domingo, 7 de junho de 2009

Um brinde silencioso

Tem uma música cuja letra reclama que as coisas simples ficaram complicadas demais para minha vida. Bastava que a gente assistisse ao mesmo programa de TV ou tivéssemos o mesmo personagem como preferido e podíamos ser amigos.

Hoje, a cada dia que passa, o círculo se fecha. A lista de “podes” e “não-podes” das pessoas que queremos ao nosso redor vai ficando cada vez mais objetiva – e isso não quer dizer pequena. Longe disso.

E quem dera estivesse falando apenas de beleza. É que por mais feiosa que a pessoa seja, sempre tem alguém que vai achá-la linda. Mas é que essas listas secretas são tanto abrangentes quanto específicas. Não fala inglês? Perde uns pontos. Nunca viu tal filme? Usa tal roupa? Gosta de tal autor? E por aí vai...

Era sobre exatamente isso que eu estava falando no almoço com três amigos: Olívia, uma jornalista de São Paulo; Marcelo, estudante de história e Juliana, publicitária.

Ele começou: “Eu odeio ficar sozinho. Mas, ultimamente, tenho odiado mais ainda a maneira que sou tratado por quem está do meu lado”. Pedimos mais explicações. “As últimas duas mulheres que ficaram comigo simplesmente passaram a ignorar meus telefonemas. Não entendo o que fiz de errado. Não houve pronunciamento ou desculpa alguma, como uma outra pessoa ou porque eu faço tal coisa errada. Nada. Simplesmente decidiram. Não entendo”.

Juliana: “E daí?”. Todos arregalaram os olhos, como pedindo frases completas – e elas vieram: “Você ainda tem isso de sentir mal? Eu cansei. A vida é muito curta e eu já desperdicei tempo demais. Metade da infância querendo ser adolescente, metade da adolescência querendo ser adulta. Não quero passar minha vida adulta querendo voltar a ser adolescente. E quem termina um namorinho de duas semanas e sofre é adolescente”.

Eu apenas observava – estarrecido, diga-se de passagem – quando Olívia tirou as palavras da minha boca: “Você é louca?”. E continuou: “E se você tivesse começado a gostar de verdade da pessoa? Olha, tudo bem que tem essa coisa cerejinha [referindo-se ao símbolo do hedonismo] de que a vida é curta e que se fulana saiu de cena basta partir pra outra, mas não é bem assim”. Silêncio. Todos sabíamos que não era. Mas e era o que?

Essa é a questão, acho. Os antigos códigos de ética dos relacionamentos ficaram cafonas e desceram a ladeira, mas ninguém sabe como substituí-los.

“Vocês acham que as pessoas estão mais exigentes?”, perguntei. Todos falaram um “não” meio arrastado. Marcelo: “Exigências sempre existiram, mas eram outras”. Juliana concordou. “É, agora elas estão mais específicas. Eu não consigo imaginar pontos que fossem comuns o suficiente para unir, por exemplo, um engenheiro e uma atriz”. Olívia fez uma careta – ela detesta quando a profissão das pessoas entra na jogada, diz que isso não tem nada a ver, pois já tinha ficado com doutores e pintores de parede. “Ok, mas com qual deles vocês se casaria?”, perguntei. Ela apenas deu de ombros e engoliu o resto de seu chá gelado.

“Então vamos lá”, eu disse. “Somos quatro pessoas na mesa e vocês três estão saindo com alguém. Como estão indo as coisas?”. Um fez cara de quem estava esperando o outro falar algo antes. Juliana disse que ia bem. Estava há um mês com um outro publicitário e que tudo estava ótimo, apesar de não ter rolado sexo ainda. Olívia disse que seu caso era recente demais. Tratava-se de um rapaz que ela tinha conhecido um ano atrás e visto uma vez por mês desde então e agora, finalmente, tinha durado duas semana seguidas. “A gente combina, mas não sei como vai ser o futuro ainda”.

E por que não sabe? Porque ninguém sabe? Romeu sabia no segundo que viu Julieta, Jacó trabalhou 14 anos de graça para ter Raquel. O que coloca tantos empecilhos hoje em dia nos relacionamentos? É o excesso de opções, falta de auto confiança?

