quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O pop tem razão: "Human Behaviour"

“Eu era deprimido pois ouvia música pop ou eu ouvia música pop pois eu era deprimido?”. Essa é uma questão de “Alta Fidelidade”, não sei se do filme ou do livro ou dos dois. O que interessa é que a dúvida é pertinente. Para tentar extrair dela algum divertimento – ou alguma sabedoria – criei essa categoria no blog para analisar músicas que, de alguma forma, fazem sentido.



A letra é curta, então acho que rola de colocar a tradução aqui. De forma direta é ainda mais fácil ver como a música é uma interessante crônica do comportamento humano, mesmo que de forma bem resumida.

“Se um dia você se aproximar de um humano e do comportamento humano, esteja preparado para ficar confuso. Definitivamente, não há lógica para o comportamento humano. Mas, mesmo assim, é tão irresistível! E não há mapas e um compasso não te ajudaria nem um pouco.

Eles são terrivelmente temperamentais e aí de repente ficam felizes. Mas, oh, ser envolvido na troca de emoções humanas. É sempre, sempre satisfatório. E não há mapa...”

Não é ótima? Esse single, que é o primeiro da carreira solo de Björk fora da Islândia, tem um clipe que condiz com a música, que caracteriza as emoções humanas de um ponto de vista animal, dirigido por Michael Gondry, mas também é baseado em memórias infantis da cantora. Aliás, a melodia – que ganhou um sample de Tom Jobim, “Go Down Dying" – foi criada pela moça quando ainda era criança, mas descartada. “Eu estava em bandas punks e ela não era punk”, disse Björk na época.

Essa coisa de planejar vingancinhas é coisa de novela – e de alguns escorpianos, diga-se de passagem. Mas, em grande parte dos momentos, as pessoas não tem noção do resultado de suas próprias ações. Todo mundo sai por aí agindo como se o que estão fazendo e falando hoje não afetasse o amanhã. Essa cegueira é causada pelo tempo, que distancia bastante a ação da reação. Acho que Björk canta sobre essa falta de lógica que, ao mesmo tempo que nos distancia, nos atrai.

Mas também sobre o que se chama de natureza humana, claro. Estudamos que seres humanos são seres de cultura, não de natureza. Não há, para a psicologia, uma natureza humana. O que uma pessoa considera certo pode ser extremamente errado em uma cultura diferente da sua. O fato é que não existe esse tal de instinto na gente. Mães que matam filhos, por exemplo, são vistas como aberrações para a sociedade, mas quem disse que ela precisam amar incondicionalmente suas proles? Isso não acontece no mundo animal: um filhote doente é deixado para trás pelo rebanho, um filhote que nasce morte, geralmente, é comido pela mãe. Os exemplos são inúmeros.

Mas há uma “brecha” nesse conceito chamada de pulsão, que diferencia-se daquele gerado por decisões. Ele é aquele gerado por forças internas inconscientes, alheias ao processo decisional. Pessoa não sabe nadar, mas vê alguém afogando e consegue resgatar; pessoa medrosa tira a arma da mão do bandido quando se vê ameaçada, coisas assim. Ao contrário do que é dito, isso não é instinto, é pulsão.

Enfim, o ser humano é um o animal mais imprevisível de todos. Não há como pré-determinar muita coisa sobre ele. Não há nada certo na natureza dele. Irmãos gêmeos criados em países diferentes serão adultos completamente diferente; até crescendo juntos isso pode acontecer! O número de possibilidade de desejos e realizações individuais não tem fim. E não há mapa. Por isso é tão fascinante - e corajoso, vai - interagir com eles, se envolver.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

O que eu aprendi com o Linux

Ou "Anedotas do Windows"

Já reparou que no Brasil até nome de coisa tecnológica é terceiro mundista? A galera no Maranhão tem projetos espaciais super legais, mas nada pode chamar Apollo, Starsix, Cybertud; tem que chamar Arara Azul, Saci Perêre, Aimoré. É assim que me sentia no Linux, no fim do mundo.

Confesso que quando a empresa resolveu trocar o sistema operacional de todos os computadores, tremi. Fui enrolando, trocando de lugar para ser o último da fila mas não teve jeito. Foram lá, me tiraram o Windows e instalaram uma coisa muita da maluca chamada Linux. Tudo é diferente no Linux. Não é Word, é BR Office, por exemplo. Sempre tenho preconceito com nomes assim.

É código aberto, é copyleft, é coisa e tal. Tudo bem, seus nerds, eu sei. Mas e daí? A barra de ferramentas está no lugar errado, tudo parece pesado e é laranja e que porra de pássaro esquisito é esse no papel de parede? Com o tempo, fui mudando o que podia ser mudado e me adaptando com o que não podia. Superei os nomes estranhos, os programas genéricos e ia me adaptando bem a eles.

Alguns dias atrás, veio a notícia:

- Gabriel, você deve deixar o Linux para trás. Ele não mais faz parte do seu trabalho. Eu sou seu pai.

Ok, tirando a parte da paternidade, a frase está certa. Voltaríamos ao Windows. Deixaria o Linux para trás, depois de tantos protestos abafados há mais de um ano. Por fora, ora comemorava, ora me fazia de desinteressado mas, por dentro, não queria voltar.

Não fui eu quem se adaptou ao Linux. O sistema operacional, outrora chamado de genérico, é que se adaptou às minhas necessidades. Mas voltar para o Windows, tudo bem, não seria o fim do mundo. Passada uma hora, enquanto eu recolocava pastas e favoritos no lugar, o Windows travou. Seria o primeiro – do já esquecido de tão inútil – control + alt + delete em anos. Algumas horas depois, vi que um documento importante havia sumido; culpa do Windows. Fiquei puto, mas o incidente gerou algumas piadas ao redor; risos dos não-afetados pelo problema.

Então elaborei uma teoria e, digamos, aprendi a lição. O Linux é o competente modelo. Não faz mais do que a obrigação de funcionar bem. Por isso mesmo, é pouco lembrado e pouco valorizado por aqueles que nunca interagiram com ele. Já o Windows, que dá erro pra caramba, é super conhecido, o piadista folgado, que faz o mesmo trabalho. Mas faz com um layout mais bonitinho e moderninho, de uma maneira menos estressada, chamando atenção e ganhando notoriedade.

Ela usa as chaves, ele quebra a porta


A empregada ainda fazia bolo de cenoura com calda de chocolate para as crianças crescerem saudáveis, suflê de legumes para a mãe seguir numa dieta com sabor e bifes não tão bem passados para o pai que gostava de sangue – mas as coisas estavam muito diferentes. O esforço de todos ao redor em fingir que nada havia mudado era até admirável, pois requeria muito esforço. Mas muito esforço cansa e o começo do fim aparecia todo dia em pequenos sinais pela casa. Numa troca de olhares, de palavras ou numa planta que mudava de lugar.

De fora, parecia que nunca estiveram apaixonados. Mas de fora, ninguém poderá dizer ao certo. De dentro, é bem possível que estivessem – ou que tenham estado, há muito tempo; um tempo que passou. Ele queria que isso mudasse, mas não mudou. Algo sempre esteve errado, mas ela fingia que não via.

Era estranho. Quando um ria, o outro se ofendia. Não eram amigos, eram companheiros de casa com nada mais do que, digamos testemunhas. Não reclamo como vítima. Não sofri com o fim, sofri com a espera. Não enxergo duas pessoas menos prováveis de terminarem juntas e ficava torcendo para o teatro acabar e cada um procurar seu rumo desde que percebei o seguinte: não é que ele pegava no sono vendo TV e acaba dormindo na sala; é que ele não era bem vindo na cama dela, que ela tinha comprado com o dinheiro dela, do trabalho dela, no quarto dela, na casa dela, construída por ela. Pra ela, pra ele, pra mim.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Stay hungry, stay foolish

Steve Jobs fez um belo discurso na Universidade de Stanford em 2005 que só tive oportunidade de assistir hoje. Apesar das muitas pérolas de seu texto, os últimos parágrafos me chamaram mais atenção pois têm a ver com o que estou pensando nos últimos dias. Abaixo há o discurso completo e legendado, mas coloquei aqui também a transcrição da parte citada.





“Mais ou menos um anos atrás, fui diagnosticado com câncer. Eu vivi com esse diagnóstico o dia todo. No fim do dia, eu fiz uma biopsia, onde eles enfiaram um endoscópio pela garganta, através do meu estômago até meu intestino, colocam uma agulha no meu pâncreas e tiram algumas células do meu tumor. Eu estava sedado, mas minha esposa, que estava lá, me disse que quando viram as células sob um microscópio, os médicos começaram a chorar. Tratava-se de uma forma muito rara de câncer pancreático que é curável com cirurgia. Eu fiz a cirurgia e estou bem agora.

Isso foi o mais próximo que cheguei de encarar a morte, e espero que tenha sido o mais próximo por mais algumas décadas. Tendo passado por isso, eu posso dizer isso a vocês agora com um pouco mais de certeza do que quando a morte era útil, mas puramente um conceito intelectual: ninguém quer morrer.

Mesmo as pessoas que querem ir para o céu não querem morrer para chegar lá! E, mesmo assim, a morte é um destino que todos compartilhamos. Ninguém nunca escapou dela. E é assim mesmo que tem que ser, porque a morte é provavelmente a melhor invenção da vida. É o agente de mudança da vida. Ela limpa o velho para abrir caminho para o novo. Agora, o novo são vocês mas, algum dia, não muito longe de agora, vocês gradualmente se tornarão o antigo e serão limpados fora. Desculpe ser tão dramático, mas é a verdade.

Seu tempo é limitado, então não o desperdice vivendo a vida dos outros. Não seja amarrado por dogma – que é viver com os resultados dos pensamentos de outras pessoas. Não deixe o barulho da opinião dos outros afogar sua própria voz interior. E, mais importante, tenha a coragem de seguir seu coração e intuição. De alguma forma, eles já sabem o que você verdadeiramente quer se tornar. Todo o resto é secundário.

