domingo, 4 de maio de 2008

Promessas do meio do ano.



Acordei desesperado por jazz. Pensei em ouvir Norah Jones, precisava de canções calmas. Mas coloquei Jamie Cullum. Ele é novinho, mistura jazz e pop e rock de uma forma gostosa e as letras são legais. Aí começou a tocar “Next Year, Baby”, uma canção que fala sobre promessas de ano novo. E percebi que não fiz nenhuma.

Acho que estava cansado de não cumpri-las. Mas vou mudar isso agora. Sim, estamos em maio, mas eis o que quero fazer até o final do ano: esse ano eu quero beber menos. Gastar menos com coisas supérfluas. Quero ir mais vezes ao cinema. Quero tirar minha carteira de motorista. Quero fazer mais tatuagens, ler mais romances, fazer mais amigos. Comer mais doces, receber mais carinhos e trocar sussurros.

Para ouvir depois de ler: Next Year, Baby - Jamie Cullum

domingo, 27 de abril de 2008

Amor de irmão é uma piada.

Quem tem irmãos ou convive com gente pequena deve saber: crianças são capazes de inventar as brincadeiras mais nonsenses da paróquia. E o legal é que, apesar do amplo repertório comum – com jogos do tipo esconde-esconde, taco, chá de bonecas e afins – toda criança teve suas brincadeiras particulares. Como as minhas com Isabela.

Como muitos sabem, Isabela nasceu quando eu tinha seis anos e era a estrela da casa. Foi duro ter de dividir o posto com um bebê que parecia um queijo branco. No conviver, a pessoa absorve um pouco de você e a identificação foi aparecendo e fomos ficando o mais amigos que podemos ser com essa diferença de idade.

Tínhamos, por exemplo, mania de inventar música pra todas as coisas. Quando nossa mãe fazia um pudim, tinha uma musiquinha. Quando pegávamos elevador, tinha outra. Era muito engraçado.

Nosso quintal tinha uma cratera quadrada gigante que meu pai gostava de chamar de “buraco onde vamos construir uma piscina”. Um dia, munido de cubinhos de chiclete, fazia bolas com eles e cuspia dentro desse buraco. Um a um, logo havia uma pequena plantação de bolas vazias e vermelhas dentro da piscina. Chamei Isabela e disse: “Tá vendo aquilo? São ovos de aliens”.

Hoje nosso catálogo de piadas internas é tão vasto que, num almoço em família, peguei meu avô dizendo pra minha mãe: “Eu não entendo nada que eles conversam”. Claro que não. Uma conversa nossa, em dias de bom-humor, envolvem falas de filmes, séries, rimas, trocadilhos e musiquinhas.

Explicação? Até hoje não achei. Mas são memórias inexplicáveis que só me fazem sorrir.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Um álbum saboroso!

“Hard Candy”, o novo CD de Madonna, vazou na internet no final de semana e me causou dois alívios. Primeiro pois eu estava muito curioso e agora, finalmente, ouvi as canções. Segundo pois pude ouvir e concluir: ele é bom!

Estou bem aliviado pois, quando vi a capa, eu não acreditei. Achei estranha. Quando ouvi o primeiro single, “4 Minutes”, eu morri: é uma música estranha, com uma letra pra lá de fraca, com buzinas e featuring Justin Timberlake.

Mas o álbum tem um conceito e letras muitos mais profundas do que as que esperamos de um CD dance. Ele começa com “Candy Shop”, uma canção fraca mas gostosa que abre o track list. Aí vem “Give it 2 Me”, uma música produzida pelos Neptunes. Nada de sexual na canção, ok? Fala sobre “deixa comigo que eu dou um jeito, ninguém vai me deter”. Super animada e serve direitinho em qualquer pista de dança. Será o segundo single, aposto.

“Heartbeat”, como disse uma amiga minha, é bem legal por ser moderna e, ao mesmo tempo, bem Madonna. Uma música bonita sobre o prazer de dançar e uma ponte muito legal. Depois vem “Miles Away”, produzida pelo Timbaland. Bem eletrônica mas com violões, fala sobre amor à distância. Ela canta nuns agudos e sobe umas notas como ela nunca fez antes. Nota 10, linda música.

