terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

"Nine" é uma chatice

Penélope Cruz merece todos os aplausos do mundo por sua atuação em “Nine”. Ela é, com certeza, a peça mais marcante e fundamental dessa história. Mas isso não pode ser considerado um elogio. Afinal, ela divide cena com Nicole Kidman, Judi Dench e Sophia Loren, atrizes com o rosto tão esticado de plásticas e paralisados de botox, que a gente não consegue saber muito bem onde está o drama, o humor ou a ironia em suas falas.

Para o espanto de muitos, ela não canta mal e sua cena de dança é especialmente sexy. Pena que toda sua participação no filme não soma 30 minutos, o que faz da indicação ao Oscar até um relativo mistério. Sua presença em “Abraços Partidos” é bem mais interessante, mas é bom que isso faz com que Almodóvar baixe a bola, pare de tratar os prêmios como garantidos e escreva um roteiro mais honesto no futuro.

Voltando à “Nine”, é uma pena que ele não passe nem perto da beleza que é “Chicago”, premiado musical anterior do cineasta Rob Marshall. Ele foi pra outro lado do mundo e conseguiu fazer músicas parecidas. A maioria delas é ótima, com um arzinho smoky jazz cabaré, mas uma história se passa em Roma e outro em Chicago! É complicado enxergar onde termina a licença poética e começa o comodismo nas composições -sempre cheias de misturas de idiomas e pobres de rimas.

A história fala sobre um cineasta que está enfrentando uma crise de criatividade – e de meia-idade – e se esforça para concluir seu filme mais recente em meio a confusões e lembranças e romances, envolvendo esposa, amante, uma jornalista de moda, sua mãe, sua infância etc. Tudo foi inspirado no filme autobiográfico de Federico Fellini, “8 ½”.

A história parece rica, e é! Mas é complexa demais e não há como contá-la com a rapidez proposta. O personagem de Daniel Day Lewis sofre por uma tal mulher e o público nem entendeu ainda o motivo, pois não deu tempo de explicar a influência da tal fulana na vida dele. Sem contar que a maior parte das pessoas não entende o tormento que é trabalhar com algo que requer inspiração e acaba achando seus conflitos psicológicos frívolos.

Quando o filme “Piaf” saiu parecia pré-requisito pra ser gay ter assistido. Então eu impliquei e não vi ainda. Mas Marion Cotillard em “Nine” foi interessante. Que moça simpática! Se eu fosse cineasta amarrava essa menina e transformava na nova musa de Hollywood. E talvez isso já esteja acontecendo e eu é que esteja atrasado...

Prefiro nem comentar como as cenas de dança parecem ter sido filmadas no mesmo lugar e nem a participação de Fergie, que dá vergonha só de lembrar. Já Kate Hudson – cada vez mais a cara da mãe - faz uma cena de dança bem legal, pena que na hora de cantar ela erra a pronúncia da única expressão em italiano que há na letra.

Outro ponto é que a fama de sexy das italianas só rola por lá. Pro resto do mundo elas não são lá um estereótipo de beleza por serem cheinhas, temperamentais e nada delicadas. O inverso acontece com os homens de lá que, mesmo peludos e igualmente temperamentais, são considerados deuses no exterior. Um filme que se passa na Itália devia citar isso – especialmente um musical por, historicamente, atrair o público feminino e gay.

Falar nisso, vá ensaiando a tarantela. Lembra dos gays com “Milk” e “Brockback Mountain” e dos negros em “Dreamgirls” e “Hairspray”? Então. Itália é a pauta do verão, e ainda será tema de filmes, documentários e editoriais de moda no mundo inteiro, se prepare.

Aliás, outro mérito de Penélope Cruz é ter ultrapassado o limite latino da carreira. As pessoas não reparam muito essas coisas, mas ela é da safra que foi moda no final dos anos 1990, quando explodiu no mundo todo gente como Shakira, Salma Hayek, Jennifer Lopez, Gloria Estefan, Rick Martin, Enrique Iglesias e muitas outras pessoas que ou desapareceram ou trataram de apagar as origens do currículo. Cruz continua intacta e o motivo é simples: ela atua bem. Mas todo e qualquer adjetivo é discutível, então vamos deixar isso pra lá. Indiscutível é que ser uma espanhola que interpreta uma italiana que fala inglês deve ter dado trabalho.

