quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A curva da traição


Para o feriado, peguei vários DVDs emprestados. Entre eles, alguns episódios da série “Os Normais”. Em um deles, um antigo namorado da Vani volta da Europa e a convida para um jantar. Ela acha o cara muito lindo e começa, propositalmente, uma discussão com Rui. Brigados, cada um vai para um lado e ela fica livre para encontrá-lo. No jantar, ele revela que o velho continente mudou sua visão das coisas e que, agora, ele é gay. Vani e Rui retomam o relacionamento como se nada tivesse acontecido.

Se o cara não fosse gay, ela teria ficado com ele, com certeza. Aliás, muitos episódios da série mostram um dos dois traindo o outro, mas eles seguem no relacionamento. Isso é um reflexo da vida real? O que é traição? Resolvi fazer uma pesquisa entre meus amigos. Não pretendo fechar a questão, nem discutir as coisas que “motivam uma traição”, é só uma curiosidade cultural.

- Fugiu do combinado é traição. Se o relacionamento é aberto e está combinado que pode ficar com outras pessoas, não é traição a pessoa ir lá e ficar com outra pessoa – me disse uma amiga.

É, mas e aí? Você pega a pessoa e estabelece esses acordos quando? Quer dizer, não dá para sentar na frente do computador e ir escrevendo regras, imprimir o papel e plastificar. Sem contar que assusta chegar para a pessoa, logo depois do “quer namorar comigo?” e perguntar “o que é traição para você?”. Ok, até acontece. Mas não com muita frequência. Isso é até explorado com muito bom humor na série “Friends”, quando todos elaboram uma lista de 5 celebridades que eles têm direito de fazer sexo se tiverem oportunidades.

Na mesma série, num dos mais clássicos episódios, Rachel se sente sufocada por Ross e pede um tempo. Ele fica muito abalado, pois ela é a garota da sua vida desde o tempo do colégio, sai de noite para beber e vira alvo das cantadas de uma moça muito atraente. Eles passam a noite junto mas, pela manhã, a namorada se arrepende. Ele concorda em voltar, fica feliz, mas ela fica sabendo que ele dormiu com a moça e, mesmo tendo sido na noite em que eles estavam declaradamente separados, não o perdoa - transformando a separação em definitiva.

- Mas sexo é traição com certeza – diz um amigo.
- E sexo pela internet?
- Também! Quer dizer, não. Ah, sei lá.
- Poxa, mas pra pessoa trair com sexo pela internet o traído tem que ser muito ruim, né?
- Ou muito ausente – outra pessoa observa.

Em um episódio de “Sex and the City”, Carrie diz que a definição de traição varia, mas que sua teoria é que, para uma pessoa, o que coinstitui traição é diretamente proporcional à sua vontade de trair. Ou seja, quem não considera que beijar é trair, está afim é de beijar outra pessoa. Já a personagem Samantha diz que traição é uma coisa virtual que depende da mistura da consciência da pessoa com sua natureza humana. “Afinal, se você não for pego, você não traiu”.

Hum, estão começando a perceber o dilema? Tem gente que acha que beijo não é traição. Tem gente que acha que sexo pela internet é. Tem gente que, se é a namorada com outra mulher, não é. Tem esposa que deixa, tranquilamente, o noivo comer uma prostituta na despedida de solteiro. Tenho uma amiga lésbica que diz que a única traição impoerdoável é se a namorada pegar um homem.

- Acho que intenção não é traição. Você pode querer fazer mil coisas com a outra pessoa. Mas se ficar na sua, tudo bem. Mas ir lá e fazer algo, já é.
- Então um selinho na amiga, no reveillon, é traição?
- Depende de em quem é o selinho. E também se, depois, rola uma mão na cintura, uma piscadinha.

Uma amiga interrompe:

- No fim das contas, se meu namorado quiser beijar ou comer outra mulher tão pouco vou me importar e ficar triste. É apenas carnal. Pior seria se ele disse que está apaixonado por ela. Aí ele me traiu feio.
- E se ele não só quiser? E se ele fizer? Acaba tudo ou dá para relevar?
- Pegou ou apaixonou? Uma coisa dá para conversar, a outra não.

4 comentários:

@laranjudo disse...

"Pegou ou apaixonou? Uma coisa dá para conversar, a outra não"

Resumiu a parada toda.

Leleka disse...

Obrigada. Essa sou eu. Linda.

Paula disse...

Gostei do texto, vou aproveitar e transcrever dois trechos do livro "A Alma Imoral" do rabino Nilton Bonder, se não conhece, dê uma procurada e leia. É uma obra fantástica.

"Nem sempre o correto da tradição é o bom do momento. A maior traição que o homem pode cometer é contra si próprio, pois o homem será sempre um traidor, não importando o que faça...a escolha que fizer será sempre uma traição, pois o homem que se mantém acomodado é um traidor, o homem que não rompe Com o certo do passado em troca do bom do presente é um traidor e o homem que rompe com tudo, também, será um traidor. Assim sendo, o grande pulo é fazer o que achar melhor para si próprio."

"Somente no dia em que a traição não ferir o traído ou a tradição, mas despertar ambos para novas possibilidades que se descortinam através dela, surgirá um mundo muito além da tolerância - um mundo de apreciação."

Beijo =)

Luiz Hick disse...

Bom é complicado definir traição em geral, mas se trair na cama ou nos sentimentos creio que fere mais ao traido. È uma mágoa do desrespeito, paixão e amizade.Que faz ao traido enxergar isto nos próximos parceiros.