quarta-feira, 30 de junho de 2010

E subi de volta


Tive que descer na portaria do prédio.

- É você que está buzinando?
- Aham.
- Então, você tem celular não?
- Oi?
- Liga pra pessoa que você está esperando. Ou então toca o interfone ali - apontei - porque parece que a pessoa não entendeu que a buzina é para ela e não é justo você encher o saco de todo mundo da rua com sua buzina, é?

E subi de volta.

domingo, 27 de junho de 2010

"Kick-Ass" kick ass!

Nunca fui fã de quadrinhos por motivos que não vem ao caso. Mas nunca escondi meu gosto por filmes de super-herói. Não sei se fui eu que cresci ou se os produtores que perderam a cabeça, mas produções como “Hulk” e “Transformers” não me chamavam atenção. São filmes muito afetados e, de tão irreais, não me causam interesse.

Não que “V de Vingança”, “Watchmen” ou “O Cavaleiro das Trevas” sejam realistas, mas são um pouco mais do que os filmes de super-heróis clássicos e talvez exatamente por isso me causem mais fascínio.

Quando fui assistir “Kick-Ass” só sabia que o filme tinha muita violência. Não tinha ideia nem da sinopse da produção. E foi uma agradável surpresa.

Na vontade de se tornar um herói na vida real, um adolescente arranja uma fantasia e sai por aí querendo combater o crime. Mesmo desengonçado na missão, ele inspira um pai e sua filha, ambos muito mais bem treinados, a fazerem o mesmo e acabam numa acirrada briga com os chefes do tráfico de cocaína em Nova York.

Dirigido por Matthew Vaughn – produtor dos filmões de ação de Guy Ritchie – “Kick-Ass” mistura violência e sangue, muito sangue, com comédia e romance. Mas ele não peca em nenhum aspecto. Não há piada sem graça, cena de luta mal feita e nem romance fácil. A visão feita do mundo adolescente americano tem seus elementos universais e o público – especialmente o masculino – vai morrer de rir com os contratempos do protagonista.

E que protagonista! Além de Aaron Johnson ser lindo, ele é engraçado, competente, e suas primeiras cenas como herói são impagáveis. Chloe Moretz, a criança-adulta de “(500) Dias com Ela”, não cresceu, mas já apareceu roubando todas as cenas em que aparece – o filme é quase dela. Tem também Nicolas Cage, mas quase todo o elenco foge aos olhos dos mais velhos, por serem famosos em séries de TV - o que é uma boa estratégia de divulgação, diga-se de passagem.

Referências ao mundo adolescente de hoje não faltam. No meio das claras citações aos filmes e aos quadrinhos, os personagens lidam com MySpace, Facebook e YouTube, coisas normais na vida de todo mundo hoje, mas que insistem em não existir nos mundos fictícios – já reparou como em nenhum filme ou série as pessoas resolvem as coisas por e-mail ou conversam no MSN?

O filme é baseado numa HQ que nunca li, não posso comentar a adaptação. Mas como uma obra cinematográfica, é muito bom. A narrativa é rápida, mas sem atropelos, e duas horas passam voando, com perdão do trocadilho. É desses que verei mais algumas vezes, com certeza.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Clipes de papel

Dia dos Namorados – além de poder ser a data internacional da expectativa frustrada quanto aos presentes – é a data onde solteiros e solteiras se reúnem para brindar a solteirice. É curioso que uma data essencialmente comercial mexa tanto com o orgulho de todas as pessoas. Pela cidade inteira, no dia 12 de junho, tem eventos apenas para casais ou apenas para solteiros. Precisa mesmo ser um versus o outro?

Acho que estar acompanhado é mostrar que você tem atributos suficientes para ter alguém os querendo apenas para ela, é fazer parte do famigerado e clichêzento “final feliz” de mais da metade dos filmes de Hollywood. Mas é também fazer parte daquela parcela de gente careta, que não frequenta todas festas ou os restaurantes da moda. Todo mundo tem histórias de amiga que é a melhor companhia do mundo, mas que some quando começa a namorar; ou aquele amigo que simplesmente perde todo o seu senso de humor quando ao lado da noiva.