Ainda assim e mesmo muito premiada, não consigo achar que ela já teve seu grande papel. “Nine” pode ter rendido uma indicação ao Oscar, mas não é a melhor produção para ter na biografia. Prefiro pensar que a carreira dela ainda aguarda algo maior para o futuro, que ela é maior do que os papéis que já lhe foram oferecidos – sempre o de uma mulher sexy e/ou maluca e/ou bandida. Que coisa! Oremos por ela e por Rob Marshall.

Ciao.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Eu não tenho uma tribo

Todo mundo fala muito da discriminação que existe entre as pessoas baseada em sua cor, religião, corte de cabelo ou status social. Acontece que isso é apenas o reflexo do desejo de sobrevivência da identidade de uma tribo. O problema é tratar mal os diferentes, não é se cercar de iguais.

É, caminhamos bilhões e bilhões de anos de evolução, mas ainda não conseguimos escapar dessa programação genética que nos trouxe até aqui. É impossível negar. Você pode ser a pessoa mais mente aberta do mundo e se dizer desprovido de qualquer preconceito, mas não consegue namorar uma pessoa que ouve tal e tal banda.

Não vivemos de instintos primários, como um crocodilo ou uma ameba qualquer, mas o que achamos ser livre-arbítrio é apenas a liberdade de escolha dentro de padrões limitados e pré-determinados pela tribo. Impossível negar que é muito mais confortável estar com gente que tem um padrão de vida parecido com o seu e que freqüenta os mesmos lugares, que tem os mesmos valores.

Cada uma de nossas células é governada por DNAs irmãos, proteínas que não tem olhos para ver o mundo em branco ou preto. Enzimas que não sabem se você é hétero ou gay. Mitocôndrias que não têm ideia do valor do seu contra-cheque. Foda-se. Ninguém pensa assim.

Para ouvir depois de ler: Earth Intruders - Björk

domingo, 17 de janeiro de 2010

Os monstros mudaram de endereço

Todos os mocinhos e moiçolas já foram assistir “Onde Vivem os Monstros”, certo? O longa metragem é a primeira investida infantil do cineasta Spike Jonze e tem levado ao cinema todo tipo de gente, exceto crianças.

Ele foi baseado no livro de Maurice Sendak, original de 1963, que contém bem poucas páginas. Tão poucas que quando você termina de ler, fica se perguntando como farão um filme de duas horas sobre aquilo.

Depois de uma briga com a mãe e com a irmã mais velha, um garotinho chamado Max sai correndo de casa. Corre tanto que chega ao litoral, pega um barco e vai parar numa ilha cheia de enormes monstros. Ele não se intimida, faz contato com eles, conta umas mentiras sobre si e acaba sendo nomeado como rei do lugar.

A trilha foi merecidamente indicada a prêmios e elogiada pela crítica. Karen O., vocalista da banda Yeah Yeah Yeahs, fez um trabalho muito sensível e divertido em vários momentos.

No livro, nenhum dos monstros encontrados por Max tem um caráter definido – sequer têm nome. Isso é óbvio para quem já leu a obra e pôde perceber que ela tem nada mais que nove frases. Isso, claro, dá muito espaço para Jonze, que também escreveu o roteiro, transformar a história no que ele quiser, basicamente. As ilustrações, também de Sendak, são representadas fielmente por criaturas que misturam fantasias de pelúcia com computação gráfica.

Monstros sem nome, personalidade ou gênero definido ganham todas essas características e mais um monte de complexidades inimagináveis e extremamente humanas, incluindo um casal que recentemente terminou um relacionamento e está em dúvida se volta ou não.

O filme causa estranheza, pois é totalmente inverso à lógica de se contar uma história – especialmente se ela for infantil. O roteiro é sugestivo em momentos que devia ser objetivo e deixa espaços vagos na hora das explicações lógicas. O que interessa, basicamente, é ver como as criaturas criadas pela imaginação do garotinho são reflexos do que ele pensa sobre o mundo dos adultos. Se não for visto assim, os acontecimentos do longa não parecem nada mais do que uma série de eventos aleatórios.

Mas, olha, a história é o hype do verão – mesmo que ninguém tivesse ouvido falar nesse livro antes –, então não quero parecer um reclamão que só não gostou pois todo mundo gostou. Pelo contrário!

O que quis dizer é que o filme é lindo, a fotografia é maravilhosa, as músicas são excelentes e a história encanta. O que me incomodou foi a liberdade poética absurda que permitiram Jonze de ter. Sei lá. Ele devia ter escrito um roteiro sobre sua infância - e não ter saído por aí se intrometendo na história dos outros.