Quando eu era jovem, havia uma publicação incrível chamada “The Whole Earth Catalog”, que foi uma das bíblias da minha geração. Foi criado por um colega chamado Stewart Brand, não muito longe daqui, em Menlo Park, e ele trouxe isso à vida com seu toque poético. Isso foi no fim dos anos 60, antes dos PCs e ferramentas de editoração, então foi tudo feito com máquina de escrever, tesoura e câmeras polaroid. (…) Quando chegou ao fim, eles lançaram uma edição final. Era no meio dos anos 70 e eu tinha a idade de vocês. Na contra capa havia uma fotografia de uma rua de campo de manhã cedo, do tipo onde vocês se encontraria pedindo carona. Na parte de baixo estavam as palavras: “Mantenha-se com fome. Mantenham-se tolo.” Foi a mensagem de despedida deles quando estavam se desligando. Mantenham-se com fome. Mantenham-se tolos. E eu sempre desejei isso para mim mesmo. E agora, como vocês estão se graduando para começar o novo, eu desejo isso para vocês. Mantenham-se com fome. Mantenham-se tolos.”

Fome de vida, sede de descobrir, humildade para procurar, ingenuidade para saber ouvir. Eis meu 2011, amém.

Para ouvir depois de ler: Teenage Dream - T.Rex

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Desconhece-te a ti mesmo

Todo mundo já fez perguntas filosóficas para si mesmo. Final de ano e aniversário são boas datas para isso. De onde viemos, para onde vamos e essas merdas todas. “Quem eu sou?”, a maior delas, talvez seja a única que possamos responder. Não é fácil, mas é possível.

O mundo está cheio de respostas. Eu sou brasileiro, filho, cristão, estudante, heterossexual, judeu, dentista, gay, negro, irmão, afilhado, índio, blogueiro, the walrus.

(Quando você era criança, por exemplo, sua mãe era só sua mãe. Aí você vai crescendo e vendo que ela é a esposa do seu pai, a empresária de tal lugar, a amiga de não sei quem. Mas é claro que essas respostas não são as que as pessoas buscam. Aliás, elas atrapalham um pouco a busca. Complicado isso. Do alto dos nossos 18 anos, achávamos que era o contrário, não? O peso da decisão de vestibular parecia tão mais decisivo; se errar nessa escolha, terei uma vida de merda para sempre. Mas na verdade, enquanto isso, fica cada vez mais fácil mudar de área, de rumo, de profissão. Sofríamos, na verdade, outro tipo de pressão – que ficará para outro texto, se ficar.)

Mas algo em você não é a representação desses papéis sociais que estamos fadados a cumprir. Outro dia ouvi uma frase ótima: desconhece-te a ti mesmo. Trata-se do inverso do aforisma grego citado por Platão, conhece-te a ti mesmo. Afinal, o que conhecemos da gente são esses rótulos que, com prazer, deixamos os outros colocarem na gente. Sabe quando seu pai te xinga dizendo que, se você nunca experimentou beterraba, como sabe que não gosta do sabor? Você é o que você faz quando não está sequestrado por um ideal. É o que você gosta (ou quer gostar) e faz (ou quer fazer) por você, para você, sem se importar em como isso será visto de fora.

Por isso, o elogio à diferença é tão perigoso quanto sua supressão. Ao invés de se orgulhar, de se envergonhar ou de recriminar, devíamos nos sentir livres para apenas ser. Aí você vai se permitindo e concluindo o que é bom ou não para você. E, é óbvio, o que é ruim para você pode ser exatamente o que o outro precisa e, portanto, você não deve opinar naquilo. E vice-versa.

Infelizmente, hoje, essa ideia não é possível em sua totalidade. Existem instituições muito, mas muito grandes mesmo, das quais não podemos simplesmente fugir. Viver fora delas é uma loucura, mas dentro, se traindo, também. E o dilema é esse. Fazer um acordo com o instituído versus aguentar a angústia de não ter aquilo que você abriu mão.

Há um provérbio, não sei de onde, que diz o seguinte: ninguém se banha, num rio, duas vezes com a mesma água. Desista das tags da vida real e vá andando enquanto não passar aquela dor que sinaliza que você não está em casa.

Para ouvir depois de ler: Live and Let Die - Paul McCartney

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Lâmpada fluorescente

Um adolescente ouvindo música com fones e um jovem engravatado na calçada. Na hora que chegam à faixa de pedestre, o sinal fecha e é mais perto voltar do que atravessar e os dois fazem o movimento ao mesmo tempo.

O engravato sorri para o adolescente distraído e diz:

- Não dá para confiar nessas coisas.
- Oi? – ele diz tirando um dos fones do ouvido.
- O bonequinho do sinal - diz apontando para o semáforo de pedestres -, ele nem sempre é confiável.

O mais jovem apenas sorri em resposta. O engravatado pergunta:

- O que você está ouvindo?
- Ahm, Phoenix. É uma banda francesa.
- Eu conheço.
- Hum.

Silêncio. Os dois estavam andando agora, e quase que paralelamente.

- Você está passeando ou mora por aqui?

O menino já não sabia se ficava irritado ou não. O cara parecia legal e era bonito, mas a situação era estranha.

- Meio que os dois. Eu estava no shopping ali e moro logo ali na frente.
- Ah, e foi fazer o que no shopping?
- Comprar canetas que escrevem em CDs - o moço fez cara de curioso e ele explicou -, porque vou gravar uns CDs para tocar numa festa amanhã.
- Ah, que legal! E você vai me chamar para ir nessa festa?
- ...Você nem deve gostar do que eu toco.
- Você nem me conhece...!

Ele parou de andar e o outro parou também. O mais velho disse:

- Acho que você já percebeu o que eu quero, não é?
- Me bater com uma lâmpada fluorescente?

O outro riu.

- Não. Aliás, quero exatamente o contrário.
- E o que é o contrário de bater em alguém com uma lâmpada fluorescente?

Ele mexeu no bolso, tirou um cartão de visita e disse:

- Me ligue um dia e eu te conto.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Scott Pilgrim, seu lindo


Depois de muita enrolação, “Scott Pilgrim Contra o Mundo” não chegou aos cinemas brasileiros como um filme bem distribuído. Mas sabemos que isso não impede ninguém de nada. (Como é de praxe hoje em dia, consegui assisti-lo baixando ilegalmente pela internet. Legendado, com qualidade de DVD e tudo. Chupa essa, Paramount).

A premissa é simples: um menino no final de sua adolescência, naquela fase em que o que é considerado infantil e maduro se mistura, está querendo uma garota nova na cidade. Trata-se de Scott Pilgrim e Ramona Flowers. A parte da fantasia da história entra quando percebemos que, além de se apropriar de muitos recursos dos quadrinhos, o filme usa ícones de vídeo-game para descrever a tarefa máxima do longa: Scott deve derrotar os sete ex-namorados malvados da moça.

É igual na vida real, onde a bagagem do outro acaba perseguindo os dois, mas o longa é gênio na maneira que trata isso. É um épico para quem nunca participou de protestos importantes ou deixou a família para trás e foi pra guerra. É a aventura máxima de quem foi criado em casa, no seu quarto, querendo distância dos pais, jogando games e vendo TV. Por isso dialoga de forma tão precisa com seu público alvo. Todo nós nos sentimos como ele alguma vez na vida: quando nos sentimos menores do que os ex-namorados da pessoa que está com a gente agora, quando não sabemos o que falar para a nova namorada diante da antiga, quando começamos a gostar de outra pessoa enquanto ainda estamos com outra, quando trabalhamos juntos da ex etc.

É fantasioso, claro, mas exatamente por isso muito divertido. Tem muita luta e a dor dos socos são reais, mas não adianta sangrar muito pois é só dar reset que a luta começa de novo – boa metáfora para a vida real, não? Mas o roteiro é bom, as piadas são boas e a edição é brilhante – sério, esse filme precisa levar algum prêmio de montagem, pois é uma mistura muito linda de Matthew Vaughn e Michael Gondry. E a trilha? Tem Beck, Broken Social Scene, T. Rex, Rolling Stones, Black Lips e Metric.

A história é de Scott, Ramona e dos ex-namorados, no máximo. Mas todos os personagens secundários são ótimos. A ex-namoradinha chinesa, os membros da banda, o roomate gay – e sua habilidade incrível de digitar SMSs. “Scott Pilgrim” entra na lista dos melhores filmes, digamos, nerds. Junto com “Superbad”, “Kick-Ass” e outros assim, inocentes diante da gama de filmes bem mais importantes lançados ao mesmo tempo, mas que marcam a gente pois fazem uma crônica muito bem feita da rotina e das fantasias de uma geração.

Escorpianos


- ...Muita gente faz aniversário em novembro.
- É. Os filhos do Carnaval.
- Oi?
- Filhos do Carnaval, nunca ouviu isso? Que quem nasceu em novembro foi concebido em fevereiro. Carnaval.
- Que idiota.
- Idiota nada, faz as contas.
- As contas estão certas, a piada é que é idiota.
- Não é piada.
- Ah, então em fevereiro as pessoas só fazem sexo durante a semana do carnaval?
- Não, mas é que...
- O que? Você tá insinuando que eu fui um acidente, ou que minha mãe casou grávida, ou que nenhum casal casado faz sexo em fevereiro, só solteiros em micaretas?
- Meu Deus, não é isso, é que...
- É que o Carnaval cai em fevereiro todos os anos? E que, então, todo mundo que nasceu em agosto foi concebido no Natal?
- Não, aí não. Por que quem foi concebido no Natal nasceu em setembro. A não ser que a pessoa tenha sido prematura.
- Puta merda...

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Comissão de Justiça aprova PEC da Felicidade

A chamada PEC da Felicidade foi aprovada, nesta quarta-feira (10), pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ). De autoria do senador Cristovam Buarque (PDT-DF), a PEC 19/10 visa ressaltar que os direitos sociais elencados no artigo 6º da Constituição são essenciais à busca da felicidade. Ao justificar a proposta, Cristovam disse que a busca pela felicidade só é possível se os direitos essenciais estiverem garantidos. Depois de aprovada, o artigo dirá que "são direitos sociais, essenciais à busca da felicidade, a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados". Apenas isso. Está faltando trabalho para esse povo, não?

Segundo recente estudo de economistas brasileiros, citado pelo senador, fatores como renda, sexo, emprego e estado civil influenciam no nível de felicidade das pessoas.