No final das contas, todo mundo sabe que é completamente e perfeitamente possível viver feliz sozinho desde que esta seja uma decisão espontânea e movida por um desejo genuíno. A solidão imposta à revelia pelas contingências do destino é tratada, especialmente hoje em dia, como uma catástrofe existencial. Bobagem, não? Mas, vendo o cenário por inteiro, estar solteiro é uma coisa altamente celebrada e que movimenta bilhões em academias, salões de beleza e lojas de roupas – claro que não estou dizendo que todo mundo frequenta esses lugares apenas para ficar atraente para outras pessoas, mas você sabe de que tipo pessoa estou falando.

Então é o seguinte: de um lado ficam casais felizes e de outro os solteiros, divididos entre os orgulhosos e os envergonhados. Mas não devia ser assim. Estar acompanhado não é, por conta própria, motivo nenhum para se sentir superior. Vivo dizendo que categorias em que você não teve poder de escolha não podem abrigar orgulho nem vergonha – como nascer homem ou mulher, hétero ou gay. E, nesse caso, a regra acaba também se aplicando, mesmo que a solteirice seja de ocasião, e não opção. Quem disse que todo casal é feliz? Quem disse que todo solteiro é infeliz? Ficar o “mês dos namorados” inteiro falando como você ama estar solteiro pode ser sinal exatamente do contrário...

A ideia do amor romântico, do feriado debaixo das cobertas e do delivery de pizza engana muito. Estar junto dá um trabalho danado e esses momentos são, na verdade, raros. Alguém me disse que "estar com alguém é um trabalho árduo fantasiado de aconchego", adorei a frase. Da mesma maneira, a ideia do solteirão bon vivant, que pega todo mundo e cada dia está com outra pessoa sem ligar a mínima para sentimentalismo, é falsa. Além de financeiramente cara. São poucos os que conseguem passar a vida toda assim.

Dia 12 de junho é um dia como outro qualquer em escala global. Igual o dia que você passa no vestibular, tem um filho, quebra a perna. Um dia normal para a humanidade. E, caso vocês não saibam, casais e solteiros podem sair e se divertir em qualquer outro dia.

O pior é que tudo se inverteu e já conheci um casal que se sente intimidado, não querendo comemorar o Dia dos Namorados para não ofender os amigos solteiros. Que preguiça! Gente, comemore. Primeiro pois, quando solteiros, ninguém tinha esse cuidado com você; segundo pois, afinal, qual outra data namorados têm estabelecida? Natal tem família, aniversário tem amigos. Dia dos Namorados pelo menos é uma coisa “oficial de casal”, entende? Torcia o pescoço, mas só namorando percebi que a data, mesmo que apenas comercial, se torna especialmente interessante para casais adultos e gente casada. É que programinhas e presentinhos todo aniversário de mês de namoro é coisa de adolescente e, com a maturidade, esses mimos podem ir sumindo aos poucos, mesmo que o sentimento de um pelo outro continue intacto. Um simples efeito colateral do excesso de intimidade.


Para ouvir depois de ler: Elastic Love – Christina Aguilera

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Aguilera é conceito

MIA, Ladytron, Le Tigre e mais uma penca de gente foi contratada para dar uma nova cara à Christina Aguilera. Supostamente, seria uma trabalho mais alternativo, mais eletrônico e com menos gritinhos – o que faz muito sentido comercial em tempos de Lady Gaga em alta e Mariah Carey em baixa.

Christina Aguilera falha nessa missão em dois momentos: suas baladas seguem como sempre foram e, em 18 faixas, existem dois tracks de introdução muito fracos e pra lá de quatro músicas com letras muito, muito ruins.

Mas o CD é ótimo. Quer dizer, na primeira ouvida não é tão bom quanto o esperado, mas assim que você se acostuma, é só alegria. Ignorando o péssimo primeiro single, “I'm Not Myself Tonight”, o álbum cumpre – mesmo que de forma mínima – a nova embalagem a que se propõe. Sim, pois o núcleo de Christina Aguilera é o mesmo. A prova são as baladas “Lift Me Up”, “I Am”, composta por Sia, e “All I Need”, uma declaração de amor muito bonita ao seu filho.

Por outro lado, as faixas com a tal proposta eletrônica não deixam a desejar na qualidade nem na originalidade. “Bionic”, que dá título ao disco, é ótima. Dessa leva, “Elastic Love” é de longe o destaque, mas “I Hate Boys” e “My Girls”, com participação de Peaches, também são ótimas. Todas têm letras interessantes e bem pouca da gritaria típica de Aguilera – entretanto, nada de auto-tune.