Para ouvir depois de ler: Karen O and the Kids – Where The Wild Thing Are OST

domingo, 10 de janeiro de 2010

Palestra gratuita sobre Cabala

Por causa desse recurso do blog de sugerir textos antigos, acabei passando por esse, sobre minhas supostas últimas palavras sobre Cabala. Reli e percebi que eu falei minha opinião sobre o assunto, mas não expliquei o que ela é.

Resolvi mudar isso e comecei a escrever sobre Cabala, explicar origens e conceitos. Todos os textos ficavam longos demais, eu queria explicar coisas demais. A Cabala fala sobre um código secreto que governa o universo, é um sistema de lógica e de conexão entre todas as ações do mundo. É essa complexidade que me impede de fazer um texto sobre o assunto que seja claro, completo e que não seja longo.

Foram várias versões até que vi que o Kabbalah Centre vai dar uma palestra introdutória sobre Cabala e que ela vai passar ao vivo na internet gratuitamente. Acho que indicá-la faz mais sentido. Quem estiver interessado é bem vindo nos links abaixo em suas respectivas datas e horários.

Domingo | 10 de Janeiro | 18h
Para acessar o link, clique aqui


Quarta | 13 de Janeiro | 20h30
Para acessar o link, clique aqui

domingo, 3 de janeiro de 2010

Julie, Julia, Meryl, Amy e Nora!

Senhoras e senhores, estou encantado com “Julie & Julia”, filme que acabo de ver, estrelando Meryl Streep e Amy Adams, até-então-moça-de-um-papel-só. Mas preciso, antes de falar dele, apresentar-lhes sua diretora.

Nora Ephron pode ser alguém que você nunca ouviu falar antes, mas ela está por trás das melhores comédias românticas já feitas. Nenhuma delas é estrelada por uma Julia Roberts esperando que um homem rico a salve. Um traço de Nora é exatamente ter heroínas independentes como protagonistas e também dar um pouco mais de voz ao homem – coisa que raramente acontecia no gênero.

Por isso ela brilhou absurdamente em longas como “Harry e Sally – Feitos Um Para o Outro”, de 1989, “Mensagem Para Você”, de 1999, e como roteirista de “Linhas Cruzadas”, de 2000. Apesar desses méritos – que até lhe valeram três indicações ao Oscar –, ela também é a culpada pelo fracassado “Bilhete Premiado”, de 2000 e pela absurda adaptação de “A Feiticeira”, de 2005 – o que foi essa ideia e como assim um filme sem Larry Tate?

Enfim, esses deslizes valeram um suspiro dos profundos e eu acabei esnobando “Julie & Julia” um tempo. Mas, convenhamos, sabia que não era uma comédia romântica, que era baseada em fatos reais e, ora, se tem Meryl Streep no elenco então a gente precisa ver! E se tem Meryl Streep e não tem o James Bond cantando Abba, melhor ainda.

O longa traça um paralelo entre a vida de Julia Child, famosa autora de livros de culinária e apresentadora de TV, e a de Julie Powell, que quer cozinhar todas as 524 receitas do livro “Mastering the Art of French Cooking” no período de um ano enquanto posta na web sua experiência. O filme é, portanto, baseado em livros, cartas e em um blog.

É curioso se surpreender com Meryl Streep. De fato uma das melhores e mais versáteis atrizes de Hollywood, ela tem como hábito surpreender as pessoas. Surpresas são inesperadas e, se forem rotineiras, deixam de ser surpresa. Esse antagonismo é que me deixa intrigado com o talento dela. Como ela consegue? Já sobre Amy Adams, lembro que assisti “Encantada” e pensei “essa menina vai viver para sempre sendo lembrada por esse papel”. Ledo engano. Julie não é a persona mais complicada de interpretar, mas a imagem de princesinha da Disney não chega perto desse longa. Stanley Tucci também está adorável como marido de Julia.

Esse é um desses filmes que fazem todo mundo sair da sala de projeção com algum plano na cabeça, com uma vontade de mudar algo. Uma reorganizada no armário que seja. Alguns vegetarianos não vão gostar de algumas cenas, mas faça como eu e coma algo antes de entrar no cinema. A tentação nem chega perto daquelas cenas quase pornográficas do filme “Chocolate”, por exemplo, mas existem alguns momentos onde você ouve um coro de “hummm” por entre as poltronas.