Destaque pra “Incredible”, uma canção sobre como você só percebe o quanto as coisas estavam ótimas quando elas ficam ruins. Começa rápida, desacelera e anima de novo. É melancólica, mas dançante. Aí vem “Beat Goes On”, do Kanye West com Neptunes, bem diferente da versão que vazou, mais dançante e com mais malabarismos vocais. Depois tem “Dance 2tonight”, com back vocais do Justin. Dançante e sóbria, tem um ar oitentista e lembra “Kiss” do Prince.

“Spanish Lesson”, a próxima canção, é diferente do resto do álbum – que é redondinho – e tem umas batidas quebradas. É como se Madonna tivesse sido produzida pelo Gogol Bordello aqui. Ela fala umas coisas em espanhol, mas o conceito da música, em resumo, é “dance sem se importar com a letra”. A próxima chama-se “Devil Wouldn’t Recognize You” e é genial - pudera, Madonna prometeu essa canção em "American Life" e depois no "Confessions" e a faixa nunca era finalizada de uma forma que a deixasse satisfeita. A letra é mais pessoal, o clima é um pouco mais pesado, bem menos dançante. Lembra “Cry Me A River”, do Justin. A canção fala sobre como podemos ser prepotentes, achando que estamos fazendo o suficiente, salvos e que nem o diabo nos reconheceria.

Eu adorei “Hard Candy”. Estava com medo de Madonna se perder com esses produtores, mas isso não aconteceu - ela sabe o que faz e esse CD prova isso de uma forma deliciosa. Pharrell Williams subiu no meu conceito! Agora até já acostumei com a capa. A primeira frase de "Voices" pergunta: "quem é o mestre e quem é o escravo?". E "Madonna" é a resposta pras duas perguntas.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Chega de Saudade




Nostalgia é mais comumente referida como um sentimento de saudades que qualquer pessoa pode ter, freqüentemente é associada com lembranças da infância. É a saudade daquela coisa boa que não volta mais. Mas a pós-modernidade é um ciclo, meus senhores, e tudo volta. Por exemplo, o B-52s voltou. Alguém se importa?

Sim, muitos. Mas não é esse o tema desse texto. O negócio é que eu olho ao meu redor e sufoco em saudosismos vazios. Pior que isso: negação às coisas novas só porque são novas. Isso é ficar preso no tempo.

O que aconteceu de bom foi bom e passou. O que é bom e novo – se também é bom – deve ser considerado também. É muito complicado pegar um ex-hippie e colocar ele pra ouvir o novo CD da Madonna, não vai dar certo. Mas um meia-idade que curtia o som de Aretha Franklin ou Dionne Warwick provavelmente vai gostar das músicas de Amy Winehouse.

Aliás, talvez nem seja isso que me revolte. Afinal de contas, nessa vida de modernos, quem tem tempo de parar pra pesquisar sobre o que está sendo ouvido? Se você não se mantiver um pouquinho informado sobre o cenário musical por dia, não dá pra chegar e entender de uma vez assim. O que me irrita um pouco é a nostalgia histérica.

Tipo assim: eu não nego a contribuição que fizeram para a música, mas não é forçar a barra engolir coisas inéditas de Ney Matogrosso, Caetano Veloso e Mutantes? Achar que isso é se atualizar é mentir pra si mesmo – e mentir pra si mesmo é mentir para o mundo. Coisas novas de gente antiga têm uma outra áurea. Se a pessoa buscou atualização, ponto pra ela. Se não, que venha o próximo.

Não sei. Eu nunca consigo explicar isso direito pra pessoas mais velhas que eu. Elas acham que estou falando pra elas assistirem MTV. Então, deixa.

domingo, 30 de março de 2008

Se alguém perguntar por Fernanda

“Voz pequena e grande timidez. Uma garota moderna, com ares europeus e um look meio oriental, livre e independente”. Parece que Nelson Motta está descrevendo Fernanda Takai, mas foi isso que ele escreveu há 40 anos sobre Nara Leão.