Então, vamos conversar, senador? É verdade, só quando essa lista toda estiver garantida é que dá para fazer festa e começar a ser feliz de verdade. Peraí. Alguém é feliz de verdade aqui?

A felicidade é o grande motivo pelo qual o ser humano busca ter um futuro. A felicidade é uma questão do corpo e do desejo e isso é algo bem amplo. Passa por todas essas coisas mundanas safadinhas que você está pensando, pelos atos fisiológicos que estão na Constituição e também pela arte como um todo. O negócio é que “felicidade” é um conceito inalcançável, extremamente particular e agora deram para rotulá-lo – até no sentido literal.

A gente vive num mundo que confunde felicidade com satisfação ou realização; e agora querem colocar isso por escrito. Essa mudança no texto implica que quem tem educação, saúde, alimentação, trabalho, moradia, lazer e tudo aquilo, é feliz. É feliz. Gente, mas não pode colocar isso na Constituição! Não é assim a vida. Olha só: quantas milhões de vezes você viu alguém dizer que quando fizesse ou tivesse tal coisa seria feliz e que, quando conseguiu, não foi bem assim? Talvez você já tenha vivido isso. Eu sei que eu sim. Sempre coloco minha “felicidade” numa coisa que farei no futuro. Minha vida estará perfeita quando meu salário aumentar, quando eu comprar aquela roupa, quando eu arranjar um namorado, quando eu visitar aquela cidade, quando eu ler aquele livro, quando eu morar naquela casa. Aí você vai lá, consegue a coisa, realiza o desejo, e nada muda. Você se sente igual, talvez pior.

A confusão de conceito transforma a “realização” numa “felicidade encaixotada”. A publicidade diz que aquela coisa ali vai te fazer feliz e você vai lá e compra, não é? Não estou fora disso. Só acho essa PEC 19/10 uma babaquice pois dá a impressão que quer transformar obrigações do governo em “pacotes de felicidade”. Temo que se um país atrasado desse já sair achando que ter saneamento básico, por exemplo, é felicidade, não vai cobrar nada além disso do futuro, sabe como? O que está na constituição é o mínimo do mínimo do mínimo para se pensar em algum tipo de felicidade plena ou paz real.

Quem disse que felicidade é ter educação ou previdência? Vai saber. E se o trabalho que me faz feliz é contrabando de mulheres? E se o que me faz feliz é matar gente? E se o que me faz feliz é ver meus amigos gays se casando? E se o que faz a menina ali feliz é ela não precisar parir o filho do ex-namorado? Sim, eu sei que as primeiras coisas da lista são crimes, mas a outra metade da lista não está legalizada também não.

O repórter Josias de Souza escreveu no blog dele: “O que é preciso para roçar a felicidade? Todos procuram a resposta. Por ora, ninguém encontrou. Livros? Não, não. O conhecimento leva à reflexão sobre as mazelas humanas. Infelicidade certa. Esperança? Amor? Dinheiro? (…) Calma, seus problemas estão próximos do fim. A Comissão de Justiça do Senado aprovou a emenda constitucional da felicidade. A coisa vai ao plenário. Depois de aprovada, você talvez não ache a felicidade. Mas vai dispor de cobertura constitucional para continuar procurando. Boa sorte! Se encontrar, não seja egoísta. Avise ao repórter, ligue para os amigos, grite ao mundo”.

Entenderam?

Para refletir, senador, para refletir....

Para ouvir depois de ler: So-Called Chaos – Alanis Morissette

terça-feira, 9 de novembro de 2010

A maldita sinceridade

Segundo Rousseau, a sinceridade é como uma espécie de “tormento cultural”. Imagine o mundo onde não há mentira, que chatice. Empresas falindo porque a foto da embalagem é exatamente como o produto é lá dentro; milhões de mulheres com raiva dos maridos que não gostaram do novo corte de cabelo; currículos mais do que enxutos. Mentiras são lubrificantes sociais.

Ou não? Quero dizer, na comédia “A Invenção da Mentira” - que não é um filme muito engraçado, mas que recomendo pelos questionamentos que levanta -, vemos um mundo onde ela ainda não existe e as pessoas estão tão acostumadas em ouvir a verdade que não se ofendem, e aceitam tudo naturalmente. O cara pergunta se a moça quer jantar com ele de novo e, ao invés de falar que está sem tempo ou algo assim, ela responde que ele é chato, feio e que mastiga a comida de uma maneira nojenta. Aceitar verdades devia ser normal, mas não é. A sinceridade é uma preocupação que oscila entre aceitação, negação e caricaturização.

Das autobiografias aos reality shows, forja-se uma verdade para satisfazer certas curiosidades, hoje segmentadas – um imagina como os outros fazem sexo, enquanto outro imagina como as pessoas lavam louça, vai saber. É que todos sabem, mesmo que instintivamente, que a personalidade cultural das pessoas não reflete exatamente quem ela é em essência. A pessoa que veste tal roupa e vai trabalhar em tal coisa é um personagem, criado por ela com base em um aspecto da sua “personalidade total”. É sua persona – uma palavra grega que diz respeito à máscara por onde a voz passa. Todo mundo está afim de ver a intimidade alheia, o outro lado dos outros, mesmo que não comungue de forma plena das suas próprias ações ocultas – ou “não públicas”. Mas ser sincero é expôr sua intimidade?

Voltando o assunto: sinceridade não é só isso. Que você não é você, em sua totalidade, o dia inteiro, você sabe. Estava querendo falar é de outro tipo de sinceridade.

O Brasil, especialmente, é um país onde esses conceitos todos se confundem. Educação, falsidade. A linha é tênue e você pode ter bastante certeza da sua posição sem conseguir que enxerguem isso. Por aqui, as regras vêm da cordialidade, herdada do tempo de colônia. É a relação de fazer tudo o que o país opressor quer enquanto planeja-se a independência por baixo dos panos. É a relação do tapinha nas costas enquanto amola-se a faca que virá em seguida.

Por outro lado, ser sincero e falar o que se pensa o tempo todo para todo mundo já é uma perversão, não uma qualidade. Existem os momentos onde omissões se fazem necessárias e mesmo mentiras – que, quando não ferem à justiça, são saudáveis.

Perceba que, quando te perguntam algo, volta e meio você diz antes da resposta: “Posso ser sincero?”. Ora, porque não poderia? Ah, por muitos motivos. Sempre começamos uma crítica colocando a palavra “sinceramente” na frase. É para amenizar e para nos excluir da culpa – afinal, foi você que pediu minha opinião! Para a filosofia e para muitos, sinceridade é sinônimo de confissão. E – se quem se confessa dá testemunho, conta algo porque viveu e presenciou um fato que pode narrar – confissões podem ser usadas como arma contra aquele que se confessa. Igual funciona quando compatilhamos com alguém um segredo.

Como não sabemos tudo sobre nós mesmos, jamais passaremos essa informação adiante. Mas podemos compartilhar impressões e sentimentos e, então, um pode se sentir como o outro se sente - e esse é o significado da palavra compaixão, intimamente ligada aos relacionamentos amorosos, paternos e de amizade. É a concepção ética de cada um que entra em jogo no assunto. Ter acesso a uma informação, a uma confissão, e não usá-la contra a pessoa tem a ver com isso, certo?

Para refletir.

Para ouvir depois de ler: All I Really Want - Alanis Morissette

domingo, 7 de novembro de 2010

Hábitos alimentares são culturais, sabia?

O DJ e produtor musical Moby esteve no Brasil para participar do Festival UMF, que rolou no sábado passado, e aproveitou para falar de seu novo livro, “Gristle”, lançado em outubro e que trata do tema vegetarianismo.

“Gristle” é para qualquer pessoa que esteja repensando seus hábitos alimentares e as consequências da indústria que cria animais para alimentação. O músico se juntou ao ativista Miyun Park e reunu vários nomes para discutir o assunto – um grupo eclético que contém fazendeiros, atletas profissionais, cientistas, executivos de indústrias alimentícias e outros -, mostrando porque a indústria de abate animal desnecessariamente faz mal aos trabalhadores, às comunidades, ao meio-ambiente, à nossa saúde, aos nossos bolsos e, claro, aos animais.


Não comer carne é, para mim, uma opção mais saudável para melhorar meu estilo de vida já tão desregrado. Esse lado ético veio depois. Li que Paul McCartney parou de comer bicho depois de sair para pescar com os amigos. "Vi o peixe se debatendo dentro do barco, querendo se soltar do anzol. Percebi que a vida dele era tão importante para ele quanto a minha vida é importante para mim". Como alguém que passou mais da metade da vida cantando hinos de amor e comunhão poderia olhar para seu almoço e fingir que aquilo ali não era um animalzinho antes?

É engraçado. Quando você para de comer carne você começa a se sentir aquele personagem do filme de terror que tem certeza que viu os fantasmas, mas ninguém acredita. "Será que só eu vejo que o discurso que se usa para justificar a exploração dos animais é o mesmo que, no passado, usamos para defender a escravidão e a desigualdade de direitos entre homens e mulheres? Será que as pessoas não percebem que hábitos alimentares são questões culturais e de costume? Será que não compreendem que, como seres desenvolvidos e pensantes, não precisamos repetir o que nos foi ensinado como certo, que podemos questionar as coisas?"

Por essas coisas, não comer carne virou um pequeno protesto. É a minha maneira de boicotar uma indústria que destrói o meio ambiente e explora, tortura e mata animais. O que gastam com cereais e água para engordar o bicho que será morto teria sido muito melhor utilizado alimentando humanos que estão passando fome. E não precisa ser nenhum gênio para calcular isso. Claro que não há interesse comercial em parar de alimentar os bichos e simplesmente dar para os pobres, mas é mais um grupo que não quero fazer parte - junto ao grupo dos que enxergam as coisas da natureza meramente como matérias primas.

Eu adoraria estar cercado de pessoas que pensassem assim, não me sinto desconfortável com que não o faz, mas eu também não quero entrar em discussões com quem não está interessado em ouvir. Trata-se de uma escolha pessoal que não diz respeito à opinião alheia. Quer dizer, vegetarianos têm tanta certeza que estão certos que alguns acabam ficando chatos. Mas antes de atacá-los ou de sair por aí declarando seu amor por bacon, pelo menos reflita antes sobre o que vocês está abrindo mão versus o bem que você faz para mundo e para você.

