipe que você achou legal, você vai lá decora as músicas, as coreografias e arrasa na boate. Mas parece que se outra cantora lançou uma coisa que você achou ruim, você pode fazer piadas com as pessoas que gostam dela. Como se as vendas de um CD fossem um reflexo honesto sobre a qualidade das músicas...

Parece que muita gente esqueceu daquela época que o Lennon estava na plateia do Jagger e agora é cada um por si. Não pode gostar de Shakira e J-Lo, por exemplo. Acho uma babaquice esse tanto de viadinho agindo como se isso realmente importasse, ficando realmente ofendido e ofendendo uns aos outros por causa da pessoa que eles admiravam (olha isso!). Como se você ser fã de tal ou tal cantora definisse o seu caráter, seu senso de humor, seu lugar no mundo, seus valores.

É estranho. Tem muito preconceito no mundo com os gays e eles ainda conseguem arranjar um motivo a mais e besta como esse para brigar. Fora dessa comunidade são raros os casos, o resto do povo não está nem aí. "Eu gosto de Móveis e você gosta de Pato Fu. Ok, então". Mas não, não pode ser assim. Se o fulano gosta de Kylie e você gosta de Beyoncé, vocês tentam um explicar pro outro porque sua 'ídola' é melhor que a dele". Não, gente! Não é assim! Foda-se.

Na verdade, o maior problema é que não é apenas uma questão de gosto, é uma questão de ódio. Olha só: eu não vou muito com a cara do povo do Offspring, sabe? Então eu não baixo CD da banda e não vejo os clipes dos caras. Eu não corro atrás de tudo que eles fazem para poder anotar o que eu acho errado e jogar na cara dos fãs da banda. O que não gosto na banda não é uma prova irrefutável de que ela é ruim, não funciona assim. E muito menos irei usar os elementos que eu não gosto do Offspring para justificar a minha idolatria por outra banda. São artistas diferentes e há espaço para todos - talvez não no meu iPod, mas no mundo sim.

(Lady Gaga é um bom exemplo do contrário. Eu gosto dela. O que ela faz está longe de ser genial, mas também está longe de ser medíocre. O clipe novo saiu e, antes que eu pudesse ter tempo livre para ver, todas as pessoas que eu conheço e que não gostam dela já tinham visto e estavam pra lá e pra cá falando que o clipe é ruim. Oi? Que tara é essa? Pra quê isso? Deixem pra lá se vocês não gostam)

As pessoas também esqueceram que música é arte. E arte, em sua excelência, é subjetiva. Eu gostar não faz a coisa boa; eu não gostar não faz a coisa ruim. Estamos claros? É de uma arrogância muito grande comportamentos limitados desse tipo, rivalidades imaginárias como essas.

Que tal todo mundo perceber que o que você deixa de fazer pode ser exatamente o que deixa o outro feliz? É pedir demais que as pessoas se foquem naquilo que elas gostam? Acho que seria uma boa.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Em que planeta você vive?

“Não acredito que todas essas bandas foram confirmadas no Planeta Terra. Já tô lá! (nunca ouvir falar de nenhuma)”

Alguém postou isso no Twitter dia desses, antes dos ingressos do festival se esgotarem, e eu ri muito. Resumiu bastante o que eu acho dessa febre toda de um festival com meia dúzia de bandas esgotar os trocentos mil ingressos em poucas horas.

Tem um amigo que chama essas coisas de Nutellas. Vocês lembram quando Nutella era uma coisa muito, muito cara? Todo mundo que tinha experimentado tinha gostado e fim. Aí ficou mais barato e, agora, todo mundo ama Nutella mais que a vida e quer casar com Nutella e ter filhos de Nutella. Nutella é tudo de bom, maravilhoso, melhor coisa do mundo e eu sempre gostei desde criança. É isso que está acontecendo com a música?

Mas ó, sou o primeiro a falar: não sou uma pessoa atualizada. Demoro para ver e ouvir aquilo que todo mundo está vendo e ouvindo agora. Sabe aquele cara vacilão que vem falar do novo CD da banda quando ela já está quase lançando o próximo? Pois é, sou eu.

Por isso, tudo que vou falar aqui agora tem pouca credibilidade, mas eu fico muito intrigado quando anunciam aquelas bandas que eu realmente nunca ouvi falar e geral vem comemorar quase com orgasmos.

(E quando tocam Florence and the Machine na boate? Povo berra a letra como se fosse a última música que vão ouvir na vida. E essa babação em cima da Adele agora? Eu, sempre o último a pegar essas coisas, tinha pensado em falar assim com um amigo: “Sabe a Adele, daquela música 'Chasing Pavements'? Já ouviu o novo CD dela?”. Antes de chegar à quarta palavra da frase fui interrompido por um “Meu deus, ela é maravilhoooooosaaaa!”. Até levei susto. Gente, é boa, mas não é isso tudo, fiquem calmos).