Como é notável, a latinidade e a sexualidade – dois temas muito entrelaçados – também voltam a percorrer canções da loira, que não faz feio ao cantar sobre sexo dentro do casamento em “Sex For Breakfast”, sexo oral em “Woohoo”, sadomasoquismo em “Desnudate” e masturbação em “Vanity”.

Ou seja, não dá para reclamar. Aguilera nunca teve um estilo 100% definido e seus álbuns são conceituais. Esse foi mais um, com um novo conceito. As acusações de ter copiado Lady Gaga são exageradas, tendo em vista que a mesma vive copiando Madonna, que por sua vez copiava David Bowie ou Debbie Harry.

Há espaço para todo mundo e muitas vezes na história da música o lado criativo precisa mesmo apontar para o lado que dá dinheiro. Mas isso nem sempre quer dizer menos qualidade. E Christina prova isso, pegando o que é tendência e mudando de uma maneira que ficasse confortável para ela. A vida é assim.

Para ouvir depois de ler: Bi~ON~iC - Christina Aguilera

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Admite-se

“Não se dá valor econômico ao trabalho, se dá ao bem, às coisas. A gente é capaz de pagar, meu amigo, 1 milhão de reais por um apartamento. Aí você chama o homem para pintar o teu apartamento de 1 milhão de reais. Ele te cobra 5 mil, você acha um absurdo”. (daqui)

O trecho acima te fez rir ou causou espanto? Isso acontece aí na sua casa, aposto. A família tem mais de um carro na garagem, eletrônicos último tipo em casa, TVs e faz compras como se estivesse estocando comida para o final do mundo, mas reclama se a empregada pede um aumento.

Mas o negócio é que o assunto saiu da cozinha e está em lugares antes inimagináveis. Como a redação, por exemplo.

É. O piso salarial do jornalista está tão ridículo que hoje, diante da vitrine de uma loja onde um lindo casaco custa 300 reais, me vi tentado a me dirigir ao balcão perguntar não sobre ele, mas sobre a plaquinha que dizia “Admite-se vendedor, caixa e estoquista”. Não é um exagero meu, eu realmente pensei isso.

Acontece que o bem é mais valorizado, então não interessa ser formador de opinião, ter lido Victor Hugo aos 14 anos, saber construir frases com vocativos e vírgulas bem posicionadas. Um amigo que trabalha como vendedor numa livraria, duas vezes por semana, ganha o mesmo salário que eu. É muita palhaçada da minha parte achar que vale a pena ganhar o mesmo tanto que ele por um trabalho que exige de mim muitas horas por dia, às vezes mais do que cinco dias da semana, e que está matando minha visão e minha coluna aos poucos.

Por isso morro de rir desse povo que acha que jornalistas têm um plano diabólico para dominar o mundo. A gente está ocupado demais pensando em pagar o aluguel. Sério, não dá para temer quem ganha o equivalente em reais a três casacos dessa loja. Enquanto isso, o vendedor dela – na casa dos 20 anos – ganha um pouco menos, mas 10% de cada um dos vários casacos de 300 reais que vende e, no final das contas, mais do que minha mãe, jornalista há 20 anos.

Eu acho um passo para trás abrir mão do meu suado diploma e ir para trás do balcão de uma loja de livro, de roupa ou de qualquer outra coisa, a não ser que eu seja o dono dessa loja. Mas cadê minha carteira de motorista, meu carro, meu sonho dourado de morar sozinho? Aliás, o que aconteceu que meu cartão de crédito é rejeitado na hora de comprar um crepe de queijo?! Achei que, com 22 anos, eu já estaria tão mais longe, tão mais livre. E nunca me senti mais preso na vida.

Vou parar esse texto por aqui antes que eu comece a revelar coisas demais e/ou a chorar.

terça-feira, 1 de junho de 2010

DR

Ao meu redor vejo relacionamentos amorosos de todos os tipos. Novos, longos, à distância, abertos e bem fechados. Todo mundo que está sozinho, uma hora ou outra, acha alguém. Mas e o que acontece depois? Sim, pois achar alguém é o fim de uma fase e apenas o começo de uma outra.

E aí está também o começo do problema de muita gente. De um lado, não é porque amamos que temos que suportar tudo. Intimidade não é tortura. De outro, qual o limite de intimidade possível? O quanto é intimo demais? Isso, se é que tal conceito existe!