Apesar de todo mundo se deliciar no desenrolar da história, senti que faltou um desfecho. É como se o filme acabasse no meio, o que me levaria a chamar sua existência de sem propósito se eu já não tivesse aprendido a lição mais sagrada da sétima arte: não deixar que sua opinião sobre o final apague o prazer que você teve ao longo do filme.

Para quem ficou interessado na história, eis o link do blog de Julia Powell aqui! Bon appetit!

Para ouvir depois de ler:
Simple Kind of Life - No Doubt

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

O primeiro dia seguinte

Apesar de toda a bebedeira e festa da noite anterior, o primeiro dia do ano acaba por me deixar melancólico. Inevitavelmente penso sempre que minha vida não mudou. A falação de “no próximo ano será diferente” sempre acaba por me atingir de forma literal e imediata. Assim, quando acordo no dia primeiro de janeiro e me vejo ainda morando no mesmo lugar de ontem e usando as mesmas roupas de ontem, me dá isso.

Uma absoluta bobagem, eu sei. Pois mudanças grandes raramente acontecem de um dia pro outro. Mas a coisa que mais me evitou ter esse sentimento nesse primeiro de janeiro de 2010 foi constatar que sim, minha vida mudou bastante. Não foi de ontem para agora, mas ao longo de 2009.

Perdi amigos, fiz amigos. Fiquei muito feliz de ter olhado pra trás e ter visto cada lágrima ter valido à pena. A dinâmica das minhas amizades agora é outra, minhas prioridades são outras, minhas companhias também são. Finalmente terminei a faculdade e concluí essa primeira parte de uma subida ainda longa. Esse alívio me deixou mais livre para apreciar a vista e me divertir um pouco antes de voltar a escalar.

Li bons e valiosos livros, vi bons filmes, cantei alto. Me reconectei com conceitos que havia deixado de lado e superei algumas barreiras preconceituosas. E consegui terminar um dos anos mais complicados que tive apaixonado por alguém que me ama de volta. E não existem fogos de artifício capazes de reproduzir esse sentimento.

Para ouvir depois de ler: Thank U - Alanis Morrissette

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Viu essa bagunça da "Men's Health"?


A edição de dezembro da revista de boa forma "Men’s Health" traz nada menos que seis chamadas de capa exatamente iguais às publicadas há dois anos, em outubro de 2007. Pelo visto, metade dos destaques da revista atual contém o mesmo texto da edição lançada há dois anos, incluindo as exatas 1.293 dicas para comer melhor.

Na capa atual, o ator sensação Taylor Lautner, do longa-metragem "Lua Nova", já na antiga, o fodão do Jason Stathem, de filmes como "Carga Explosiva", "Revólver" e "Snatch".

O diretor de redação, David Zinczenko, disse (aqui) que a repetição das chamadas faz parte de uma estratégia da marca: "Foi proposital, trata-se de uma ação conjunta dos nossos títulos", e, logo depois, afirmou que os assinantes receberam a publicação com uma capa diferente.

Bom, proposital a gente já sabia, pois ninguém consegue fazer isso aí sem querer, né? O Gawkor, blog onde eu li a declaração do cara, não caiu na balela e termina o texto pedindo novas explicações do editor e ainda zombando: "Faremos uma nova matéria e uma nova manchete para elas".

Casos como o do "KLB é homenageado pela ONU" (lembra disso?) são corriqueiros na era da internet. Uma revista copiar outra, a gente sempre vê. Não que esse pessoal esteja certo - aliás, pelo contrário - mas é bem comum. Agora, você confiaria em uma revista que republica matérias dela mesma? Essa é a pergunta rondando a ação da "Men's Health".

Vamos lá: são textos sobre saúde, muitos são frios, nada deve ter mudado. Por isso, acho bem válido republicar matérias ocasionalmente. Mas colocar mais de uma republicação num único número, todas da mesma edição antiga, e ainda com as chamadas idênticas e no mesmo lugar da capa já é desaforo demais, não? Sem contar a falta de respeito com o leitor.

Não foi a toa que a imprensa americana não engoliu a desculpa do editor e classificou a duplicação como nada mais que preguiça e descuido. É o famoso caso do "ah, ninguém vai perceber". Mas se tem uma coisa que a web mostrou pra gente foi exatamente isso. Sempre tem alguém que percebe.