Tem uma safra de novos artistas que eu sei quem são, eu já ouvi ou já ouvi falar. Me passaram os clipes, vi no "SNL", etc. Estou cercado de pessoas antenadas em música e trabalho com isso. Mas sério, vocês realmente amam tanto assim The Vaccines? E Toro Y Moi é mesmo isso tudo? Vocês realmente ouviram algo do Peter Bjorn and John além daquela música do assobio? Poxa, vocês não só estão com tempo como são bem reservados.

Sim, pois antes do line-up do Planeta Terra, por exemplo, ninguém nunca falou de nenhuma dessas pessoas. Nunca me indicaram, nunca me passaram um link, nunca citaram numa conversa. Nunca vi nada a respeito desses artistas vindo da boca das mesmas pessoas que agora estão se matando ali na fila dos ingressos. Estranho, né?

Aquele seu amigo de bigode e de xadrez que acabou de twittar que o show da Sharon Jones foi o melhor do mundo nunca tinha mencionado a mulher antes - mas, claro, sabe todas as referências do último clipe da Lady Gaga e ficou falando mal dele no Twitter a semana passada toda. Talvez eu é que esteja abilolado demais com a minha ideia utópica de que as pessoas deviam falar mais é daquilo que as agrada. Ou é mesmo uma inversão de valores?

Não duvido que as bandas que citei sejam boas (aliás, vou até procurar ouvir tudo delas para entender a melação), mas elas também são só exemplos, não é nada contra elas, tá?

Fiquei pensado se isso era uma continuação daquela veia de pensamento do começo dos anos 2000, do “eu sou mais indie que você” e concluí que não. Afinal, se você quer provar que é alternativo e you've probably never heard of it, não pode se vangloriar de conhecer artista que está vindo pro Brasil, né? Você tem é que citar uma banda underground da Macedônia que nem lançou o primeiro EP ainda. Quem toca em festival já é mainstream demais pra essa galera.

Mas aí eu penso nas últimas coisas que baixei. Adicionadas recentemente no iTunes: Sara Lov, Hunx and His Punx, Cults, Pigeon Detectives, Ultraviolet Sound e Junior Boys. Também nunca mostrei nenhum deles para ninguém. Mas também duvido que fosse saltitar de alegria se algum confirmasse show no Brasil. Então não sei o que concluir. Não sei bem porque o hype alheio me incomoda. Será que é porque não faço parte dele, doutor?

Acho que tudo em excesso é perigoso e isso que presenciei com os ingressos do Planeta Terra é um bom exemplo de como a internet está deixando o povo mais mente fechada que aberta. Está fechando o povo em grupinhos ao invés de colocar as pessoas em contato com coisas diferentes e que façam sentido para elas mesmas. É como se você precisasse conhecer tal e tal coisa para ser cool. Sendo que as tais coisas são sempre novas, nunca um clássico. É sempre a nova do The Killers e não a antiga do U2 – como se fossem super diferentes.

Preguiça. Não preguiça de conhecer essas bandas novas, mas de achar que conhecê-las é o suficiente para alimentar minha cultura musical – especialmente pois há muito, muito mais por aí.

O babacômetro tá chegando num nível alto demais.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Esteja aqui


Na última semana eu estava cercado de pessoas muito agradáveis. Metade dessas pessoas era formada por amigos de longa data, outra metade por novos conhecidos com quem me dei muito bem. Tínhamos bebido, estávamos dançando e cercados de pessoas animadas, fazendo a mesma coisa. No primeiro silêncio de falta de assunto, o rosto de todos eles brilharam. Mas não estou sendo metafórico.

Era o reflexo da tela do celular de todos eles. Verificando suas contas e citações no Twitter, Facebook e outras redes sociais. "O momento presente deixou de ser divertido, vou me atualizar sobre o momento presente dos outros". Parecia que a ação coletiva era essa. Eu não tenho esse hábito móvel. Eu trabalho no computador e online, e sempre dou uma olhada nesses sites mas, quando desligo o PC, me desligo deles. Por isso essas coisas me irritam, acho. Dá vontade de tacar os aparelhos alheios na parede, gritar “vida real!” e sair correndo pelado na rua. Mas eu me controlo.

Como disse Seinfeld, é como se a pessoa pegasse o telefone e comparasse aquele conteúdo com o que você está dizendo e decidisse o que é mais interessante. Como se ninguém conseguisse ficar focado numa coisa só por mais de alguns minutinhos. Como se essa grosseria não fosse equivalente à de abrir uma revista na sua cara enquanto você está falando e começar a ler suas páginas.



Isso tem um nome, sabia? É FOMO, sigla de “fear of missing out”, ou seja, “medo de perder alguma coisa”.

Jeena Wortham, do New York Times, escreveu um texto muito bom sobre isso, algo que todos nós já fomos testemunhas (ou somos participantes) sem entender direito mas sabendo, quase instintivamente, que algo nisso está errado.