Pra quem nunca enxergou, as duas moças têm mesmo muito a ver. Quando Nelson reparou e apontou o fato para Takai, se surpreendeu em saber que a vocalista da banda Pato Fu já conhecia seu trabalho. Fernanda ouvia fitas e vinis de Nara desde quando era criança.

Trabalhando em seu estúdio caseiro com o marido John (também do Pato Fu), Fernanda foi fazendo bonitas versões de canções de Nara, com um ar mais moderno e eletrônico. Cada demo era enviada para Nelson, em MP3, por e-mail. Ele retornava com observações. E foi assim por um bom tempo.

Percebendo que tinham material demais nas mãos, a decisão de lançar um álbum foi tomada e saiu o bonito “Onde Brilhem Os Olhos Seus”. O CD traz, entre outras, “Insensatez” (Jobim e Vinicius), “Luz Negra” (Nelson Cavaquinho), “Com Açúcar, Com Afeto” (Chico Buarque) e outras canções de compositores igualmente talentosos.

Muito bem recebido por público e crítica, Fernanda saiu em turnê pelo país. Um show intimista, mas bem animado e tocante. Quando coloquei o CD dela pra tocar no som do carro, meu pai disse (ao ouvir “Odeon”): “Gente, mas essa moça não fazia rock? Quem diria!”. E é isso mesmo. A própria cantora explica no show: "Não tem dessa de erudito ou popular". Música boa é aquele que é mágica, que nos faz bem. E ponto. O show foi muito gostoso pois era algo diferente. A platéia parecia estar muito feliz de estar ali e Fernanda idem.

Sempre muito educada e bem-humorada, Fernanda e sua pequena e competente banda tocaram todas as canções selecionadas para o CD e versões bem gostosas de “Ben”, do Jackson 5, uma do Duran Duran que estou tentando lembrar o nome desde ontem, e outras canções que fizeram sucesso na voz de Nara.

Enfim, foi um belo show. Fiquei muito contente de ter ido.

sábado, 22 de março de 2008

Criando uma tradição.

- A gente podia ter uma aranha. Aí, no domingo, a aranha deixaria bananas caramelizadas para as crianças que se comportaram durante o ano.

- Não entendi.

- É a aranha da Páscoa. As bananas simbolizam a coletividade. A aranha simboliza... Ah, sei lá o quê. E o caramelo é só para dar um docinho mesmo.

- Você não acha isso meio bizarro? Além do mais, tem gente que tem medo de aranha.

- Ah, é, ok. Vamos tentar outro. Que tal o boizinho da Páscoa? Ele deixaria para as crianças comportadas um figo.

- Figo!? Tenha dó! E outra: você acha que as crianças vão cair nessa história de boi? Como um boi vai entrar na casa delas despercebido? E com um saco de figo nas costas?

- Calma, já pensei em outra coisa. Que tal o canguru da Páscoa? Cangurus são fofinhos e amáveis. O canguru da Páscoa levaria... vejamos... bolas. Bolas de doce de leite.

- Acho que estamos perto. Mas acho bola uma coisa meio... sei lá. Vamos pensar em outra forma.

- Cubos de Páscoa?

- Muito quadrados.

- Poliedros de Páscoa?

- Muito trabalho.

- Ovos de Páscoa?

- Ótimo! “Ovos de Páscoa”!

- Então fechamos no canguru e seus ovos de doce de leite?

- Hum... Não. Canguru é muito... sei lá, local. E eu não gosto de doce de leite.

- Tá bem, que tal um lêmure de Páscoa?

- Muito bizarro. Se bem que os olhos coloridos são legais.

- Aha! Já sei! Um coelho?

- Taí, um coelho... Gostei, gosto de coelhos. O coelho da Páscoa. Que traz ovos de... hum... chocolate?