Para ouvir depois de ler: The Smiths - Meat is Murder

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A curva da traição


Para o feriado, peguei vários DVDs emprestados. Entre eles, alguns episódios da série “Os Normais”. Em um deles, um antigo namorado da Vani volta da Europa e a convida para um jantar. Ela acha o cara muito lindo e começa, propositalmente, uma discussão com Rui. Brigados, cada um vai para um lado e ela fica livre para encontrá-lo. No jantar, ele revela que o velho continente mudou sua visão das coisas e que, agora, ele é gay. Vani e Rui retomam o relacionamento como se nada tivesse acontecido.

Se o cara não fosse gay, ela teria ficado com ele, com certeza. Aliás, muitos episódios da série mostram um dos dois traindo o outro, mas eles seguem no relacionamento. Isso é um reflexo da vida real? O que é traição? Resolvi fazer uma pesquisa entre meus amigos. Não pretendo fechar a questão, nem discutir as coisas que “motivam uma traição”, é só uma curiosidade cultural.

- Fugiu do combinado é traição. Se o relacionamento é aberto e está combinado que pode ficar com outras pessoas, não é traição a pessoa ir lá e ficar com outra pessoa – me disse uma amiga.

É, mas e aí? Você pega a pessoa e estabelece esses acordos quando? Quer dizer, não dá para sentar na frente do computador e ir escrevendo regras, imprimir o papel e plastificar. Sem contar que assusta chegar para a pessoa, logo depois do “quer namorar comigo?” e perguntar “o que é traição para você?”. Ok, até acontece. Mas não com muita frequência. Isso é até explorado com muito bom humor na série “Friends”, quando todos elaboram uma lista de 5 celebridades que eles têm direito de fazer sexo se tiverem oportunidades.

Na mesma série, num dos mais clássicos episódios, Rachel se sente sufocada por Ross e pede um tempo. Ele fica muito abalado, pois ela é a garota da sua vida desde o tempo do colégio, sai de noite para beber e vira alvo das cantadas de uma moça muito atraente. Eles passam a noite junto mas, pela manhã, a namorada se arrepende. Ele concorda em voltar, fica feliz, mas ela fica sabendo que ele dormiu com a moça e, mesmo tendo sido na noite em que eles estavam declaradamente separados, não o perdoa - transformando a separação em definitiva.

- Mas sexo é traição com certeza – diz um amigo.
- E sexo pela internet?
- Também! Quer dizer, não. Ah, sei lá.
- Poxa, mas pra pessoa trair com sexo pela internet o traído tem que ser muito ruim, né?
- Ou muito ausente – outra pessoa observa.

Em um episódio de “Sex and the City”, Carrie diz que a definição de traição varia, mas que sua teoria é que, para uma pessoa, o que coinstitui traição é diretamente proporcional à sua vontade de trair. Ou seja, quem não considera que beijar é trair, está afim é de beijar outra pessoa. Já a personagem Samantha diz que traição é uma coisa virtual que depende da mistura da consciência da pessoa com sua natureza humana. “Afinal, se você não for pego, você não traiu”.

Hum, estão começando a perceber o dilema? Tem gente que acha que beijo não é traição. Tem gente que acha que sexo pela internet é. Tem gente que, se é a namorada com outra mulher, não é. Tem esposa que deixa, tranquilamente, o noivo comer uma prostituta na despedida de solteiro. Tenho uma amiga lésbica que diz que a única traição impoerdoável é se a namorada pegar um homem.

- Acho que intenção não é traição. Você pode querer fazer mil coisas com a outra pessoa. Mas se ficar na sua, tudo bem. Mas ir lá e fazer algo, já é.
- Então um selinho na amiga, no reveillon, é traição?
- Depende de em quem é o selinho. E também se, depois, rola uma mão na cintura, uma piscadinha.

Uma amiga interrompe:

- No fim das contas, se meu namorado quiser beijar ou comer outra mulher tão pouco vou me importar e ficar triste. É apenas carnal. Pior seria se ele disse que está apaixonado por ela. Aí ele me traiu feio.
- E se ele não só quiser? E se ele fizer? Acaba tudo ou dá para relevar?
- Pegou ou apaixonou? Uma coisa dá para conversar, a outra não.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Ewige wiederkunft

"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!"

Esse é um trecho de “A Gaia Ciência”, último trabalho da fase positiva de Nietzsche, que resume um pouco o conceito de “eterno retorno”. A ideia é a que bem e mal, angústia e prazer, dia e noite, são eventos e sensações que se alternam, inevitavelmente. Tanto na história pessoal quanto na mundial, tudo é cíclico. Pense aí na sua vida se não é verdade. Amores, decepções, depressões, novos amores. Crises, crescimentos, guerras, epidemias.

A questão ali foi posta por um demônio e dá arrepios só de pensar: conseguiria você viver, de novo, toda a sua vida? Isso quer dizer mesmos erros, acertos, prazeres, e essas coisas poéticas todas. Mas pense no lado mais material. São as mesmas doenças, curas, empregos, pais, moradias, chefes, crises, notas na escola, tapas na cara.

Eis porque a proposta é de um demônio. Embora pareça interessante em princípio, a proposta é absolutamente agoniante. Não é um presente divino e sim uma maldição. Você já pensou no passado e suspirou “Ah, se naquela época eu soubesse o que eu sei hoje”? Viver de novo a mesma vida é viver sempre com esse suspiro preso em você, vendo as coisas acontecerem iguais e imaginando como você poderia ter feito diferente.

Por outro lado, a reflexão é boa. Para poder viver a mesma vida, devemos amá-la muito, devemos tê-la vivida de forma muito lúcida e prazerosa e termos alcançado tudo que queríamos. Devemos? A questão é essa. Devemos ter amor ao nosso destino irremediável ou construí-lo?

Apenas seríamos capazes de amar a vida que temos a ponto de querer vivê-la novamente se ela for muito boa. E isso não está completamente nas nossas mãos. Ou está? Pois apesar das inúmeras histórias que religiões e cultos têm inventado, não temos garantia nenhuma que há mais do que essa vida besta nossa, essa que começou no ventre da sua mãe e que terminará numa cama de hospital - ou numa faixa de pedestre. Então é melhor tentar deixar cada momento merecedor de ser vivido de novo, certo?

Para refletir.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Pensando com Laerte


No filme “The Cement Garden”, de 1993, a personagem de Charlotte Gainsbourg é flagrada vestindo um menininho com roupas femininas. Ao ser questionada pelo irmão mais velho dele, ela diz: “Garotas podem usar jeans, usar camisetas e botas, pois é aceito ser um menino. Mas para uma menino, ser uma menina é degradante. Pois você acha que ser menina é degradante. Mas, secretamente, você adoraria saber, não adoraria? Como é que se sente uma garota?”.

Tem bem pouco tempo que Laerte, um dos maiores e melhores cartunistas do Brasil, resolveu fazer algo muito corajoso: revelar para todo mundo que curtia uma onda crossdresser – que é quando uma pessoa começa a usar algumas peças de roupa ou certos acessórios que são, geralmente, atribuídos ao sexo oposto. A declaração foi dada à revista Bravo!, em sua versão impressa e também em uma pequena entrevista em vídeo, aqui.

“Na verdade, a minha convicção é que todas as pessoas gostariam de experimentar muito mais do que aquilo que os códigos sociais permitem, recomendam e limitam. Em se tratando de roupas, acho que as pessoas gostariam de frequentar outros parâmetros e outras áreas também. A vontade de vestir roupas femininas é muito mais frequente do que se imagina. As pessoas sofrem muito por não fazer isso, por achar que é uma vergonha ou algum tipo de diminuição.”, diz ele de forma natural e lúcida. “Vestir uma roupa feminina é constestar um parâmetro de gênero que vigora na sociedade. No limite, é uma coisa política. No fundo, é uma contestação de proposta de mudança. Mas é um prazer meu também”.

Fico feliz em ver gente que enxerga como uma babaquice esses mitos. Dividir a humanidade em gênero é uma coisa que nasceu com as religiões, com a ideia de que a divisão deveria vir das metades necessárias para conceber uma nova vida e com as antigas crenças da vida em matrimônio.

Voltando ao Laerte: “Eu não estou imitando uma mulher, não quero passar por mulher. Eu estou confabulando com um modo de ser que vem sido atribuído às mulheres. Assim como as mulheres – enquanto gênero – frequentam hoje modos, vestimentas e comportamentos que eram exclusivamente masculinos, acho que os homens deviam fazer essa passagem também”. Acho que ele tem razão.

Hoje, uma mulher tem a liberdade de usar calça, sapatos sem salto, não precisa de espartilho, pode falar alto, grosso e beber cerveja. Enquanto isso, nenhum homem pode usar blusa rosa, beber um drink de frutas, comer arroz integral ou ler poesias. A gente – eu, você, nossos pais, nossos tataravôs – chegou aqui há pouco tempo e se engana achando que o mundo sempre foi assim. As coisas foram evoluindo de uma maneira que, por sua lentidão, parecem naturais, mas não são. Em outras culturas, em outras épocas, matar um animal para comer era pecado; era impossível mudar de classe social; bebês usarem roupas amarelas atraía dinheiro; homens só faziam sexo com mulheres para procriarem, pois o prazer mesmo vinha da relação com outros homens.

As gerações mais recentes são daquelas que obrigam o menino a enfrentar precocemente situações para as quais ele talvez não esteja preparado, mas tem de ir em frente porque é homem. Não pode ter medo, não pode chorar, não pode dançar, não pode gostar de arte. O resultado é um bando de gente despreparada para lidar com o desconforto, com o sagrado, com o feminino - e um monte de mulheres insatisfeitas com seus próprios homens, claro.

A chamada "cultura ao redor" não pode ser mais forte do que nossa vontade de mudar e nossa inclinação a pensar diferente, a pensar sobre nossos hábitos e sobre os nossos próprios pensamentos. Não há quem resista a tanta pressão e angústia, presentes dos dois lados da moeda. Passou da hora de todo mundo aprender a cuidar da sua vida. No seguinte sentido: se a coisa que faz bem para você não faz mal para ninguém, significa que a coisa faz bem a todos. Liberdade é isso.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Prodepressivo


Nas últimas décadas, a indústria e a ciência desenvolveram remédios muito eficientes e com menos efeitos desagradáveis para tratar ansiedade, depressão e déficit de atenção, entre outras manifestações psíquicas. Isso é muito bom: tratamento mais seguro e eficiente para quem precisa. Para quem precisa. Mas estou achando que todo mundo se vê nessa lista.