O que as pessoas fazem, na verdade, é comparar o que estão fazendo e onde estão com o que os outros estão fazendo e onde eles estão. É como se houvesse um medo de que, estando aqui, você está desperdiçando sua oportunidade de estar naquela festa cuja foto alguém acabou de colocar no Facebook.

Parece rídiculo, é compreensível, mas não é nada mais que verdade. Se você está aqui, você não está em outro lugar. É muito simples. A vida toda, desde o começo, foi assim. Se você está com essa roupa, não está com aquela outra; se casou com fulano não casou com beltrano. Mas é que antes você não sabia em tempo real o que está acontecendo no resto do mundo em paralelo, né?

Tem um personagem no filme “Mensagem Para Você” (recomendo muito!) que faz uma observação interessante nesse sentido. Ele conceitua o vídeo cassete como um aparelho que serve para gravar a programação da televisão quando você sai de casa. Mas conclui que parte do objetivo de sair de casa, muitas vezes, é exatamente o de não ver TV. Certo?

De volta à matéria, a jornalista conta sobre uma amiga que se sentia de bem com a vida até abrir o Facebook e ver o status de alguém falando, por exemplo, que teve um filho, enquanto ela tem 28 anos e três colegas de quarto. Nessas ocasiões, ela disse, sua reação instintiva é, com frequência, postar um relato de uma coisa legal que fez ou uma foto divertida do seu fim de semana. Isso a faz se sentir melhor, veja bem. E, claro, deve provocar FOMO em outra pessoa.

Sherry Turkle, uma professora do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, diz que à medida que a tecnologia se torna mais onipresente, nossa relação com ela se torna mais íntima, conferindo-lhe o poder de influenciar decisões, humores e emoções. Mas é só se a gente deixar, claro. Suas redes sociais não precisam ser um reflexo fiel da sua vida real - listando o que você faz ou onde está e com quem - o tempo todo.

Tanto, que a jornalista perguntou a Turkle o que as pessoas poderiam fazer para lidar com esse dilema estressante do FOMO. Ela simplesmente disse para deixar o celular de lado um pouco.

E aí, você consegue?

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O homem das cavernas em você

Acabei de ler um texto muito bom (esse aqui ó) sobre como um simples batom na cara de uma moça faz um bando de homens correrem atrás dela como cães atrás de uma fêmea no cio.

Não defendo assobios nem xingamentos na rua, mas é inegável que esses traços evolutivos têm resquícios complicados de escapar - você acha que churrasco é um evento social divertido inventado pela galera da facul ou uma variação de um ritual cavernoso de assar a carne da caça dançando em volta da fogueira?

Outra coisa é que batom vermelho - e rosa, e vermelinho na bochecha (chama blush, né?) - comunica mais do que essas mensagens sociais que ela identificou na festa onde foi. A gente cora quando está sexualmente excitado. Isso é fato. E há algo de primitivo em ver isso escancarado pra gente, em ver uma pessoa rubra. As primeiras a perceberam isso foram as egípcias. Qualquer dia, zapeando pelo History Channel ou pelo Discovery, você pega um documentário sobre o assunto.

Mulher maquiada chama atenção pois parece excitada. Quadris largos chamam atenção pois são uma garantia de que a moça vai conseguir parir meus filhos. Mulheres de salto chamam atenção pois lembram patas de mamíferos. Homens musculosos são bons de caça e vão prover bem para minha família. Isso tudo passou, passou, mas foi empacotado de um jeito diferente pra nossa sociedade, que agora tem outros valores.

Os códigos que caem não são substituídos por outros, o que gera confusão. O que funciona ali, é brega aqui, etc. As regras sociais tem diferenças gritantes dentro da mesma cultura. O cara que quer te conquistar chamando pra beber pinga e dançar um funk leva um tapa seu, mas leva a virgindade de outra. Tem gente que acha isso legal, e não aquelas coisas que você gosta. Por isso todo mundo tende a ficar mais fechado nos mesmos ciclos. As outras realidades não nos dizem respeito. Fora do nosso ciclo, sempre achamos que estamos diante de um grupo de canibais que compensam com X aquilo que lhes falta em habilidades sociais. Sendo X um tipo de música, de roupa, de celular, uma profissão, um hábito...

Outra coisa que tem a ver é que a moça que colocou um short curto pois estava com calor não merece ouvir os mesmos assobios na rua de quem colocou o mesmo short justamente para ouvi-los. Mas não tem como alguém de fora saber o objetivo dela ter usado aquela roupa, certo? Mas tem como ninguém assobiar também, não tem?

Mudando de assunto, mas ainda nesse: dias desses constatei uma coisa meio estranha. Quando me xingam de viadinho na rua eu não posso fazer nada. Mas tenho um amigo gay que sempre grita alguma coisa de volta. Ele é forte. Malhado de academia, mesmo. Fiquei pensando nisso um tempo. Xingam ele e ele revida, apelando para a força, chamando para a briga. “Vem aqui apanhar do viadinho então, vem!”. O valentão que gritou sempre corre. Primitivo, não? Das duas partes!

Mas funciona.