Acontece que escolher o amor não é o mesmo que escolher a paz. Na verdade, amor está mais para guerra. As pessoas associam casamento e amor verdadeiro a romance, mandar flores, jantares românticos à luz de velas e até coisas mais profundas, como trazer filhos ao mundo. Mas o romance vai e volta. Uma hora seu marido ou sua esposa são melhores amigos e outra hora eles estão na casa do cachorro.

Então, confundimos discutir um problema com discutir a relação. A grande maioria de nós vive num movimento pendular de tudo ou nada, vida ou morte, amor eterno ou rejeição aguda, dedicação total ou rompimento. Será que relacionamento é esse conjunto de sobressaltos? Esquecer uma data, não dar presentinhos todo dia, não poder conversar quando o celular toca no trabalho, essas são coisas normais.

É verdade que em alguns casos precisamos mesmo discutir a relação e os hábitos. E isso deveria ser encarado como uma coisa positiva! Assinalar diferenças é sinônimo de compreender o outro, suas neuras e sonhos, de se colocar no lugar dele – com os olhos dele – e, muitas vezes, de se comprometer com um futuro de interesses mútuos.

Todo mundo que está acompanhado precisa respirar e permitir que o outro tenha seu espaço, sua hora de fazer suas coisas. E, claro, se permitir e se acostumar a tê-lo também. Por mais feliz que você esteja com essa pessoa, vai me dizer que você não gosta de poder ficar em casa um sábado comendo porcaria e ouvindo música brega bem alto usando roupas velhas?

O que faz tudo funcionar é a habilidade de um amar o outro incondicionalmente. E não há nada de romântico em amar alguém incondicionalmente. É um trabalho duro, é a coisa mais difícil do mundo. É como o homem que me disse que não tem motivos para amar sua esposa, ele a ama porque ama. Pois com “motivos” ele quer dizer os motivos exteriores. Não é só porque ela é bonita, talentosa, rica, nenhuma dessas coisas físicas. Ele ultrapassou essas coisas e a ama só porque ele a ama. Isso é amor em nível de alma.

Para ouvir depois de ler: I Am - Christina Aguilera

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Homem, o sexo frágil

Estava ouvindo uma canção que falava sobre “a sociedade pela perspectiva de uma menina”. Uma das estrofes dizia que elas sempre são silenciadas quando querem falar o que pensam, não podem mostrar que estão machucadas e que não podem mostrar também muitos sinais de força. Interessante, profundo, mas não mais tão correto.

Desculpe falar isso assim mas, neste momento, o homem é o sexo frágil. De um lado, as mulheres seguem em sua histórica caminhada para o lado masculino da força – saindo de casa para votar, subindo de cargos e de salários, tendo filhos mais tarde e tendo, assim, absoluto controle de sua vida. De outro lado, está um homem patético, que ainda não consegue lidar com a flutuação de emoções que existem em todas as relações humanas. Ele ainda não sabe o que fazer com suas emoções e tem medo, muito medo, de entrar em contato com seu lado feminino e de delegar tarefas às mulheres.

Ele está em busca de status e poder e não vê nada na sua frente a não ser a carreira. Muitos pontos positivos aí, mas negativos também. Assim, não consegue ser realizado em nenhum campo. Ele não foi ensinado a fazer isso e, no fundo, segue acreditando que a mulher ao seu lado só o escolheu por sua posição profissional. Além disso, ele está obcecado pelo prazer feminino e, se é o sexo que confirma a condição de macho dele, ele está na mão da mulher, que é quem outorga a ele esse diploma. A prova disso é que cada vez menos os homens se safam de relacionamentos extraconjugais. Hoje, a mulher dispensa um parceiro com muita facilidade. Sem mulher, ele não é macho. Sem emprego, não é provedor. É um ciclo, percebeu?

Não sei se vejo tudo isso mais claro por ser gay, mas sempre achei uma babaquice esse mito de que o homem não precisa de ajuda, não precisa de tratamento, não precisa de proteção. Já mencionei nesse blog antes que, quando um homem me xinga de “viado” ou coisas assim, fico triste por sua mulher. É ela quem está aguentando marteladas sutis – ou literais - de uma pessoa que se sente obrigada a rejeitar tudo que é ligado ao que ele classifica como feminino - e que despreza. Ele não usa blusa rosa, não come arroz integral e não lê poesias. A culpada é a sociedade, que estabelece papéis para cada um dos sexos.