É meio estranho como é moda falar que está estressado e deprimido. A doença do momento, por exemplo, é a bipolaridade. Mas se você tem variações de humor, você é normal. Bipolar é um transtorno psicológico grave. Sim, transtorno. E muito complicado de ser diagnosticado mesmo por profissionais. Piadinhas não deviam entrar nisso.

Tristezas, inseguranças, ansiedade e inquietações são normais na vida de qualquer um, mas passaram a ser facilmente medicados, tirando um pouco nossa responsabilidade de lidar e de resolver conflitos. A mãe vê o filho chorando e leva ele para a farmácia ao invés de sentar e conversar. Vivemos numa época onde as pessoas acreditam que é possível viver sem sentir nenhum tipo de dor física ou psíquica. Basta uma fincadinha na cabeça ou um mero ar nostálgico e já corremos para tomar uma aspirina ou um antidepressivo?

Se tem uma coisa que aprendi – e que já foi explorado aqui nesse blog – é que felicidade eterna não é algo alcançável. Felicidade é uma coisa mutável e, por baixo de suas oscilações, deve haver sim é uma paz de espírito.

Isso tudo sem contar que um remédio como Ritalina é um derivado da anfetamina, por assim dizer, e pode causar dependência. Ele deve ser usado por quem precisa e não por quem está atravessando uma fase de mais inquietação. E, do jeito que andamos, nem percebemos nosso vício. E eles estão começando cada vez mais cedo.

Que tal checar como andam seus pensamentos, valores e sua rotina antes de ingerir alguma nova pílula? Uma das suas missões – ou obrigações - é exatamente essa, aprender a lidar com emoções desagradáveis. A vida é sobre isso e obstáculos só existem para que sejam superados.

domingo, 19 de setembro de 2010

Os normais


Estou aproveitando todos os meus momentos vagos para ver todos – sim, eu ousei dizer todos – os filmes que quis ver e ainda não pude. Alugando, baixando, pegando emprestado, estou tentando passar pelas minhas vistas os requisitados clássicos, como “Duck Soup”, até alguns títulos mais novos, como “Os Excêntricos Tenenbaums”.

A família Tenenbaum é, literalmente, genial. Chas é um investidor pleno aos 11 anos; Ritchie é um fenômeno do tênis e Margot, adotada, é uma dramaturga que escreve sua primeira peça aos 9 anos. Já Royal, o pai, é um canalhão que, chutado para fora de casa pela esposa, Ethel, vai à falência. Respectivamente, estamos falando de Ben Stiller, Luke Wilson, Gwyneth Paltrow, Gene Hackman e Anjelica Huston. Além deles, temos Bill Murray e Owen Wilson no elenco.

A primeira questão é que uma vez genial nem sempre genial. Os filhos, já adultos, somam alguns traumas recentes com a sensação de estarem congelados em seus momentos de glória do passado. Isso é chocante, digamos assim, para o pai, que finge estar para morrer afim de se reaproximar da prole, arrependido de suas sacanagens passadas.

Não é o argumento mais original da história do cinema, mas o desenrolar é magnifíco. É gostoso acompanhar como, a cada momento, as situações parecem ficar mais malucas – como, por exemplo, descobrirmos que um dos irmãos está apaixonado pela irmã adotiva e como um amigo de infância, que sempre quis ser um Tenenbaum, hoje é traficante de drogas.

Wes Anderson, o diretor, conta a história como que em capítulos de livros e cria um cenário muito peculiar e uma imagem bem diferente de Nova York. Aqui, só vemos prédios residenciais, um Central Park vazio e ruas sem táxis amarelos.

Não quero me aprofundar em críticas, apenas deixar registrado como achei esse filme belo - sendo "belo" tudo aquilo que causa alguma reação na gente. É para rir, chorar e se emocionar. Seja por se identificar com todos ou nenhum dos personagens. Como diz o pôster do longa, família não é uma palavra, é uma sentença.

Para ouvir depois de ler: Nazareth – Ruby Tuesday

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

No meu tempo, o amor...

Tirando a época em que era ministrada por um pastor evangélico, sempre fui muito com a cara dos meus professores de filosofia, sociologia e semiótica. Há algo nesses estudos que deixa a pessoa mais em paz no relacionamento dela com o mundo.

Em uma dessas aulas, lembro de um professor contando histórias sobre sua filha caçula e rindo muito dessas pessoas que dizem que quem não brincou na rua ou escalou árvores não teve infância. Afinal, são experiências diferentes. Nem melhores, nem piores, apenas diferentes. Nos tempos dos nossos bisavôs, o povo casava com 15 anos de idade. O conceito de infância é algo que muda de acordo com a época, a religião, a cultura etc.

Na verdade, penso que é assim com quase todos os assuntos. Pessoas mais velhas do que eu, mesmo as que usam com maestria o computador, tendem a usá-lo de forma que ele termine seu serviço ali, ou seja, não interagem com ninguém através dele. Para essas pessoas é praticamente impossível explicar como, via internet, nascem amizades e amores.

A era digital mudou toda a forma prática da sociedade e o amor entrou nisso junto. Ele, que também muda conforme mudam os meios pelos quais se estabelece a relação com o corpo do outro, está tão inserido no mundo virtual quanto qualquer outro tópico. Desde sempre, em relacionamentos, saímos do nosso aconchego e atravessamos um espaço de dúvidas para encontrar o outro. Esses questionamentos – ou obstáculos? – são ideológicos, religiosos, estéticos, políticos. E o que o amor na era digital permite é o de passear por ele, explorá-los um pouco mais, antes de pular de ponta no desconhecido.

Antes, exáminavamos a aparência da pessoa, sua presença e seu cheiro, para ver se valia à pena ir mais fundo, e descobrir sua personalidade, caráter e valores. Mesmo que só cliquemos nos avatares que nos chamam atenção esteticamente, acho que essa ordem se inverte e, no mundo virtual, a pessoa não tão atrativa chamará mais atenção que uma pessoa mais bela se tiver interesses em comum declarados – mesmo sendo no formato de uma comunidade do seu livro ou filme favorito.

A mais nova versão do amor para além do corpo é esse amor digital, que é sem corpo! A pessoa te causa uma sensação boa com palavras que te manda por e-mail, MSN, SMS e, então, amor digital, nesse sentido das palavras, joga fora o corpo, mantendo apenas o que nos liga a ele sem que ele esteja entre nós: o intelecto.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Quem é você no dia?


Querem me fazer acreditar que todos os gays são obrigados a saber o que se passa no que chamam por aí de mundo pop. Quer dizer, estou dentro do clubinho se assistir novela, ler sites de fofoca, sair para boates todos os dias e saber cantar as músicas de uma cantorazinha menor de idade que usa um cifrão no lugar da letra S.

Se você ainda não viu o último tombo da Shakira, no show em Lima, você não é ninguém na noite. Ninguém vai querer conversar com você, não importa os filmes e livros clássicos que passaram pelos seus olhos, essa é a informação relevante do dia, a nova tatuagem da Rihanna. É rei do mundo purpurinado quem tem vasto conhecimento nesse raso mundinho.

Isso me irrita. É que depois de virar madrugadas lendo “Os Miseráveis” e de ouvir Beatles ainda em vinil, eu me sentia um idiota ao ler “Poliana” e ouvindo Britney Spears. Saber diferenciar bom e ruim pode não ser suficiente na hora do gosto e não gosto. Mas cheguei à conclusão de que cada coisa desperta algo diferente em mim e que há espaço para tudo se eu souber hierarquizar de forma clara aquilo que contribui para o meu caráter e aquilo que é pura diversão efêmera, como lasanha congelada.

É um absurdo colocar todos no mesmo pote, mas me vejo tão rodeado de gays que só se preocupam com modinhas que temo por eles no futuro. É muito mais social, eu acho. Afinal, os que não souberem tratar de certos assunto são excluídos de uma minoria que já não é assim tão incluída na sociedade. Ou seja, chegamos num ponto do aceitamento social do gay entre os gays onde ele precisa esconder seu José Saramago debaixo da sua blusa da Mariah Carey. É uma maluquice isso.

Alguém me salva?

Não é que eu não me divirta entre eles. Eu ouço Lady Gaga, eu gosto de dançar, eu uso skinny jeans. Mas há tão mais do que isso no mundo, meu caros! Tão mais!

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Quer ser meu amigo?


“Diga-me com quem andas e te direi quem és” é um ditado exagerado – ter amigos diferentes de você faz parte da graça deles. Mas é fato que ter amigos já sinaliza algo. Amizade, para mim, vem antes de outros tipos de relacionamentos, como os amorosos ou paternos, pois trata-se do primeiro objetivo moral da vida de qualquer ser humano de cultura. Ter amigos é ser alguém.

Um amigo que te traiu pode voltar a ser seu amigo? Uma malvadeza, digamos assim, torna tudo inválido? E quando a situação é a de um amigo que traiu um outro amigo seu, como fica? Do lado de qual amigo você fica, como medir qual é mais amigo? Um coração partido por uma amizade cicatriza mais rápido?

Para Aristóteles, saber ser amigo equivale a ser ético e é aí que entra essa questão, ao meu ver. Para ser amigo, basta alguém que sabe o que é o mal, mas deseja o bem. Penso assim e, por isso, vejo certa exclusividade na amizade. Reparou que quem leva a sério amizade costuma dizer que tem poucos amigos? Acho que é por aí. Não dá para considerar qualquer chapa de boteco seu brother e confessor particular. O que não quer dizer que não se possa ser agradável e sorridente a muitos – mas é que um amigo verdadeiro merece mais que isso.

Não há amizade que se sustente por interesses – e cabem nessa categoria mais coisas do que podemos imaginar. O amigo, como pessoa, não pode ser um meio para um fim, como status, dinheiro ou qualquer tipo de vingança, e esses interesses às vezes vem em forma de armadilhas tão bem planejadas que a mais perspicaz das pessoas é capaz de não enxergá-las.