“Nada disso”, disse Marcelo. “Por exemplo, eu estou saindo com uma menina, mas realmente não dá. Ela fica reproduzindo os cânones ultrapassados do Positivismo como se o cientificismo fosse desse jeito". Todos apenas levantamos as sobrancelhas e as interrogações saindo de nossas testas eram quase visíveis. Ele reparou e completou a tempo e com ar sábio: “O que quero dizer é que eu não quero só companhia. Talvez seja uma imaturidade minha, mas o que eu quero é uma pessoa sã e inteligente que, no final das contas, me considere insubstituível”.

Fizemos um brinde silencioso a isso – uma esperança secreta de todos na mesa. Bom, nem tão secreta assim mais.

Para ouvir depois de ler: Björk - All Is Full Of Love


7 comentários:

victor Charlier disse...

Lendo o seu texto e vejo sua sugestão musical.
Só que estou ouvindo outra da Bjork: It's Not Up To You.Sugestivo,não?!

Nem tudo depende de nós.As pessoas estão exigindo demais, e criando expectativas sobre seres inexistentes.
Acreditam num príncipe , que na verdade ,vai ser um eterno sapo.Ninguém está se permitindo a aprender a amar, querem sentir e se embriagar no AGORA.
Acredito e vou acreditar piamente no AMOR.Sou piegas e antiguado, sim!
Isso pode demorar a vir,amei alguns,que um dia se transformaram em outro tipo de AMOR.
Acredito no amor de almas.Talvez seja a minha busca.Já errei, e já me afastei para não magoar, e acabei machucando quem não queria.Complicado?!
As vezes aos meus olhos sim,de repente aos teus olhos não.Somos humanos e complicamos em muitas coisas.Será?!
Acho que seus amigos morrem de medo do AMOR, e você era a única pessoa aberta para isso.Basta ler suas indagações.Seu coração está pronto e cheio de sentimentos lindos.Basta se declarar e viver momentos plenos.

:)

eric disse...

Lembrei dessa aqui:
"Pra quem não sabe amar
Fica esperando alguém
Que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada" Blues da piedade - Cazuza.

Eu, particularmente, sou muito seletivo pra essas coisas. Se é que existe selevitadade em amar e se é que eu sei o que é amor.

Julia disse...

Nossa! eese seu post tocou fundo meu coração.

Nem sei como me expressar... (isso renderia uma conversa longuíssima num buteco qualquer).

As pessoas não sabem amar, essa é a minha única conclusão. São muito burras em ficar procurando uma pessoa que se encaixe perfeitamente na sua vida.

Não fala inglês? Usa roupas estranhas? Gosta de outro tipo de música?

E daí, eu lhe pergunto? E daí?

Não fique a procura da pessoa perfeita. Essa pessoa não existe. Fique aberto à novas experiências. As pessoas não serão menos interessantes só por serem diferentes de você. Ignore o que seus amigos dizem sobre o amor (inclusive eu). Nós não sabemos de nada. Ninguém sabe de nada. O amor não tem regras.

Um engenheiro pode muito bem viver o resto da vida feliz com uma atriz. Uma publicitária, como eu, pode viver muitos anos felizes e apaixonados com um cara COMPLETAMENTE diferente dela.

Você pode muito bem encontrar um grande amor no canto oposto da sua vida.

E isso seria maravilhoso, pode ter certeza.

"Enquanto isso, tem um monte de gente se unindo com iguais, reaprendendo o que já sabem, refazendo o que já fazem, revivendo o que já vivem."

Esqueça as regras e a "lista de não pode". Elas não fazem sentido algum.

.um grande, gigante e imenso beijo pra vc!

qqqqqqq disse...

um engenheiro com uma atriz é coisa de filme, sejamos sinceros.

Isabela, disse...

Me apresente para o marcelo, por favor!!!
Hahaha...

Rafa disse...

gabriel, eu também quero conhecer o marcelo. :P

Anônimo disse...

A graça toda é amar uma pessoa diferente de voce que te ensine a ser um ser humano mais tolerante e mais pleno. É clichê, mas o AMOR não tem regras, o que tem regras são os padroes de relacionamento que voce coloca na cabeça.