Obriga-se o menino a enfrentar precocemente situações para as quais ele talvez não esteja preparado, mas tem de ir em frente porque é homem, oras. Não pode ter medo dos colegas que querem te bater, não pode voltar chorando para casa, não pode gostar de artes, não pode ser magrelo. É uma coisa cultural muito comum no Brasil. Mulheres estão saindo do papel de objeto com maestria, se aproveitando dele. Elas tentam ser bonitas, educadas e bem vestidas pois sabem que trata-se de uma maneira até honesta de conseguir o que querem. Já o homem educado e bem vestido simplesmente quer fugir de críticas, passar despercebido, não ser humilhado.

Homens não sabem lidar com o desconforto, com o sagrado, com o feminino e acho que passou da hora de começar, porque no passado eles não tinham noção da própria insatisfação. Hoje, isso é luxo. Um homem lúcido, com o mínimo do erudito na sua formação, entende que vai viver mais, entende os benefícios de certos alimentos, os males de certos comportamentos, a importância de fazer check-up. Ao mesmo tempo, está começando a ter consciência do seu papel masculino como provedor e amante e começando a ter menos medo de reclamar, de contar suas angústias, de ir ao museu com prazer, de pedir um drink ao invés de uma pinga.

Mas, verdade seja dita, estão mais tristes, bem mais confusos e, claro, igualmente frágeis.

Para ouvir depois de ler: What It Feels Like For A Girl - Madonna

domingo, 23 de maio de 2010

O pop tem razão: "One More Time With Feeling"

“Eu era deprimido pois ouvia música pop ou eu ouvia música pop pois eu era deprimido?”. Essa é uma questão de “Alta Fidelidade”, não sei se do filme ou do livro ou dos dois. O que interessa é que a dúvida é pertinente. Para tentar extrair dela algum divertimento – ou alguma sabedoria – criei essa categoria no blog para analisar músicas que, de alguma forma, fazem sentido.



É típico no teatro infantil, por exemplo, que o primeiro personagem a interagir com a platéia grite “tudo bem?”. Todos respondem “tudo”. Ele diz que não ouviu direito, para as crianças responderem novamente, mais alto. “Tuuuudoooo!” É essa a idéia da expressão “de novo, agora com força” ou “agora com sentimento”, ou “one more time with feeling” – que, por acaso, é o nome de uma bela canção de Regina Spektor.

“Seus pontos foram feitos corretamente, mas suas cicatrizes estão se curando de forma errada”, ela canta. Poderosa metáfora. “One More Time With Feeling” é sobre as cobranças que fazemos de nós mesmos. Em nome do conforto, queremos muito, não nos esforçamos e ainda reclamamos do que não aconteceu.

“Você achava que, a essa altura, você seria melhor do que é. Você achava que, a essa altura, eles já teriam visto como você chegou longe”, diz com tristeza a letra. “E o orgulho dentro dos seus olhos estaria sincronizado com um amor inédito”.

Mas nem tudo está perdido. Tente de novo, grita com mais força e faça tudo com mais sentimento. Acho que essa é a mensagem por trás da composição. Repita tudo na sua cabeça até que comece a fazer sentido.

domingo, 16 de maio de 2010

Futebol é muito chato

Eu não quero ser do contra e reclamar por reclamar. Só quero dizer como eu detesto futebol. Não o esporte categoricamente, mas viver no país onde ele está acima de coisas muito mais importantes.

Se o seu personagem favorito da série “Friends” é a Monica e o meu é o Chandler, a gente explica por que, cita uns episódios, morre de rir e a conversa acaba. No futebol, as pessoas ficam em uma competição sem fim sobre como seus times são melhores que o outro, sendo que – apesar de todos serem muito parecidos – uns estão ganhando ou perdendo partidas, torneios e campeonatos. Ou seja, são fatos. E contra fatos não existem argumentos. Não interessa se pelo menos o fulano fez o passe certo ou errado, interessa que seu time perdeu, então fim da discussão. Seu time é ruim.

Mas a coisa mais irritante é como o esporte é um fator social. As pessoas te perguntam seu nome, idade e time pra qual torce, como se isso definisse seu lugar no mundo, seu caráter ou algo. Mais sentido faria perguntar seu livro favorito, uma pergunta que identificaria hábitos de leitura, gosto e nível de desenvolvimento mental e emocional. Perguntar seu time só esclarece para o interlocutor de que lado do estádio você senta e de que cor é a camisa/outdoor ridícula que você usa pela rua nos dias que seu time ganha ou que o time rival perde.