Como em todos os relacionamentos, são as coisas relevantes do começo que se tornam insuportáveis no final. Saber analisar isso é a chave. Só me basta dizer, nessa minha reflexão existencial boba de hoje, que a amizade deve ter fim nela mesma e que cada um deve saber de si.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Algo que pensei nos últimos dias

Foi Santo Agostinho, no terceiro século da idade média, quem percebeu pela primeira vez a conexão da inveja com a constituição primeira do ser humano. Ele elaborou uma frase sobre seu significado: “Video, sed non invideo”, ou seja, “vejo, mas não in-vejo”. Quer dizer, então se vejo, posso invejar. O erro – não dele e sim nosso – é atribuir inveja ao desejo pelos objetos dos outros apenas. É possível ter inveja em vários níveis, inveja da aparência e dos valores de terceiros até.

Exemplo? Que tal um estudo da Universidade Estadual de Washington sobre egoísmo? Ele demonstrou que certos atos de altruísmo, ao invés de melhorar a nossa reputação, podem fazer com que os outros não gostem da gente.

Em uma série de testes, os pesquisadores dividiram os voluntários em grupos de cinco e deram a eles “pontos”, que poderiam ser guardados ou usados para “comprar” vales-refeição. E disseram que abrir mão dos pontos aumentaria as chances do grupo de receber uma recompensa em dinheiro. Na verdade, enquanto a maioria fazia trocas justas de um ponto por um vale, alguns dos membros dos grupos eram atores e agiam, propositalmente, de forma egoísta, segurando todos os pontos para si, ou altruísta, abrindo mão de vários pontos em troca de menos vales, para que o grupo todo recebesse a recompensa final.

O que aconteceu foi que, ao final, a maioria dos voluntários de verdade disse que não gostaria de trabalhar com os egoístas de novo, obviamente. Mas a surpresa foi que grande parte deles também declarou o mesmo sobre os bonzinhos.

Pois é, até a pesquisa diz, bonzinho só se fode. Esse ressentimento está associado à inveja, acho. Pois vem muito mais de uma vontade de “ser como aquela pessoa” do que “não quero que aquela pessoa seja assim”. Tanto, que era a caridade dos colegas desprendidos que fazia os outros se sentirem mal – é que, no meio dos diferentes, se você acha que eles têm razão, você se sente pressionado a agir da mesma forma.

Na mesma linha de raciocínio estão todos esses que têm preguiça de discutir sustentabilidade, vegetarianismo, reciclagem de lixo, autoconhecimento, consumo consciente. Eles sabem que são ideias e conceitos mais corretos do que aqueles que levam em sua vida pessoal, mas a falta de força de vontade para mudar traz uma culpa por ter essa preguiça de fazê-lo – e é ela que alimenta essa inveja travestida de raiva travestida de indiferença. Admitir que se fez algo errado é bom, mas não torna o erro melhor.

Não estou propondo muitas discussões aqui. É só algo que pensei nos último dias.

Para ouvir depois de ler: Oh No! - Marina and the Diamonds


quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O clube de matemática do Sargento Pimenta

Para quem se coloca a pergunta “o que é o amor?” a resposta pode ser, basicamente, qualquer uma. Ganhar uma rosa sem motivos, ganhar uma rosa no aniversário, ganhar uma rosa depois do sexo, ganhar uma rosa depois de um soco. Tudo isso é amor para alguém. Jacó e Raquel, Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Frank e April, Lady Gaga e Alejandro.

E o que amor é para você? As cobertas de domingo, a festa hype de sábado, estar sempre rindo, estar sempre sério, estar nunca sozinho ou uma experiência profunda do erotismo, do desejo pelo corpo belo, do arrepio instruso e certeiro. Para mim, ele é tudo isso e mais, é algo que nos tira da racionalidade – queria usar a expressão “salva da racionalidade”, mas talvez não seja bem assim, afinal.

Mas o amor não é cego, senhores. Você pode até não escolher a quem vai direcionar seus pensamentos, mas eles só inundam sua cabeça se você deixar. Nos sentimos atraídos por todos, pois somos seres ligados às sensações e às fantasias, mas na hora do vamos ver há uma lista infinita de empecilhos bem reais. E acho que aí está a grande questão. A questão que move milhões de dólares em filmes, cosméticos e comidas: uma coisa dita tão boa, tão celebrada, não devia fazer sofrer, certo?

O fato é que ninguém acorda e vê uma macieira no quintal de casa. Explico: havia uma semente que foi plantada, cuidada e germinou. Tudo, absolutamente tudo, que faz um amor acender ou apagar, sempre esteve ali. O problema é que a macieira demora anos para estar totalmente crescida e esse intervalo de tempo causa a impressão do “de repente”. Acredite, nada nesse mundo acontece de repente. Ao mesmo tempo, não há nada novo debaixo do sol e todo o código daquela árvore estava adormecido naquela sementinha; ali dentro já havia uma árvore inteira. Só que você não viu.

Quando botamos o padrão do amor romântico no topo de prioridades e acreditamos na sua ilusão, estragamos o amor, pois o romantismo é apenas “uma das” formas do amor. E o preço dessa contradição é pago em lágrimas. É a infelicidade pelo desvio do padrão. Se tratarmos o amor como uma lista de regras, como uma caixinha na qual devemos nos encaixar, ele nega seu propósito original e, pela lógica das coisas desse mundo, deixa de ser amor. Concorda?

Já acho suspeito quando dizem que "tal me pessoa me completa" - pois, afinal, a gente se soma, mas todos já estamos completos -, então nem sei o que dizer do fato de que, no fundo, estar em um relacionamento é atestar que você realmente acha que nenhuma das outras milhões de pessoas no mundo tem a ver com você, mesmo que você não tenha conhecido 0,01% delas nem superficialmente.

É que o amor-paixão-adrenalina desaparece na mesma velocidade com que chega e tudo o que resta são bitucas de cigarro no tapete. Quando o ar ainda fede, dizemos que jamais cairemos de novo nessa ilusão romântica. Mas basta respirarmos fundo no ar novamente limpo para estarmos lá, criando novos laços. Só não pode cair para a falta de respeito, que as vezes parece natural diante do excesso de intimidade.

Essa é a vida, segundo canção de Regina Spektor: você é jovem até não ser, você ama até não amar, você tenta até não conseguir, você ri até chorar, você chora até rir e todo mundo respira até seu último suspiro. Você espia dentro de si e pega as coisas que gosta e tenta amar as coisas que pegou. E aí você pega esse amor que você criou e deposita no coração de outra pessoa, que pulsa o sangue de outra pessoa. E andando de braços dados, você espera não se machucar, mas mesmo se machucando, fará tudo de novo.

É preciso coragem para pular de ponta numa piscina – bem funda – de improbabilidades. Acontece que é intraduzível a sensação boa de amar. E é bonito exatamente porque pode trazer junto com ele tanta dor, exige esforço e empenho, então precisa compensar o sofrimento. A pergunta, no final, é essa. Como anda essa equação por aí?

Para ouvir depois de ler: Real Love - John Lennon

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Sobre política

Dilma, Serra, Marina, Plínio e o cacete. Época de eleição, especialmente as presidenciais, é época de refletir sobre a última gestão, sobre as mudanças que aconteceram e as que queremos que aconteçam. A gente vive num país de merda, onde eu estou aqui, na frente de um computador que eu já acho ultrapassado, enquanto do outro lado da rua tem um cara dormindo no chão, sem casa para voltar, sem dinheiro para comprar comida, sem lugar para tomar banho; famílias inteiras vivendo com metade do meu salário “que não dá pra nada”. A democracia é muito jovem por aqui e vai demorar para nos juntarmos aos peixes graúdos em muitos assuntos.

Eu não acho legal viver num país que posa de bacanudo pros gringos enquanto tem gente dentro dele passando fome, acho isso um grave problema de priorização. A pose pode gerar respeito e atrair investimento, mas aplicados da maneira errada, nada muda aqui dentro de verdade. Uma coisa que não muda mesmo, por exemplo, é minha vontade de ir embora. Mas ó, líderes não são perfeitos e as imperfeições dos líderes que escolhemos são reflexos das nossas. Entretanto, não devemos mudar de líder, devemos mostrar a eles que tipo de mudanças queremos deles.

Política é um jogo de ego e de manipulação mental via mídia. O candidato promete um salário mínimo de 5 mil reais, enquanto outro promete gás de cozinha para pobres que nem conhecemos. Por que não votamos no primeiro deles, já que sua proposta é a melhor pra gente? É porque ele é tosco, tem um cenário ruim e uma cara feia. Já aquele que faz promessas menores, as faz com mais convicção, num cenário limpo, lindo e iluminado, e as imprime em folhetos coloridos e com fotos grandes de suas imperfeições de pele mascaradas por programas de computador. É ou não é?

Por que pensar sobre o meio ambiente é coisa do Partido Verde? Por que distribuição de renda é coisa do PT? Por que privatização é coisa do PSDB? Todos são assuntos que interessam a todos e não devemos escolher qual assunto/partido queremos discutir agora. Tudo deve ser levado em consideração o tempo todo. Meu incômodo é que existem pautas que, com a globalização, rodam o mundo. Casamento gay, por exemplo, é o assunto do momento. Mas as vezes me pego pensando que abriria mão dessa luta com um sorriso no rosto se me garantissem afinco verdadeiro em todas as promessas de melhor ensino, menos violência, saneamento básico e energia elétrica aos pobres. Anda não dá para pedir menos homofobia do Seu Zé, um sem educação, no sentido escolar e/ou erudito, criado numa favelona onde “viados” são estrangulados todo dia.

Enfim.

A mentalidade conservadora enfatiza a responsabilidade que temos pelas nossas próprias ações enquanto a liberal nos traz o pensamento de que devemos tratar os outros como gostaríamos de ser tratados. O erro está, portanto, em jogar cada coisa para um lado, enquanto deveríamos unir essas formas de pensar. Ah, mas não estou falando de candidatos e sim do nosso cotidiano. Enquanto a galera não perceber que o pessoal é o global e que o pessoal é o político, nada anda. Vivemos em comunidade e esse povo maquiado que você vê no palanque vai mudar de discurso assim que for conveniente, te garanto. É a gente que precisa mudar isso daqui – então não jogue sua parte da responsabilidade em cima de uma urna eletrônica.