- Perfeito! Então teremos o Coelho da Páscoa, que traz ovos de chocolate para as crianças que foram boazinhas.

- Será que alguém vai cair nessa?

domingo, 9 de março de 2008

Top 5 Motivos para amar Jack White

É, tem uma branquela ali na bateria, mas todo mundo sabe que o cérebro dos White Stripes é Jack White, vocalista, guitarrista, violonista, gaitista, tecladista e o mais-o-que você-quiser-ista da dupla. Para a nossa sorte, os White Stripes estavam muito além de ser a salvação do rock da semana. Seis álbuns depois, tenho cinco boas razões para amar seu líder. Ei-las.

5 - Ele mantém uma banda com a ex-mulher
Meg e Jack foram casados entre 1996 e 2000. E, aparentemente, continuar juntos em turnê e trabalho não incomoda nenhum dos dois. Isso é um feito.

4 - Ele faz shows bizarros
Os White Stripes já tocaram em um boliche, já terminaram a apresentação em Manaus no meio da praça, já fizeram um show de uma nota só no Canadá, já se apresentaram para veteranos aposentados em Londres.

3 - Ele tem nomes incríveis para suas músicas
Anota aí: “I'm Lonely (But I Ain't That Lonely Yet)” (“Estou Solitário, Mas Não Tanto Ainda”), “I Want to Be the Boy to Warm Your Mother's Heart” (“Quero Ser o Garoto que Aquece o Coração da Sua Mãe”), “Girl, You Have No Faith in Medicine” (Garota, Você Não Tem Fé na Medicina”), “Truth Doesn’t Make a Noise” (“A Verdade Não Faz Nenhum Barulho”). Deu? Além disso ele usa (e rima) palavras como “obtusa” e “hipnose”.

2 - Ele era tapeceiro
Aos 21 anos, Jack abriu sua própria loja de reforma de estofados. O negócio não decolou. Talvez porque ele tematizou tudo em três cores: branco, preto e... amarelo (uh, quase). Tudo tinha que ser nessas três cores e o slogan da empresa era “sua mobília não está morta”.

1 – Ele é muito bonitinho
Claro que estou falando da fase junkie, do começo da dupla – sabe, antes do bigode. Mas ele ainda é forte na medida certa, estiloso da sua própria (e bem peculiar) maneira e ainda tem aquele frescor branquinho e roqueiro de primeira viagem debaixo dos cabelos grandes e das cartolas.

Para ouvir depois de ler: Joss Stone - Fell in Love with a Boy

segunda-feira, 3 de março de 2008

"Rayf of Light" é mocinha.

Hoje o álbum “Ray of Light”, da Madonna, faz 10 anos. E, rapaz, como ele me fez e ainda faz bem. A sonoridade é perfeita, cheia de instrumentos acústicos mas com um ar experimentalista eletrônico, bons efeitos de mixagem, baladas mid-tempo e um electro-pop suave. As letras são docemente sérias e poderosas. Misturam citações bíblicas, filosóficas e cabalísticas com histórias sobre relacionamentos de todos os tipos fazendo as canções todas serem, em resumo, sobre amor. Eterna inspiração, CD da minha vida. Leia mais aqui e baixe aqui.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Amei esse livro.

Se você acha que a miséria leva à violência, que os Estados Unidos são culpados pelos problemas do mundo e que Bin Laden é um justiceiro, não deixe de ler este livro. O filósofo André Glucksmann explica o mundo de hoje a partir do ódio. Terroristas que caçam motivos para justificar sua vontade de destruir, ativistas que criam enredos para arranjar um culpado por seus problemas e, como o macro é o micro, cantores de rap exaltando ódio à elite branca e privilegiados usando blusas com sátiras ao atentendo de 11 de Setembro ao WTC. O autor alerta: no tempo das bombas atômicas, o discurso do ódio pode causar um estrago pior que a 2a Guerra Mundial. E é verdade. Ou você achava que essa humanidade nossa já relegou os ódios coletivos aos livros de história e levou as perversões individuais para os psicólogos?