Outra coisa absurda do futebol aqui na terra dele é que todos os fanáticos usam xingamento extremamente rudes, preconceituosos e ofensivos até para quem não tem nada a ver com a história. A tradição manda os ganhadores chamarem os perdedores de “bicha”, “viado” e coisas assim. Nunca entendi muito bem isso. Só sei que é por isso que estamos tão atrasados nesse país em relação a direito dos homossexuais. Pois vivemos numa vala de homofóbicos considerados “machões” e “espertos”, amantes do futebol e com vergonha de defender o que eles consideram diferente, feminino, delicado ou errado.

E se a final do campeonato tal é na quarta-feira, o jogo termina muito tarde. As pessoas bebem em grupo, de frente para a TV e dormem no sofá. No dia seguinte, duas horas de atraso são aceitas no emprego. Uma falta é aceita se for um time ou um título muito importante. Isso é inacreditável, porque se eu perdi um episódio de “Big Bang Theory” fazendo hora extra no trabalho e quiser ver a reprise que passa uma da manhã, o problema é meu pra acordar amanhã. Chefe nenhum vai deixar de me descontar o atraso. Se eu for discotecar numa festa na quinta-feira, saio de lá às 4h e trabalho às 9h. O Oscar termina às 2h de uma segunda-feira e eu tenho que me virar. Mas ai de mim de precisar que me enviem um texto urgente em dia de jogo do Brasil.

Outra coisa péssima em futebol é que esportistas – principalmente os de esportes em grupo – geralmente são feios, não têm carisma e são todos muito parecidos. Você folheia um álbum da Copa completo e não vê a menor diferença entre as páginas com exceção da cor de pele e dos uniformes. Aliás, uniformes de time são uma puta de uma coisa imbecil. No campo, eles identificam de que lado cada um está. Aí, na sua vida, ele não tem papel nenhum. Mentira, tem sim.

Sabe carnaval de micareta? Eu acho aquilo a coisa mais imbecil do mundo. É um ritual primitivo absurdo colocar todo mundo num mesmo lugar, ouvindo a mesma merda, dançando exatamente do mesmo jeito e ainda por cima usando a mesma roupa. Usar uniforme de futebol – quando não se é jogador – tem essa função. Você faz parte de um grupo maior, de um coletivo. Que pobreza de espírito, não?

Enfim, falei mais do que planejava. Não é pra criar polêmica, é só para que as pessoas pensem no assunto e no conceito de “prioridade”. Quando o futebol está na TV, não foi o mundo que parou pra assistir, foi apenas você que perdeu qualquer perspectiva de realidade. Especialmente a da diversão, que é o que todo esporte devia causar no não-praticante. Afinal, esporte faz bem pra saúde e se você já não está praticando, e sim apenas assistindo, que ele te cause prazer, pelo menos. E não guerra, discussões, brigas e piadas de péssimo gosto.

Para ouvir depois de ler: Human Behaviour - Björk

domingo, 25 de abril de 2010

Eu não vou trazer nada para você

Eu sabia que isso ia acontecer. Basta você dizer que vai fazer uma viagem internacional que logo aparecem conhecidos – daqueles bem distantes – te pedindo encomendas.

E não é que eu tenha anunciado demais não. Exatamente por isso, tentei não alardear demais minha ida, mas nunca tem como. Sempre tem um sem noção que descobre e vem te pedir para trazer um cacareco qualquer.

Para não ser rude, dou um sorriso leve e digo: “Me passa o que você quiser que, depois, eu vejo” e explico que, de maneira alguma, vou sair procurando o que a pessoa quer. Se, por acaso, eu topar de frente com o objeto desejado pelo conhecido, ok. Se não, me desculpe. Compre online ou quando você mesmo viajar.

É curioso isso. Tem conhecido meu que já foi pra Paris, Itália, Irlanda, Nova York, Los Angeles, Nova Orleans e Canadá e ninguém me trouxe nada. Não estou reclamando, pois nada pedi. As pessoas parecem não entender que quando você viaja para fora do país – principalmente pela primeira vez – quer encher suas malas é de coisas para você ou presentes para seus amigos mais chegados. Não para os outros!

Mentira, todo mundo entende isso sim. Aliás, todo mundo que já viajou pra qualquer lugar entende isso muito bem. Mas eles pedem coisas do mesmo jeito apostando na sua educação. Bom, estou deixando esse post como aviso. =P

Para ouvir depois de ler: I Love New York - Madonna