Ouça depois de ler: Madonna - I'm So Stupid

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Orações para todos


Nos Estados Unidos, é muito comum fazerem filmes exclusivamente para a TV. Antes, isso era considerado um trabalho menor, mas hoje não é mais assim. Um filme para TV concorre a prêmios exclusivos e, apesar de não ter reprise, sempre acaba na internet e em DVD. Ironicamente, isso alavanca a audiência. A aposta é de que todo mundo vai comentar do filme no dia seguinte – ou mais cedo ou mais tarde – e antecipar-se à modinho é sempre algo interessante para os americanos.

“Prayers for Bobby”, do ano passado, foi um desses. Produzido pelo Lifetime, que pode ser considerado um canal dedicado às donas de casa, o longa é inspirado no livro "Prayers for Bobby: A Mother's Coming to Terms with the Suicide of Her Gay Son", de Leroy Aarons, ainda sem lançamento em português. Um livro que, como o nome diz, conta a história real de uma mãe cujo filho cometeu suicídio depois de sua família não ter aceitado sua homossexualidade.

No elenco está Sigourney Weaver, atriz que ficou famosa nos anos 1980 devido aos filmes de ficção da série “Alien” - hoje com 60 anos de idade. Com esse papel, ela foi indicada para o Emmy de 2009. Ryan Kelley, de 23 anos, nome mais cotado para o filme "Ben 10", faz o papel do jovem.

Na verdade, a história é mais complexa: a mãe é uma católica fervorosa e todos, inclusive o garoto, começam a história tratando a inclinação sexual "diferente" como uma doença causada por sua falta de fé. Portanto, algo totalmente curável com a leitura da Bíblia, grupo de orações, idas à igreja, pescarias com o pai e o irmão, terapia e, claro, encontros com meninas escolhidas pela mãe - que corrige até a maneira como o garoto caminha.

Bobby tenta, mas não consegue mudar sua maneira de pensar e sua atração por pessoas do mesmo sexo. Sentindo-se preso, decide morar fora um tempo, com sua prima, em outra cidade. Lá, descobre lugares que o aceitam e pessoas que o entendem, incluindo um namorado que lhe é fiel. De volta à sua casa, para mostrar como está feliz, tem seu estilo de vida rejeitado por completo e decide acabar com sua própria vida. O filme parte daí, mostrando o que esse ato causa na estrutura emocional da família.

Não é por acaso que a taxa de suicídios é explosiva entre jovens homossexuais, principalmente entre efeminados e usuários de drogas – legais ou não. Uma coisa estúpida é apanhar na rua porque você é gay, outra é chegar no conforto de seu lar e ouvir um “bem feito”. Não há quem resista a tanta pressão e angústia. Por isso, o rumo do filme é comovente para praticamente qualquer um que o assita. A denúncia ali está muito além de orientação sexual.

No mundo inteiro, todo dia, famílias de todos os credos e classes ainda encurralam seus filhos diante da possibilidade de que eles desenvolvam qualquer tipo de comportamento que não o esperado pelos pais. Isso gera apenas discussão, depressão, desgaste e revolta. Como diz a mãe de Bobby: se antes de julgar, todos procurássemos saber com o que estamos lidando, sob todos os pontos de vista, a vida seria melhor.

Recomendo esse filme - que é facilmente encontrado na web para download. E não é coisa de militância nem nada. Apesar de alguns clichês, o filme não é sentimentalóide e é sóbrio na discussão a que se propõe. A história é comovente e, aposto, está levando muita gente às lágrimas.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Terapia com "O Rei Leão"


Estava pensando em como "O Rei Leão" é um dos meus desenhos animados favoritos. Vi e revi nos cinemas várias vezes e ainda vejo e revejo o DVD sempre que bate vontade. Os traços são lindos - dão emoção aos animais sem que eles pareçam demasiado humanos -, a história é envolvente, colorida, animada e profunda. Profunda até demais.

As lições aprendidas com o "ciclo da vida", a traição de Scar, a culpa de Simba, o estilo de vida "Hakuna Matata" e a revolta das leoas são metáforas para alguns dos mais complexos movimentos filosóficos ou socias já vistos no planeta.

Exemplos?

Timão diz ao achar Simba no deserto: "Quando o mundo vira as costas para você, você vira as costas para o mundo". Junto ao Timão, ele ensina que o leãozinho não precisa fazer aquilo ao que foi ensinado só porque foi ensinado assim, que ele tinha outras maneiras de viver.

Quando Rafiki, aquele babuíno, conversa com Simba, já adulto, o leão diz ter vergonha do seu passado, pois não pode mudá-lo. No que o macaco responde com uma paulada na sua cabeça. Ele apela mas ele diz: "Você não pode fazer mais nada agora. Está no passado". Simba responde: "É, mas ainda dói!". Nisso, Rafiki vai dar com o bastão na cabeça do felino novamente. Ele, já prevendo isso, desvia. Poxa, tem lição maior do que essa?

Belo filme.

domingo, 18 de julho de 2010

O voto gay?

Outro dia, li que Dilma Roussef fechou uma parceria com um pastor evangélico, cujo nome não recordo, para assessorar sua campanha direcionado a esse público, que representa 25% dos eleitores. Na proposta, ela assinou embaixo do que foi pedido por ele em contrato: não virão do poder Executivo leis que aceitem o aborto, o casamento gay e a adoção de crianças pelos cidadãos GLBT.

Isso me fez pensar: em assunto político, foi uma boa troca? Quer dizer, não sei quanto dos eleitores é gay, mas o número soma aos héteros favoráveis à causa. Talvez seja maior que esses 25%. De qualquer forma, o treco já foi assinado. O negócio é que ser à favor ou contra não basta para ganhar nem perder meu voto.

Um exemplo? Marta Suplicy, como sexóloga, saía por aí mandando beijos para a comunidade gay, mas foi a primeira a apontar a homossexualidade não-pública de um rival como objeto de chantagem e barganha.

Marina Silva tem algumas das propostas mais interessantes para o meio ambiente, por exemplo, mas já disse que não tem o casamento gay como "correto", por causa de sua religião, mas que direito civil é direito civil e todo mundo devia tê-los. A declaração causou tanto frisson que abafou o que ela disse depois, e apenas a primeira parte de sua fala tomou os jornais. Portugal tem um presidente católico fervoroso que não teve medo de aprovar o casamento gay declarando aos quatro cantos que achava errado aquilo, mas que era uma questão de dar ao povo o que ele quer.

Acho que faz sentido e que poderia ser caso dela. Se tem gente por aí achando lindo o movimento gay, mas nos bastidores assinando contratos jurando que vai deixá-lo às moscas, talvez o voto em alguém abertamente contra fizesse mais sentido. Olha a que ponto chegamos! Enquanto isso, Serra se diz favorável, não assinou nada com ninguém e, cá entre nós, tem mais know how do que as outras candidatas juntas. Mas dá uma preguiça dele, né?

Só sei que nada vai mudar de verdade com nenhum deles. Casamento gay é uma pauta do momento, mas esse país aqui está longe de não ser preconceituoso - e não é legalizar a união civil que vai fazer isso. Contra, a favor, pouco importa. A lei já existe, é só o Supremo mudar a interpretação.

Semana passada, isso aconteceu na Argentina e ela tornou-se o primeiro país da América Latina onde casamento entre pessoas do mesmo sexo é permitido. Aí, o mesmo portal de internet que escreveu uma matéria ótima sobre o assunto, foi o que linkou o texto com um banner sobre o resultado de um jogo de futebol - numa alusão ao tima perdedor, indiretamente chamado de "viado". E o melhor: várias pessoas ao redor, as mesmas que não se importam com sua orientação sexual e são super tranquilas e cabeça aberta, foram as primeiras a divulgar o negócio, rindo da piadinha que algum estagiário imbecil fez dentro do site.

Penso que, se hoje legalizassem o casamento gay, adoção de crianças por gays e leis anti homofobia, nada mudaria na minha vida. Não vou comemorar o passo da Argentina enquanto taxistas não pararem porque eu dei sinal de mão dada com meu namorado, enquanto existirem skinheads fazendo ronda na rua Augusta, enquanto todo mundo fizer piadinhas no seu aniversário de 24 anos, enquanto héteros têm vergonha de usar blusa rosa, enquanto os times de futebol perdedores forem xingados de "bicha", enquanto tem gente com medo de ir para casa sozinho.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Roqueiros de verdade não reclamam

Flashrock: O evento promovido pela Converse reuniu um monte de bandas muito boas (e outras nem tão boas, mas tá valendo) no Lapa Multshow, em Belo Horizonte. O negócio era no Dia do Rock, numa terça, e totalmente de graça. Obviamente, a procura é grande e chegar cedo é pré-requisito para se divertir. Quem não fez isso ficou de fora. Muito, muito ruim, mas não vale reclamar. Você realmente achou que um evento desses – de graça – ia ser vazio, tranquilo, seco, rápido? Quer isso, paga 200 reais em showzinho no Palácio das Artes, espertão. Todo mundo pegando boi e ainda fica de mimimi. Organização e segurança é uma coisa, o som das bandas é outra. E, todos sabemos, um não tem a ver com o outro.

Discutir rock: Pode ser igual discutir religião, livros favoritos, ídolos de longa data. Uma coisa é falar que “o som de tal banda é pesado demais e não me agrada”, outra coisa é falar que “a banda é baranga e que qualquer um faz um som melhor." Essa segunda afirmação é uma polêmica gratuita e, na realidade, uma ofensa. Discutir assim, na verdade, não é discutir. É xingar, simplesmente. Nenhuma música é, de fato, boa ou ruim, pois adjetivos são subjetivos. Músicas te agradam ou não. É muito chato esse povo que adora uma discussão, contanto que ele tenha razão no final. Gente, pode saber, a banda que você mais odeia do fundo do coração tem muitos fãs. Então vamos todo mundo ficar de boa?

SWU: Puta que pariu, esses ingressos são muito baratos, parem de falar o contrário. Estamos em um país pobre, eu sei, mas é só refletir para concluir a mesma coisa. São bandas gringas que vieram de muito, muito longe tocar aqui. Ok, um festival grande, nos Estados Unidos, tem ingressos que custam o equivalente à 80, 90 reais. Mas ó, a meia-entrada do SWU é 120 reais. A diferença é que as bandas não moram aqui e os organizadores pagam aviões, vistos, transportes e hotéis para os membros, empresários, familiares e instrumentos deles. Além do cachê, claro. Viajar pra lá pode ser complicado, para muitos já que o show é em Itu, mas o ingresso sai em 6x no cartão e os shows só rolam lá pra outubro! Yeah!

Post assim, do meio do nada, mas eu fico vendo essas coisas ao redor e me revolto com a falta de noção da galera, com a mente pequena e falta de respeito das pessoas mesmo. E o espírito reclamão do brasileiro? Tô fora.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

E subi de volta


Tive que descer na portaria do prédio.

- É você que está buzinando?
- Aham.
- Então, você tem celular não?
- Oi?
- Liga pra pessoa que você está esperando. Ou então toca o interfone ali - apontei - porque parece que a pessoa não entendeu que a buzina é para ela e não é justo você encher o saco de todo mundo da rua com sua buzina, é?

E subi de volta.

domingo, 27 de junho de 2010

"Kick-Ass" kick ass!

Nunca fui fã de quadrinhos por motivos que não vem ao caso. Mas nunca escondi meu gosto por filmes de super-herói. Não sei se fui eu que cresci ou se os produtores que perderam a cabeça, mas produções como “Hulk” e “Transformers” não me chamavam atenção. São filmes muito afetados e, de tão irreais, não me causam interesse.

Não que “V de Vingança”, “Watchmen” ou “O Cavaleiro das Trevas” sejam realistas, mas são um pouco mais do que os filmes de super-heróis clássicos e talvez exatamente por isso me causem mais fascínio.

Quando fui assistir “Kick-Ass” só sabia que o filme tinha muita violência. Não tinha ideia nem da sinopse da produção. E foi uma agradável surpresa.

Na vontade de se tornar um herói na vida real, um adolescente arranja uma fantasia e sai por aí querendo combater o crime. Mesmo desengonçado na missão, ele inspira um pai e sua filha, ambos muito mais bem treinados, a fazerem o mesmo e acabam numa acirrada briga com os chefes do tráfico de cocaína em Nova York.

Dirigido por Matthew Vaughn – produtor dos filmões de ação de Guy Ritchie – “Kick-Ass” mistura violência e sangue, muito sangue, com comédia e romance. Mas ele não peca em nenhum aspecto. Não há piada sem graça, cena de luta mal feita e nem romance fácil. A visão feita do mundo adolescente americano tem seus elementos universais e o público – especialmente o masculino – vai morrer de rir com os contratempos do protagonista.

E que protagonista! Além de Aaron Johnson ser lindo, ele é engraçado, competente, e suas primeiras cenas como herói são impagáveis. Chloe Moretz, a criança-adulta de “(500) Dias com Ela”, não cresceu, mas já apareceu roubando todas as cenas em que aparece – o filme é quase dela. Tem também Nicolas Cage, mas quase todo o elenco foge aos olhos dos mais velhos, por serem famosos em séries de TV - o que é uma boa estratégia de divulgação, diga-se de passagem.

Referências ao mundo adolescente de hoje não faltam. No meio das claras citações aos filmes e aos quadrinhos, os personagens lidam com MySpace, Facebook e YouTube, coisas normais na vida de todo mundo hoje, mas que insistem em não existir nos mundos fictícios – já reparou como em nenhum filme ou série as pessoas resolvem as coisas por e-mail ou conversam no MSN?

O filme é baseado numa HQ que nunca li, não posso comentar a adaptação. Mas como uma obra cinematográfica, é muito bom. A narrativa é rápida, mas sem atropelos, e duas horas passam voando, com perdão do trocadilho. É desses que verei mais algumas vezes, com certeza.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Clipes de papel

Dia dos Namorados – além de poder ser a data internacional da expectativa frustrada quanto aos presentes – é a data onde solteiros e solteiras se reúnem para brindar a solteirice. É curioso que uma data essencialmente comercial mexa tanto com o orgulho de todas as pessoas. Pela cidade inteira, no dia 12 de junho, tem eventos apenas para casais ou apenas para solteiros. Precisa mesmo ser um versus o outro?

Acho que estar acompanhado é mostrar que você tem atributos suficientes para ter alguém os querendo apenas para ela, é fazer parte do famigerado e clichêzento “final feliz” de mais da metade dos filmes de Hollywood. Mas é também fazer parte daquela parcela de gente careta, que não frequenta todas festas ou os restaurantes da moda. Todo mundo tem histórias de amiga que é a melhor companhia do mundo, mas que some quando começa a namorar; ou aquele amigo que simplesmente perde todo o seu senso de humor quando ao lado da noiva.

No final das contas, todo mundo sabe que é completamente e perfeitamente possível viver feliz sozinho desde que esta seja uma decisão espontânea e movida por um desejo genuíno. A solidão imposta à revelia pelas contingências do destino é tratada, especialmente hoje em dia, como uma catástrofe existencial. Bobagem, não? Mas, vendo o cenário por inteiro, estar solteiro é uma coisa altamente celebrada e que movimenta bilhões em academias, salões de beleza e lojas de roupas – claro que não estou dizendo que todo mundo frequenta esses lugares apenas para ficar atraente para outras pessoas, mas você sabe de que tipo pessoa estou falando.

Então é o seguinte: de um lado ficam casais felizes e de outro os solteiros, divididos entre os orgulhosos e os envergonhados. Mas não devia ser assim. Estar acompanhado não é, por conta própria, motivo nenhum para se sentir superior. Vivo dizendo que categorias em que você não teve poder de escolha não podem abrigar orgulho nem vergonha – como nascer homem ou mulher, hétero ou gay. E, nesse caso, a regra acaba também se aplicando, mesmo que a solteirice seja de ocasião, e não opção. Quem disse que todo casal é feliz? Quem disse que todo solteiro é infeliz? Ficar o “mês dos namorados” inteiro falando como você ama estar solteiro pode ser sinal exatamente do contrário...

A ideia do amor romântico, do feriado debaixo das cobertas e do delivery de pizza engana muito. Estar junto dá um trabalho danado e esses momentos são, na verdade, raros. Alguém me disse que "estar com alguém é um trabalho árduo fantasiado de aconchego", adorei a frase. Da mesma maneira, a ideia do solteirão bon vivant, que pega todo mundo e cada dia está com outra pessoa sem ligar a mínima para sentimentalismo, é falsa. Além de financeiramente cara. São poucos os que conseguem passar a vida toda assim.

Dia 12 de junho é um dia como outro qualquer em escala global. Igual o dia que você passa no vestibular, tem um filho, quebra a perna. Um dia normal para a humanidade. E, caso vocês não saibam, casais e solteiros podem sair e se divertir em qualquer outro dia.

O pior é que tudo se inverteu e já conheci um casal que se sente intimidado, não querendo comemorar o Dia dos Namorados para não ofender os amigos solteiros. Que preguiça! Gente, comemore. Primeiro pois, quando solteiros, ninguém tinha esse cuidado com você; segundo pois, afinal, qual outra data namorados têm estabelecida? Natal tem família, aniversário tem amigos. Dia dos Namorados pelo menos é uma coisa “oficial de casal”, entende? Torcia o pescoço, mas só namorando percebi que a data, mesmo que apenas comercial, se torna especialmente interessante para casais adultos e gente casada. É que programinhas e presentinhos todo aniversário de mês de namoro é coisa de adolescente e, com a maturidade, esses mimos podem ir sumindo aos poucos, mesmo que o sentimento de um pelo outro continue intacto. Um simples efeito colateral do excesso de intimidade.


Para ouvir depois de ler: Elastic Love – Christina Aguilera

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Aguilera é conceito

MIA, Ladytron, Le Tigre e mais uma penca de gente foi contratada para dar uma nova cara à Christina Aguilera. Supostamente, seria uma trabalho mais alternativo, mais eletrônico e com menos gritinhos – o que faz muito sentido comercial em tempos de Lady Gaga em alta e Mariah Carey em baixa.

Christina Aguilera falha nessa missão em dois momentos: suas baladas seguem como sempre foram e, em 18 faixas, existem dois tracks de introdução muito fracos e pra lá de quatro músicas com letras muito, muito ruins.

Mas o CD é ótimo. Quer dizer, na primeira ouvida não é tão bom quanto o esperado, mas assim que você se acostuma, é só alegria. Ignorando o péssimo primeiro single, “I'm Not Myself Tonight”, o álbum cumpre – mesmo que de forma mínima – a nova embalagem a que se propõe. Sim, pois o núcleo de Christina Aguilera é o mesmo. A prova são as baladas “Lift Me Up”, “I Am”, composta por Sia, e “All I Need”, uma declaração de amor muito bonita ao seu filho.

Por outro lado, as faixas com a tal proposta eletrônica não deixam a desejar na qualidade nem na originalidade. “Bionic”, que dá título ao disco, é ótima. Dessa leva, “Elastic Love” é de longe o destaque, mas “I Hate Boys” e “My Girls”, com participação de Peaches, também são ótimas. Todas têm letras interessantes e bem pouca da gritaria típica de Aguilera – entretanto, nada de auto-tune.

Como é notável, a latinidade e a sexualidade – dois temas muito entrelaçados – também voltam a percorrer canções da loira, que não faz feio ao cantar sobre sexo dentro do casamento em “Sex For Breakfast”, sexo oral em “Woohoo”, sadomasoquismo em “Desnudate” e masturbação em “Vanity”.

Ou seja, não dá para reclamar. Aguilera nunca teve um estilo 100% definido e seus álbuns são conceituais. Esse foi mais um, com um novo conceito. As acusações de ter copiado Lady Gaga são exageradas, tendo em vista que a mesma vive copiando Madonna, que por sua vez copiava David Bowie ou Debbie Harry.

Há espaço para todo mundo e muitas vezes na história da música o lado criativo precisa mesmo apontar para o lado que dá dinheiro. Mas isso nem sempre quer dizer menos qualidade. E Christina prova isso, pegando o que é tendência e mudando de uma maneira que ficasse confortável para ela. A vida é assim.

Para ouvir depois de ler: Bi~ON~iC - Christina Aguilera